3 de junho de 2017

Capítulo 7 - O Desafio das Facas Longas

— Mas nós somos seu povo!
Fadawar, um homem alto, de pele escura e nariz empinado, falava com a mesma ênfase pesada e vogais alteradas que Nasuada lembrava ouvir em sua infância, em Farthen Dûr, quando chegavam emissários da tribo de seu pai e ela se sentava no colo de Ajihad e tirava uma soneca enquanto eles conversavam e fumavam cardo.
Nasuada ergueu o olhar na direção de Fadawar e desejou ser um palmo mais alta para poder encarar o senhor da guerra e seus criados bem nos olhos. Contudo, estava acostumada a se sentir mais baixa do que os homens. Achava muito mais desconcertante estar entre pessoas tão escuras quanto ela. Era uma experiência nova não ser objeto de olhares estranhos e sussurros.
Estava em pé, em frente à cadeira de madeira esculpida onde realizava suas audiências – uma das únicas cadeiras sólidas que os Varden trouxeram em sua campanha – no interior de seu pavilhão de comando. O sol estava quase se pondo e os raios, filtrados pelo lado direito do pavilhão, banhavam os objetos com um brilho avermelhado. Uma mesa longa e baixa, coberta de relatórios e mapas espalhados, ocupava a metade do lugar.
Do lado de fora da entrada da grande tenda, Nasuada sabia que seis membros de sua guarda pessoal – dois humanos, dois anões e dois Urgals – estavam à espera, de armas em punho, prontos para atacar ao menor sinal de perigo. Jörmundur, seu comandante mais velho e confiável, mantinha vigilância sobre ela desde o dia em que Ajihad morrera, mas jamais havia disponibilizado tantos guardas por tanto tempo.
Entretanto, um dia após a batalha da Campina Ardente, Jörmundur passou a exprimir uma profunda e permanente preocupação com sua segurança, uma preocupação, dizia ele, que frequentemente o mantinha acordado com o estômago em chamas. Como um assassino tentara matá-la em Aberon e Murtagh efetivamente conseguira assassinar o rei Hrothgar menos de uma semana atrás, Jörmundur achava que Nasuada deveria criar uma força dedicada à sua defesa pessoal. Ela recusara, afirmando que tal medida seria uma reação exagerada, mas não conseguira convencê-lo de todo. Ele ameaçara abdicar do posto caso ela se recusasse a adotar o que ele considerava serem medidas adequadas. Por fim, ela acatou, mas ficou uma hora inteira discutindo a quantidade de guardas necessária. Ele queria doze ou mais o tempo todo. Ela queria no máximo quatro. Acabaram acertando seis, o que para Nasuada era muito. Ela temia parecer amedrontada ou, pior ainda, que estava tentando intimidar aqueles com quem se encontrava. Mais uma vez seus protestos não convenceram Jörmundur. Quando ela o acusava de ser teimoso como um estraga-prazeres, ele ria e dizia: “Melhor um velho e teimoso estraga-prazeres do que uma jovem temerária morta antes do tempo.”
Como os membros da guarda trocam de posto a cada seis horas, o número total de guerreiros relacionados para proteger Nasuada chegava a trinta e quatro, incluindo os dez adicionais que estavam sempre de prontidão para substituir seus companheiros em caso de doença, ferimento ou morte. A própria Nasuada insistira em recrutar a tropa de cada uma das três raças de mortais disponibilizadas contra Galbatorix. Dessa forma, tinha esperança de galvanizar maior solidariedade entre eles, assim como demonstrar que representava os interesses de todas as raças sob seu comando, não apenas os humanos.
Teria incluído igualmente os elfos, mas, no momento, Arya era a única elfa que lutava ao lado dos Varden e seus aliados, e os doze feiticeiros que Islanzadí enviara para proteger Eragon ainda estavam para chegar.
Para a decepção de Nasuada, seus guardas humanos e anões eram hostis para com os Urgals com quem serviam, uma reação que previra, mas que não pudera impedir ou aliviar. Levaria, como ela própria sabia, mais do que uma batalha em conjunto para diminuir as tensões entre raças que haviam lutado e se odiado por mais gerações do que ela ousava contar.
