24 de junho de 2017

Capítulo 68 - A dádiva do conhecimento


e olhar fixo, Eragon e Murtagh caminharam em círculo,
tentando prever como e em que direção se iriam mover.
Murtagh parecia estar em excelente forma, mas tinha olheiras
escuras e estava pálido. Eragon teve a sensação de que ele passara
por uma grande pressão. Usava as mesmas peças de armadura que
Eragon: cota de malha, luvas, braçais e caneleiras, mas o seu
escudo era mais comprido e mais delgado que o seu. Quanto às
espadas, Brisingr tinha a vantagem de ser mais comprida, com um
punho de palmo e meio, e Zar’roc, mais pesada pelo fato de ter
uma lâmina mais larga.
Começaram a aproximar-se lentamente e, quando estavam a três
metros um do outro, Murtagh, que se mantinha de costas para
Galbatorix, disse num tom baixo e furioso:
— O que você está a fazer?
— A ganhar tempo — murmurou Eragon, mexendo os lábios o
menos possível.
Murtagh franziu a sobrancelha.
— És um idiota. Ele vai ficar a ver-nos dar cabo um do outro,
mas de que servirá? De nada!
Em vez de responder, Eragon deslocou o peso do corpo para a
frente, estremecendo o braço que segurava a espada, e Murtagh
vacilou.
— Maldito sejas! — rosnou Murtagh. — Se tivesses esperado
apenas mais um dia, eu poderia ter libertado Nasuada.
Eragon ficou surpreendido.
— Porque haveria de acreditar em ti?
Murtagh mostrou-se ainda mais furioso com a pergunta. Revirou
os lábios e acelerou o passo, forçando Eragon a apressar-se.
Depois, disse mais alto:
— Então, conseguiste finalmente encontrar uma espada decente.
Foram os Elfos que a forjaram, não foram?
— você sabes que f...
Murtagh saltou na direção dele, brandindo Zar’roc para a sua
barriga e Eragon recuou, mal aparando o golpe da espada
vermelha.
Eragon retaliou com um golpe circular, por cima da cabeça —
deixando a mão deslizar até ao pomo de Brisingr, para aumentar o
seu poder de alcance — e Murtagh desviou-se.
Fizeram uma pausa, na expetativa de um novo ataque. Ao verem
que nenhum o fazia, recomeçaram a andar em círculos. Eragon
parecia mais cauteloso.
A avaliar pelo combate inicial, era óbvio que Murtagh continuava
tão rápido e forte como Eragon — ou um elfo. A proibição de
Galbatorix em relação ao uso de magia parecia não abarcar os
feitiços que fortaleciam os membros de Murtagh. Eragon não
apreciara o édito do rei por motivos egoístas, mas entendia o seu
fundamento; se assim não fosse, o combate dificilmente seria justo.
No entanto, Eragon não queria um combate justo, queria
controlar o rumo do duelo para poder decidir quando e como
terminaria. Infelizmente, duvidava que lhe fosse dada essa
oportunidade, dada a perícia de Murtagh com a espada; e, mesmo
que a tivesse, não fazia ideia de como usar o combate para atacar
Galbatorix, tão-pouco tinha tempo para pensar nisso, embora
soubesse que Saphira, Arya e os dragões tentariam descobrir uma
solução.
Murtagh fintou-o com o ombro esquerdo e Eragon escondeu-se
atrás do escudo. Mas, instantes depois, ele percebeu que fora um
estratagema e que Murtagh se estava a deslocar para a sua direita,
na tentativa de penetrar nas suas defesas.
Eragon torceu-se e viu Zar’roc descrever um arco na direção do
seu pescoço, com o gume cintilante como uma linha de arame, e
aparou o golpe, empurrando-a desastradamente com o guardamão
de Brisingr. Depois retaliou com um golpe rápido no
antebraço de Murtagh, atingindo-o na parte lateral do pulso, para
seu deleite. Brisingr não lhe cortou a luva, nem a manga da túnica,
mas o impacto magoou Murtagh, que afastou o braço do corpo,
deixando-lhe o peito exposto.
Eragon golpeou-o e Murtagh aparou o ataque com o escudo.
Eragon atacou-o mais três vezes, mas Murtagh aparou todos os
golpes e, quando Eragon encolheu o braço para o voltar a atacar,
contra-atacou com um golpe enviesado na direção do joelho, que o
teria incapacitado se o tivesse atingido.
Percebendo as intenções de Murtagh, Eragon alterou o curso da
sua arma e deteve Zar’roc a pouco mais de dois centímetros da
perna, contra-atacando com outro golpe.
Trocaram golpes durante vários minutos, disputando o ritmo um
do outro, mas sem sucesso. Conheciam-se demasiado bem. O que
quer que que Eragon tentasse fazer, Murtagh contrariava e viceversa.
Era como um jogo em que ambos tinham de prever
antecipadamente várias jogadas, o que alimentava em Eragon uma
sensação de intimidade, sempre que se empenhava em desvendar a
mente de Murtagh e, a partir dela, prever o que faria.
Desde o início que Eragon reparara que Murtagh estava a lutar
de forma diferente, atacando-o com uma brutalidade que nunca
estivera presente, como se, pela primeira vez, quisesse derrotar
Eragon o mais rapidamente possível. Além disso, depois da
explosão inicial, a sua raiva parecera dissipar-se, dando lugar a uma
fria e implacável determinação.
Eragon deu consigo a lutar nos limites da sua capacidade e,
embora conseguisse defender-se de Murtagh, tinha acabado por
assumir uma postura mais defensiva do que seria do seu agrado.
Algum tempo depois, Murtagh baixou a espada e virou-se na
direção do trono e de Galbatorix.
