24 de junho de 2017

Capítulo 67 - Músculos contra metal

R

oran gritou e saltou para o lado ao ver um tijolo de uma
chaminé a esmagar-se no chão, diante de si, seguido do corpo
de um dos arqueiros do Império.
Limpou o suor dos olhos, contornando o corpo e o amontoado
de tijolos espalhados, e saltou para os pontos em que o chão
estava desimpedido, tal como costumava saltitar de pedra em
pedra, no Rio Anora.
A batalha estava a correr mal. Isso era óbvio. Ele e os seus
guerreiros mantiveram-se perto da muralha exterior, pelo menos um
quarto de hora, a combater as vagas de soldados atacantes, mas
depois deixaram que os soldados os atraíssem de novo para o
espaço entre os edifícios. Ao fazer a retrospetiva, ele percebeu que
fora um erro. O combate nas ruas era desesperante, sangrento e
confuso. O seu batalhão dispersara-se e apenas um pequeno
número de guerreiros continuava perto — homens de Carvahall na
sua maioria, juntamente com quatro Elfos e vários Urgals. Os
restantes estavam dispersos pelas ruas mais próximas, a lutarem
sozinhos sem qualquer orientação.
Pior ainda: por alguma razão que os Elfos e os outros feiticeiros
não conseguiam explicar, a magia já não parecia funcionar como
devia. Tinham descoberto isso, quando um dos elfos tentara matar
um soldado com um feitiço e, em vez disso, fora um guerreiro dos
Varden que morrera, consumido pelo enxame de escaravelhos que
o elfo tinha invocado. Roran ficara enojado com aquela morte. Era
uma forma horrível e absurda de se morrer, e poderia ter
acontecido a qualquer um deles.
À sua direita, perto do portão principal, Lorde Barst continuava a
devastar o corpo principal do exército dos Varden. Roran vira-o
por diversas vezes: agora caminhava entre humanos, Elfos e Anões,
golpeando-os violentamente com o seu enorme bastão negro, como
se fossem pinos de madeira. Ninguém conseguia deter o
homenzarrão, muito menos feri-lo, e os que estavam em redor dele
afastavam-se apressadamente, evitando ficar ao alcance da sua
temível arma.
Roran vira também o rei Orik e um grupo de Anões a abrir
caminho por entre um grupo de soldados. O elmo, decorado com
jóias, de Orik brilhava à luz, enquanto ele brandia o seu pesado
martelo de guerra, Volund. Atrás de si, os seus guerreiros gritaram:
— Vor Orikz korda!
A quinze metros de Orik, Roran viu de relance a rainha Islanzadí
a rodopiar por entre os soldados, com a capa a esvoaçar e a sua
armadura brilhante como uma estrela entre aquela massa escura de
corpos. O seu companheiro, o corvo branco, esvoaçava em torno
da sua cabeça. O pouco que ele via de Islanzadí impressionava-o
pela sua destreza, ferocidade e bravura. Lembrava-lhe Arya,
concluindo que a rainha era melhor.
Um grupo de cinco soldados contornou a esquina de uma casa e
quase chocou com Roran. Os soldados gritaram e ergueram as
lanças, fazendo os possíveis para o empalar como uma galinha
assada. Ele baixou-se e esquivou-se, atingindo um dos homens na
garganta com a sua lança. O soldado ficou de pé mais um minuto,
mas não conseguia respirar convenientemente, e depressa caiu no
chão, fazendo tropeçar os companheiros.
Roran aproveitou a oportunidade, trespassando-os e golpeandoos.
Um dos soldados conseguiu golpear Roran no ombro direito e
ele sentiu a familiar quebra de energia no momento em que as suas
proteções desviaram a espada.
Estava surpreendido pelo fato de as suas defesas o protegerem,
pois momentos antes não tinham impedido que o rebordo de um
escudo lhe rasgasse a pele na face esquerda. O seu desejo era que
o problema da magia se resolvesse por si, de uma forma ou de
outra. Porém, da maneira como as coisas estavam, não se atrevia a
expor-se ao mínimo golpe.
Roran avançou na direção dos dois últimos soldados, mas antes
que os alcançasse, viu uma mancha de aço e as suas cabeças
caíram nas pedras da calçada, com uma expressão de surpresa. Os
corpos tombaram e Roran viu Angela, a herbolária, atrás deles,
com a armadura verde e negra, empunhando o seu bastão-espada.
Junto dela havia dois meninos-gatos, um na forma humana — uma
menina com o cabelo matizado e dentes aguçados,
ensanguentados, e uma longa adaga na mão — e o outro na forma
animal. Roran achou que seria Solembum, mas não tinha a certeza.
— Roran! Que bom ver-te — disse a herbolária com um sorriso
demasiado animado para as circunstâncias. — Encontrarmo-nos
aqui, imagina!
— Antes aqui do que no túmulo! — gritou ele, apanhando mais
uma lança e atirando-a a um homem que estava mais à frente, na
rua.—
Bem visto!
— Julgava que tinhas ido com Eragon.
Ela abanou a cabeça.
— Ele não me pediu e eu também não teria ido se ele pedisse.
Não estou à altura de Galbatorix. Além disso, Eragon tem os
Eldunarís para o ajudar.
— Já sabes? — perguntou ele, surpreendido.
Ela piscou-lhe o olhou, encoberto pelo rebordo do elmo.
— Eu sei muitas coisas.
Ele pigarreou e protegeu o ombro com o escudo, embatendo
contra um outro grupo de soldados. A herbolária e os homensgato
reuniram-se a ele, tal como Horst, Mandel e outros.
— Onde está o teu martelo? — gritou Angela, brandindo o seu
bastão laminado, aparando um golpe e ferindo um soldado de
seguida.
— Perdi-o! Deixei-o cair.
Alguém uivou de dor atrás dele. Roran olhou assim que pôde e
viu Baldor agarrado ao coto do braço direito. A mão estava no
chão, a estremecer.
Roran correu para ele, saltando por cima de vários cadáveres
que estavam no caminho. Horst estava já junto do filho, tentando
manter à distância o soldado que decepara a mão de Baldor.
Roran tirou a adaga e cortou uma tira de tecido da túnica de um
soldado caído, e disse:
— Pronto — e amarrou-a à volta do coto do braço de Baldor,
estancando a hemorragia.
A herbolária ajoelhou-se junto deles e Roran perguntou:
— Podes ajudá-lo?
Ela abanou a cabeça.
— Aqui não. Se usar magia ainda acabo por matá-lo. Mas, se o
conseguires levar para fora da cidade, os Elfos talvez lhe consigam
salvar a mão.
Roran hesitou. Não sabia se deveria mandar alguém levar
Baldor, em segurança, para fora de Urû’baen. Mas sem uma mão,
Baldor teria uma vida dura pela frente e Roran não tinha qualquer
desejo de o condenar a isso.
— Se não o quiseres levar, levo eu — gritou Horst.
Roran agachou-se, ao ver uma pedra do tamanho de um porco a
passar por cima da sua cabeça, roçando na parte da frente de uma
casa, espalhando pedaços de alvenaria pelo ar. Alguém gritou
dentro do edifício.
— Não, nós precisamos de ti. — Roran virou-se e escolheu dois
guerreiros, Loring, o velho sapateiro, e um Urgal. — Levem-no aos
curandeiros dos Elfos, o mais depressa possível — disse ele,
empurrando Baldor na direção deles. No caminho, Baldor apanhou
a mão e guardou-a debaixo da cota de malha.
