24 de junho de 2017

Capítulo 65 - No centro do combate

Roran abriu caminho pela muralha exterior de Urû’baen,
descendo até às ruas, juntamente com os guerreiros do seu
batalhão. Aí fizeram uma pausa para se reagruparem e depois
Roran gritou:
— Para o portão! — apontando com o machado.
Ele e vários homens de Carvahall, incluindo Horst e Delwin,
seguiram à fente, correndo pelo interior da muralha, em direção à
brecha que os Elfos tinham aberto com magia. As flechas voavam
por cima das suas cabeças enquanto corriam, mas nenhuma parecia
especificamente apontada a eles, e Roran também não registou
quaisquer ferimentos entre os membros do grupo.
Defrontaram-se com dúzias de soldados no estreito espaço entre
a muralha e as casas de pedra. Alguns pararam para lutar, mas os
restantes fugiram e, mesmo os que lutaram, depressa bateram em
retirada para as vielas contíguas.
A princípio, a intensidade selvática da chacina e a perspetiva de
vitória cegaram Roran para tudo o resto. Mas ao ver que os
soldados com que se defrontavam continuavam a fugir, uma
sensação de desconforto começou a morder-lhe o estômago e ele
começou a olhar em redor com maior atenção, em busca de algo
que parecesse diferente do que deveria ser.
Algo de errado se passava, ele tinha a certeza disso.
— Galbatorix não os deixaria desistir com esta facilidade —
murmurou para si.
— O quê? — disse Albriech, que estava ao lado dele.
— Estava a dizer que Galbatorix não os deixaria desistir com esta
facilidade. — Roran torceu a cabeça para trás e gritou ao resto do
batalhão: — Fiquem à escuta e de olhos bem abertos! Galbatorix
deve-nos ter reservado uma ou duas surpresas, mas nós não
permitiremos que ele nos apanhe desprevenidos, não é verdade?
— Martelo Forte! — gritaram eles, em resposta, batendo com
as armas nos escudos. Todos menos os Elfos, é claro. Satisfeito,
Roran acelerou o passo e continuou a sondar os telhados.
Depressa chegaram a uma rua coberta de destroços que
conduzia ao que fora outrora o portão principal da cidade. Agora
tudo o que restava era um buraco enorme, com mais de cem
metros de largura no topo, e um amontoado de pedras partidas na
base. Os Varden e os seus aliados — homens, Anões, Urgals, Elfos
e meninos-gatos — entravam aos magotes pela abertura, lutando lado
a lado pela primeira vez na História.
Rajadas de flechas precipitavam-se sobre o exército, à medida
que este entrava na cidade. Mas a magia dos Elfos detinha os
projéteis letais antes que estes pudessem molestar alguém. O
mesmo não se poderia dizer em relação aos soldados de
Galbatorix. Roran viu uma série deles caírem às mãos dos arqueiros
dos Varden, embora alguns parecessem ter defesas que os
protegiam das flechas — os favoritos de Galbatorix,
presumivelmente.
Enquanto o seu batalhão se reunia ao resto do exército, Roran
viu Jörmundur a cavalo no meio da multidão de guerreiros. Roran
gritou-lhe, saudando-o, e Jörmundur respondeu-lhe da mesma
forma, gritando também:
— Quando chegarmos àquela fonte — e apontou com a espada
para um enorme edifício ornamentado, num pátio, várias centenas
de metros adiante —, leva os teus homens e segue para a direita.
Desimpede a zona sul da cidade e volta a reunir-te a nós na
cidadela.
Roran acenou com a cabeça, exagerando o movimento para que
Jörmundur o pudesse ver:
— Sim, meu comandante!
Sentia-se mais seguro agora que estava na companhia de outros
guerreiros, mas continuava a ter alguma inquietude. “Onde estão
eles?”, perguntou para si mesmo, olhando para a entrada das ruas
desertas. Galbatorix supostamente reunira todo o seu exército em
Urû’baen, mas Roran ainda não tinha visto quaisquer evidências de
um grande exército. Surpreendentemente, deparara-se com
pouquíssimos soldados nas muralhas e os poucos que lá estavam
tinham fugido muito mais cedo do que seria suposto.