Eragon não baixou a guarda, hesitando, sem saber se seria
conveniente atacar. E Murtagh aproveitou esse momento de
hesitação e saltou na direção dele. Eragon ficou onde estava e
golpeou-o. Murtagh aparou o golpe com o escudo mas depois, em
vez de contra-atacar como Eragon esperava, bateu-lhe com o
escudo, empurrando-o.
Eragon rosnou e empurrou-o também. Teria contornado o
escudo para o golpear nas costas ou nas pernas, mas Murtagh
empurrava-o com demasiada força para correr esse risco. Murtagh
era uns cinco centímetros mais alto do que ele e a estatura permitialhe
exercer peso sobre o escudo de Eragon, forçando-o a deslizar
para trás, sobre o chão polido, sem que Eragon o conseguisse
evitar.
Por fim, com um rugido e um empurrão forte, Murtagh atirou
com Eragon para trás e, enquanto este tentava recuperar o
equilíbrio, Murtagh tentou golpeá-lo no pescoço.
— Letta! — disse Galbatorix e a ponta de Zar’roc parou a menos
de um dedo da pele de Eragon.
Eragon ficou paralisado, ofegante, sem perceber o que se
passara.
— Controla-te, Murtagh, ou fá-lo-ei eu por ti — disse Galbatorix,
do local onde estava a assistir. — Detesto ter de me repetir. Não
podes matar Eragon, nem ele te pode matar a ti... Agora,
prossigam!
A constatação de que Murtagh acabara de o tentar matar e de
que o teria conseguido se não fosse a intervenção de Galbatorix,
chocou-o. Sondou o rosto de Murtagh em busca de uma
explicação, mas este mantinha-se teimosamente impassível, como
se Eragon pouco ou nada significasse para si.
Eragon não entendia. Murtagh estava definitivamente a jogar de
forma diferente do que era suposto. Algo mudara nele, embora
Eragon não percebesse o quê.
Além disso, a evidência de que fora derrotado — e que, pela
ordem natural das coisas, deveria estar morto — abalou a confiança
de Eragon. Tinha enfrentado a morte muitas vezes, mas nunca de
uma forma tão extrema e intransigente. Era indiscutível: Murtagh
vencera-o e só a compaixão de Galbatorix — por muito
questionável que fosse — o salvara.
Não fiques a matutar nisso, Eragon, disse-lhe Arya. você não
tinhas motivos para desconfiar que ele iria tentar matar-te, nem
estavas a tentar matá-lo. Se estivesses, o combate teria corrido de
outra forma e Murtagh nunca teria tido a hipótese de te atacar
como atacou.
Hesitante, Eragon olhou para o local onde ela estava, no limiar
da poça de luz, juntamente com Elva e Saphira. Depois Saphira
disse:
Se ele quer rasgar-te a garganta, corta-lhe os tendões para teres
a certeza de que não voltará a fazê-lo.
Eragon acenou com a cabeça, confirmando que ouvira o que as
duas tinham acabado de dizer.
Ele e Murtagh separaram-se e voltaram a ocupar posições
opostas, e Galbatorix olhou-os aprovadoramente.
Desta vez Eragon foi o primeiro a atacar.
A luta pareceu prolongar-se durante horas e Murtagh não voltou
a desferir golpes mortíferos. Eragon, por sua vez — e para sua
satisfação — conseguiu atingir Murtagh na clavícula, embora tivesse
interrompido o golpe antes que Galbatorix julgasse conveniente ser
ele próprio a fazê-lo. O golpe pareceu abalar Murtagh e Eragon
sorriu brevemente com a sua reação.
Houve também outros golpes que nenhum conseguiu aparar,
pois nem ele nem Murtagh eram infalíveis, por muito rápidos e
hábeis que fossem. E, na ausência de fórmulas fáceis para terminar
o combate, era inevitável que ambos cometessem erros e que estes
resultassem em ferimentos.
O primeiro ferimento foi um golpe de Murtagh na coxa direita de
Eragon, no intervalo entre a bainha da cota de malha e a parte de
cima da perneira. O golpe era superficial, mas extraordinariamente
doloroso, e, sempre que Eragon assentava o peso do corpo sobre
a perna, o ferimento sangrava.
Foi também Eragon que sofreu o segundo ferimento: um lenho
por cima da sobrancelha. Murtagh desferiu-lhe um golpe no elmo e
este cortara-lhe a pele. Dos dois ferimentos, o segundo era de
longe o mais irritante, pelo fato de estar constantemente a
escorrer-lhe sangue para o olho, obstruindo-lhe a visão.
Depois, Eragon voltou a atingir Murtagh no pulso, mas desta vez
cortou-lhe o punho da luva, a manga da túnica e a fina camada de
pele até ao osso. Não lhe cortou nenhum músculo, mas o ferimento
parecia bastante doloroso para Murtagh, e o sangue que lhe
escorria da luva fê-lo largar a espada, pelo menos duas vezes.
Eragon golpeou Murtagh na barriga da perna direita e, depois, —
enquanto este recuperava de um ataque fracassado — deslocou-se
para o lado do seu escudo e atacou-o com Brisingr, golpeando-lhe
a perneira esquerda com toda a força, e amolgando-a a meio.
Murtagh gritou e saltou para trás, sobre uma perna, e Eragon
continuou a brandir Brisingr, tentando atirá-lo ao chão. Mas
Murtagh conseguiu defender-se, apesar do ferimento, e, segundos
depois, foi Eragon que teve dificuldades em manter-se de pé.
Os escudos resistiram aos golpes implacáveis, durante algum
tempo — Eragon concluiu, com satisfação, que Galbatorix deixara
intactos os encantamentos das suas espadas e armaduras —, mas
entretanto os feitiços do escudo de Eragon começaram a
enfraquecer, tal como os de Murtagh — o que se tornou evidente
pelas lascas que voavam sempre que as espadas embatiam neles.