Mesmo assim, achava estimulante os guerreiros terem escolhido nomear sua corporação de Falcões da Noite, já que o título era uma brincadeira não apenas com sua cor, mas também com o fato dos Urgals invariavelmente se referirem a ela como lady Caçadora Noturna.
Embora jamais admitisse a Jörmundur, Nasuada passara rapidamente a apreciar a crescente sensação de segurança que a guarda proporcionava. Além de serem mestres das armas de sua escolha – sejam as espadas humanas, os machados dos anões ou a excêntrica coleção de instrumentos dos Urgals – muitos dos guerreiros eram habilidosos criadores de encantamentos. E todos haviam feito um eterno juramento de lealdade a ela na língua antiga.
Desde o dia em que os Falcões da Noite assumiram suas tarefas, Nasuada não ficou sozinha com nenhuma outra pessoa além de sua aia Farica. Até aquele momento.
Nasuada havia mandado que saíssem do pavilhão porque sabia que seu encontro com Fadawar poderia se transformar no tipo de banho de sangue que o senso de responsabilidade dos Falcões da Noite os obrigava a impedir. Mesmo assim, não estava inteiramente indefesa. Possuía uma adaga escondida nas pregas do vestido e um punhal ainda menor no espartilho que usava por baixo das roupas. E Elva, a criança-bruxa vidente, estava atrás da cortina nas costas da cadeira de Nasuada, pronta para interceder se necessário.
Fadawar bateu seu longo cetro no chão. A haste entalhada era feita de ouro maciço, assim como a fantástica coleção de joias que o acompanhava: aros cobriam seu antebraço; um peitoral protegia seu peito; espessas correntes pendiam de seu pescoço; discos de ouro branco em relevo esticavam os lóbulos de suas orelhas; e por sobre sua cabeça encontrava-se uma coroa resplandecente de tão enorme proporção que Nasuada imaginava como seu pescoço podia aguentar aquele peso sem tombar e como tal monumento arquitetônico permanecia fixo no lugar.
Parecia que seria necessário alguém para soldar a construção, de mais de setenta e cinco centímetros, em seu alicerce ossudo de modo a impedir o aparato de cair. Os homens de Fadawar estavam engalanados da mesma maneira, embora menos opulentos. O ouro que vestiam servia para proclamar não somente sua riqueza, mas também o status e os feitos de cada indivíduo e a habilidade dos famosíssimos artesãos de suas tribos. Fossem nômades ou citadinos, os povos de pele escura da Alagaësia eram há muito conhecidos pela qualidade de suas joias, algumas das quais inclusive rivalizavam com a dos anões.
Nasuada possuía diversos itens, mas decidira não usá-los. Sua pobre indumentária não teria como competir com o esplendor de Fadawar. Além disso, acreditava que não seria inteligente afiliar-se com algum grupo, por mais influente ou rico que fosse, quando tivesse que lidar com e falar por todas as diversas facções dos Varden.
Se ela demonstrasse parcialidade para uma ou outra, sua habilidade para controlar a totalidade delas diminuiria. O que era a base de sua discussão com Fadawar. Fadawar bateu novamente com o cetro no chão.
— Sangue é a coisa mais importante! Primeiro vem a responsabilidade com a família, depois com a tribo, depois com o chefe, depois com os deuses acima e abaixo e só depois com o rei e com a nação, se eles existem. É assim que Unulukuna quis que os homens vivessem e é assim que deveríamos viver se quisermos ser felizes. Vocês são corajosos o suficiente para cuspir nos sapatos do Velho? Se um homem não ajuda sua família com quem pode contar para ajudá-lo? Amigos são volúveis, mas a família é eterna.
— Você me pede — disse Nasuada — para dar cargos de poder para seus amigos porque é primo de minha mãe e porque meu pai nasceu entre vocês. Isso eu faria com prazer se seus homens pudessem cumprir esse papel melhor do que qualquer um dos Varden, mas nada do que você disse até agora me convenceu. E antes de desperdiçar mais de seus eloquentes floreios verbais, você deveria saber que argumentos baseados em nosso sangue comum são insignificantes para mim. Eu teria uma maior consideração por seu pedido se tivesse feito mais para amparar meu pai do que mandar bugigangas e promessas vazias para Farthen Dûr. Somente agora que possuo a vitória e o prestígio você se apresenta a mim. Bem, meus pais estão mortos e eu digo que não tenho mais família, apenas a mim. Você é meu povo, sim, mas nada além disso.
