24 de junho de 2017

Capítulo 63 - A tempestade irrompe


—E
stá na hora, meu capitão.
Roran abriu os olhos e acenou com a cabeça ao rapaz que
tinha espreitado na tenda com a lanterna. O rapaz afastou-se
apressadamente e Roran debruçou-se sobre Katrina, beijou-a na
face e ela retribuiu com outro beijo. Nenhum dos dois conseguira
dormir.
Levantaram-se e vestiram-se. Ela despachou-se primeiro, visto
que ele demorava mais tempo a colocar a armadura e as armas.
Ao calçar as luvas, ela deu-lhe uma fatia de pão, um pedaço de
queijo e uma caneca de chá morno. Ele ignorou o pão, deu uma
dentada no queijo e bebeu a caneca de chá de uma só vez.
Abraçaram-se durante um momento e ele disse:
— Se for uma menina, dá-lhe um nome feroz.
— E se for um rapaz?
— A mesma coisa. Seja rapaz ou menina terá de ser forte para
sobreviver neste mundo.
— Darei, prometo. — Largaram-se e ela olhou-o nos olhos. —
Luta bem, marido.
Ele acenou com a cabeça, virou-se e saiu, antes que perdesse a
compostura.
Os homens sob as suas ordens reuniam-se na entrada norte do
acampamento, quando Roran se juntou a eles. A única luz que
tinham provinha da ténue claridade do céu e das tochas colocadas
ao longo do baluarte exterior. Sob aquela luz mortiça e trémula, os
guerreiros assemelhavam-se a uma manada lenta de animais
estranhos e ameaçadores.
As suas fileiras contavam com um elevado número de Urgals,
incluindo alguns Kull. O seu batalhão continha mais criaturas dessas
do que a maioria, visto que Nasuada acreditava que eles seguiriam
mais facilmente as suas ordens do que as de qualquer outra pessoa.
Eram os Urgals que transportavam as longas escadas de cerco que
seriam utilizadas para treparem às muralhas da cidade.
Havia também uma série de Elfos entre os homens. Grande parte
dos elementos da sua espécie lutariam sozinhos, mas a rainha
Islanzadí autorizara alguns a servirem no exército dos Varden,
como proteção contra os ataques dos feiticeiros de Galbatorix.
Roran deu as boas-vindas aos Elfos e perdeu algum tempo a
perguntar o nome a cada um. Eles responderam-lhe educadamente,
mas Roran ficou com a sensação que não o tinham em grande
conta. Tudo bem. Ele também não morria de amores por eles.
Havia algo que não lhe inspirava confiança. Eram demasiado
distantes, demasiado experientes e, acima de tudo, demasiado
diferentes. Os Anões e os Urgals ele até conseguia entender, mas
não os Elfos. Não fazia ideia do que estavam a pensar, e isso
incomodava-o.
— Saudações, Martelo Forte — disse Nar Garzhgov, num
sussurro que se ouviu a trinta passos. — Hoje conquistaremos
grande glória para as nossas tribos!
— Sim hoje conquistaremos grande glória para as nossas tribos!
— anuiu Roran, continuando a andar. Os homens estavam nervosos.
Alguns dos guerreiros mais jovens pareciam doentes — e estavam
mesmo o que já era de esperar —, mas os mais velhos pareciam
tensos, irritáveis, ora demasiado faladores, ora demasiado calados.
O motivo era óbvio: Shruikan. Roran pouco podia fazer para os
ajudar a não ser esconder os próprios medos e esperar que os
homens não perdessem a coragem.
A expectativa que se sentia em todos eles, incluindo o próprio
Roran, era terrível. Tinham feito muitos sacrifícios para chegar até
ali e não eram apenas as suas vidas que estavam em risco na
batalha que se avizinhava, mas também o bem-estar das suas
famílias e descendentes, bem como o futuro da própria terra. As
anteriores batalhas tinham sido igualmente angustiantes, mas aquela
era a batalha final. Aquela era o fim de tudo. De uma forma ou de
outra, não se travariam mais confrontos com o Império depois
daquele dia.
A ideia nem parecia real. Nunca mais teriam hipótese de matar
Galbatorix. Embora a ideia de o enfrentar parecesse excelente em
conversa, a altas horas da noite; agora que o momento estava
prestes a chegar, essa possibilidade revelava-se aterradora.