O Urgal arreganhou os dentes, falando com um sotaque cerrado
que Roran mal conseguiu entender:
— Não, eu fico e luto — disse ele, batendo com a espada no
escudo.
Roran aproximou-se dele, agarrou num chifre da criatura e
puxou-o, torcendo a cabeça do Urgal.
— Vais fazer o que eu mandei — rugiu Roran. — Além disso, não é
uma tarefa fácil. Protege-o e conquistarás grande glória para ti e
para a tua tribo.
Os olhos do Urgal pareceram brilhar.
— Grande glória? — disse ele, mastigando as palavras entre os
dentes pesados.
— Grande glória! — confirmou Roran.
— Eu vou, Martelo Forte!
Aliviado, Roran viu os três partirem em direção à muralha
exterior, para poderem escapar ao combate. Também ficou
satisfeito por ver a mulher-gato em forma humana, a segui-los. A
menina de cabelo matizado e aparência ferina farejava o ar,
baloiçando a cabeça de um lado para o outro.
Entretanto foram atacados por outro grupo de soldados e Roran
esqueceu por completo Baldor. Detestava lutar com uma lança em
vez de um martelo, mas lá se adaptou, e algum tempo depois a rua
voltou a ficar calma, embora ele soubesse que seria por um curto
período de tempo.
Aproveitou a oportunidade para se sentar no degrau da frente de
uma casa e tentar recuperar o fôlego. Os soldados pareciam mais
frescos do que nunca, mas ele sentia a exaustão a pesar-lhe no
corpo e duvidava que conseguisse prosseguir durante muito mais
tempo sem cometer um erro fatal.
Ao sentar-se, ofegante, ouviu gritos vindos do portão destruído
da entrada principal de Urû’baen. Era difícil perceber o que se
estava a passar, mas desconfiava que os Varden estariam a ser
empurrados para trás, pois o ruído parecia recuar ligeiramente. No
meio da confusão, ele conseguia identificar as pancadas regulares
do bastão de Lorde Barst a atingir guerreiro atrás de guerreiro, bem
como a intensidade crescente dos gritos que invariavelmente se
seguia.
Roran fez um esforço para se levantar. Se ficasse sentado
durante muito mais tempo, os seus músculos começariam a ficar
rígidos. Instantes depois de se afastar do degrau da porta, o
conteúdo de um penico salpicou o local de onde acabara de se
levantar.
— Assassinos! — gritou uma mulher por cima dele, batendo com
as portadas da janela, ao fechá-las.
Roran roncou e avançou por entre os corpos, conduzindo os
guerreiros que lhe restavam para o cruzamento seguinte.
Um soldado cruzou-se com eles a correr, com o pânico
estampado no rosto, e eles pararam, cautelosamente. Um bando de
meninos-gatos seguia-o de perto, aos uivos, com sangue a escorrer
do pelo em torno da boca.
Roran sorriu e retomou a marcha.
Parou um segundo depois, ao ver um grupo de Anões de barbas
ruivas que corriam na direção deles, vindos do interior da cidade.
— Prepara-te! — gritou um deles. — Temos um batalhão inteiro de
soldados a perseguir-nos. No mínimo, umas centenas.
Roran olhou para trás, na direção do cruzamento deserto.
— Talvez os tenham... — ia ele a dizer, mas depois calou-se ao
ver uma linha de túnicas carmesim dobrar a esquina de um edifício,
a algumas dezenas de metros. Atrás deles começaram a aparecer
cada vez mais soldados. Saíam para a rua, aos magotes, como um
carreiro de formigas vermelhas.
— Para trás! — gritou Roran. — Para trás! — Temos de encontrar
um local defensável. — A muralha exterior estava demasiado longe e
nenhuma das casas tinha a dimensão suficiente para pátios
contíguos.
Enquanto corria pela rua abaixo com os seus guerreiros, cerca
de uma dúzia de flechas aterraram em redor deles.
Roran cambaleou e caiu, torcendo o corpo ao sentir uma
explosão de dor a percorrer-lhe a espinha, desde o fundo das
costas. Era como se alguém lhe tivesse batido com uma enorme
barra de ferro.
Segundos depois, a herbolária estava a seu lado, puxando algo
atrás dele e Roran gritou. Depois a dor abrandou e ele voltou a ver
claramente.
A herbolária mostrou-lhe uma flecha com a ponta
ensanguentada antes de a deitar fora.
— A tua cota de malha evitou o pior — disse ela, ajudando-o a
levantar-se.
Roran rangeu os dentes se afastou-se dela, voltando a reunir-se
ao seu grupo. Agora, cada passo que dava era doloroso, e se
dobrasse demasiado a cintura, sentia um espasmo nas costas,
tornando-lhe quase impossível mexer-se.
Não encontrou um local onde se pudessem aquartelar e os
soldados aproximavam-se, por isso acabou por gritar.
— Parem e formem-se! Elfos para os lados! Urgals à frente e ao
centro!
Roran ocupou a sua posição próxima da linha da frente,
juntamente com Darmmen, Albriech, os Urgals e um dos anões
ruivos.
— Então você é que és o Martelo Forte — disse o anão, enquanto
observavam o avanço dos soldados. — Eu lutei ao lado do teu
irmão adotivo, em Farthen Dûr. É uma honra lutar contigo.
Roran pigarreou. Só esperava conseguir aguentar-se de pé.
Depois os soldados investiram contra eles, empurrando-os para
trás só com o seu peso. Roran encostou o ombro ao escudo e
empurrou-os com toda a força. Espadas e lanças enfiavam-se pelos
intervalos da parede de escudos sobrepostos e ele sentiu uma a
arranhar-lhe o flanco, mas a sua cota de malha protegeu-o.
Os Elfos e os Urgals revelaram-se inestimáveis, destroçando as
linhas dos soldados e conquistando espaço para que Roran e os
outros guerreiros pudessem brandir as suas armas. Pelo canto do
olho, Roran viu o anão golpear os soldados nas pernas, nos pés e
nas virilhas, derrubando assim muitos.
Contudo, o número de soldados parecia nunca mais acabar, e
Roran deu consigo a recuar, passo a passo. Nem mesmo os Elfos
conseguiam conter a torrente de homens, por muito que tentassem.
Othíara, a mulher elfo com que Roran falara no exterior das
muralhas da cidade, morreu com uma flecha no pescoço e os
restantes Elfos sofreram bastantes ferimentos.
Roran também foi ferido mais algumas vezes: um golpe na parte
de cima da barriga da perna direita, que lhe teria apanhado o
tendão se fosse um pouco mais acima; um outro golpe na coxa da
mesma perna, ao ser atingido por uma espada que deslizara por
baixo da cota de malha; um doloroso arranhão no pescoço, ao
bater nele com o próprio escudo; uma facada na parte interior da
perna direita, que felizmente não lhe atingiu as artérias principais; e
incontáveis contusões. Era como se lhe tivessem martelado o corpo
todo com um malho de madeira e, depois, um par de desastrados o
tivesse usado como alvo para lançar facas.
Recuou várias vezes da linha da frente para testar os braços e
recuperar o fôlego, mas pouco depois voltava sempre a reunir-se à
luta. Os edifícios em torno deles abriram-se e Roran percebeu que os
soldados tinham conseguido levá-los para a praça, diante do portão
destruído de Urû’baen. Agora havia inimigos à frente e atrás.
