24 de junho de 2017

Capítulo 69 - Estertores mortais

R

oran estava sentado numa maca que os Elfos tinham colocado
sobre um dos muitos blocos de pedra, à entrada do portão
destruído de Urû’baen. Dava ordens aos guerreiros que tinha
diante de si.
Quatro dos elfos tinham-no levado para fora da cidade, onde
podiam usar magia sem receio que os encantamentos de Galbatorix
viciassem os seus feitiços. Tinham-lhe curado o braço deslocado e
as costelas partidas, bem como todos os outros ferimentos que
Barst lhe infligira. No entanto, alertaram-no para o fato de os seus
ossos levarem algumas semanas a recuperar e insistiram para que
não caminhasse o resto do dia.
Roran, por sua vez, insistia em regressar à batalha. Os Elfos
argumentaram, mas ele dissera-lhes:
— Ou me voltam a levar para lá, ou regresso pelos meus próprios
meios. — Eles ficaram visivelmente contrariados, mas acabaram por
concordar e transportaram-no para o local onde estava agora
sentado a observar a praça.
Tal como Roran imaginava, os soldados tinham perdido o
empenho em lutar, com a morte do seu comandante, e os Varden
tinham conseguido empurrá-los de novo para as ruas estreitas.
Quando Roran regressou já os Varden tinham desimpedido mais de
um terço da cidade e aproximavam-se rapidamente da cidadela.
Tinham perdido muitos homens — havia mortos e moribundos
espalhados pelas ruas e o sangue corria pelas valetas — mas, graças
aos seus recentes avanços, o exército parecia imbuído de uma
renovada fé na vitória. Roran via-o no rosto dos homens, Anões e
Urgals. Os Elfos, pelo contrário, continuavam a revelar uma fúria
gelada pela morte da sua rainha.
Roran estava preocupado com os Elfos, pois vira-os matar
soldados enquanto estes se rendiam, chacinando-os sem qualquer
tipo de remorsos. Uma vez liberta, a sua sede de sangue parecia
indomável.
Pouco depois de Barst morrer, o rei Orrin fora atingido por um
dardo no peito, ao invadir uma casa de guardas no interior da
cidade. O ferimento era grave e mesmo os Elfos pareciam ter
dúvidas em conseguir curá-lo. Os soldados do rei levaram-no de
novo para o acampamento e, até então, Roran não tivera quaisquer
notícias sobre a sua sorte.
Embora não pudesse lutar, Roran podia dar ordens e decidira
reorganizar o exército pela retaguarda. Reuniu guerreiros
transviados, incumbindo-os de missões por toda a cidade de
Urû’baen — a primeira foi a tomada do resto das catapultas ao
longo das muralhas — e destacou mensageiros para procuraram
Jörmundur, Orik, Martland Barba Ruiva ou a qualquer outro
capitão do exército, por entre os edifícios, sempre que recebia
alguma informação que julgava ser importante transmitir-lhes.
— ... e se vires algum soldado junto do grande edifício
abobadado, junto do mercado, transmite isso a Jörmundur — disse
ele ao espadachim magro, de ombros subidos, que tinha diante de
si.
— Sim, senhor — respondeu o homem e a saliência que tinha na
garganta deslizou para cima e para baixo, engolindo.
Roran olhou-o por instantes, fascinado com o movimento, e
depois acenou com a mão, dizendo:
— Vai!
O homem afastou-se e Roran franziu a sobrancelha, olhando para a
cidadela na base da saliência suspensa, para lá dos telhados
pontiagudos das casas.
“Onde você está tu?” perguntou para si mesmo. Não via sinais de
Eragon nem dos que o acompanhavam, desde que tinham entrado
na fortaleza, e aquela ausência prolongada estava a deixá-lo
preocupado. Ocorriam-lhe inúmeras explicações para o atraso,
mas nenhuma prenunciava nada de bom. A mais benigna era que
Galbatorix estivesse escondido e que Eragon e os seus
companheiros andassem à procura do rei. Mas depois de, na noite
anterior, testemunhar o poder de Shruikan não lhe parecia que
Galbatorix fugisse aos seus inimigos.
Se o pior dos seus receios se tivesse concretizado, a vitória dos
Varden seria efémera e era pouco provável que ele ou qualquer um
dos outros guerreiros durasse o dia inteiro.
Um dos homens que mandara partir em missão — um arqueiro de
cabeça descoberta e cabelo cor de areia, com uma roseta
avermelhada em cada face — saiu de uma rua, à sua direita. O
arqueiro parou diante do bloco de pedra e baixou a cabeça,
ofegante, tentando recuperar o fôlego.
— Encontraste Martland? — perguntou Roran.
O arqueiro voltou a acenar com a cabeça, com o cabelo caído
sobre a testa luzidia.
— E transmitiste-lhe a minha mensagem?
— Sim, meu capitão. Martland pediu-me para lhe dizer — e fez
uma pausa para respirar — que os soldados se retiraram dos
balneários e barricaram-se num salão perto da muralha sul.
Roran mexeu-se na maca, sentindo uma dor a percorrer-lhe o
braço recentemente tratado.