E, pouco depois, Eragon rachou o escudo de Murtagh com um
golpe particularmente violento. Mas a vitória foi fugaz, pois
Murtagh agarrou firmemente em Zar’roc com ambas as mãos,
atingindo duas vezes consecutivas o escudo de Eragon, que
também se rachou, deixando-os mais uma vez em igualdade de
circunstâncias.
À medida que lutavam, a pedra por baixo deles começava a
ficar escorregadia, com as manchas e os salpicos de sangue, pelo
que se tornava cada vez mais difícil manterem o equilíbrio. A
enorme sala de audiências devolvia-lhes ecos distantes do choque
das suas armas, como os sons de uma batalha há muito esquecida.
Era como se fossem o centro do mundo, pois havia luz apenas
onde se movimentavam e estavam ambos sozinhos dentro dela.
Entretanto, Galbatorix e Shruikan continuavam a observá-los no
limiar das sombras.
Sem o escudo, Eragon tinha mais facilidade em atingir Murtagh —
especialmente nos braços e nas pernas —, tal como Murtagh tinha
mais facilidade em atingi-lo a ele. De uma maneira geral, as
armaduras protegiam-nos dos golpes, mas não dos inúmeros
hematomas e nódoas negras que iam sofrendo.
Apesar dos ferimentos que infligiu em Murtagh, Eragon começou
a desconfiar que o seu adversário era quem melhor manejava a
espada. A diferença não parecia grande, mas era o suficiente para
que Eragon jamais conseguisse ficar em vantagem. Se o rumo do
duelo se mantivesse, Murtagh acabaria por esgotá-lo, até que ele
ficasse demasiado ferido ou cansado para prosseguir, um desfecho
que parecia aproximar-se a olhos vistos. A cada passo que dava,
Eragon sentia o sangue a jorrar-lhe sobre o joelho, do golpe na
coxa, tornando-se cada vez mais difícil defender-se.
Eragon teria de acabar com o duelo imediatamente, de contrário
não conseguiria defrontar Galbatorix mais tarde. Nas presentes
circunstâncias ele já tinha sérias dúvidas de que representasse um
grande desafio para o rei, mas precisava de tentar. Pelo menos
tinha de tentar.
O cerne da questão era que os motivos por que Murtagh lutava
constituíam um mistério para si e este continuaria a apanhá-lo de
surpresa, a menos que ele os desvendasse.
Eragon recordou o que Glaedr lhe dissera fora de Dras-Leona:
Tens de aprender a observar o que vês. E também: O método
do guerreiro é o método do saber.
Por isso, olhou para Murtagh com a mesma intensidade com que
olhara para Arya, durante os seus combates amigáveis, e se
estudara a si mesmo durante a sua longa noite de introspeção em
Vroengard, procurando decifrar a linguagem escondida no corpo
de Murtagh.
E não foi mal-sucedido de todo. Era óbvio que Murtagh estava
exausto e consumido, e que a forma como arqueava os ombros
revelava um ódio profundamente enraizado, ou talvez medo, quem
sabe. Havia também a questão da sua desumanidade, o que não
era nada de novo, mas que se revelava pela primeira vez em
relação a Eragon. Apercebeu-se de todas essas coisas e de outros
detalhes mais subtis, esforçando-se depois para os conciliar com o
que tinha aprendido acerca de Murtagh no passado, a sua amizade,
a sua lealdade e o seu ressentimento em relação ao controlo de
Galbatorix.
Segundos depois — momentos esgotantes, preenchidos por dois
golpes desastrados que lhe valeram mais uma nódoa negra no
cotovelo —, Eragon teve consciência da verdade. E, nessa altura,
esta pareceu-lhe óbvia. Devia haver algo na vida de Murtagh, algo
que seria afetado pelo combate, de tal forma importante para ele
que o compelia a ganhar fosse como fosse, mesmo que isso
significasse matar o meio-irmão. O que quer que estivesse em
causa — e Eragon tinha as suas suspeitas, umas mais perturbantes
do que outras —, Murtagh jamais desistiria. Lutaria como um animal
encurralado até ao último fôlego e Eragon jamais o conseguiria
derrotar pelos meios convencionais, pois aquele duelo significava
mais para Murtagh do que para ele. Para Eragon, o duelo era uma
manobra de distração conveniente, e pouco lhe importava quem
ganhasse ou perdesse, desde que depois estivesse em condições de
enfrentar Galbatorix. Mas para Murtagh significava muito mais do
que isso e Eragon sabia, por experiência, que esse tipo de
determinação era difícil senão impossível de vencer apenas pela
força.
“Como deter um homem que estava determinado a persistir e a
vencer, apesar de todos os obstáculos que surgissem no seu
caminho?” Essa era a questão que Eragon se devia colocar.
Pareceu-lhe um enigma indecifrável até que, finalmente,
percebeu que a única forma de vencer Murtagh era dar-lhe aquilo
que ele queria. Para satisfazer o seu próprio desejo, Eragon teria de
aceitar a derrota.
Mas não inteiramente. Não podia deixar Murtagh disponível
para obedecer às ordens de Galbatorix. Eragon concederia a
Murtagh a sua vitória e, depois, conquistaria a sua.
Ao ouvir os seus pensamentos, a angústia e a preocupação de
Saphira aumentaram, e ela disse:
Não, Eragon. Tem de haver uma outra forma.
Diz-me qual é, respondeu ele, porque eu não a encontro.
Ela rosnou e Thorn rosnou em resposta, do outro lado da poça
de luz.
Usa o bom-senso, disse Arya, e Eragon percebeu o que ela lhe
queria dizer.