Fadawar estreitou os olhos, ergueu o queixo e disse:
— O orgulho de uma mulher é sempre desprovido de sentido. Você fracassará sem nosso amparo.
Ele mudara para sua língua nativa, o que forçara Nasuada a responder da mesma maneira. Ela o odiou por isso. Sua fala hesitante, com acentos inseguros, expunha sua falta de familiaridade com sua língua nativa, enfatizando o fato de ela não ter crescido na tribo deles, mas que era, isto sim, uma estrangeira. A manobra minou sua autoridade.
— Eu sempre dou boas-vindas a novos aliados — disse ela. — Entretanto, não posso ser condescendente com favoritismos. Tampouco você deveria necessitar desse tipo de coisa. Suas tribos são fortes e bem-dotadas. Deveriam estar aptas a se impor rapidamente sobre o exército dos Varden sem precisar contar com a caridade dos outros. Vocês são cães esfomeados choramingando em volta de minha mesa ou homens que podem se alimentar por conta própria? Se podem, então anseio trabalhar com vocês para melhorar o quinhão dos Varden e derrotar Galbatorix.
— Ah! — exclamou Fadawar. — Sua oferta é tão falsa quanto você mesma. Nós não faremos trabalho de servos; nós somos os escolhidos. Você nos insulta, isto sim. Fica aí parada, sorrindo, mas seu coração está cheio de veneno de escorpião.
Nasuada sufocou sua raiva e tentou acalmar o chefe tribal.
— Não foi minha intenção ofendê-los. Eu estava apenas tentando explicar minha posição. Não nutro inimizade pelas tribos nômades nem tenho amor especial por elas. Isso é tão ruim assim?
— É pior do que ruim. Isso é traição descarada! Seu pai fez algumas solicitações a nós com base em nossa relação e agora você ignora nosso trabalho e nos dispensa como se fôssemos mendicantes de mãos vazias!
Uma sensação de resignação tomou conta de Nasuada. Então Elva linha razão: é inevitável, pensou ela. Um calafrio de medo e excitação percorreu seu corpo. Se assim deve ser, então não tenho motivo nenhum para manter esse enigma. Elevou a voz e disse:
— Solicitações que vocês não honraram metade das vezes.
— Honramos sim!
— Não honraram. E mesmo que estivessem dizendo a verdade, a posição dos Varden é muito precária para que eu possa lhes dar alguma coisa por nada. Vocês me pedem favores, mas o que me oferecem em troca? Vão ajudar a custear os Varden com seu ouro e joias?
— Não diretamente, mas...
— Me oferecerão o trabalho de seus artesãos sem custo algum?
— Não poderíamos...
— Então, como pretendem receber esses proveitos? Não podem pagar com guerreiros; seus homens já combatem a meu favor, seja nos Varden ou no exército do rei Orrin. Fique contente com o que já possui, chefe tribal, e não procure conseguir mais do que é seu de direito.
— Você distorce a verdade para adequá-la a seus próprios objetivos egoístas. Eu procuro o que é nosso de direito! É por isso que estou aqui. Você fala e fala, mas suas palavras não têm significado porque em suas ações você nos traiu. — Os aros em seu braço chacoalhavam enquanto ele gesticulava, como se estivesse diante de uma audiência de milhares. — Você admite que nós somos seu povo. Então ainda segue nossos costumes e adora nossos deuses?
Aqui é o momento decisivo, pensou Nasuada. Ela poderia mentir e afirmar que abandonara seus antigos costumes, mas, se assim fizesse, os Varden perderiam as tribos de Fadawar, além de outros nômades, assim que ouvissem sua sentença. Nós precisamos deles. Precisamos de todos que conseguirmos se quisermos ter a mínima chance de superar Galbatorix.
— Sigo — disse ela.
— Então eu digo que você não está preparada para liderar os Varden e, como é meu direito, eu a convoco para o Desafio das Facas Longas. Se triunfar, nós nos curvaremos a você e jamais questionaremos novamente sua autoridade. Mas, se perder, então abdicará de seu posto e eu tomarei seu lugar como chefe dos Varden.
Nasuada reparou o brilho de júbilo que iluminou os olhos de Fadawar. Era isso que ele queria desde o início, percebeu ela. Ele teria invocado o desafio mesmo que eu tivesse acatado suas demandas.