Roran arriscou olhar por cima do ombro e viu os Elfos e os
Varden a recuarem diante de Barst e dos seus soldados.
— Para a direita! — gritou Roran. — Para a direita! Para junto dos
edifícios! — E apontou com a lança ensanguentada.
Os guerreiros reunidos atrás de si, deslocaram-se para o lado
com alguma dificuldade e subiram os degraus da fachada de um
enorme edifício de pedra, com uma fila dupla de colunas mais altas
do que qualquer árvore da Espinha. Por entre as colunas, Roran
julgou ver uma entrada escura, em arco, suficientemente larga para
acomodar Saphira, ou mesmo Shruikan.
— Para cima! Para cima! — gritou Roran, e os homens, Anões,
Elfos e Urgals correram com ele até ao cimo das escadas. Aí,
instalaram-se entre os pilares, repelindo a vaga de soldados que
corria atrás deles. Desse ponto elevado, uns seis metros acima do
nível das ruas, Roran viu que o Império quase que tinha forçado os
Varden e os Elfos a sair pela abertura na muralha exterior.
“Seremos derrotados”, pensou, com uma súbita sensação de
desespero.
Os soldados voltaram a subir os degraus. Roran esquivou-se de
uma lança e pontapeou o lanceiro na barriga, atirando com o
soldado e com outros dois homens pelas escadas.
Uma azagaia saiu disparada de uma balista próxima, na direção
de Lorde Barst, e quando ainda estava a alguns metros dele,
irrompeu em chamas e desfez-se em pó, tal como todas as flechas
disparadas sobre o homem de armadura.
“Temos de o matar”, pensou Roran. Se Barst tombasse, os
soldados iriam provavelmente destroçar-se e perder a confiança.
Mas, uma vez que nem os Elfos nem os Kull tinham conseguido
detê-lo, parecia pouco provável que mais alguém o conseguisse, a
não ser Eragon.
Ao mesmo tempo que lutava, Roran olhava para a enorme figura
de armadura, esperando ver algo que sugerisse uma forma de ser
derrotado. Reparou que Barst coxeava ligeiramente, como se em
tempos tivesse sofrido algum ferimento no joelho ou na anca, e
parecia também ligeiramente mais lento.
“Afinal ele também tem limites”, pensou Roran. “Ou melhor, o
Eldunarí tem limites.”
Depois, gritou, aparou a espada do soldado que o atacara e,
subitamente, puxou o escudo para cima, atingindo-o por baixo do
maxilar e matando-o de imediato.
Roran estava sem fôlego e enfraquecido, devido aos ferimentos.
Por isso recolheu-se atrás de uma das colunas e encostou-se a ela.
Depois tossiu e cuspiu, vendo que a saliva tinha sangue, mas
deduziu que fosse apenas do sítio onde mordera a boca por dentro,
e não de um pulmão perfurado. Pelo menos assim o esperava.
Sentia as costelas tão doridas que era bem possível que uma delas
estivesse partida.
Ouviu-se um grande grito entre os Varden e Roran espreitou
pelo pilar, vendo a rainha Islanzadí e doze elfos a cavalgarem pelo
recinto da batalha, na direção de Lorde Barst. O corvo branco, que
estava de novo sobre o ombro esquerdo de Islanzadí, grasnava e
erguia as asas para se equilibrar no seu poleiro móvel. Islanzadí
empunhava a espada e os outros elfos estavam armados de lanças,
com estandartes presos junto às lâminas em forma de folha.
Roran encostou-se ao pilar, com uma esperança crescente
dentro de si:
— Matem-no! — rugiu.
Barst não fez qualquer gesto para evitar os elfos e ficou à espera
deles, de pés afastados, com o bastão e o escudo de ambos os
lados do corpo, como se não precisasse de se defender.
Ao longo das ruas, a luta parou e todos se viraram para ver o
que iria acontecer.
Os dois elfos que vinham à frente baixaram as lanças e os seus
cavalos largaram a galope, contraindo e distendendo os músculos
sob um pelo luzidio, e cobriram a curta distância que os separava
de Barst. Por instantes parecia certo que Barst iria cair. Ninguém
conseguiria aguentar um ataque assim, a pé.
As lanças não chegaram a tocar em Barst, na medida em que as
suas proteções as detiveram à distância de um braço. As hastes
estilhaçaram-se nas mãos dos elfos, desfazendo-se em lascas de
madeira sem qualquer préstimo. Depois, Barst ergueu o bastão e o
escudo, atingindo os cavalos de ambos os lados na cabeça, e
partiu-lhes o pescoço, matando-os.
Os cavalos caíram e os elfos que os montavam saltaram,
torcendo-se no ar.
Os outros dois elfos não tiveram tempo para mudar de direção,
antes de alcançarem Barst. Tal como os seus predecessores, as
suas lanças estilhaçaram-se nas proteções de Barst e saltaram
também dos cavalos quando este derrubou os animais.
Nessa altura já os outros oito elfos, incluindo Islanzadí, tinham
conseguido desviar-se e deter os animais. Trotavam agora em
círculo, à volta de Barst, sempre de armas apontadas a ele.
Enquanto isso, os outros quatro elfos que estavam no chão,
desembainharam as espadas e avançaram cautelosamente na
direção de Barst.
O homem deu uma gargalhada e ergueu o escudo, preparandose
para o ataque. A luz iluminou-lhe o rosto, por baixo do elmo, e
mesmo à distância Roran viu-lhe a testa larga e pesada, e as maçãs
do rosto salientes. Em determinados aspectos, lembrava-lhe o rosto
de um Urgal.
Os quatro elfos correram para Barst, de direções distintas,
tentando cortá-lo e trespassá-lo em simultâneo. Barst aparou uma
das espadas com o escudo, desviou outra com o bastão, deixando
que as proteções detivessem as espadas dos elfos que estavam
atrás dele. Depois soltou outra gargalhada e brandiu a arma.
Um elfo de cabelos prateados atirou-se para o lado e o bastão
passou inofensivamente por ele.
Barst brandiu-o mais duas vezes e os elfos voltaram a conseguir
esquivar-se. Barst não revelava quaisquer sinais de frustração,
curvando-se atrás do escudo e aguardando o momento oportuno
para atacar, como um urso à espera que alguém cometesse a
imprudência de entrar no seu covil.
Do lado de fora do anel de elfos, um bloco de soldados
armados de alabardas gritaram e largaram a correr na direção da
rainha Islanzadí e dos seus companheiros. Sem se deter, a rainha
ergueu a espada por cima da cabeça e uma rajada de flechas zuniu
das fileiras dos Varden, abatendo os soldados.
Roran gritou de excitação, assim como muitos dos Varden.
Barst desviara-se para junto dos corpos dos quatro cavalos que
matara e, agora, estava no meio dos animais para que os corpos
formassem uma parede baixa e larga em torno de si. Os elfos à sua
esquerda e à sua direita não teriam outro remédio senão saltar
sobre os cavalos para o atacar.
“Inteligente”, pensou Roran, franzindo a sobrancelha.
O elfo diante de Barst correu para a frente, gritando algo na
língua antiga. Barst pareceu hesitar, fato que encorajou o elfo a
aproximar-se mais. Depois Barst saltou para a frente, desferiu um
golpe com o bastão e o elfo tombou desfeito.