Murtagh correu para ele e as suas espadas cruzaram-se com um
ruído clamoroso. Depois separaram-se e fizeram uma pausa para
reunir forças. Quando voltaram a aproximar-se um do outro,
Eragon desviou-se para a direita de Murtagh, deixando o braço
que empunhava a espada flutuar para longe do seu corpo, como se
estivesse exausto ou desatento. Foi um movimento ligeiro, mas ele
sabia que Murtagh iria reparar e que iria tentar aproveitar essa
abertura que ele lhe dera.
Naquele momento, Eragon não sentia nada. Ainda tinha a noção
da dor dos seus ferimentos, mas de uma forma algo remota, como
se as sensações não lhe pertencessem. A sua mente era como um
lago de águas profundas, num dia sufocante, um lago de águas
paradas, mas ainda assim carregado de reflexos. Eragon registava
tudo o que via, sem recorrer ao pensamento consciente. Não tinha
necessidade de o fazer. Entendia tudo o que tinha diante de si e
quaisquer outras reflexões serviriam apenas para o incomodar.
Eragon esperou e Murtagh saltou na sua direção, apontando a
espada para o centro da sua barriga.
Eragon virou-se no momento certo. Não se moveu depressa
nem devagar, apenas com a rapidez que a situação exigia. O
movimento parecia predeterminado, como se fosse o único gesto
que ele pudesse fazer.
Em vez de o atingir no ventre, tal como Murtagh pretendia,
Zar’roc trespassou-lhe os músculos do seu lado direito,
imediatamente por baixo da caixa torácica. O impacto foi como o
golpe de um martelo, ouvindo-se um ruído metálico, deslizante,
quando Zar’roc atravessou os elos partidos da cota de malha,
enterrando-se na carne. Eragon arquejou mais pela sensação fria
do metal do que pela dor.
Atrás de si, a ponta da lâmina repuxou a cota de malha, ao
emergir do seu corpo.
Murtagh ficou a olhar, aparentemente surpreendido.
Antes que o adversário conseguisse recuperar, Eragon puxou o
braço para trás, enterrando Brisignr no abdómen de Murtagh, junto
do umbigo, um ferimento bem pior do que o que acabava de sofrer.
O rosto de Murtagh ficou lânguido e abriu a boca como se fosse
falar, Depois caiu de joelhos ainda a segurar Zar’roc.
Thorn rugiu de um lado da sala.
Eragon libertou Brisingr e depois recuou, fazendo um esgar e
gritou em silêncio, enquanto Zar’roc deslizava do seu corpo.
Murtagh largou Zar’roc e esta caiu ruidosamente no chão.
Depois colocou os braços à volta da cintura e dobrou-se sobre si,
encostando a cabeça à pedra polida.
Foi a vez de Eragon olhar, sentindo o sangue quente a escorrerlhe
para o olho.
No trono, Galbatorix disse:
— Naina — e dúzias de lanternas se acenderam por toda a sala,
revelando mais uma vez as colunas, os entalhes ao longo das
paredes e o bloco de pedra onde Nasuada estava acorrentada.
Eragon cambaleou, aproximando-se de Murtagh, e ajoelhou-se
junto dele.
— E Eragon é o vencedor — disse o rei, inundando o enorme
salão com a sua voz sonora.
Murtagh olhou para Eragon, com o rosto alagado em suor e
desfigurado pela dor.
— Não podias deixar-me ganhar, pois não? — rosnou ele, em voz
baixa. — Não consegues vencer Galbatorix, mas mesmo assim
tinhas de provar que és melhor do que eu.... Ah! — Estremeceu e
começou a baloiçar-se para trás e para diante, sobre as canelas.
Eragon poisou-lhe a mão no ombro:
— Porquê? — perguntou, sabendo que Murtagh iria entender a
pergunta.
Ele respondeu num sussurro quase imperceptível:
— Porque esperava cair nas suas boas graças para a poder
salvar. — As lágrimas enevoaram-lhe os olhos e ele desviou o olhar.
Ao ouvir as suas palavras Eragon percebeu que Murtagh dissera
a verdade e sentiu-se consternado.
Passaram-se mais alguns momentos e Eragon apercebeu-se de
que Galbatorix os observava com interesse.
Depois Murtagh disse:
— você enganaste-me.
— Era a única forma.
Murtagh gemeu.
— Foi sempre essa a diferença entre ti e mim — disse ele, olhando
para Eragon. — você estavas disposto a sacrificar-te e eu não...
Nessa altura, não.
— Mas agora, sim.
— Já não sou a mesma pessoa. Agora tenho Thorn e... —
Murtagh hesitou, encolhendo os ombros. — Já não é por mim que
luto... Isso faz alguma diferença. — Inspirou superficialmente e
retraiu-se. — Achava-te um idiota, por estares sempre arriscar a
vida... Mas agora sei que não é assim. Agora entendo... porquê.
Agora entendo... — Depois arregalou os olhos e descontraiu o seu
rosto franzido, como se tivesse esquecido a dor, e uma luz interior
pareceu iluminar-lhe o rosto. — Eu entendo... ambos entendemos —
sussurrou ele e Thorn deixou escapar um ruído, num misto de
queixume e um rosnido.
Galbatorix mexeu-se no trono, intranquilo, e disse num tom
áspero:
— Chega de conversa! O vosso duelo terminou e Eragon venceu.
Chegou o momento de os nossos convidados se ajoelharem e me
jurarem fidelidade... Aproximem-se os dois. Tratarei dos vossos
ferimentos e depois prosseguiremos.
Eragon começou a levantar-se, mas Murtagh agarrou-o pelo
antebraço, detendo-o.
