24 de junho de 2017

Capítulo 64 - O que não mata...


—P
ara — disse Elva.
Eragon ficou paralisado, de pé no ar. A menina fez-lhe
sinal para se chegar para trás e ele recuou.
— Salta para ali — disse Elva, apontando para um local no pátio,
em frente dele —, para junto dos arabescos.
Eragon baixou-se, mas depois hesitou, aguardando que ela lhe
dissesse se era seguro.
Ela bateu o pé e fez um ruído exasperado.
— Se não mostrares intenção de o fazer, não vai resultar. Eu não
posso dizer se algo te vai molestar, a menos que tenciones
realmente pôr-te em perigo. — E sorriu-lhe de uma forma muito
pouco tranquilizante. — Não te preocupes, eu não vou deixar que
nada te aconteça.
Ainda na dúvida, Eragon voltou a fletir as pernas e estava
prestes a saltar para a frente quando...
— Para!
Ele praguejou e agitou os braços, tentando evitar cair no local
que iria ativar os espigões escondidos.
Os espigões eram a terceira armadilha que Eragon e os
companheiros tinham encontrado no longo corredor que conduzia
às portas douradas. A primeira fora uma série de fossos
escondidos, a segunda consistia nuns blocos de pedra no teto que
os poderiam ter esmagado e, agora, eram espigões muito
semelhantes aos que tinham matado Wyrden, nos túneis, por baixo
de Dras-Leona.
Tinham visto Murtagh entrar no corredor através do portal de
saída, mas este não fizera qualquer esforço para os perseguir sem
Thorn. Depois de os observar durante alguns segundos,
desaparecera numa das salas laterais onde Arya e Blödhgarm
tinham avariado as engrenagens e as rodas utilizadas para abrir e
fechar o portão principal da fortaleza.
Murtagh tanto poderia levar uma hora como alguns minutos a
reparar os mecanismos. De qualquer forma, não poderiam
demorar-se demasiado tempo.
— Tenta um pouco mais longe — disse Elva.
Eragon fez uma careta, mas seguiu a sugestão.
— Para!
Desta vez teria caído se não fosse Elva agarrar-lhe na ponta da
túnica.
— Mais longe ainda — disse ela, e depois — para! Mais longe.
— Não posso — resmungou ele, cada vez mais frustrado. — Sem
balanço, não posso. — Mas com balanço seria impossível parar a
tempo, se Elva concluísse que o salto era perigoso.
— E agora? Se os espigões chegarem até às portas, jamais
conseguiremos alcançá-las. — Já tinham pensado em usar magia e
flutuar sobre a armadilha, mas mesmo o mais pequeno feitiço iria
ativá-la, pelo menos era o que Elva dizia, e eles não tinham outro
remédio senão confiar nela.
— Talvez a armadilha seja destinada a um dragão a pé — disse
Arya. — Se tiver apenas um ou dois metros, Saphira ou Thorn
poderiam facilmente saltar sobre ela sem se aperceberem. Mas se
tiver trinta metros de comprimento, iria certamente apanhá-los.
Se eu saltar, não, disse Saphira. Trinta metros é uma distância
fácil de cobrir.
Eragon trocou um olhar preocupado com Arya e Elva.
— Certifica-te de que não deixas que a tua cauda toque no chão
— disse ele. — E não vás demasiado longe, senão ainda tropeças
noutra armadilha.
Sim, pequenino.
Saphira agachou-se e baixou a cabeça até esta ficar apenas a
uns trinta centímetros da pedra. Depois enterrou as garras no chão
e saltou pelo corredor, abrindo as asas o suficiente para se elevar
um pouco.
Elva ficou em silêncio, para alívio de Eragon.
Depois de percorrer o equivalente ao dobro do comprimento do
seu corpo, recolheu as asas e saltou para o chão com um estrondo
retumbante.
Sã e salva, disse ela, arranhando o chão com as escamas ao
virar-se. Voltou a saltar para trás e Eragon e os outros desviaramse
para lhe dar espaço para aterrar, ao regressar. Bom, disse ela,
quem é o primeiro?