Roran procurou Horst e os outros aldeões de Carvahall,
descobrindo que estes formavam um núcleo dentro do batalhão.
Birgit estava entre eles, empunhando um machado aparentemente
acabado de amolar. Roran cumprimentou-a de escudo erguido,
como quem levanta uma caneca de cerveja. Ela retribuiu o gesto e
Roran sorriu sombriamente.
Os guerreiros tinham abafado os pés e as botas com panos, e
aguardavam ordens para seguirem.
A ordem depressa chegou e eles marcharam para fora do
acampamento, fazendo os possíveis para evitar qualquer barulho
com as armas e com as armaduras. Roran conduziu os guerreiros
ao longo dos campos até à respetiva posição, diante do portão da
frente de Urû’baen. Aí reuniram-se a dois outros batalhões, um
deles comandado pelo seu antigo comandante, Martland Barba
Ruiva, e outro por Jörmundur.
Pouco depois, o alarme fez-se ouvir em Urû’baen, por isso
tiraram os panos das armas e dos pés, e prepararam-se para
atacar. Alguns minutos depois, o som dos cornos dos Varden
deram o sinal para avançar e eles partiram a correr, em direção à
imensa muralha da cidade.
Roran assumiu um lugar na frente de ataque. Era a maneira mais
fácil de morrer, mas os homens precisavam de o ver enfrentar
corajosamente os mesmos perigos. Roran esperava que isso os
enrijecesse, impedindo-os de destroçar ao primeiro sinal de
oposição. Fosse como fosse, Urû’baen não seria fácil de
conquistar, disso ele tinha a certeza.
Passaram a correr por uma das torres de cerco, cujas rodas
tinham mais de seis metros de altura e rangiam como dobradiças
ferrugentas, entrando em terreno aberto. Flechas e azagaias
choviam sobre eles, disparadas pelos soldados que se encontravam
ao cimo das muralhas.
Os Elfos gritaram na sua estranha língua e Roran viu muitas das
flechas e lanças virarem-se e enterrarem-se inofensivamente na
terra, sob a luz ténue do amanhecer. Mas nem todas. Um homem
atrás dele soltou um grito desesperado e Roran ouviu o estrépito de
armaduras, enquanto homens e Urgals se desviavam para não
pisarem o guerreiro caído. Roran não olhou para trás e nenhum
abrandou a corrida em direção às muralhas.
Uma flecha atingiu o escudo que Roran segurava por cima
cabeça, mas ele mal sentiu o impacto.
Quando chegaram à muralha, ele desviou-se, gritando:
— Escadas! Deixem passar as escadas!
Os homens afastaram-se, para que os Urgals que transportavam
as escadas pudessem avançar. As escadas eram tão compridas que
os Kull tiveram de usar postes feitos de troncos, amarrados uns aos
outros, para as erguer. Logo que as escadas tocaram na muralha,
vergaram-se sob o seu próprio peso, e a parte de cima, encostada
à muralha, deslizou de um lado para o outro, como se estivessem
prestes a cair.
Roran abriu caminho por entre os homens, agarrando no braço
de um dos elfos, Othíara. Ela olhou-o furiosa, mas ele ignorou o seu
olhar.
— Mantenham as escadas no lugar! — gritou ele. — Não deixem
que os soldados as empurrem!
Ela acenou com a cabeça e começou a cantar na língua antiga,
tal como os outros Elfos.
Roran virou-se e encaminhou-se apressadamente para a
muralha. Um dos homens já subia a escada mais próxima, mas
Roran agarrou-o pelo cinto, puxando-o para baixo.
— Eu vou subir primeiro — disse ele.
— Martelo Forte!
Roran pendurou o escudo às costas e começou a subir, com o
martelo na mão. Nunca apreciara as alturas e, à medida que os
homens e os Urgals ficavam mais pequenos, por baixo de si, ele
sentia-se mais desconfortável. A sensação piorou ao alcançar a
parte da escada que estava encostada à parede, pois já não podia
agarrar-se aos degraus, nem apoiar convenientemente os pés —
apenas os primeiros centímetros das botas cabiam sobre os troncos
de árvore —, obrigando-o a avançar com mais cuidado para não
escorregar.
Uma lança passou tão perto que ele sentiu a deslocação de ar na
sua face.
Praguejou e continuou a subir.