— Talvez eu esteja errada, mas pensei que a tradição rezasse que quem quer que vença deverá assumir o comando não só das tribos do rival como também de sua própria, não é assim? — Ela quase riu da expressão de desalento que ficou estampada no rosto de Fadawar. Você não esperava que eu soubesse disso, não é?
— Sim.
— Então eu aceito seu desafio, com a compreensão de que sendo eu a vencedora, sua coroa e seu cetro serão meus. Estamos acordados?
Fadawar franziu o cenho e anuiu.
— Estamos.
Bateu o cetro com tanta força no chão que o objeto fincou, então agarrou o primeiro aro de seu braço esquerdo e começou a removê-lo pela mão.
— Espere — disse Nasuada.
Ela correu até a mesa que preenchia o outro lado do pavilhão, pegou um pequeno sino de metal e o soou duas vezes. Fez uma pausa e então o soou mais quatro vezes. Um instante depois, Farica entrou na tenda. Ela dirigiu um olhar franco na direção dos convidados de Nasuada, fez uma mesura a todos e disse:
— Pois não, senhora?
Nasuada olhou para Fadawar.
— Podemos começar. — Então se dirigiu à aia e disse: — Ajude-me a tirar o vestido. Não quero arruiná-lo.
A mulher mais velha pareceu chocada pelo pedido.
— Aqui, senhora? Na frente desses... homens?
— Sim, aqui. E seja rápida com isso! Não vou querer discutir com minha criada.
Nasuada estava sendo mais dura do que gostaria, mas seu coração estava disparado e sua pele estava incrivelmente, terrivelmente sensível. O linho suave de sua roupa de baixo parecia tão abrasivo quanto uma lixa. Paciência e cortesia estavam acima de sua capacidade naquele momento. Só conseguia se concentrar na provação que se aproximava.
Nasuada ficou imóvel enquanto Farica puxava os laços de seu vestido, que iam dos ombros até a base da coluna. Quando os cordões ficaram suficientemente soltos, Farica puxou os braços de sua senhora para fora das mangas e todo o tecido caiu formando uma pilha em volta dos pés de Nasuada, deixando-a quase nua em sua camisa branca.
A líder dos Varden lutou contra um calafrio ao perceber os guerreiros a examinando, sentindo-se vulnerável diante daqueles olhares cobiçosos. Ignorou-os, deu um passo para trás e se afastou do vestido. Farica, com um puxão, retirou a vestimenta do chão.
Em frente a Nasuada, Fadawar estivera ocupado removendo os aros de seu braço, revelando as mangas bordadas de sua túnica de baixo. Quando terminou, ergueu sua gigantesca coroa e deu para um de seus criados. O som de vozes do lado de fora do pavilhão atrasou os preparativos. Marchando através da entrada, um mensageiro – seu nome era Jarsha, lembrava-se Nasuada – adentrou alguns centímetros e proclamou:
— O rei Orrin de Surda, Jörmundur dos Varden, Trianna de Du Vrangr Gata e Naako e Ramusewa da tribo Inapashunna. — Jarsha mantinha os olhos apontados fixamente para o teto enquanto falava.
Com um movimento brusco, o mensageiro retirou-se e a congregação que ele havia anunciado adentrou o recinto com Orrin à frente.
O rei viu primeiro Fadawar e o saudou dizendo:
— Ah, chefe tribal, isso foi inesperado. Eu confio em você e... — Espanto tomou conta de seu jovem rosto assim que avistou Nasuada. — Por quê, Nasuada? O que significa isso?
— Eu também gostaria de saber — trovejou Jörmundur.
Ele segurou com firmeza o punho de sua espada, que resplandecia para todos que ousavam olhá-la diretamente.
— Eu os convoquei aqui — disse ela — para que pudessem testemunhar o Desafio das Facas Longas entre Fadawar e mim e para, após o desfecho, contar a verdade a respeito do resultado a todos que perguntarem.
Os dois guerreiros tribais de cabelos grisalhos, Naako e Ramusewa, pareciam alarmados pela revelação; aproximaram-se um do outro e começaram a sussurrar. Trianna cruzou os braços, deixando à vista o bracelete de cobra enrolado em volta de um dos pulsos magros, mas essa foi sua única reação.