Foram necessárias quatro viagens para os transportar a todos
por cima do leito de espigões. Depois seguiram em frente, num
passo rápido, com Arya e Elva de novo à frente. Não encontraram
mais armadilhas até estarem a três quartos do caminho para as
portas cintilantes, altura em que Elva estremeceu e ergueu a sua
pequena mão. Todos pararam de imediato.
— Algo nos cortará em dois, se prosseguirmos — disse ela. — Não
sei ao certo de onde virá... das paredes, creio eu.
Eragon franziu a sobrancelha. Isso significava que aquilo que os
podia cortar tinha peso ou força suficiente para vencer as suas
proteções... o que era uma perspetiva muito pouco encorajadora.
— E se... — começou ele por dizer, mas depois calou-se ao ver
vinte homens e mulheres, vestidos de negro, saírem de um dos
lados do corredor e formarem uma linha diante deles, bloqueandolhes
o caminho.
Eragon sentiu uma lâmina trespassar-lhe a mente, quando os
feiticeiros inimigos começaram a cantar na língua antiga. Saphira
abriu as mandíbulas e varreu os feiticeiros com uma torrente de
chamas crepitantes, mas estas passaram inofensivamente em torno
deles. Um dos estandartes na parede pegou fogo e os restos de
tecido a arder caíram para o chão.
Eragon defendeu-se, mas não atacou, pois levaria demasiado
tempo a dominar os feiticeiros, um por um. Além disso, os seus
cânticos preocupavam-no: se estavam na disposição de lançar
feitiços antes de controlarem a sua mente — bem como a mente dos
seus companheiros —, o importante para eles já não era viver ou
morrer, mas deter os intrusos.
Baixou-se sobre o joelho, junto de Elva. Ela falava com um dos
feiticeiros, dizia-lhe algo acerca da sua filha.
— Eles estão sobre a armadilha? — perguntou ele, em voz baixa.
Ela acenou com a cabeça, sem parar de falar.
Eragon esticou o braço e bateu com a palma da mão no chão.
Já esperava que algo acontecesse, mesmo assim retraiu-se ao
ver uma folha de metal — com nove metros de comprimento e dez
centímetros de espessura — sair disparada de cada parede, com
uma chiadeira horrível. As chapas de metal apanharam os
feiticeiros, cortando-os ao meio como uma gigantesca tesoura de
cortar lata, e voltaram a recuar com a mesma rapidez para dentro
das fendas ocultas.
Eragon ficou chocado com a rapidez como tudo aconteceu,
desviando os olhos do cenário que tinha diante de si. “Que maneira
horrível de morrer.”
Ao lado dele, Elva balbuciou e caiu para a frente com um
desmaio. Arya apanhou-a antes de ela bater com a cabeça no
chão. Depois aninhou-a no braço e começou a murmurar-lhe
palavras na língua antiga.
Eragon aconselhou-se com os outros elfos sobre a melhor forma
de ultrapassarem a armadilha e concluíram que o melhor seria saltar
por cima dela, tal como tinham feito com o leito de espigões.
Quatro saltaram para cima de Saphira e ela estava prestes a
saltar para diante, Elva gritou numa voz débil.
— Para! Não faças isso!
Saphira sacudiu a cauda e ficou onde estava.
Elva deslizou dos braços de Arya e afastou-se alguns passos, a
cambalear, inclinou-se para a frente e vomitou. Limpou a boca com
as costas da mão, olhando para os corpos mutilados, diante de si,
como que a memorizá-los.
Ainda a olhar para eles, disse:
— Há outro gatilho, no ar, a meio caminho. Se saltarem... — E
bateu com as mãos uma na outra, bem alto, produzindo um ruído
agudo, e fez uma careta. — ... sairão lâminas das paredes, tal como
em baixo.
Uma ideia começou a incomodar Eragon.
— Porque haveria Galbatorix de tentar matar-nos?... Se você aqui
não estivesses — disse ele, olhando para Elva. — Saphira poderia
estar morta, neste momento, e Galbatorix quer apanhá-la viva.
Porquê isto, então? — E apontou para o chão ensanguentado. —
Porquê os espigões e os blocos de pedra?