“Ele está a atrair-nos cá para dentro”, concluiu Roran com uma
súbita certeza. “É tudo uma jogada para nos enganar.” Chamando
de novo a atenção a Jörmundur, gritou:
— Passa-se algo de errado! Onde estão os soldados?
Jörmundur franziu a sobrancelha e virou-se para falar com o rei
Orrin e com a rainha Islanzadí, que se tinham aproximado a cavalo.
Por estranho que parecesse, Islanzadí tinha um corvo branco
poisado no ombro esquerdo, com as garras presas no corpete da
armadura dourada.
Ainda assim, os Varden continuavam a embrenhar-se em
Urû’baen.
— O que se passa, Martelo Forte? — rosnou Nar Garzhvog,
abrindo caminho até junto dele.
Roran olhou de relance para o Kull de cabeça pesada:
— Não tenho a certeza. Galbatorix...
Esqueceu-se do que ia a dizer, ao ouvir o som de um corno por
entre os edifícios, diante deles. O ruído prolongou-se durante quase
um minuto, num tom baixo e sinistro, que levou os Varden a
pararem e a olharem em redor, preocupados.
Roran sentiu o coração a afundar-se.
— É agora — disse ele a Albriech. Depois virou-se e brandiu o
martelo, apontando para um dos lados da rua. — Metam-se entre os
edifícios e abriguem-se! — gritou ele. — Mexam-se!
O batalhão demorou mais tempo a libertar-se da coluna de
guerreiros do que a reunir-se a ela. Frustrado, Roran continuou a
gritar, na tentativa de os incitar a mexerem-se mais depressa.
— Depressa, seus cães miseráveis, depressa!
O corno voltou a ouvir-se e Jörmundur mandou o exército parar.
Nessa altura, os guerreiros de Roran já estavam em segurança,
escondidos em três ruas e agrupados atrás de edifícios, à espera
das suas ordens. Roran estava ao lado de uma casa, tal como
Garzhvog e Horst, a espreitar pela esquina, tentando ver o que se
estava a passar.
O corno ouviu-se mais uma vez e o ruído de uma imensidão de
pés ecoou por Urû’baen.
Roran sentiu o pavor crescer dentro de si ao ver fileiras e fileiras
de soldados a marcharem para as ruas que conduziam à cidadela —
fileiras rápidas e disciplinadas de homens, cujo rosto não revelava o
menor vestígio de medo. A comandá-los vinha um homem
atarracado, de ombros largos, montado num cavalo de guerra
cinzento. Usava um peito de armas cintilante, com uma saliência de
trinta centímetros, como se tivesse de acomodar uma grande
barriga. Na mão esquerda trazia um escudo, pintado com a insígnia
de uma torre destruída, sobre um pico árido de pedra e, na mão
direita, um bastão com espigões, que a maioria dos homens teriam
dificuldade em erguer, mas que ele baloiçava para trás e para diante
sem esforço.
Roran humedeceu os lábios ao concluir que o homem deveria
ser Lorde Barst. Se metade do que se dizia acerca dele fosse
verdade, Barst jamais atacaria diretamente um exército inimigo, se
não tivesse a certeza absoluta de que o poderia destruir.
Roran já tinha visto o suficiente, por isso afastou-se da esquina
do edifício e disse:
— Não vamos esperar. Digam aos outros para nos seguirem.
— Você está a pensar fugir, Martelo Forte? — resmungou Nar
Garzhvog.
— Não — respondeu Roran. — Estou a pensar atacar pela lateral.
— Só um louco atacaria um exército daqueles de frente. — Agora,
vai! — Deu um empurrão ao Urgal e atravessou a rua a correr,
ocupando a sua posição à frente dos seus guerreiros. E só um
louco iria à frente para se defrontar com o homem que Galbatorix
tinha escolhido para comandar o seu exército.