Um gemido ecoou entre os Elfos.
Depois, os outros três elfos a pé foram mais cautelosos,
continuaram a andar em círculo em torno Barst e corriam
esporadicamente na direção dele, para o atacar, mas mantendo
quase sempre a distância.
— Rende-te! — exclamou Islanzadí e a sua voz ecoou pelas ruas.
— Somos mais do que tu. Por muito forte que sejas, acabarás por te
cansar e as tuas proteções falharão. Não podes ganhar, humano.
— Ai não? — reagiu Barst, endireitando-se e largando o escudo
que caiu ruidosamente no chão.
Subitamente, Roran ficou apavorado. “Fujam”, pensou.
— Fujam! — gritou meio segundo mais tarde.
Tarde de mais.
Curvando os joelhos, Barst agarrou no pescoço de um dos
cavalos, erguendo-o com o braço esquerdo e atirou-o à rainha
Islanzadí.
Roran não percebeu se ela falou na língua antiga mas viu-a
erguer a mão e o corpo do cavalo e parou em pleno ar, caindo
depois sobre as pedras da calçada, onde aterrou com um ruído
muito desagradável. O corvo, no seu ombro, grasnou.
Barst, contudo, naquele momento, não estava a olhar para ela.
Assim que largou a carcaça, agarrou no escudo e correu na direção
do cavaleiro elfo, mais próximo. Um dos três elfos que restavam, a
pé — uma mulher com uma faixa vermelha, atada à parte superior
do braço — correu na direção dele, tentando golpeá-lo nas costas,
mas Barst ignorou-a.
Numa extensão de terra plana, os cavalos dos elfos teriam
conseguido distanciar-se de Barst, mas no espaço limitado entre os
edifícios e a massa compacta de guerreiros, Barst era mais rápido e
mais ágil.
Barst bateu com o ombro nas costelas de um dos cavalos e
atirou-o ao chão, brandindo o bastão a um elfo montado num outro
cavalo e derrubando-o da sela. O cavalo relinchou.
O círculo de elfos a cavalo desintegrou-se e todos se desviaram
em direções diferentes, na tentativa de acalmar as montadas e lidar
com a ameaça que tinham diante de si.
Meia dúzia de elfos irromperam de uma multidão de soldados
que estava ali perto e cercaram Barst, tentando atacá-lo a uma
velocidade frenética. Barst desapareceu por instantes atrás deles,
erguendo depois o bastão e atirando com três deles. Depois de
atingir outros dois, Barst continuou a andar, com sangue e pedaços
de carne agarrados aos rebordos da sua arma negra.
— Agora! — rugiu Barst. E centenas de soldados correram de
todos os pontos da praça, atacando os Elfos e forçando-os a
defenderem-se.
— Não — gritou Roran, horrorizado. Teria corrido com os seus
guerreiros para os ajudar, mas havia demasiados corpos — tanto
vivos como mortos — entre eles, Barst e os Elfos. Roran olhou de
relance para a herbolária, que parecia tão preocupada como ele e
disse: — Podes fazer alguma coisa?
— Poder posso, mas não apostaria a minha vida nem a de
ninguém aqui presente.
— Galbatorix também?
— Ele está demasiado protegido. O nosso exército seria
destruído, bem como quase toda a gente em Urû’baen. Mesmo os
que estão no nosso acampamento poderiam morrer. É isso que
queres?
Roran abanou a cabeça.
— Bem me parecia.
Movendo-se com uma rapidez inquietante, Barst golpeou elfo
atrás de elfo, derrubando-os facilmente. Uma das vezes, atingiu o
ombro da mulher elfo com a faixa vermelha e esta caiu
desamparada de costas. A seguir, ela apontou para Barst e gritou
na língua antiga. O feitiço correu mal e outro elfo tombou para a
frente, caindo da sela do cavalo, com a parte da frente do corpo
aberta de cima a baixo.
Barst matou a mulher elfo com um golpe do bastão e continuou a
correr de uns cavalos para os outros, até alcançar Islanzadí
montada na sua égua branca.
A rainha elfo não esperou que Barst matasse o seu cavalo,
saltando da sela, com a capa vermelha a ondular. O companheiro,
o corvo branco, bateu as asas e voou do seu ombro.
Islanzadí atacou Barst antes de tocar com os pés no chão. A sua
espada cortava o ar como uma mancha brilhante de aço, retinindo
ao colidir ruidosamente com as proteções de Barst.
Barst retaliou com um golpe que Islanzadí aparou com um hábil
movimento do pulso, arrancando-lhe o bastão coberto de espigões,
que caiu ruidosamente nas pedras da calçada. Amigos e inimigos
pararam para os ver lutar, abrindo um espaço em torno deles. O
corvo voava em círculos por cima deles, guinchando e praguejando
no tom áspero da sua espécie.
Roran nunca vira uma luta assim. Os golpes de Islanzadí e de
Barst eram demasiado rápidos para se conseguirem distinguir —
nada mais que uma mancha indistinta — e o som do choque das
armas sobrepunha-se a todos os outros ruídos na cidade.
Barst tentou, repetidas vezes, esmagar Islanzadí com o bastão,
da mesma forma que esmagara os outros elfos. Mas ela era
demasiado rápida, revelando-se suficientemente forte para aparar
os seus golpes sem qualquer dificuldade, com igual força. Roran
deduziu que os outros elfos a estivessem a ajudar, pois ela parecia
não se cansar, apesar dos seus esforços.
Um Kull e dois elfos reuniram-se a Islanzadí, mas Barst não lhes
deu atenção a não ser para os matar, um por um, logo que
cometeram o erro de se aproximarem demasiado.
Roran deu consigo a agarrar a coluna com tanta força que
começou a sentir cãibras nas mãos.
Passaram-se alguns minutos e Islanzadí e Barst continuavam a
lutar, para trás e para diante, na rua. A rainha elfo era maravilhosa,
em movimento — rápida, ágil, poderosa — e, ao contrário de Barst,
não podia cometer — nem cometeu — um único erro, pois as suas
defesas não a podiam proteger. A admiração de Roran por
Islanzadí aumentava a cada minuto que passava e ele sentiu estar a
assistir a um combate sobre o qual se iria cantar durante séculos.
O corvo mergulhava frequentemente sobre Barst, tentando
distraí-lo de Islanzadí, mas Barst ignorou a ave depois das suas
primeiras tentativas, sabendo que a criatura enlouquecida não lhe
poderia tocar e que lhe era difícil manter-se longe do bastão.
O corvo parecia frustrado, pois guinchava mais alto e mais
frequentemente, e mostrava-se mais ousado nos ataques, que o
aproximavam cada vez mais do pescoço e da cabeça de Barst.
Finalmente, quando a ave voltou a picar voo em direção a Barst,
este torceu o bastão para cima, desviando-o do seu curso em pleno
ar, e atingiu o corvo na asa direita. A ave guinchou de dor e caiu
uns trinta centímetros em direção ao solo, antes de lutar para se
elevar no ar.
Barst voltou a tentar atingir o corvo, mas Islanzadí deteve o
bastão com a espada e os dois ficaram frente a frente, de armas
cruzadas em cima, Islanzadí com a lâmina da espada presa em
cunha contra os rebordos do bastão.
Elfos e humanos baloiçavam-se uns contra os outros. Nenhuma
das partes conseguia ganhar vantagem sobre a outra. Depois a
rainha Islanzadí gritou uma palavra na língua antiga e as suas armas
chocaram, projetando um clarão de luz brilhante.