— Imediatamente! — disse Galbatorix, unindo as sobrancelhas. —
Ou deixar-vos-ei a sofrer, até terminarmos.
“Prepara-te”, disse Murtagh a Eragon com um movimento de
lábios.
Eragon hesitou, sem saber o que esperar, depois acenou com a
cabeça e avisou Arya, Saphira, Glaedr e os outros Eldunarís.
A seguir Murtagh puxou Eragon para o lado, ergueu-se sobre os
joelhos, ainda agarrado à barriga, olhou para Galbatorix e gritou a
Palavra.
Galbatorix encolheu-se e ergueu a mão como que a proteger-se.
Ainda a gritar, Murtagh disse outras palavras na língua antiga,
falando demasiado depressa para que Eragon entendesse o
propósito do feitiço.
Clarões vermelhos e negros surgiram no ar, em torno de
Galbatorix e, por instantes, o seu corpo pareceu estar envolto em
chamas. Ouviu-se um ruído semelhante ao vento de verão a sacudir
os ramos de uma floresta de verdura perene. Depois Eragon ouviu
uma série de gritos estridentes e viu doze globos de luz surgirem em
torno da cabeça de Galbatorix. Os globos voaram para longe dele,
passaram através das paredes da câmara e desapareceram.
Pareciam espíritos, mas Eragon viu-os durante tão pouco tempo
que não teve a certeza.
Thorn virou-se — tão rapidamente como um gato a quem
tivessem pisado a cauda — e atirou-se ao enorme pescoço de
Shruikan. O dragão negro gritou e recuou, sacudindo a cabeça
para tentar libertar-se de Thorn. O som dos seus rugidos era
dolorosamente intenso e o chão tremia com o peso dos dois
dragões.
As crianças gritaram nos degraus do estrado, tapando os
ouvidos com as mãos.
Eragon viu Arya, Elva e Saphira cambalearem para a frente,
libertas da magia de Galbatorix. Arya aproximou-se do trono, com
a Dauthdaert na mão, e Saphira saltou para onde Thorn estava
agarrado a Shruikan. Elva, entretanto, levou a mão à boca e
parecia estar a dizer algo para si mesma, mas Eragon não conseguia
perceber por causa do ruído dos dragões.
Gotas de sangue do tamanho de punhos precipitaram-se em
redor deles, fumegando ao tocarem na pedra.
Eragon levantou-se de onde Murtagh o tinha empurrado e seguiu
Arya em direção ao trono.
Depois, Galbatorix disse o nome da língua antiga, juntamente
com a palavra letta. Grilhetas invisíveis prenderam os membros de
Eragon e toda a sala ficou em silêncio. A magia do rei prendera-os
a todos, até mesmo Shruikan.
Eragon ferveu de raiva e de frustração. “Tão perto que estavam
de atacar o rei e continuavam de mãos atadas perante os seus
feitiços.”
— Apanhem-no! — gritou ele, com a mente e a voz. Já tinham
tentado atacar Galbatorix e Shruikan, mas o rei mataria as duas
crianças, quer prosseguissem ou não. O único caminho possível
para Eragon e para os seus companheiros — a única esperança de
vitória que lhes restava — era quebrar as barreiras mentais de
Galbatorix e controlar os seus pensamentos.
Eragon projetou violentamente a sua consciência na direção do
rei, juntamente com Saphira, Arya e os Eldunarís que tinha trazido
consigo, depositando todo o seu ódio, raiva e dor num único raio
que dirigiu ao âmago de Galbatorix.
Por instantes, Eragon sentiu a mente do rei: uma terrível
paisagem mergulhada em sombras, varrida por um frio cortante e
um calor abrasador — dominada por barras de ferro rijas e
inflexíveis, que dividiam as áreas da sua consciência.
Depois, os dragões sob as ordens de Galbatorix, os ruidosos
dragões enlouquecidos, atormentados pela dor, atacaram a mente
de Eragon, forçando-o a fechar-se em si mesmo para não acabar
desfeito em pedaços.
Atrás, Eragon ouviu Elva começar a dizer algo, mas antes que
verbalizasse algo de concreto, Galbatorix disse:
— Theyna! — e ela calou-se, como que engasgada.
— Eu tirei-lhe as proteções — gritou Murtagh. — Ele está...
Todas as palavras que Galbatorix proferiu a seguir, disse-as
demasiado depressa e num tom de voz demasiado baixo para que
Eragon as pudesse ouvir. Murtagh parou de falar e Eragon sentiu-o
cair momentos depois, ouvindo o tinido da cota de malha e o ruído
metálico do elmo a bater na pedra.
— Tenho muitas proteções — disse Galbatorix, com o seu rosto
de falcão toldado pela fúria. — Não podem fazer-me mal. —
Levantou-se e desceu os degraus do estrado na direção de Eragon,
com a capa a ondular em torno de si e empunhando a espada
branca e mortífera — Vrangr.
Nos curtos momentos que lhe restavam, Eragon tentou controlar
a mente de um dos dragões que atacava a sua consciência. Mas
eram muitos e, ao fazê-lo, Eragon deu consigo a lutar
freneticamente para repelir a horda de Eldunarís, antes que estes o
subjugassem por completo.
Galbatorix parou a trinta centímetros de Eragon e olhou-o
furioso, com uma grossa veia bifurcada, saliente na testa, e os
músculos dos maxilares em tensão.
— Pensas que me podes desafiar, rapaz? — rosnou ele,
projetando grandes quantidades de saliva, com a raiva. — Achas
que és igual a mim? Que poderias subjugar-me e roubar-me o
trono? — Galbatorix tinha os tendões do pescoço salientes como
fios emaranhados de corda. Depois deu um puxão à capa. —
Mandei cortar esta capa das asas de Belgabad e as luvas também.