Ao caminharem por entre o denso aglomerado de edifícios,
Roran ouviu os soldados gritarem:
— Lorde Barst! Lorde Barst! Lorde Barst! — E batiam com as botas
cardadas no chão e com as espadas nos escudos.
“Cada vez melhor”, pensou Roran, desejando estar em qualquer
lado menos ali.
Depois os Varden gritaram em resposta, enchendo o ar de vivas
a Eragon e aos Cavaleiros, e toda a cidade ecoou com o choque
metálico das espadas e os gritos dos feridos.
Quando o batalhão ficou ao nível do que parecia ser a parte
central do exército do Império, Roran mandou-os virar e correr na
direção do inimigo.
— Mantenham-se juntos! — ordenou ele. — Formem uma parede
com os vossos escudos e protejam os feiticeiros, aconteça o que
acontecer.
Depressa viram os soldados na rua — lanceiros, na sua maioria —
a avançar para a frente de batalha, colados uns aos outros.
Nar Garzhvog deu um grito feroz tal como Roran e os outros
guerreiros do batalhão, correndo em direção às fileiras de
soldados. Os soldados gritaram assustados e o pânico instalou-se
entre eles, fazendo-os recuar atrapalhadamente, atropelando os
camaradas enquanto tentavam arranjar espaço para lutar.
Roran uivou e atirou-se à primeira fileira de homens. Ao brandir
o martelo, o sangue esguichou em seu redor e ele sentiu metal e
ossos ceder sob o seu peso. Os soldados estavam praticamente
indefesos, na medida em que se encontravam demasiado perto uns
dos outros. Roran conseguiu matar quatro antes que eles
conseguissem sequer atingi-lo com as espadas, cujos golpes ia
aparando com o escudo.
Nar Garzhvog derrubou seis homens a um dos extremos da rua,
com um único golpe do bastão. Os soldados começaram a
levantar-se, ignorando os ferimentos que os teriam incapacitado se
sentissem dor, e Garzhvog voltou a atacá-los, reduzindo-os a papa.
Nada mais importava a Roran a não ser os homens que tinha
diante de si, o martelo que tinha na mão e as pedras da calçada
escorregadias e ensanguentadas debaixo dos seus pés. Partia ossos
e espancava, esquivando-se, empurrando, rosnando, gritando,
matando, matando, matando — até que, de repente, brandiu o
martelo e viu apenas ar diante de si. A arma bateu no chão,
produzindo faíscas nas pedras da calçada, e ele sentiu uma guinada
de dor a percorrer-lhe o braço.
Roran abanou a cabeça, sentindo a raiva do combate a
abrandar: ele atravessara a multidão de soldados de um lado ao
outro.
Deu meia-volta e viu que a maior parte dos seus guerreiros ainda
lutava com soldados à direita e à esquerda. Por isso, soltou um
outro uivo e reuniu-se à contenda.
Três soldados aproximaram-se dele, dois com lanças e um com
uma espada. Roran atirou-se ao homem que empunhava a espada,
mas escorregou ao pisar algo mole e húmido. Ao cair, brandiu o
martelo em direção aos tornozelos do homem que estava mais
próximo dele. O soldado saltou para trás e estava prestes a atingilo
com a espada, quando um elfo saltou para diante, decapitando
os três soldados com dois golpes rápidos.
Era a mesma mulher elfo com quem falara, no exterior das
muralhas da cidade, só que agora estava salpicada de sangue seco.
Porém, antes que pudesse agradecer-lhe, a mulher elfo passou por
ele a correr e continuou a matar soldados, brandindo a espada a
uma velocidade que esta mal se via.