Roran franziu os olhos e protegeu-os com a mão, desviando o
olhar.
Durante um minuto, tudo o que se ouviu foram os gritos dos
feridos e um som metálico, semelhante a um sino, e que se tornou
cada vez mais intenso até se revelar praticamente insuportável.
Mais ao lado, Roran viu o menino-gato com Angela a encolher as
orelhas franjadas, tapando-as com as patas.
Quando o som atingiu o seu auge de intensidade, a lâmina da
espada de Islanzadí rachou-se e a luz dissipou-se, tal como o ruído
do sino.
Depois, a rainha elfo atacou o rosto de Barst com a ponta
partida da espada e disse:
— Assim te amaldiçoo, Barst, filho de Berengar!
Barst deixou a espada bater nas suas defesas e depois brandiu
mais uma vez o bastão, atingindo a rainha Islanzadí entre o pescoço
e o ombro. E ela caiu no chão, com o sangue a manchar-lhe a
armadura dourada de cota de escamas.
Tudo ficou em silêncio.
O corvo branco voou uma vez, em círculo, sobre o corpo de
Islanzadí, e deixou escapar um guincho lamentoso. Depois voou
lentamente, em direção à brecha da muralha exterior, com as penas
da asa ferida vermelhas e amachucadas.
Um grande lamento ecoou entre os Varden e os homens que
estavam nas ruas largaram as armas e fugiram. Os Elfos gritaram de
dor e de fúria — um som horrível —, e todos os que estavam
armados de arcos começaram a disparar flechas sobre Barst, mas
estas irrompiam em chamas antes de o atingirem. Uma dúzia de
elfos atacaram-no, mas Barst atirou com eles como se fossem
crianças. Outros cinco elfos correram para o recinto, ergueram o
corpo de Islanzadí e transportaram-na sobre os escudos em forma
de folha.
Uma sensação de incredibilidade apossou-se de Roran. Islanzadí
era quem ele menos esperava que morresse, de entre todos. Olhou,
de relance, para os homens que fugiam, amaldiçoando a sua traição
e a sua cobardia. Depois voltou a olhar para Barst, que
reorganizava as tropas, preparando-se para expulsar os Varden e
os seus aliados de Urû’baen.
O fosso no estômago de Roran aumentou. Os Elfos talvez
continuassem a lutar, mas os homens, os Anões e os Urgals já não
estavam interessados. Via-se nas suas expressões. Iriam destroçarse
e bater em retirada, e Barst iria chaciná-los, às centenas, pelas
costas. Roran tinha a certeza de que Barst não se iria ficar pelas
muralhas de cidade. Ele avançaria pelos campos, para lá das
muralhas, e perseguiria os Varden até ao acampamento,
dispersando e matando tantos quantos pudesse.
Era o que ele próprio faria.
Pior do que isso: se Barst alcançasse o acampamento, Katrina
ficaria em perigo e Roran não tinha ilusões sobre o que lhe
aconteceria, se os soldados a apanhassem.
Roran olhou para as mãos ensanguentadas. “Barst tinha de ser
detido. Mas como?” Deu voltas à cabeça, pensando em tudo o que
sabia acerca de magia até que, finalmente, se lembrou do que
sentira quando os soldados o seguraram e lhe bateram.
Respirou fundo, tremulamente.
Havia uma forma, mas era perigosa, terrivelmente perigosa. Se
fizesse o que tinha em mente, sabia que poderia não voltar a ver
Katrina, muito menos o seu filho por nascer. Contudo, essa
evidência trouxe-lhe uma certa paz. Trocar a sua vida pela deles,
era uma troca justa e, se ao mesmo tempo, pudesse ajudar a salvar
os Varden, sacrificá-la-ia de bom grado.
“Katrina...”
A decisão era fácil.
Ergueu a cabeça e aproximou-se da herbolária. Ela parecia tão
chocada e abalada pela dor como qualquer um dos Elfos. Roran
tocou-lhe no ombro com a borda do escudo e disse-lhe:
— Preciso da tua ajuda.
Ela fitou-o com os olhos vermelhos.
— O que tencionas fazer?
— Matar Barst. — As suas palavras chamaram a atenção de todos
os guerreiros em redor.
— Não, Roran! — exclamou Horst.
A herbolária acenou com a cabeça.
— Ajudarei como puder.
— Ótimo. Quero que vás buscar Jörmundur, Garzhvog, Orik,
Grimrr e um dos elfos que ainda tenha alguma autoridade.
A mulher de cabelo encaracolado fungou e limpou os olhos.
— Onde queres que eles se encontrem contigo?
— Aqui mesmo. Despacha-te, antes que fujam mais homens!
Angela acenou com a cabeça e afastou-se com o menino-gato,
caminhando junto dos edifícios para se proteger.
— Roran — disse Horst, agarrando-lhe no braço —, o que tens em
mente?
— Não vou enfrentá-lo sozinho, se é isso que você está a pensar —
disse Roran, acenando em direção a Barst.
Horst pareceu um tanto aliviado.
— Então o que vais fazer?
— Verás.
Alguns soldados armados de piques subiram os degraus do
edifício a correr, mas os Anões ruivos que se tinham reunido às
tropas de Roran contiveram-nos facilmente, beneficiando mais uma
vez da vantagem da altura sobre os seus adversários.
Enquanto os Anões lutavam com os soldados, Roran
aproximou-se de um elfo que estava ali perto — de dentes
arreganhados — a esvaziar a sua aljava a uma velocidade
prodigiosa, disparando flechas em arco na direção de Barst. É
claro que nenhuma atingiu o alvo.
— Basta! — disse Roran. Ao ver que o elfo o ignorara, Roran
agarrou-lhe na mão direita — a mão que empunhava o arco — e
puxou-a para o lado. — Eu disse basta! Poupa as tuas flechas.
Ouviu-se um rosnido e Roran sentiu uma mão em torno da
garganta.
— Não me toques, humano.
— Escuta! Eu posso ajudar-te a matar Barst. Mas... larga-me!
Segundos depois, os dedos que apertavam o pescoço de Roran,
afrouxaram a pressão.
— Como, Martelo Forte? — A sede de sangue na voz do elfo
contrastava com as lágrimas que lhe escorriam pelas faces.
— Descobrirás dentro de um minuto, mas primeiro tenho uma
pergunta a fazer-te. Porque não conseguem matar Barst com as
vossas mentes? Ele é apenas um e vocês são muitos.
Uma expressão angustiada surgiu no rosto do elfo.
— Porque a sua mente está escondida!
— Como?
— Não sei. Não conseguimos sentir os seus pensamentos. É
como se houvesse uma redoma em torno da mente dele. Não
conseguimos ver nada no interior da redoma, nem conseguimos
penetrá-la.
Roran já esperava uma resposta desse tipo.
— Obrigado — agradeceu ele e o elfo curvou ligeiramente a
cabeça em sinal de reconhecimento.
Garzhvog foi o primeiro a alcançar ao edifício. Saiu de uma rua
próxima, subiu os degraus com dois grandes passos e virou-se,
rugindo aos trinta soldados que o seguiam. Ao verem o Kull a salvo
entre amigos, os soldados recuaram cautelosamente.
— Martelo Forte — exclamou Garzhvog —, você chamaste-me e
eu vim.