Estava a menos de noventa centímetros das ameias, quando um
soldado de olhos azuis se debruçou sobre a muralha, olhando-o
diretamente.
— Bah! — gritou Roran, e o soldado encolheu-se e recuou. Antes
que o homem tivesse tempo para recuperar, Roran subiu os últimos
degraus e saltou sobre as ameias, aterrando no passadiço no topo
da muralha.
O soldado que ele tinha assustado estava a pouco mais de um
metro de si, com uma espada curta de arqueiro. O homem tinha a
cabeça virada para o lado, gritando com um grupo de soldados que
estava mais adiante, na muralha.
Roran trazia o escudo às costas e tentou golpear o pulso do
homem com o martelo. Sabia que teria dificuldade em defender-se
de um espadachim bem treinado, sem o escudo, por isso o caminho
mais seguro era desarmar o seu adversário o mais rapidamente
possível.
O soldado percebeu o que ele pretendia fazer e aparou o
ataque, golpeando Roran na barriga.
Ou melhor, tentou, pois os feitiços de Eragon detiveram a ponta
da espada a dez centímetros da barriga de Roran. Ele roncou
surpreendido e desarmou-o, esmagando-lhe a cabeça com três
golpes rápidos.
Voltou a praguejar. Era um mau começo.
Ao cimo da muralha, e ao fundo, outros guerreiros dos Varden
tentavam subir as escadas para a saltar, mas poucos conseguiram.
Grupos de soldados esperavam-nos ao cimo de quase todas as
escadas e os reforços chegavam aos magotes, vindos das escadas
que davam acesso à cidade.
Baldor reuniu-se a Roran — utilizando a mesma escada — e,
juntos, correram em direção a uma balista operada por oito
soldados. A balista estava montada junto da base de uma das
torres da muralha, que se erguiam a trinta metros umas das outras.
Atrás dos soldados e da torre, Roran viu a ilusão que os Elfos
tinham criado de Saphira, que sobrevoava a muralha, contornandoa
e projetando jatos de fogo sobre ela.
Os soldados foram perspicazes: agarraram nas lanças e
apontaram-nas a Baldor e Roran, mantendo-os à distância. Roran
tentou apanhar uma das lanças, mas o homem que a empunhava foi
demasiado rápido e ele quase voltou a ser golpeado. Bastariam
mais uns momentos para que os soldados o dominassem a ele e a
Baldor.
Mas, antes que isso pudesse acontecer, um Urgal ergueu-se
sobre a beira da muralha, atrás dos soldados, baixou a cabeça e
atacou-os, urrando e brandindo o bastão que trazia consigo.
O Urgal atingiu um dos homens no peito, partindo-lhe as
costelas. Atingiu outro na anca, fraturando-lhe a pélvis. Qualquer
um dos ferimentos deveria ter incapacitado os soldados. No
entanto, quando o Urgal passou pesadamente por eles, os dois
homens ergueram-se do chão de pedra, como se nada tivesse
acontecido, e avançaram, golpeando o Urgal nas costas.
Uma sensação de pavor cresceu dentro de Roran.
— Temos de lhes esmagar o crânio ou cortar-lhes a cabeça, se
quisermos detê-los — rosnou ele a Baldor, gritando depois aos
Varden que estavam atrás deles, sem tirar os olhos dos soldados: —
Eles não sentem dor!
Sobrevoando a cidade, a imagem ilusória de Saphira embateu
contra uma torre. Todos pararam para olhar menos Roran, pois
sabia o que os Elfos estavam a fazer.
Depois, ele saltou para a frente e matou um dos soldados com
um golpe na têmpora, usando o escudo para empurrar o seguinte.
Estava demasiado perto dos soldados e as lanças de nada lhes
serviam, por isso conseguiu rapidamente acabar com eles servindose
do martelo.
Quando Roran e Baldor conseguiram matar os restantes
soldados que estavam em torno da balista, Baldor olhou-o com
uma expressão de desespero:
— Viste? Saphira...
— Ela está ótima.
— Mas...
— Não te preocupes. Ela está ótima.
Baldor hesitou, mas acreditou na palavra de Roran, e os dois
correram em direção ao grupo de soldados mais próximo.
Pouco depois, Saphira — a verdadeira Saphira — apareceu sobre
a parte sul da muralha, voando em direção à cidadela e arrancando
vivas de alívio aos Varden.