Depois de os ver em ação, Roran concluiu que cada elfo
equivalia a pelo menos cinco homens, sem contar com a sua
aptidão para lançar feitiços. Quanto aos Urgals — muito
especialmente o Kull — fazia os possíveis para não se cruzar no seu
caminho, pois não pareciam fazer grande distinção entre amigos ou
inimigos, uma vez inflamados; e o Kull era tão grande que não seria
difícil matar alguém sem querer. Viu um deles esmagar um soldado
entre uma perna e a parede de um edifício, sem se aperceber, e viu
outro decapitar um soldado com um golpe acidental do escudo, ao
virar-se.
O combate prosseguiu durante mais uns minutos, até restarem
apenas soldados mortos na zona.
Roran limpou o suor da testa e olhou para um lado e para o
outro da rua. Lá mais adiante, na cidade, viu os soldados que
restavam do exército devastado a desaparecerem a correr por
entre as casas, para se reunirem a uma outra parte do exército de
Galbatorix. Pensou em persegui-los, mas a batalha principal
decorria mais perto do extremo da cidade e ele queria atacar os
adversários pela retaguarda, eliminando as suas linhas.
— Por aqui! — gritou, erguendo o martelo e começando a
percorrer a rua.
Uma flecha cravou-se no rebordo do seu escudo e ele levantou
os olhos, vendo a silhueta de um homem deslizar por baixo do topo
de um telhado próximo.
Quando Roran saiu do denso aglomerado de edifícios, passando
para o espaço aberto diante dos restos do portão principal de
Urû’baen, viu tanta confusão que hesitou, não sabendo exatamente
o que fazer.
Os dois exércitos tinham-se misturado de tal forma que era
impossível distinguir linhas ou fileiras, tão-pouco onde ficava a
frente de batalha. As túnicas vermelhas dos soldados estavam
dispersas pela praça, às vezes isoladas, outras vezes em grandes
grupos, e o combate estendera-se a todas as ruas próximas,
alastrando pela cidade como uma nódoa. Entre os combatentes que
Roran contava ver, distinguiu dezenas de gatos — gatos vulgares e
não meninos-gatos — a atacarem os soldados. Era o cenário mais
selvático e assustador que ele tinha presenciado em toda a sua vida.
Os gatos seguiam as instruções dos meninos-gatos.
No centro da praça, montado no seu cavalo de guerra cinzento,
estava Lorde Barst, com o seu enorme peito de armas arredondado
a brilhar à luz dos fogos que ardiam nas casas mais próximas.
Brandia repetidamente o bastão, mais depressa do que qualquer
humano jamais seria capaz, matando pelo menos um Varden de
cada vez que desferia um golpe. As flechas que disparavam sobre
ele desapareciam em pálidas nuvens de chamas alaranjadas, e as
espadas e as lanças ricocheteavam nele como se fosse feito de
pedra. Nem mesmo a força de um Kull era suficiente para o
derrubar da montada. Estupefato, Roran viu o homem de
armadura desfazer a cabeça de um Kull atacante, ao brandir
descontraidamente o bastão, partindo-lhe os chifres e o crânio
como se fossem uma casca de ovo.
Roran franziu a sobrancelha. “Como pode ele ser tão forte e tão
rápido?” Magia era a resposta óbvia, mas aquela magia tinha
certamente uma fonte. Nem a armadura nem o bastão de Barst
exibiam pedras preciosas e Roran também não acreditava que
Galbatorix estivesse a transferir energia para Barst, à distância.
Lembrou-se da sua conversa com Eragon na noite anterior a
resgatarem Katrina de Helgrind. Eragon dissera-lhe que era
basicamente impossível alterar um corpo humano de forma, dandolhe
a velocidade e a força de um elfo, mesmo que esse humano
fosse um Cavaleiro — o que tornava ainda mais assombroso o que
os dragões lhe tinham feito durante as Celebrações do Juramento
de Sangue. Parecia-lhe improvável que Galbatorix tivesse operado
semelhante transformação em Barst, pelo que voltou a interrogar-se
sobre a fonte sobrenatural do poder de Barst.
Barst puxou as rédeas da montada, virando o cavalo ao
contrário, e a luz que se movia sobre a superfície do seu volumoso
peito de armas chamou a atenção de Roran.