Passados alguns minutos, os outros que Roran mandara a
herbolária procurar chegaram ao grande edifício de pedra. O elfo
que se apresentou tinha cabelo prateado e Roran vira-o várias
vezes na companhia de Islanzadí. Lorde Däthedr era o seu nome.
Reuniram-se os seis entre as colunas estriadas. Todos eles estavam
ensanguentados e exaustos.
— Eu tenho um plano para matar Barst — disse Roran —, mas
preciso da vossa ajuda e temos pouco tempo. Posso contar
convosco?
— Depende do plano — disse Orik. — Primeiro, fala-nos dele.
Roran explicou-o o mais rapidamente possível. Quando terminou
perguntou a Orik:
— Os vossos operadores conseguem apontar as catapultas e as
balistas com o rigor necessário?
O anão pigarreou.
— Da forma como os humanos constroem as suas máquinas de
guerra, não. Conseguimos lançar uma pedra com um desvio de seis
metros do alvo. Mais perto do que isso, será apenas por sorte.
Roran olhou para o elfo Lorde Däthedr.
— Os outros da tua espécie alinharão contigo?
— Irão obedecer às minhas ordens, Martelo Forte, não
duvides.
— Então mandarás alguns dos teus feiticeiros acompanhar os
Anões para guiarem as pedras?
— Não há garantias de sucesso. Os feitiços podem facilmente
falhar ou correr mal.
— Teremos de correr esse risco. — Roran passou os olhos pelo
grupo. — Por isso, volto a perguntar: posso contar convosco?
Um novo coro de gritos explodiu lá fora, junto das muralhas da
cidade, enquanto Barst abria caminho por entre um grupo de
homens, à bastonada.
Garzhvog foi o primeiro a responder, para surpresa de Roran.
— A batalha enlouqueceu-te, Martelo Forte, mas eu alinho
contigo — disse ele, com um ruc-ruc, que Roran associou a uma
gargalhada. — Conquistaremos grande glória ao matar Barst.
Depois, Jörmundur disse:
— Eu também alinho contigo, Roran. Creio que não temos
alternativa.
— De acordo — disse Orik.
— De acorrrdo — disse Grimrr, o rei dos meninos-gatos, alongando
a palavra com um rosnido gutural.
— Então vão! — disse Roran. — Já sabem o que têm de fazer!
Vão!
Quando os outros partiram, Roran reuniu os seus guerreiros e
revelou-lhes o plano. Agacharam-se entre as colunas e esperaram.
Demoraram três ou quatro minutos — tempo precioso durante o
qual Barst e os seus soldados continuaram a empurrar os Varden
para a brecha da muralha exterior — mas, depois, Roran viu grupos
de Anões e Elfos a correram para as doze balistas e catapultas mais
próximas, nas muralhas, desembaraçando-se dos soldados que as
manobravam.
Passaram-se mais alguns minutos de tensão. Orik subiu
apressadamente os degraus do edifício, juntamente com trinta dos
seus Anões, e disse a Roran:
— Eles estão prontos!
Roran acenou com a cabeça e disse a todos os que estavam
com ele:
— Assumam as vossas posições!
Os guerreiros que restavam no seu batalhão formaram-se numa
cunha cerrada, com Roran à frente e os Elfos e os Urgals
imediatamente atrás. Orik e os seus Anões ficaram à retaguarda.
Assim que todos os guerreiros ocuparam as respetivas posições,
Roran gritou:
— Avante! — E desceu os degraus a correr, avançando para o
meio dos soldados inimigos, consciente de que o resto do grupo o
seguia de perto.
Os soldados não estavam à espera do ataque, afastando-se
diante de Roran como a água na quilha de um navio.
Um homem tentou bloquear o caminho a Roran e este furou-lhe
um olho, sem se deter.
A cerca de quinze metros de Barst, que estava de costas para
eles, Roran parou, tal como os guerreiros atrás de si. Depois,
dirigindo-se a um dos Elfos, ele disse:
— Faz com que toda a gente na praça me oiça.
O elfo murmurou algo na língua antiga e disse:
— Já está.
— Barst! — gritou Roran, ficando aliviado ao ouvir a sua voz
ecoar por todo o recinto da batalha. O combate nas ruas parou,
salvo algumas escaramuças individuais que ocorriam aqui e ali.
O suor escorria-lhe pela testa e o coração martelava-lhe o peito,
mas Roran combateu o medo:
— Barst! — gritou ele, de novo, batendo com a espada na parte
da frente do escudo. — Vira-te e luta comigo, meu canalha pejado
de larvas!
Um soldado correu para ele, mas Roran aparou-lhe a espada e
derrubou-o com um movimento simples, matando-o com duas
estocadas rápidas. Depois, arrancou a lança do corpo do soldado
e voltou a chamar:
— Barst!
A figura corpulenta e pesada virou-se lentamente para ele. Ao
olhá-lo mais de perto, Roran viu uma inteligência matreira nos olhos
de Barst e um sorriso desdenhoso a arrepanhar-lhe cantos de uma
boca infantil. O pescoço dele era da grossura da sua coxa e os
músculos nodosos dos braços destacavam-se por baixo da cota de
malha. Os reflexos do seu peito de armas saliente continuavam a
prender o olhar de Roran, apesar dos esforços para os ignorar.
— Barst! O meu nome é Roran, Martelo Forte, primo de
Eragon, Matador de Espectros! Atreve-te a lutar comigo, ou
deixa que todos os presentes te julguem um cobarde.
— Nenhum homem me assusta, Martelo Forte, ou deverei
dizer Sem Martelo? É que não vejo martelo algum contigo.
Roran empertigou-se.
— Não preciso de um martelo para te matar, meu lambe-botas
sem barba.
— Ai não? — O sorriso de Barst alargou-se. — Deem-nos espaço!
— gritou ele, brandindo o bastão aos soldados e aos Varden.
Os exércitos recuaram, produzindo um rumor suave de milhares
de pés a andarem para trás, e abriram uma grande área circular em
torno de Barst. Este apontou o bastão a Roran:
— Galbatorix falou-me de ti, Sem Martelo, e disse-me que te
deveria partir todos os ossos do corpo antes de te matar.
— E se em vez disso for eu a partir os teus? — reagiu Roran.
“Agora!”, pensou ele, concentrando-se tanto quanto possível e
gritando para a escuridão em torno da sua mente, na esperança de
que os Elfos e os outros feiticeiros estivessem a ouvir, tal como o
prometido.
Barst franziu a sobrancelha e abriu a boca, mas antes que
conseguisse falar, um ruído grave e sibilante ecoou sobre a cidade.
Seis projéteis de pedra — cada um do tamanho de um barril —
saíram disparados das catapultas das muralhas, sobrevoando as
casas. Junto dos projéteis vinham meia dúzia de azagaias.
Cinco das pedras aterraram em cheio em cima de Barst. A sexta
falhou, saltando pela praça como um seixo sobre a água, e
derrubou homens e Anões.
As pedras racharam-se e explodiram ao atingirem as proteções
de Barst, projetando fragmentos em todas as direções. Roran
escondeu-se atrás do escudo e quase caiu ao ser atingido por um
pedaço de pedra do tamanho de um punho, que bateu no escudo e
lhe contundiu o braço. As azagaias desapareceram num clarão de
chamas amarelas, projetando um brilho macabro nas nuvens de pó
que flutuavam, no local onde Barst estava.