— Talvez esperasse que os fossos nos capturassem antes de
alcançarmos o resto das armadilhas — disse Invidia, a mulher elfo.
— Ou talvez saiba que Elva está connosco e quer ver do que ela
é capaz — disse Blödhgarm num tom sombrio.
A menina encolheu os ombros.
— E depois? Ele não pode deter-me.
Eragon sentiu um arrepio a percorrê-lo.
— Não, mas se ele sabe que aqui você está, pode ficar assustado e se
estiver assustado...
Pode estar realmente a tentar matar-nos, rematou Saphira.
Arya abanou a cabeça.
— Não interessa. Temos de o encontrar de qualquer maneira.
Passaram um minuto a discutir como poderiam passar pelas
lâminas, até que Eragon disse:
— E se eu usasse magia para nos transportar até ali, tal como
Arya usou para enviar o ovo de Saphira para a Espinha? — E fez
um gesto em direção à área para lá dos corpos.
Exigiria demasiada energia, disse Glaedr.
É melhor conservarmos a nossa energia para quando tivermos
de enfrentar Galbatorix, acrescentou Umaroth.
Eragon mordeu o lábio. Olhou por cima do ombro e ficou
alarmado ao ver Murtagh correr de um lado para o outro do
corredor, distante deles.
Não temos muito tempo.
— Talvez pudéssemos colocar qualquer coisa nas paredes para
impedir as lâminas de saírem.
— As lâminas estão certamente protegidas por magia — comentou
Arya. — Além disso, não temos nada que as possa travar. Uma
faca? Uma peça de uma armadura? As chapas de metal são
demasiado grandes e pesadas. Cortariam tudo o que estivesse à
frente, como se lá não houvesse nada.
Fez-se silêncio entre eles.
Depois Blödhgarm lambeu os caninos e disse:
— Não necessariamente. — Virou-se e colocou a sua espada no
chão, diante de Eragon e depois fez sinal aos elfos, sob as suas
ordens, para fazerem o mesmo.
Onze espadas foram colocadas diante de Eragon.
— Eu não posso exigir isto de vós — disse ele. — As vossas
espadas...
Blödhgarm interrompeu-o, erguendo a mão, com o pelo lustroso
sob a luz suave das lanternas.
— Nós lutamos com a nossa mente e não com o nosso corpo,
Matador de Espectros. Se encontrarmos soldados, poderemos
tirar-lhes todas as armas de que precisarmos. Se as nossas espadas
forem mais úteis aqui e agora, seria estúpido da nossa parte
conservá-las apenas por questões sentimentais.
Eragon inclinou a cabeça.
— Como queiram.
Dirigindo-se depois a Arya, Blödhgarm disse:
— Deveria ser um número par, para termos mais hipóteses de
sucesso.
Ela hesitou, desembainhando depois a sua espada de lâmina fina
e colocando-a entre as restantes.
— Pondera bem no que você está prestes a fazer, Eragon — disse ela.
— Todas estas armas têm uma história, seria lamentável destruí-las
sem ganhar nada com isso.
Ele acenou com a cabeça e franziu a sobrancelha, concentrando-se,
enquanto recordava as lições de Oromis.
Umaroth, disse ele, vou precisar da tua força.
O que é nosso é teu, respondeu o dragão.
A ilusão que ocultava as fendas de onde as chapas de metal
deslizavam estava demasiado bem montada para Eragon conseguir
penetrar nela. Mas ele já o esperava — Galbatorix não era pessoa
para ignorar um detalhe desses. Por outro lado, os encantamentos
que sustentavam a ilusão eram fáceis de detetar, e através deles
Eragon poderia determinar a localização exata e as dimensões das
aberturas.
Não sabia ao certo a que distância as folhas de metal se
recolheriam dentro das fendas, mas esperava que estivessem a
alguns centímetros da superfície da parede. Se estivessem mais
próximas, o seu plano não resultaria, pois o rei certamente
protegera o metal de interferências exteriores.