Jörmundur praguejou e disse:
— Você abandonou o bom senso, minha lady? Isto é loucura. Você não pode...
— Posso e o farei.
— Lady, se o fizer, eu...
— Sua preocupação está registrada, mas minha decisão é final. E proíbo qualquer pessoa de interferir. — Ela podia perceber que ele ansiava desobedecer a suas ordens, mas, por mais que desejasse protegê-la de todo perigo, a lealdade sempre fora a principal característica de Jörmundur.
— Mas, Nasuada — começou o rei Orrin —, esse desafio, não é nele que...
— É sim.
— Acabe com essa ideia, então. Por que não desiste dessa loucura? Só pode ser um desatino prosseguir com isso.
— Já dei minha palavra a Fadawar.
O clima ficou ainda mais sombrio no pavilhão. O fato de ter empenhado sua palavra significava que ela não poderia rescindir sua promessa sem se revelar uma trapaceira desonrada que pessoas de bem não teriam outra opção além de amaldiçoar e manter-se a distância.
Orrin vacilou por um instante, mas persistiu com o questionamento:
— Por qual motivo? Quero dizer, se você perder...
— Se eu perder, os Varden não estarão mais sob meu comando, mas sob o de Fadawar.
Nasuada esperava uma chuva de protestos. Em vez disso, ocorreu um silêncio geral no qual a raiva ardente que animava o semblante do rei Orrin esfriou e adquiriu uma tonalidade mais frágil.
— Não é de meu gosto sua escolha de colocar em perigo toda a nossa causa. — Para Fadawar, ele disse: — Seja razoável e livre Nasuada de sua obrigação. Eu lhe darei uma rica recompensa se concordar em abandonar essa sua ambição malsã.
— Já sou rico — respondeu Fadawar. — Não tenho necessidade de seu ouro sem valor. Não, nada além do Desafio das Facas Longas pode me compensar pela injúria imposta por Nasuada a meu povo e a mim.
— Seja testemunha desse momento — disse Nasuada.
Orrin apertou com força as dobras de sua túnica, mas inclinou-se e disse:
— Sim, testemunharei.
De dentro de suas volumosas mangas, os quatro guerreiros de Fadawar retiraram pequenos tambores peludos de couro de cabra. Agacharam-se, colocaram os instrumentos entre os joelhos e bateram com tanta fúria e intensidade que suas mãos pareciam manchas fuliginosas no ar. A música áspera obliterava todos os outros sons, assim como os frenéticos pensamentos que infernizavam Nasuada.
Seu coração parecia bater no mesmo ritmo que a maníaca sonoridade que assaltava seus ouvidos. Sem perder uma única nota, o mais velho dos homens de Fadawar enfiou a mão por dentro de sua roupa e de lá retirou duas facas longas e curvas que ele lançou para o alto da tenda. Nasuada observou as facas girando no ar, ora cabo ora lâmina, fascinada pela beleza do movimento.
Quando estava suficientemente próxima, ela ergueu o braço e pegou sua faca. O punho cravejado de opalinas irritou a palma de sua mão. Fadawar também interceptou sua arma com sucesso. Então, ele pegou o punho esquerdo de sua vestimenta e empurrou a manga para trás do cotovelo.
Nasuada mantinha seus olhos fixos no ante-braço de Fadawar enquanto ele se preparava. Seu braço era grosso e musculoso, mas ela não dava muita importância a isso. O porte atlético não o ajudaria a vencer a disputa. Em vez disso, o que ela procurava eram os sulcos reveladores que, caso existissem mesmo, estariam em seu antebraço. Ela observou cinco deles. Cinco!, pensou ela. Tantos assim.
Sua confiança balançou quando contemplou a evidência do poder de Fadawar. A única coisa que a impedia de perder a calma era a predição de Elva: a garota havia dito que, nesse embate, Nasuada prevaleceria. Ela agarrava-se à lembrança como se fosse sua única filha. Ela disse que eu conseguiria, então eu posso mesmo superar Fadawar... eu devo ter condições!
Como havia sido ele a propor o desafio, Fadawar foi primeiro. Esticou o braço esquerdo com a palma da mão para cima, posicionou a lâmina contra o antebraço logo abaixo da junção com o cotovelo e rasgou sua carne com a lâmina espelhada. Sua pele partiu-se como uma amora madura. O sangue jorrou de dentro da greta carmim. Ele encarou Nasuada. Ela sorriu e posicionou sua faca contra o braço. O metal estava frio como gelo.