Roran sentiu a boca seca e foi invadido por uma sensação de
desespero. Tanto quanto sabia, Barst não era homem para ter
barriga. Jamais se desleixaria com o corpo, nem Galbatorix o teria
escolhido assim para defender Urû’baen. A única explicação que
fez sentido na altura era que Barst tinha um Eldunarí preso ao
corpo, sob o peito de armas estranhamente volumoso.
Depois a rua tremeu, abriu-se, e surgiu uma fenda escura
debaixo de Barst e do seu cavalo de guerra. O buraco tê-los-ia
facilmente engolido, mas o cavalo continuou de pé, suspenso, como
se tivesse os cascos firmemente assentes no chão. Uma espiral de
diferentes cores tremeluziu em torno de Barst, como uma auréola
esfarrapada nas cores do arco-íris. Vagas alternadas de calor de
frio emanavam do local onde estava e Roran viu filamentos de gelo
a erguerem-se do chão, que tentavam enrolar-se à volta das patas
do cavalo, para o imobilizar. Mas o gelo não conseguia agarrar o
cavalo e a magia não parecia produzir efeito nem no homem nem
no animal.
Barst voltou a puxar as rédeas e esporeou o cavalo na direção
de um grupo de Elfos que estava junto de uma casa, ali perto, a
cantar na língua antiga. Roran deduziu que eram eles que estavam a
lançar os feitiços contra Barst.
Erguendo o bastão por cima da cabeça, Barst atacou os Elfos.
Estes dispersaram-se, tentando defender-se, mas sem sucesso.
Barst partiu-lhes os escudos e as espadas com o bastão,
esmagando-lhes os ossos como se estes fossem tão finos e ocos
como os de uma ave.
“Porque é que as defesas deles não os protegeram?”,
perguntou-se Roran. “Porque não conseguiram detê-lo com a sua
mente? Ele é só um e tem apenas um Eldunarí consigo.”
A alguns metros de distância, uma grande pedra redonda
esmagou-se sobre o mar de corpos em luta, deixando atrás de si
uma mancha vermelha viva, e saltou para a frente de um edifício
onde estilhaçou as estátuas sobre a ombreira da porta.
Roran agachou-se e praguejou, tentando descobrir de onde
viera aquela pedra. A meio da cidade viu que os soldados de
Galbatorix tinham recuperado o controlo das catapultas e de outras
máquinas de guerra, montadas sobre a muralha exterior. “Estão a
disparar para dentro da sua própria cidade”, pensou ele. “Estão a
disparar sobre os seus próprios homens!”
Com um rosnido de indignação, Roran virou-se de costas para a
praça, ficando de frente para o interior da cidade.
— Não podemos fazer nada aqui! — gritou ele para o batalhão. —
Deixem Barst para os outros e sigam por aquela rua! — E apontou
para a esquerda. — Tentaremos chegar à muralha e ocuparemos
posições lá!
Talvez os guerreiros lhe tivessem respondido mas ele não os
ouviu, pois já estava em movimento. Atrás de si uma outra pedra
atingiu os exércitos de combatentes, desencadeando mais gritos de
dor.A rua que Roran escolhera estava cheia de soldados.
Aglomerados à porta de um chapeleiro havia também alguns Elfos e
meninos-gatos, que com grande dificuldade se defendiam do largo
número de inimigos em seu redor. Os Elfos gritaram algo e doze
soldados tombaram, mas os restantes ficaram de pé.
Mergulhando no meio dos soldados, Roran voltou a perder-se
no alheamento de sangue do combate. Saltou sobre um dos
soldados caídos, e atingiu o elmo do homem caído de costas com o
martelo. Confiante de que o homem estava morto, Roran usou o
escudo para empurrar o soldado seguinte, golpeando-o depois na
garganta com a ponta do martelo e esmagando-a.