— E ergueu Vrangr, segurando a lâmina gelada diante dos olhos de
Eragon. — Arranquei esta espada das mãos de Vrael e roubei esta
coroa da cabeça do miserável choramingas que a usava antes de
mim. E, ainda assim, julgas-te mais esperto do que eu? Eu? Vens
ao meu castelo, matas os meus homens e ages como se fosses
melhor do que eu, como se fosses mais nobre ou mais virtuoso?
Galbatorix bateu-lhe na face com o pomo de Vrangr, rasgandolhe
a pele. Eragon sentiu a cabeça a zunir e viu uma constelação de
manchas vermelhas e palpitantes.
— Precisas de uma lição de humildade, rapaz — disse Galbatorix,
aproximando-se mais. Os seus olhos cintilantes estavam a escassos
centímetros dos de Eragon.
Agrediu-o na outra face e, durante um segundo, Eragon viu
apenas uma imensidão negra salpicada de pontos brilhantes.
— Vou gostar de te ter ao meu serviço — disse Galbatorix.
Depois acrescentou num tom mais baixo: — Gánga — e a pressão
dos Eldunarís que atacavam a mente de Eragon dissipou-se,
deixando-o livre para pensar à vontade. O mesmo não se podia
dizer dos outros, como atestava a tensão estampado nos seus
rostos.
Depois uma lâmina de pensamento, afiada a um nível
infinitesimal, penetrou na consciência de Eragon, infiltrando-se no
âmago do seu ser. A lâmina torceu-se, rasgando-lhe o tecido da
mente como um figo bravo alojado numa tira de feltro, na tentativa
de lhe destruir a vontade, a identidade e a própria consciência.
Eragon nunca sofrera um ataque semelhante, por isso fechou-se
em si mesmo, tentando concentrar-se num único pensamento para
se proteger — vingança. O seu contato com Galbatorix permitia-lhe
sentir as suas emoções: raiva, basicamente, mas também uma
alegria selvática pelo fato de poder magoar Eragon e vê-lo torcerse
de desconforto.
A razão porque Galbatorix era tão eficaz a subjugar a mente dos
seus inimigos devia-se ao fato de ter um prazer perverso nisso.
A lâmina penetrou mais no seu íntimo e Eragon gritou, incapaz
de se conter.
Galbatorix sorriu. Tinha as pontas dos dentes translúcidas como
peças de cerâmica.
A defesa, por si só, não era uma estratégia para ganhar um
combate. Por isso, Eragon fez um esforço para contra-atacar
Galbatorix, apesar da dor avassaladora com que se debatia .
Mergulhou na consciência do rei, agarrando-se aos seus
pensamentos aguçados com lâminas, na tentativa de os prender e
impedir o rei de se mover ou pensar sem a sua aprovação.
Contudo, Galbatorix não fez qualquer esforço para se proteger e
o seu sorriso cruel alargou-se ao torcer mais a lâmina dentro da
mente de Eragon.
Era como se tivesse um ninho de roseiras bravas a rasgarem-no
por dentro. Um grito arranhou-lhe a garganta e Eragon ficou inerte,
à mercê do feitiço de Galbatorix.
— Submete-te! — disse o rei, agarrando o queixo de Eragon com
dedos de aço. — Submete-te! — A lâmina voltou a torcer-se e
Eragon gritou até ficar sem voz.
Os pensamentos penetrantes do rei cercaram a consciência de
Eragon, confinando-o a uma porção ainda mais limitada da sua
mente, até lhe restar apenas um pequeno núcleo brilhante,
obscurecido pelo peso gigantesco da presença de Galbatorix.
— Submete-te! — sussurrou-lhe o rei, num tom quase afetuoso. —
Não tens para onde ir, nem onde te esconderes... Esta vida
acabou para ti, Eragon, Matador de Espectros, mas espera-te
uma outra vida. Submete-te e tudo te será perdoado.
As lágrimas distorceram a visão de Eragon, ao fixar o abismo
incolor das pupilas de Galbatorix.
“Tinham perdido... Ele tinha perdido.”
Essa evidência era mais dolorosa do que qualquer um dos
ferimentos que sofrera. Cem anos de luta... para nada. Nem
Saphira, nem Elva, nem Arya, nem os Eldunarís conseguiriam
vencer Galbatorix. Ele era demasiado forte, demasiado inteligente.
Garrow, Brom e Oromis tinham morrido em vão, tal como os
inúmeros guerreiros de diferentes raças que tinham sacrificado as
suas vidas nas lutas contra o Império.
As lágrimas transbordaram dos olhos de Eragon.
— Submete-te! — sussurrou o rei, aumentando a pressão na sua
mente.
O que Eragon odiava, acima de tudo, era a injustiça da situação.
Parecia-lhe errado, a um nível elementar, que tenta gente tivesse
sofrido e morrido para alcançar uma meta impossível. Parecia-lhe
errado que Galbatorix fosse, por si só, a causa de tanto sofrimento
e que escapasse ao castigo pelos crimes que cometera.
“Porquê?”, — perguntou-se Eragon.
E recordou a visão que Valdr, o mais velho dos Eldunarís, lhe
mostrara a ele e a Saphira, onde os sonhos dos estorninhos eram
iguais às preocupações de reis.
— Submete-te! — gritou Galbatorix e a sua mente perfurou a
mente de Eragon com mais violência, trespassando-a em todas as
direções, como lascas de gelo e de fogo.
Eragon gritou. Em desespero tentou alcançar Saphira e os
Eldunarís — cujas mentes estavam cercadas pelos dragões
enlouquecidos, sob o comando de Galbatorix — para se alimentar
dos seus depósitos de energia.
E com essa energia Eragon lançou um feitiço.