— E as torres da muralha entre os balneários e os celeiros? Já
foram tomadas?
— Duas delas, mas ainda estamos a tentar tomar as outras.
Contudo, Martland convenceu alguns elfos a reunirem-se a eles
para ajudar. E também...
Um rugido abafado, vindo da colina de pedra, interrompeu o
homem.
O arqueiro empalideceu, embora conservasse as rosetas nas
faces, que pareciam ainda mais vivas e avermelhadas, como
pinceladas grosseiras de tinta na pele de um cadáver.
— Senhor, aquilo é...
— Chiu! — Roran inclinou a cabeça, à escuta. “Só Shruikan
poderia ter rugido tão alto.”
Durante alguns instantes não ouviram mais nada digno de nota.
Depois ouviu-se um outro rugido no interior da cidadela e Roran
julgou distinguir outros sons mais baixos, embora não soubesse
bem atribuir a sua origem.
Todos os homens, Elfos, Anões e Urgals estacionados na área
em frente do portão destruído olharam para a cidadela.
Ouviu-se outro rugido ainda mais intenso que o último.
Roran agarrou-se à borda da maca com o corpo rígido.
— Matem-no — murmurou ele. — Matem-me esse estupor!
Uma vibração subtil mas percetível sacudiu a cidade, como se
algo muito pesado tivesse batido no chão e, a acompanhá-la, Roran
ouviu o que julgou ser o ruído de algo a partir-se.
Depois o silêncio instalou-se por toda a cidade e cada segundo
parecia mais longo que o anterior.
— ... Acha que ele precisa da nossa ajuda? — perguntou o
arqueiro num tom brando.
— Não podemos fazer nada por eles — disse Roran, de olhos
fixos na cidadela.
— Os Elfos não poderiam...
O chão ressoou e estremeceu. Depois a parte da frente da
cidadela explodiu para fora, numa parede de chamas brancas e
amarelas de tal forma ofuscantes que Roran viu os ossos do
pescoço e da cabeça do arqueiro à transparência, como a sua
carne não passasse de uma framboesa vermelha diante de uma
vela. Roran agarrou no arqueiro e rebolou pela beira do bloco de
pedra, arrastando outros dois homens consigo.
Uma explosão de som atingiu-os enquanto caíam. Era como se
lhe estivessem a cravar espigões nos ouvidos. Roran gritou mas não
conseguia ouvir-se e, depois do primeiro estrondo, deixou de ouvir
fosse o que fosse. As pedras da calçada deformaram-se, por baixo
deles. A seguir foram atingidos por uma nuvem de pó e de
destroços que encobriu o sol, e Roran sentiu uma forte rajada de
vento a fustigar-lhe as roupas.
O pó forçou-o a fechar os olhos com força. Tudo o que podia
fazer era ficar agarrado ao arqueiro e esperar que a agitação
passasse. Tentou respirar, mas o vento escaldante roubou-lhe o ar
da boca e do nariz antes que conseguisse encher os pulmões. Algo
o atingiu e ele sentiu o elmo voar-lhe da cabeça.
Os tremores prolongaram-se durante algum tempo, mas
finalmente o chão voltou a imobilizar-se e Roran abriu os olhos,
receando o que iria encarar.
O ar estava cinzento e turvo e os objetos a mais de cem metros
perdiam-se na bruma. Pequenos pedaços de madeira e de pedra
precipitavam-se do céu, juntamente com flocos de cinza. Um
pedaço de madeira que estava caído na rua em frente — parte de
um lance de escadas que os Elfos tinham partido ao destruir o
portão — ardia e o calor da explosão já carbonizara a viga a todo o
comprimento dos degraus. Os guerreiros em espaço aberto
estavam agora estendidos no chão, uns ainda a mexerem-se, outros
claramente mortos.
Roran olhou de relance para o arqueiro. O homem mordera o
lábio inferior e tinha o queixo coberto de sangue.
Ampararam-se um ao outro e levantaram-se. Roran olhou para
o local onde antes estava a cidadela, mas não conseguia ver nada a
não ser uma escuridão cinzenta.
“Eragon! Será que Eragon e Saphira tinham conseguido
sobreviver à explosão? Seria possível que alguém sobrevivesse ao
calor daquele inferno de chamas?”
Roran abriu várias vezes a boca, na tentativa de desobstruir os
ouvidos — que zuniam e lhe doíam bastante —, mas sem sucesso. Ao
tocar no ouvido direito, viu que os dedos estavam ensanguentados.
— Consegues ouvir-me? — gritou ele ao arqueiro, mas as palavras
não passavam de vibrações na boca e na garganta.
O arqueiro franziu a sobrancelha e abanou a cabeça.
Roran teve um ataque de vertigens e encostou-se, apoiando-se
no bloco de pedra. Enquanto esperava recuperar o equilíbrio,
pensou na saliência suspensa por cima deles, e subitamente
ocorreu-lhe que toda a cidade poderia estar em perigo.
“Temos de partir antes que caia”, pensou ele, cuspindo sangue e
poeira para as pedras da calçada. Depois voltou a olhar na direção
da cidadela. O pó continuava a escondê-la. Ele sentiu um aperto no
coração.

Eragon!”

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