Invocando as palavras necessárias, Eragon lançou o primeiro
dos doze feitiços que tencionava usar. Uma das espadas dos elfos
— a de Laufin, supunha — desapareceu com uma ligeira deslocação
de ar, tal como uma túnica a ser sacudida no ar. Meio segundo
depois, ouviu-se uma pancada seca na parede, à sua esquerda.
Eragon sorriu. Resultara. Se tivesse tentado lançar a espada
através da folha de metal, o resultado teria sido bastante mais
dramático.
Proferindo as palavras mais depressa, ele lançou o resto dos
feitiços, embutindo seis espadas dentro de cada parede, cada uma
a um metro e meio da anterior. Os Elfos observavam-no
atentamente, enquanto ele falava. Por muito que a perda das
espadas os incomodasse, não o demonstraram.
Quando terminou, Eragon ajoelhou-se junto de Arya e de Elva —
ambas agarradas de novo à Dauthdaert — e disse:
— Preparem-se para correr.
Saphira e os elfos ficaram tensos. Arya e Elva subiram para o
dorso de Saphira, ainda a segurar na lança verde. Depois Arya
disse:
— Estamos prontas.
Esticando o braço, Eragon voltou a bater no chão.
Ouviu-se um ruído ensurdecedor em ambas as paredes.
Filamentos de pó caíram do teto, desfazendo-se em colunas
nevoentas.
Mal viu que as espadas tinham aguentado a pressão, Eragon
correu para a frente. Ainda não tinha dado dois passos, quando
Elva gritou:
— Mais depressa.
Gritando com o esforço, Eragon deu ainda mais impulso.
Saphira passou a correr, à sua direita, de cabeça e cauda baixas,
como uma sombra escura na sua visão periférica.
No preciso instante em que alcançou o lado oposto da
armadilha, ouviu o ruído de aço a partir-se e uma chiadeira
arrepiante de metal a arranhar metal.
Alguém gritou atrás dele.
Ele torceu-se e atirou-se na direção oposta do ruído, vendo que
todos tinham atravessado o espaço a tempo, exceto Yaela, a
mulher elfo de cabelos prateados, que fora apanhada nos últimos
quinze centímetros das duas peças de metal. Um clarão azul e
amarelo brilhou no espaço em seu redor, como se o próprio ar
estivesse a arder e o seu rosto contorceu-se de dor.
— Flauga! — gritou Blödhgarm e Yaela voou para fora das folhas
metálicas, que se fecharam bruscamente com um ruído metálico,
estridente, recuando depois para o interior das paredes com a
mesma e terrível chiadeira que as tinha acompanhado ao surgirem.
Yaela aterrara sobre as mãos e os joelhos, perto de Eragon, e
este ajudou-a a levantar-se. Parecia incólume:
— Você está ferida? — perguntou ele.
Ela abanou a cabeça.
— Não, mas... fiquei sem proteções. — Ergueu as mãos e olhouas
com uma expressão próxima do assombro. — A última vez que
fiquei sem proteções... era mais jovem do que tu. Parece que as
lâminas me despojaram delas.
— Tens sorte em estar viva — disse Eragon, franzindo a sobrancelha.
Elva encolheu os ombros.
— Se eu não te tivesse dito para andares mais depressa... todos
poderíamos ter morrido exceto ele... — E apontou para Blödhgarm.
Eragon pigarreou.
Continuaram andar, esperando encontrar uma outra armadilha a
cada passo que davam. Mas o resto do corredor não revelou
outros obstáculos e eles alcançaram as portas sem incidentes.
Eragon levantou os olhos para a superfície cintilante de ouro. As
portas tinham um carvalho em tamanho natural gravado em relevo,
e as suas folhas formavam uma cobertura em arco que se unia às
raízes, em baixo, delineando um grande círculo à volta do tronco.