Era um feitiço sem palavras, pois a magia de Galbatorix não
permitia que ele o fizesse de outra forma, além de que não havia
palavras que descrevessem o que Eragon pretendia nem o que
sentia. Uma biblioteca inteira teria sido insuficiente para o traduzir.
Era um feitiço de instinto e de emoções, pelo que a linguagem não o
poderia expressar.
O que Eragon pretendia era simultaneamente simples e
complexo: ele queria que Galbatorix entendesse... a injustiça das
suas ações. O feitiço não era um ataque mas uma tentativa de
comunicação. Se ele tivesse de viver o resto da sua vida como
escravo do rei, queria que Galbatorix entendesse em pleno o que
fizera.
Quando o feitiço produziu efeito, Eragon sentiu que Umaroth e
os Eldunarís concentravam a atenção nele, esforçando-se por
ignorar os dragões de Galbatorix. Cem anos de dor inconsolável e
de raiva cresceram dentro dos Eldunarís como uma onda
atroadora. As mentes dos dragões uniram-se à de Eragon e
começaram a alterar o feitiço, aprofundando-o, expandindo-o e
ampliando-o até este se tornar muito mais abrangente do que se
pretendia de início.
Para além de lhe mostrar a injustiça das suas ações, o feitiço
obrigaria Galbatorix a vivenciar todos sentimentos que despertara
nos outros, desde o dia em que nascera, fossem bons ou maus. O
feitiço ia muito além do que Eragon jamais poderia ter inventado
sozinho, pois continha mais do que uma única pessoa ou um único
dragão poderia conceber. Cada um dos Eldunarís contribuiu para o
encantamento e o somatório das participações resultou num feitiço
que se estendia não apenas a toda a Alagaësia, mas que remontava
a todos os momentos que decorreram desde o nascimento de
Galbatorix, até ao presente.
Eragon estava convencido de que era a maior peça de magia
que os dragões jamais tinham forjado e ele era o seu instrumento, a
sua arma.
O poder dos Eldunarís percorreu-o como um rio tão vasto como
um oceano e ele sentiu-se como uma frágil embarcação oca, como
se a sua pele se pudesse rasgar com a força da torrente que
canalizava. Se não fosse Saphira e os outros dragões, Eragon teria
sucumbido de imediato, esgotado pelas vorazes exigências do
feitiço.
A luz das lanternas enfraqueceu e Eragon julgou ouvir o eco de
milhares de vozes na sua mente: uma cacofonia insuportável de
dores e alegrias, desde o passado ao presente.
As rugas no rosto de Galbatorix acentuaram-se e ele arregalou
os olhos:
— O que fizeste tu? — perguntou, num tom cavo e tenso. Recuou
e encostou os punhos às têmporas, dizendo: — O que fizeste tu?
Eragon fez um esforço e respondeu:
— Fiz-te entender.
O rei fitou-o com uma expressão horrorizada Os músculos do
rosto contraíram-se e tremeram, e todo o seu corpo foi sacudido
por impulsos. Ele arreganhou os dentes e rosnou:
— Não vais subjugar-me, rapaz. Não... vais... — gemeu,
cambaleante. O feitiço que prendia Eragon dissipou-se e ele caiu
para o chão. Elva, Saphira, Thorn, Shruikan e as duas crianças
começavam de novo a mexer-se.
O rugido ensurdecedor de Shruikan inundou a câmara e o
enorme dragão negro sacudiu Thorn do seu pescoço. O dragão
vermelho foi projetado até meio da sala. Thorn aterrou sobre o
flanco esquerdo e os ossos da sua asa estalaram ruidosamente.
— Eu... não... vou... ceder — disse Galbatorix. Atrás do rei,
Eragon viu Arya, que estava mais perto do trono do que ele. Ela
hesitou e voltou a olhá-los. Depois correu para além do estrado e
aproximou-se de Shruikan juntamente com Saphira.
Thorn fez um esforço para se levantar e seguiu-os.
Com o rosto desfigurado de loucura, Galbatorix avançou na
direção de Eragon, atacando-o com Vrangr.
Eragon rebolou para o lado e ouviu a espada bater na pedra,
junto da sua cabeça. Rebolou mais um metro e levantou-se. Só a
energia dos Eldunarí lhe permitia aguentar-se de pé.
Gritando, Galbatorix atacou-o e Eragon aparou o golpe
desastrado do rei. As espadas retiniam como sinos, um ruído agudo
e límpido entre os rugidos dos dragões e os sussurros dos mortos.
Saphira saltou, atingindo o imenso focinho de Shruikan, e fê-lo
sangrar, voltando a deixar-se cair no chão. Ele tentou dar-lhe uma
patada, de garras esticadas, e ela saltou para trás, abrindo
parcialmente as asas.
Eragon esquivou-se a um selvático golpe transversal, tentou
atingir a axila esquerda de Galbatorix e, para sua surpresa, atingiuo,
molhando a ponta de Brisingr com o sangue do rei.
Um espasmo no braço de Galbatorix frustrou-lhe o golpe
seguinte, pelo que ambos acabaram de espadas cruzadas junto do
punho, lutando para se desequilibrarem mutuamente. O rosto do rei
estava quase irreconhecível e tinha lágrimas na cara.
Uma cortina de fogo explodiu sobre as suas cabeças e o ar ficou
quente.
As crianças gritavam algures.
A perna ferida de Eragon cedeu e ele voltou a cair sobre as
mãos e os pés, magoando a mão com que segurava Brisingr.
Esperava que o rei o atacasse daí a instantes, mas Galbatorix
ficou onde estava, vacilante.
— Não! — gritou o rei. — Eu não... — Olhou para Eragon e gritou
— Para com isto!