Assim que percebeu que não havia perigo, Roran olhou por cima
do escudo.
Barst estava prostrado de costas, no meio do entulho, com o
bastão caído no chão, a seu lado.
— Apanhem-no! — gritou Roran, correndo para a frente.
Muitos dos Varden correram na direção de Barst, mas os
soldados com quem tinham estado a lutar gritaram e atacaram-nos,
impedindo-os de dar mais do que alguns passos. Ouviu-se um
rugido e ambos os exércitos voltaram a defrontar-se, inflamados de
uma raiva desesperada.
Enquanto isso, Jörmundur emergiu de uma rua lateral,
conduzindo uma centena de homens que mobilizara nas franjas do
combate. Ele e os que o acompanhavam ajudariam a conter a turba
de combatentes, enquanto Roran e os outros lidavam com Barst.
Do lado oposto da praça, Garzhvog e seis outros Kull saíram a
correr de trás das casas onde se tinham abrigado. O chão
estremeceu com os seus passos pesados e tanto os homens do
Império como os Varden se desviaram apressadamente do seu
caminho.
Depois, centenas de meninos-gatos — a maioria na forma animal —
irromperam do corpo principal da contenda, correndo pelas pedras
da calçada, de dentes arreganhados, direitos ao local onde Barst
estava caído.
Barst começava a mexer-se quando Roran o alcançou. Este
agarrou na lança com ambas as mãos e atacou o pescoço de Barst.
A lâmina da arma parou a trinta centímetros e a ponta dobrouse,
partindo-se, como se tivesse embatido num bloco de granito.
Roran praguejou e continuou a tentar golpeá-lo tão depressa
quanto possível, impedindo que o Eldunarí escondido dentro do
peito de armas de Barst recuperasse a sua força.
Barst rosnou.
— Depressa! — gritou Roran aos Urgals.
Assim que se aproximaram o suficiente, Roran saltou para o
lado, dando todo o espaço necessário aos Kull, e os enormes
Urgals começaram a golpeá-lo. As suas proteções bloqueavam os
golpes mas os Kull continuaram a atacá-lo. O ruído era
ensurdecedor.
Meninos-gatos e Elfos reuniram-se em torno de Roran.
Roran tinha uma vaga noção de que os homens que trouxera
consigo estavam atrás, a tentar conter os soldados, juntamente com
os homens de Jörmundur.
Quando começou a pensar que as proteções de Barst jamais
iriam ceder, um dos Kull deu um grito triunfante e Roran viu o
machado da criatura roçar na parte da frente da armadura de Barst,
amolgando-a.
— Outra vez! — gritou Roran. — Agora! Matem-no!
O Kull desviou o machado e Garzhvog brandiu o seu bastão
revestido de ferro, na direção da cabeça de Barst.
Roran viu uma série de movimentos confusos e depois ouviu uma
pancada seca. O bastão atingira o escudo com que Barst se cobrira
para se proteger.
“Raios!”
Antes que os Urgals o conseguissem atacar de novo, Barst
rebolou contra as pernas de um Kull e a sua mão prendeu-lhe a
parte de trás do joelho direito. O Kull gritou de dor e saltou para
trás, arrastando Barst para fora do grupo.
Os Urgals e os Elfos voltaram a cercar Barst e, por instantes,
parecia que o dominariam.
Depois, um dos elfos foi projetado pelo ar, com o pescoço
torcido num ângulo estranho e um Kull tombou de lado, gritando na
sua língua nativa. Tinha um osso saído do antebraço esquerdo.
Garzhvog rugiu e saltou para trás, com sangue a jorrar-lhe de um
buraco do tamanho de um punho, de um dos lados do corpo.
— Não! — gritou Roran, gelado. Não pode acabar assim. Eu não
vou permitir!
Depois gritou e correu para diante, esgueirando-se por entre os
dois gigantescos Urgals. Mal teve tempo de olhar para Barst —
ensanguentado e enraivecido, com o escudo numa mão e a espada
na outra —, pois este atingiu-o com escudo no flanco esquerdo.
Roran ficou sem ar nos pulmões. O céu e a terra giraram em
torno dele e ele sentiu a cabeça protegida pelo elmo saltar contra as
pedras da calçada.
Mesmo depois de se imobilizar, o mundo pareceu continuar a
girar.
Deixou-se ficar onde estava, durante algum tempo, tentando
respirar. Por fim conseguiu encher os pulmões de ar, sentindo-se
mais grato que nunca por conseguir respirar. Depois arfou e uivou
de dor. Tinha o braço esquerdo dormente, mas todos os outros
músculos e tendões ardiam-lhe.
Tentou erguer-se, mas voltou a cair sobre o estômago,
demasiado tonto e dorido para se levantar. Diante de si havia um
fragmento amarelado de pedra, raiado de veios serpenteantes de
ágata vermelha. Ficou a olhá-lo, ofegante, e durante todo esse
tempo a única coisa em que pensava era: “Tenho de me levantar.
Tenho de me levantar. Tenho de me levantar...”
Quando achou que estava preparado, voltou a tentar levantarse,
mas o braço esquerdo recusava-se a colaborar, por isso teve
de se apoiar apenas no direito. Com alguma dificuldade, conseguiu
apoiar as pernas no chão e erguer-se lentamente, a tremer, incapaz
de respirar com normalidade.
Ao endireitar-se sentiu algo a repuxar-lhe o ombro direito e
Roran gritou em silêncio. Era como se tivesse uma faca
incandescente enterrada na articulação. Olhou para baixo e viu que
tinha o braço deslocado. Tudo o que restava do seu escudo era
uma prancha estilhaçada, agarrada à correia que estava presa ao
seu antebraço.
Roran virou-se, à procura de Barst e viu-o a trinta metros de
distância, coberto de meninos-gatos de garras de fora.
Satisfeito por ver que Barst teria o que fazer durante alguns
segundos, Roran voltou a olhar para o braço deslocado. A
princípio não conseguiu lembrar-se do que a sua mãe lhe ensinara,
mas depois voltou a ouvir as suas palavras, distantes e esbatidas
pelo tempo, e tirou os restos do escudo.
— Cerra o punho — murmurou Roran, fechando a mão esquerda.
— Dobra o braço com o punho a apontar para fora. — Roran assim
fez, embora a dor piorasse. — Vira o braço para fora, afastando-o
do... — Praguejou alto ao sentir o ombro ranger, repuxando-lhe
anormalmente os tendões e os músculos. Continuou a virar o braço,
de punho cerrado, e segundos depois o osso voltou a encaixar-se
na articulação.
O alívio foi imediato. Ainda sentia dores pelo corpo todo —
especialmente ao fundo das costas e nas costelas — mas, pelo
menos, poderia usar de novo o braço e a dor não era propriamente
excruciante.
Depois voltou a olhar para Barst e o que viu agoniou-o.
Barst estava de pé, rodeado de meninos-gatos mortos. O seu
peito de armas, amolgado, estava manchado de sangue e havia
tufos de pelo agarrados ao bastão que apanhara do chão. Tinha
arranhões fundos nas faces e a manga direita da cota de malha
estava rasgada, mas, tirando isso, parecia incólume. Os poucos
meninos-gatos que ainda o enfrentavam tinham o cuidado de se
manter à distância, pelo que Roran ficou com a impressão de que
estavam prestes a dar meia-volta, fugindo. Atrás de Barst estavam
os corpos dos Kull e dos Elfos com quem lutara. Todos os
guerreiros de Roran pareciam ter desaparecido, vendo apenas
soldados em seu redor, junto de Barst e dos meninos-gatos: uma
massa fervente de túnicas carmesim; homens a empurrarem-se e a
acotovelarem-se nos redemoinhos da batalha.