Dois feixes cerrados de ramos irrompiam de ambos os lados, na
parte central do tronco, dividindo o espaço dentro do círculo em
quatro partes. No canto superior esquerdo, via-se um entalhe de
um exército de Elfos, armados de lanças, a marchar numa floresta
cerrada. No canto superior direito, havia humanos a construírem
castelos e a forjarem armas. No canto inferior esquerdo, Urgals —
Kulls, na sua maioria — incendiavam uma aldeia e matavam os seus
habitantes, e ao fundo, à direita, Anões exploravam cavernas
repletas de pedras preciosas e veios de minério de ferro. Por entre
as raízes e os ramos do carvalho, Eragon distinguiu meninos-gatos e
Ra’zac, bem como algumas criaturas pequenas, de aspecto estranho,
que não conseguiu reconhecer. Enroscado ao centro do tronco
havia um dragão, com a ponta da cauda na boca, como se
estivesse a morder-se a si mesmo. As portas estavam
maravilhosamente trabalhadas e Eragon ter-se-ia sentado a estudálas
durante um dia inteiro, se as circunstâncias fossem outras.
Na presente situação, porém, a visão das portas brilhantes
encheu-o de pavor, ao pensar no que poderia estar do outro lado.
Se fosse Galbatorix, as suas vidas estavam prestes a mudar e nunca
mais nada voltaria a ser o mesmo. Nem para eles, nem para o resto
de Alagaësia.
Não estou preparado, disse Eragon a Saphira.
Quando é que alguém estará?, respondeu ela, projetando a
língua para fora, sentindo o ar. Eragon detetou a sua expetativa
frenética. Galbatorix e Shruikan têm de ser mortos e nós somos os
únicos que talvez o possam fazer.
E se não conseguirmos?
Se não conseguirmos, paciência, o que tiver de ser, será.
Ele acenou com a cabeça e respirou fundo, longamente.
Adoro-te, Saphira.
Eu também te adoro, pequenino.
Eragon deu um passo em frente.
— E agora? — perguntou ele, tentando esconder a sua inquietude.
— Batemos à porta?
— Vejamos primeiro se está aberta — disse Arya.
Dispuseram-se em formação de combate e Arya agarrou num
puxador montado na porta, do lado esquerdo, preparando-se para
o puxar, com Elva junto de si.
Ao fazê-lo, uma coluna de ar cintilante surgiu em torno de
Blödhgarm e de cada um dos dez feiticeiros. Eragon gritou,
alarmado, e Saphira deixou escapar um pequeno silvo, como se
tivesse pisado algo aguçado. Os elfos pareciam incapazes de se
mexer dentro das colunas; mesmo os seus olhos estavam imóveis,
fixos na direção em que olhavam, no momento em que o feitiço os
atingira.
Uma porta na parede da esquerda abriu-se com um ruído
metálico e os elfos começaram a mover-se na sua direção, como
uma procissão de estátuas que deslizavam sobre gelo.
Arya saltou na direção deles com a lança em riste, tentando
cortar o encantamento que prendia os elfos. Mas foi lenta demais e
não conseguiu apanhá-los.
— Letta! — gritou Eragon. — Para! — Foi o feitiço mais simples que
lhe ocorreu, para os tentar ajudar. Contudo, a magia que
aprisionava os elfos revelou-se demasiado poderosa e ele não a
conseguiu quebrar. Os elfos desapareceram pela entrada sombria e
a porta fechou-se ruidosamente atrás deles.
Eragon foi percorrido por uma sensação de desânimo. “Sem os
elfos...”
Arya bateu na porta com a extremidade da Dauthdaert, tentando
descobrir uma linha de união entre a porta e a parede, com a ponta
da lâmina — tal como fizera no portal de saída — mas a parede
parecia sólida, inalterável.
Quando se virou, tinha uma expressão gelada de fúria.
Umaroth, disse ela, preciso da tua ajuda para abrir esta parede.
Não, disse o dragão branco, Galbatorix escondeu bem os teus
companheiros, com toda a certeza. Procurá-los será um
desperdício de energia e colocar-nos-á em maior perigo.
Arya franziu a sobrancelha, unindo praticamente as sobrancelhas.
Então estamos a fazer o que ele quer, Umaroth-elda. Ele quer
dividir-nos e enfraquecer-nos. Se prosseguirmos sem eles, será
muito mais fácil para Galbatorix derrotar-nos.
Sim, pequenina, mas não achas que o Destruidor de ovos
também poderá querer que vamos à procura deles? Talvez
pretenda que a nossa raiva e a nossa preocupação nos distraia
dele, levando-nos a correr cegamente para outra das suas
armadilha.