Os dois estavam em meio a um teste de vontade para descobrir quem suportaria o maior número de cortes. A crença era que quem quer que aspirasse se tornar chefe de uma tribo, ou mesmo um senhor da guerra, deveria estar disposto a suportar mais dor do que qualquer outra pessoa em prol de seu próprio povo. Do contrário, como poderiam as tribos confiar que seus líderes colocariam as preocupações da comunidade antes de seus próprios desejos egoístas? Na opinião de Nasuada, a prática estimulava ao extremismo, mas ela também compreendia a capacidade que a atitude possuía de conquistar a confiança das pessoas. Embora o Desafio das Facas Longas fosse específico das tribos de pele escura, superar Fadawar solidificaria sua liderança sobre os Varden e, esperava ela, sobre os seguidores do rei Orrin.
Nasuada fez um rápido pedido de força à Gokukara, a deusa Louva-a-deus, e empunhou a faca. O aço afiado deslizou com tanta facilidade por sobre a pele que ela precisou se esforçar para o corte não ser demasiado profundo. Estremeceu. Queria jogar a faca para longe, tapar o ferimento e gritar.
Não fez nada disso. Manteve os músculos amolecidos. Se ficasse tensa, o processo doeria ainda mais. E continuou sorrindo enquanto a lâmina lentamente mutilava seu corpo. O corte terminou em apenas três segundos, mas nesses segundos sua carne ultrajada urrou milhares de vezes, e cada urro quase a fazia interromper o processo. Enquanto abaixava a faca, reparou que apesar dos homens ainda estarem batendo seus tambores, ela não ouvia nada além de sua pulsação.
Então Fadawar cortou-se mais uma vez. As veias em seu pescoço permaneciam saltadas e sua jugular estava tão inchada que parecia poder explodir enquanto a faca traçava sua trilha sangrenta. Nasuada viu que era sua vez de novo. A expectativa apenas aumentava seu medo. Seu instinto de autopreservação – um instinto que a servira muito bem em todas as outras ocasiões – lutava contra os comandos que ela enviava a seu braço e sua mão. Desesperada, concentrou-se em seu desejo de resguardar os Varden e derrotar Galbatorix: as duas causas para as quais devotara todo o seu ser. Em sua mente viu seu pai, Jörmundur, Eragon e o povo dos Varden e pensou: Por eles! Eu faço isso por eles. Nasci para servir e esse é o meu serviço.
Ela fez a incisão. Um instante depois, Fadawar abriu um terceiro talho em seu antebraço, assim como Nasuada. O quarto corte aconteceu logo em seguida. E o quinto... Nasuada foi acometida de uma estranha letargia. Sentiu-se bastante cansada e com frio. Ocorreu-lhe então que a tolerância à dor talvez não decidisse o desafio, mas sim o primeiro que desmaiasse em decorrência da perda de sangue. Torrentes de sangue percorriam seu pulso e desciam até os dedos, inundando ainda mais a piscina aos seus pés. Uma poça similar, porém ainda maior, formava-se em volta das botas de Fadawar. As fileiras de talhos abertos e avermelhados no antebraço do senhor da guerra lembravam a Nasuada as brânquias de um peixe, um pensamento que, por algum motivo, parecia incrivelmente engraçado para ela. Ela precisou morder a língua para conter o riso. Com um uivo, Fadawar conseguiu completar seu sexto corte.
— Faça melhor, sua bruxa incapaz! — berrou ele por sobre o barulho dos tambores e desabou sobre um dos joelhos.
Ela fez.
Fadawar tremeu ao transferir sua faca da mão direita para a esquerda; a tradição ditava um máximo de seis cortes por braço. Mais do que isso a pessoa corria o risco de comprometer as veias e os tendões próximos ao pulso.
Quando Nasuada imitou o movimento, o rei Orrin surgiu entre os dois e disse:
— Pare! Não vou permitir que isso continue. Vocês vão se matar.
Ele foi até Nasuada, mas recuou com o movimento brusco da faca em sua direção.
— Não se intrometa — grunhiu ela, rilhando os dentes.