— Abatam-no! — gritou Roran, mas ninguém parecia ouvi-lo.
Barst, contudo, ouviu e aproximou-se pesadamente de Roran.
— Sem Martelo! — gritou ele. — Vou arrancar-te a cabeça por
isto! Roran viu uma lança no chão, ajoelhou-se e apanhou-a, mas
ficou tonto com o movimento.
— Quero ver isso! — respondeu, mas as palavras pareciam-lhe
vazias, começando a pensar em Katrina e no seu filho ainda por
nascer.
Depois, um dos meninos-gatos — uma mulher de cabelo branco,
da altura do seu cotovelo — correu para diante, golpeando Barst ao
longo da coxa direita.
Barst rosnou e virou-se, mas a mulher-gato já estava a recuar
bufando. Barst esperou mais um momento para se assegurar de que
ela não iria incomodá-lo mais, e depois continuou a avançar na
direção de Roran, agora a coxear, pois o seu ferimento mais
recente agravara-lhe o defeito no andar. Tinha a perna coberta de
sangue.
Roran humedeceu os lábios, incapaz de desviar os olhos do
inimigo que se aproximava. Tinha apenas uma lança e estava sem
escudo. Não conseguiria correr mais que Barst e não tinha qualquer
hipótese de igualar a sua força nem a sua rapidez sobrenatural. E
também não tinha ninguém por perto para o ajudar.
Era uma situação insustentável, mas Roran recusava-se a admitir
a derrota. Já desistira uma vez e jamais o voltaria a fazer, ainda que
a razão lhe dissesse que ele estava prestes a morrer.
Depois Barst atacou-o e Roran tentou golpeá-lo no joelho
direito, na esperança desesperada de o incapacitar. Barst aparou a
lança com o bastão, brandindo-o depois na direção de Roran.
Roran previu o contra-ataque e recuou tão depressa quanto
possível. Uma rajada de vento fustigou-lhe o rosto, quando o topo
do bastão lhe passou a escassos centímetros da pele.
Barst mostrou os dentes, sorrindo-lhe ameaçadoramente, e
estava prestes a atacá-lo de novo, quando uma sombra vinda de
cima o encobriu. Barst olhou para cima.
O corvo branco de Isralzadí precipitou-se do céu e aterrou no
rosto de Barst. A ave guinchava furiosa, dando-lhe bicadas e
arranhando-o com as garras. Roran ficou atónito ao ouvir o corvo
dizer:
— Morre! Morre! Morre!
Barst praguejou e deixou cair o escudo, batendo-lhe com a mão
livre e partindo-lhe a asa já ferida. Tinha tiras de carne penduradas
na testa e o sangue tingia-lhe as faces e o queixo de vermelho.
Roran saltou para a frente, trespassando a outra mão de Barst
com a lança, e este largou o bastão.
Depois aproveitou a oportunidade para trespassar a garganta
exposta de Barst, mas este agarrou na lança e arrancou-a das mãos
de Roran, partindo-a entre os dedos tão facilmente como um ramo
fino.
— Agora, vais morrer! — disse Barst, cuspindo sangue. Tinha os
lábios rasgados e o olho direito vazado, mas ainda via do outro que
lhe restava.
Ele esticou o braço para Roran, tentando envolvê-lo num abraço
mortal. Roran não teria conseguido escapar, mesmo que quisesse,
mas quando os braços de Barst se fecharam sobre ele, agarrou-se
à cintura e torceu-a com toda a força, exercendo tanta força e tanta
pressão quanto possível sobre a perna ferida de Barst, a perna
manca.
Barst resistiu durante alguns momentos, mas depois o seu joelho
cedeu e ele gritou de dor, caindo para a frente sobre a perna e
apoiando-se na mão esquerda. Roran torceu-se e deslizou por
baixo do braço direito de Barst. O sangue no peito de armas de
Barst tornou tudo mais fácil, apesar da força imensa.
Roran tentou a agarrar a garganta de Barst por trás, mas ele
encolheu o queixo, impedindo-o de firmar as mãos. Por isso, Roran
optou por colocar-lhe os braços à volta do peito, esperando
conseguir imobilizá-lo até que alguém o ajudasse a matar.
Barst rosnou, atirando-se para um lado, e o ombro ferido de
Roran estremeceu com o impacto, fazendo-o gemer de dor. Barst
rebolou o corpo três vezes e as pedras da calçada enterraram-se
nos braços e nas costas de Roran. Quando o corpo de Barst
estava por cima dele, Roran sentiu dificuldade em respirar, mas
ainda assim não o largou. Barst agrediu-o de lado, com o cotovelo,
e Roran sentiu várias costelas a partirem-se.
Roran cerrou os dentes e contraiu os braços, apertando-o com
todas as suas forças.
“Katrina...”, pensou ele.
Barst voltou a atingi-lo com o cotovelo.
Roran uivou e viu clarões de luz, mas apertou-o ainda mais.
Voltou a sentir o cotovelo a atingi-lo de lado, como uma
bigorna.
— Não... vais... ganhar... Sem Martelo — rosnou Barst,
erguendo-se cambaleante e arrastando Roran consigo.
Ainda que receasse que os seus músculos se separassem dos
ossos, Roran apertou-o ainda mais. Gritou, mas não conseguia
ouvir a sua voz e sentiu as veias e os tendões a rebentarem.
Depois o peito de armas de Barst afundou-se, cedendo no local
onde o Kull o amassara, e ouviu-se um ruído de cristal a partir-se.
— Não! — gritou Barst. Nesse instante, uma luz de um branco
luminoso irrompeu pelos rebordos da armadura e ele ficou rígido,
como se alguém lhe tivesse esticado os membros com correntes,
começando a tremer descontroladamente.
A luz ofuscou Roran, queimando-lhe os braços e o rosto, e ele
acabou por largar Barst e cair para o chão, protegendo os olhos
com o antebraço.
A luz continuou a jorrar do interior do peito de armas de Barst,
até os rebordos de metal ficarem incandescentes. Depois o clarão
dissipou-se, deixando o mundo mais escuro do que antes, e o
pouco que restava de Lorde Barst tombou para trás e ficou a
fumegar nas pedras da calçada.
Roran piscou os olhos, olhando para o céu uniforme. Sabia que
devia levantar-se pois tinha soldados por perto, mas as pedras da
calçada pareciam-lhe macias por baixo do corpo e a única coisa
que queria era fechar os olhos e descansar...
Quando voltou a abrir os olhos, viu Orik e Horst e vários Elfos
reunidos à volta de si.
— Roran, você está ouvir-me? — disse Horst, olhando-o, preocupado.
Roran tentou falar, mas não conseguia articular as palavras.
— Você está a ouvir-me? Escuta, tens de ficar acordado. Roran!
Roran!
Roran voltou a sentir-se mergulhar na escuridão. Era uma
sensação reconfortante, como que a embrulhar-se num cobertor
macio de lã. O calor inundou-o e a última coisa que recordava era
Orik curvado sobre si a entoar algo semelhante a uma oração, na
Língua dos Anões.
D

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