Porque se daria a todo esse trabalho? Ele poderia ter capturado
Eragon, Saphira, a ti e ao resto dos Eldunarís, da mesma forma que
capturou Blödhgarm e os outros. Mas não o fez.
Talvez porque queira esgotar-nos antes de o defrontarmos, ou
antes de tentar subjugar-nos.
Arya baixou a cabeça por instantes e, quando voltou a levantar
os olhos, a sua fúria tinha desaparecido — pelo menos
superficialmente — dando lugar à habitual postura controlada e
vigilante.
Então o que havemos de fazer, Ebrithil?
Esperar que Galbatorix não mate Blödhgarm nem os outros —
pelo menos por enquanto — e prosseguirmos até encontrarmos o
rei.
Arya aquiesceu, mas Eragon percebeu que a ideia lhe
desagradava e não podia censurá-la, pois sentia o mesmo.
— Porque não sentiste a armadilha? — perguntou ele a Elva,
falando em voz baixa. Eragon julgava ter percebido porquê, mas
queria ouvi-lo da sua boca.
— Porque não lhes fez mal — disse ela.
Ele acenou.
Arya voltou para junto das portas douradas e agarrou de novo
no puxador, à esquerda. Elva reuniu-se a ela, agarrando o cabo da
Dauthdaert com a sua pequena mão.
Inclinando-se para trás, Arya puxou e voltou a puxar, e a
gigantesca estrutura começou a mover-se lentamente para fora.
Eragon tinha a certeza de que nenhum humano a teria conseguido
abrir e mesmo Arya parecia quase não ter força para o fazer.
Quando a porta chegou à parede, Arya largou-a, reunindo-se a
Eragon com Elva, em frente de Saphira.
Do outro lado do gigantesco arco havia uma enorme câmara
escura. Eragon não tinha a certeza das suas dimensões, pois as
paredes estavam ocultas em sombras aveludadas. Uma fiada de
lanternas sem chama, montadas sobre postes de ferro, estendia-se
de ambos os lados da entrada, iluminando o chão ornamentado
com desenhos e pouco mais. Um brilho ténue emanava de cima,
através de cristais embutidos no teto distante. As duas fiadas de
lanternas terminavam a mais de cento e cinquenta metros de
distância, junto da base de um amplo estrado, sobre o qual havia
um trono. Sentado no trono estava uma figura escura, a única
presença em toda a sala. Tinha uma espada nua poisada no colo,
com uma longa lâmina branca que parecia emitir um ligeiro brilho.
Eragon engoliu em seco e apertou Brisingr, acariciando
brevemente a maxila de Saphira com o rebordo do escudo. Esta
projetou a língua para fora da boca, em resposta. Depois, os
quatro avançaram por acordo tácito.
Logo que entraram na sala do trono, a porta dourada fechou-se
atrás deles. Eragon já esperava isso, mas, ainda assim, o ruído da
porta a fechar-se sobressaltou-o. Quando os ecos se diluíram no
silêncio crepuscular da sala de audiências, a figura que estava no
trono mexeu-se, como se despertasse de um sono. E uma voz
grave e intensa como Eragon jamais ouvira, imbuída de maior
autoridade que a de Ajihad, Oromis ou Hrothgar, uma voz perante
a qual mesmo a voz dos Elfos parecia grosseira e dissonante —
ecoou do lado oposto da sala do trono, dizendo:
— Tenho estado à vossa espera. Bem-vindos ao meu lar. As
minhas especiais boas-vindas a ti, Eragon, Matador de Espectros,
e a ti, Saphira, Escamas Brilhantes. Tinha um grande desejo de vos
ver. Mas também estou satisfeito por te ver, Arya — filha de
Islanzadí e Aniquiladora de Espetros por mérito próprio — e a ti
também Elva, da Testa Cintilante. E também, Glaedr, Umroth,
Valdr e os outros que viajam invisíveis convosco, é claro. Há muito
que os julgava mortos, e fico muito feliz por saber o contrário.
Sejam todos bem-vindos! Temos muito que falar.
R

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