Agora Fadawar estava começando o processo em seu antebraço direito, liberando um jato de sangue de seus músculos rígidos.
Ele está rangendo os dentes, reparou ela, e ficou na esperança de que o erro fosse suficiente para minar suas forças.
Nasuada não pôde se conter. Proferiu um grito primitivo quando a faca rasgou sua pele. A lâmina queimava como um ferro em brasa. Durante o corte, seu braço esquerdo traumatizado deu um espasmo. A faca deu então uma guinada, deixando-a com uma longa laceração dentada duas vezes mais profunda do que as outras. Parou de respirar enquanto suportava a agonia. Não consigo continuar, pensou ela. Não posso... Não possoNão posso suportarPrefiro morrer... Oh, por favor, que tudo se acabe! Era um alívio entregar-se a essas e a outras súplicas desesperadas, mas no fundo do coração sabia que jamais desistiria.
Pela oitava vez Fadawar posicionou sua lâmina acima de um dos antebraços e lá a manteve, o pálido metal suspenso a alguns centímetros de sua pele escura. Ele assim permaneceu enquanto o suor escorria sobre seus olhos e suas feridas jorravam lágrimas de rubi. Parecia que a coragem o estava abandonando, mas então ele rosnou e, com um rápido puxão, retalhou o braço.
Sua hesitação galvanizou a depauperada força de Nasuada. Um intenso entusiasmo tomou conta dela, transmutando a dor em uma quase prazerosa sensação. Ela repetiu o esforço de Fadawar e então, impulsionada por um súbito e imprudente descaso por seu próprio bem-estar, baixou uma vez mais a faca sobre o braço.
— Supere isso — sussurrou ela. A necessidade de realizar dois cortes em seguida – um para igualar o número de Nasuada e outro para avançar na competição – pareceu intimidar Fadawar. Ele piscou, lambeu os lábios e apertou o cabo da faca três vezes antes de erguê-la sobre o braço.
Sua língua saltou da boca e umedeceu seus lábios mais uma vez. Um espasmo destorceu sua mão esquerda, e a faca caiu de seus dedos contorcidos, afundando no chão. Ele a pegou. Por baixo da túnica, seu peito subia e descia numa velocidade frenética. Ele ergueu a faca e encostou-a no braço. De imediato a lâmina produziu um pequeno pingo de sangue. Fadawar trincou os dentes e então um tremor percorreu sua espinha, e ele dobrou-se sobre si mesmo, pressionando seus braços machucados contra a barriga.
— Desisto — disse ele.
Os tambores cessaram. O silêncio que se seguiu durou apenas um instante antes que o rei Orrin, Jörmundur e todos os outros preenchessem o pavilhão com suas exclamações. Nasuada não prestou atenção às colocações deles. Tateando atrás de si, encontrou sua cadeira e desabou sobre ela, ansiosa para livrar as pernas do peso antes que elas próprias desabassem.
Lutou para manter-se consciente enquanto sua visão fraquejava; a última coisa que queria fazer era desmaiar na frente de seus homens. Uma delicada pressão em seu ombro a alertou para o fato de Farica estar em pé ao seu lado segurando uma pilha de compressas.
— Minha lady, posso atendê-la? — perguntou Farica, sua expressão ao mesmo tempo preocupada e hesitante, como se não tivesse certeza da reação de Nasuada.
Ela balançou a cabeça em concordância. Enquanto Farica começava a colocar as bandagens em volta de seus braços, Naako e Ramusewa aproximaram-se. Saudaram-na e então Ramusewa disse:
— Jamais alguém suportou tantos cortes no Desafio das Facas Longas. Tanto você quanto Fadawar provaram seu brio, mas você, sem dúvida, é a vencedora. Comunicaremos ao nosso povo seu êxito e eles lhe darão sua lealdade.
— Obrigada — disse Nasuada. Ela fechou os olhos ao sentir os braços latejando cada vez mais.
— Minha lady.
Em torno dela, Nasuada podia ouvir a confusa mistura de sons, mas não fazia o menor esforço para decifrar, preferindo, em vez disso, ensimesmar-se mais profundamente, em busca de um local onde sua dor não fosse tão imediata e ameaçadora. Ela flutuava no útero de um interminável espaço negro, iluminado por bolhas de formato indefinido e coloração eternamente mutante. Sua pausa foi interrompida pela voz da feiticeira Trianna:
— Pare logo com isso, aia, e remova todas essas bandagens para que eu possa curar sua ama.