Junto dele, Delwin foi atingido por uma lança no ombro e
deixou-se cair sobre o joelho com um grito de dor. Brandindo o
martelo mais depressa do que era habitual, Roran obrigou o
lanceiro a recuar enquanto Delwin arrancava a arma e se levantava.
— Abandona o combate — disse-lhe Roran.
Delwin abanou a cabeça, de dentes arreganhados.
— Não!
— Abandona o combate, raios! É uma ordem.
Delwin praguejou, mas obedeceu e Horst tomou o seu lugar.
Roran reparou que o ferreiro sangrava de cortes que tinha nos
braços e nas pernas, mas estes não pareciam interferir com a sua
mobilidade.
Roran esquivou-se a uma espada e deu um passo em frente.
Pareceu-lhe ouvir um vago silvo no ar, atrás de si. Depois um
trovão explodiu-lhe nos ouvidos, a terra girou à sua volta e tudo
ficou negro.
Acordou com a cabeça a latejar. Lá em cima viu o céu — agora
iluminado pela luz do sol nascente — e o teto escuro da saliência
coberta de rachas.
Gemeu de dor e tentou endireitar-se. Estava deitado na base da
muralha exterior da cidade, junto dos fragmentos ensanguentados
de uma pedra de uma catapulta. Faltava-lhe o escudo e o martelo,
o que o preocupava de uma forma algo confusa.
Enquanto tentava orientar-se, um grupo de cinco soldados
correram para ele e um dos homens tentou trespassar-lhe o peito
com uma lança. A ponta da arma projetou-o contra a parede mas
não lhe perfurou a pele.
— Agarrem-no! — gritaram os soldados. Roran sentiu mãos a
agarrar-lhe nos braços e nas pernas. Debateu-se e tentou libertarse,
mas estava fraco e desorientado, e os soldados eram muitos.
Os soldados bateram-lhe repetidamente e ele sentiu-se a perder
as forças, à medida que as suas defesas o protegiam contra os
golpes. O mundo começou a ficar cinzento e ele estava prestes a
perder de novo a consciência, quando a lâmina de uma espada
irrompeu pela boca de um dos soldados.
Os soldados largaram-no e Roran viu uma mulher de cabelos
escuros a girar no meio deles, brandindo a espada com a facilidade
e a prática de um guerreiro experiente. Em segundos ela matou os
cinco homens, embora um deles tivesse conseguido fazer-lhe um
golpe superficial na coxa esquerda.
Depois ela estendeu-lhe a mão e disse:
— Martelo Forte.
Ao agarrar-lhe o antebraço, Roran viu que o pulso dela estava
coberto de cicatrizes, no local que o braçal gasto não tapava, como
se tivesse sido queimada ou chicoteada quase até ao osso. Atrás da
mulher havia uma adolescente pálida, vestida como um sortido de
peças de armadura e um rapaz que parecia um ou dois anos mais
novo do que a menina.
— Quem és tu? — perguntou ele, levantando-se. O rosto da
mulher era surpreendente: largo, com uma estrutura óssea forte e a
aparência tisnada e estragada de alguém que passara grande parte
da sua vida ao ar livre.
— Uma forasteira — respondeu ela. Dobrou os joelhos, apanhou
uma das lanças dos soldados e deu-lha.
— Os meus agradecimentos.
Ela acenou com a cabeça e afastou-se por entre os edifícios com
os seus jovens companheiros, encaminhando-se para o interior da
cidade. Roran ficou a olhá-los durante meio segundo, apressandose
depois a descer a rua para voltar a reunir-se ao seu batalhão.
Os guerreiros saudaram-no com gritos de perplexidade e
atacaram os soldados com redobrada energia, encorajados pelo
seu regresso. Contudo, ao tomar o seu lugar entre os homens de
Carvahall, Roran descobriu que a pedra que o atingira tinha
também matado Delwin. A sua mágoa depressa se transformou em
raiva e ele lutou ainda mais ferozmente, determinado a acabar com
a batalha o mais depressa possível.
R

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