Roran franziu a sobrancelha. “Ela deveria ter ficado invisível durante
todo o voo.”
— Frethya, frethya — disse ele, rapidamente, entredentes, mas
continuou visível. “Raios”, pensou ele.
Depois virou-se e disse:
— Toca a voltar para as escadas!
— Porquê? — perguntou Baldor, enfaticamente, enquanto lutava
com outro soldado, atirando-o da muralha com um grito feroz.
— Para de fazer perguntas! Mexe-te!
Lado a lado, abriram caminho por entre a linha de soldados que
os separavam das escadas. Foi uma tarefa sangrenta e difícil.
Baldor foi golpeado na barriga da perna esquerda, por baixo da
caneleira, e ficou com uma grave contusão no ombro, onde uma
lança quase lhe perfurou a cota de malha.
O fato de os soldados serem imunes à dor significava que a
única forma segura de os deter era matá-los, o que não era tarefa
fácil. Significava também que Roran teria de ser impiedoso. Por
mais de uma vez pensou ter matado um soldado, e depois viu o
homem ferido levantar-se e atacá-lo enquanto ele combatia outros
adversários. Além disso, os soldados no passadiço eram tantos que
Roran começava a recear que nem ele nem Baldor conseguissem
sair dali.
Ao alcançarem a escada mais próxima, Roran disse:
— Aqui! Fica aqui.
Se Baldor ficou surpreendido, não o deixou transparecer.
Defenderam-se dos soldados sozinhos, mas entretanto dois outros
homens subiram a escada e reuniram-se a eles, seguindo-se um
terceiro, até que Roran começou a sentir que havia boas hipóteses
de forçar os soldados a recuar e a tomar aquela parte da muralha.
Muito embora o ataque tivesse sido planeado apenas como uma
distração, Roran não via qualquer motivo para o encarar como tal.
Já que tinham de arriscar a vida, o melhor seria tentar tirar algum
proveito. Fosse como fosse, teriam de desobstruir as muralhas.
Depois ouviram Thorn rugir de raiva e viram o dragão vermelho
aparecer sobre o topo dos edifícios, voando na direção da
cidadela. Roran distinguiu uma figura no seu dorso que julgou ser
Murtagh, com uma espada vermelha na mão.
— O que significa isto? — gritou Baldor entre estocadas.
— Significa que fomos desmascarados! — respondeu Roran. —
Prepara-te, estes estupores vão ter uma surpresa!
Mal acabou de falar, as vozes sinistras e belas dos Elfos
ressoaram sobre o ruído da batalha, entoando um cântico na língua
antiga.
Roran baixou-se, desviando-se de uma lança, e espetou a ponta
do martelo na barriga de um homem, deixando-o sem ar nos
pulmões. Os soldados poderiam não sentir, mas continuavam a ter
de respirar. Enquanto o soldado lutava para recuperar, Roran
penetrou nas suas defesas esmagando-lhe a garganta com o
rebordo do escudo.
Estava prestes atacar o soldado seguinte, quando sentiu a pedra
tremer debaixo dos pés. Recuou até ficar encostado às ameias e
abriu as pernas para se equilibrar.
Um dos soldados cometeu a imprudência de correr até ele nesse
preciso momento. Enquanto o homem corria na sua direção, o
tremor intensificou-se e o topo da muralha ondulou como um
cobertor, derrubando o soldado que se aproximava — bem como a
maioria dos companheiros —, e este ficou de cara no chão, incapaz
de se levantar, pois a terra continuava a tremer.
Do outro lado da torre da muralha, que os separava do portão
principal de Urû’baen, ouviu-se um ruído semelhante a uma
montanha a despedaçar-se. Jatos de água, em forma de leque,
projetaram-se no ar e a muralha por cima do portão estremeceu,
começando a desmoronar-se com um ruído ensurdecedor.
E os Elfos continuavam a cantar.
Quando o chão parou de tremer debaixo dos seus pés, Roran
saltou para a frente e matou três soldados, antes que estes
conseguissem levantar-se. Os outros deram meia-volta e desataram
a fugir pelas escadas que conduziam à cidade.
Roran ajudou Baldor a levantar-se e depois gritou:
— Vamos atrás deles! — Sorriu e sentiu o sabor do sangue na
boca. Afinal, talvez não tivessem começado assim tão mal.

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