Nasuada abriu os olhos e viu Jörmundur, o rei Orrin e Trianna à sua frente. Fadawar e seus homens haviam partido.
— Não — disse ela.
O grupo dirigiu-lhe um olhar de surpresa, e então Jörmundur se manifestou:
— Nasuada, seus pensamentos estão confusos. O desafio acabou. Você não precisa permanecer com esses cortes por mais tempo. De qualquer modo, necessitaremos estancar o sangramento.
— Farica está fazendo o suficiente. Vou mandar um curandeiro dar pontos nos ferimentos e preparar uma cataplasma para reduzir o inchaço. E isso é tudo.
— Mas por quê?
— O Desafio das Facas Longas requer que os participantes permitam que suas feridas sarem num ritmo natural. Do contrário, nós não experimentaríamos a quantidade total de dor que o desafio impõe. Se eu violar a regra, Fadawar será declarado vencedor.
— Você permitiria, pelo menos, que eu aliviasse seu sofrimento? — perguntou Trianna. — Conheço diversos encantos que podem eliminar qualquer quantidade de dor. Se tivesse me consultado previamente, eu poderia ter lhe preparado para que, se preciso fosse, arrancasse um membro inteiro sem sentir o menor desconforto.
Nasuada riu e deixou sua cabeça pender para o lado, sentindo-se bastante tonta.
— Minha resposta teria sido a mesma de agora: truques são desonrosos. Eu precisava vencer o desafio sem logro para que ninguém pudesse questionar minha liderança no futuro.
Num tom mortalmente suave, o rei Orrin disse:
— Mas e se você tivesse perdido?
— Eu não poderia perder. Mesmo que isso significasse minha morte, eu jamais teria permitido que Fadawar conquistasse o controle sobre os Varden.
Com o olhar grave, Orrin estudou-a por um bom tempo.
— Eu acredito em você. Contudo, valerá mesmo tão grandioso sacrifício a lealdade das tribos? Você não é tão comum a ponto de ser tão facilmente substituída.
— A lealdade das tribos? Não. Mas o efeito atingirá muito mais do que as tribos, como você deve saber. Deverá ajudar na unificação de nossas forças. E esse é um prêmio cujo inestimável valor me faria suportar uma coleção de mortes desagradáveis.
— Mas eu lhe imploro que me diga: o que os Varden teriam ganhado com sua morte hoje? Nenhum benefício existiria. Seu legado seria desestímulo, caos e provavelmente ruína.
Sempre que bebia vinho, hidromel e principalmente aguardentes fortes, Nasuada ficava mais cuidadosa com seu discurso e seus gestos porque, por mais que não notasse de imediato, sabia que o álcool degradava seu julgamento e coordenação, e não tinha nenhum desejo de se comportar de maneira inapropriada ou de dar aos outros uma vantagem ao tratar com ela. Bêbada de dor como estava, mais tarde percebeu que deveria ter sido tão vigilante em sua discussão com Orrin como teria sido se houvesse bebido três tanques do hidromel dos anões. Se tivesse sido, seu bem desenvolvido senso de cortesia a teria impedido de retrucar:
— Você se preocupa como um velho, Orrin. Eu precisava fazer isso, e está feito. Não faz sentido discutir agora... eu me arrisquei, sim. Mas não podemos derrotar Galbatorix a menos que dancemos na beira do precipício e do desastre. Você é rei. Deve entender que o perigo é o manto que as pessoas assumem quando têm a arrogância de decidir os destinos dos outros.
— Eu entendo muito bem — grunhiu Orrin. — Minha família e eu temos defendido Surda contra a intromissão do Império cada dia de nossas vidas há gerações, enquanto os Varden meramente se escondem em Farthen Dûr aproveitando-se da generosidade de Hrothgar. — Sua túnica tremulou quando ele se virou e saiu às pressas do pavilhão.
— Isso não foi muito habilidoso, minha lady — observou Jörmundur.
Nasuada estremeceu quando Farica começou a atar as bandagens.
— Eu sei — arquejou ela. — Amanhã vou tratar de cuidar do seu orgulho ferido.

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Boa leitura :)