Eragon abanou a cabeça, voltando a levantar-se.
Uma dor percorreu-lhe o braço esquerdo e ele olhou para
Saphira, apercebendo-se de que ela tinha um lenho ensanguentado
na pata dianteira. Do outro lado da sala, Thorn enterrou os dentes
na cauda de Shruikan e o dragão negro rosnou, virando-se a ele.
Aproveitando a distração de Shruikan, Saphira lançou-se no ar e
aterrou em cima do seu pescoço, junto da base do crânio ossudo.
Depois, enganchou a garras por baixo das escamas e mordeu-lhe o
pescoço, entre os dois espigões da coluna.
Shruikan uivou selvaticamente e debateu-se ainda mais.
Galbatorix correu na direção de Eragon, tentando atacá-lo.
Eragon aparou um golpe, outro, mas entretanto foi atingido nas
costelas e quase desmaiou.
— Para com isto — disse Galbatorix, num tom mais suplicante do
que ameaçador. — A dor...
Shruikan soltou um uivo mais frenético que o anterior e Eragon
viu Thorn atrás do rei, agarrado ao pescoço de Shruikan, do lado
oposto de Saphira. O peso combinado dos dois dragões forçou
Shruikan a baixar a cabeça quase até ao chão. Ainda assim, o
dragão negro era demasiado grande e robusto e Eragon concluiu
que os dois não conseguiriam magoá-lo muito mais com os dentes,
dada a largura do seu pescoço.
Eragon viu Arya a sair detrás de uma coluna, correndo na
direção dos dragões, como uma sombra fugidia numa floresta. A
Dauthdaert brilhava na sua mão esquerda, com a habitual auréola
cintilante.
Shruikan viu-a aproximar-se e sacudiu o corpo, tentando
expulsar Saphira e Thorn. Ao ver que estes se mantinham presos a
si, rosnou e abriu as mandíbulas, banhando a área à sua frente com
uma torrente de fogo.
Arya atirou-se para a frente e Eragon perdeu-a de vista, por
instantes, atrás de uma parede de chamas. Depois voltou a vê-la,
não muito longe do local onde Shruikan tinha a cabeça, um pouco
acima do chão. Tinha a ponta dos cabelos em chamas mas nem
parecia ter dado conta.
Depois, ela deu três passos fluidos e saltou para a pata dianteira
esquerda de Shruikan e, daí, atirou-se para a parte lateral da
cabeça, deixando um rasto de fogo atrás de si, como um cometa.
Soltou um grito que ecoou pela sala do trono e atirou a Dauthdaert
para o centro do olho cor de gelo cintilante, enterrando-lhe a lança
a todo o comprimento no crânio.
Shruikan gritou e estremeceu. Depois tombou lentamente de
lado, vertendo um fogo líquido pela boca.
Saphira e Thorn saltaram de cima dele, momentos antes do
gigantesco dragão negro cair no chão.
As colunas racharam-se. Pedaços de pedra caíam do teto,
estilhaçando-se no chão. Uma série de lanternas partiram-se,
vertendo gotas de uma substância fundida.
A sala estremeceu e Eragon quase caiu. Não tinha visto o que
acontecera a Arya, mas receava que ela tivesse ficado esmagada
pelo volumoso corpo de Shruikan.
— Eragon! — gritou Elva. — Baixa-te!
Ele baixou-se e a espada branca de Galbatorix passou-lhe sobre
as costas curvadas, produzindo um silvo.
Eragon ergueu-se e atirou-se para a frente... atingindo
Galbatorix no estômago, tal como fizera com Murtagh.
O rei gemeu e depois recuou, libertando-se da espada de
Eragon. Tocou na ferida com a mão livre e olhou para o sangue na
ponta dos dedos. Depois voltou a olhar para Eragon e disse:
— As vozes... as vozes são terríveis. Não aguento... — Fechou
os olhos e as lágrimas escorreram-lhe pelas faces. — Dor... tanta
dor, tanta mágoa... Para com isto! Para com isto!
— Não — disse Eragon. Elva reuniu-se a ele, tal como Saphira e
Thorn, vindos do outro lado da sala, e Eragon ficou aliviado ao ver
que Arya estava entre eles — queimada e ensanguentada, mas ilesa.
Os olhos de Galbatorix abriram-se subitamente — arregalados e
orlados de uma extensão anormalmente grande de branco. Ele
olhou à distância, como se Eragon e todos os que tinha diante de si
já não existissem. Estava trémulo e os seus maxilares moveram-se,
mas a garganta não produziu qualquer som.
Nessa altura, houve dois acontecimentos simultâneos: Elva
guinchou, desmaiando, e Galbatorix gritou:
— Waíse néiat!
Eragon não tinha tempo para usar palavras. Voltou a alimentarse
da energia dos Eldunarís e lançou um feitiço, arrastando-se a si,
Saphira, Arya, Elva, Thorn, Murtagh e as duas crianças que
estavam no estrado, para junto do bloco de pedra onde Nasuada
estava acorrentada. E lançou também um feitiço para deter ou
desviar o que quer que fosse que os pudesse atingir.
Estavam a meio caminho do bloco, quando Galbatorix
desapareceu num clarão de luz mais brilhante que o sol e, assim que
o feitiço de proteção de Eragon produziu efeito, tudo ficou negro e
em silêncio.

2 comentários:

  1. Tá aí uma punição melhor que a morte, sentir a dor que ele causou aos outros desde que nasceu

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  2. Tô amando o sofrimento do Galbatorix. .... ele mereceu tudo isso, mas tem que morrer, não confio nele vivo! E quero saber o que aconteceu com o Roran, por isso próximo capítulo urgente. Roran não pode morrer, ele tem que virar um cavaleiro!

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