24 de junho de 2017

Capítulo 62 - Por cima do muro e dentro do estômago

—T

ens mesmo de fazer isso? — perguntou Elva.
Eragon parou, enquanto verificava os arreios da sela de
Saphira, olhando para a menina, sentada na erva, de pernas
cruzadas, a brincar com os elos da túnica de cota de malha.
— O quê? — perguntou ele.
Ela bateu levemente no lábio com uma pequena unha
pontiaguda.
— Você está sempre a morder a boca por dentro. É incomodativo. —
E, depois de alguns instantes de reflexão, acrescentou. — É nojento.
Ele verificou, com alguma surpresa que mordera o interior da
bochecha esquerda até esta ficar com várias feridas
ensanguentadas.
— Desculpa — disse ele, sarando as feridas com um feitiço rápido.
Passara as últimas horas da noite a meditar — sem pensar no que
estava para vir, nem no que passara, apenas no momento: o toque
fresco da brisa na pele, a sensação do chão por baixo dos pés, o
fluxo constante da respiração e a batida lenta do coração,
assinalando os momentos que lhe restavam de vida.
Mas agora Aidail, a estrela da manhã, erguera-se a Este,
anunciando a chegada da alvorada, e era altura de se prepararem
para a batalha. Eragon examinara o seu equipamento centímetro a
centímetro, ajustara os arreios da sela até ficarem perfeitamente
confortáveis para Saphira, tirara tudo dos alforges, exceto o baú
que continha o Eldunarí e Glaedr, e o cobertor que o envolvia,
prendendo e desprendendo o cinto da espada pelo menos cinco
vezes.
Finalmente, examinou os arreios da sela e saltou do dorso de
Saphira.
— Levanta-te! — disse ele. Elva olhou-o com um ar contrariado,
mas fez o que ele lhe disse, sacudindo a erva da túnica. Num
movimento rápido, ele passou-lhe as mãos pelos ombros finos,
puxando-lhe pelas extremidades da cota de malha para ter a
certeza de que esta estava bem ajustada ao seu corpo.
— Quem te fez isto?
— Dois irmãos anões, encantadores, chamados Ûmar e Ulmar. —
Surgiram-lhe duas covinhas nas faces, ao sorrir para ele. — Eles
achavam que não ia precisar dela, mas eu fui muito persuasiva.
Tenho a certeza disso, disse Saphira a Eragon. Ele conteve um
sorriso. A menina passara uma boa parte da noite a falar com os
dragões, seduzindo-os como só ela era capaz. Contudo, Eragon
percebeu que eles também a temiam — mesmo os mais velhos,
como Valdr —, pois não tinham defesas contra o poder de Elva.
Ninguém tinha.
— E Ûmar e Ulmar deram-te alguma espada com que lutar? —
perguntou Eragon.
Elva franziu a sobrancelha.
— Para que precisaria disso?
Ele olhou-a por instantes e depois foi buscar a velha faca de
caça, que usava para comer, e mandou-a atá-la à cintura com uma
tira de couro.
— Pelo sim, pelo não... — disse, ao ouvi-la protestar. — Agora,
toca a subir.
Ela subiu-lhe obedientemente para as costas, prendendo os
braços à volta do seu pescoço. Levara-a até à colina dessa forma,
o que fora um pouco desconfortável para ambos, mas ela não
conseguia acompanhar o seu passo, a pé.
Eragon subiu cuidadosamente pelo flanco de Saphira, até ao
meio dos seu dorso. Ao agarrar-se a um dos espinhos salientes do
pescoço, torceu-se para que Elva conseguisse passar para cima da
sela. Logo que se libertou do peso da menina, Eragon voltou a saltar
para o chão. Ao lançar-lhe o escudo, ele teve de correr para a
frente, de braços abertos, pois este quase que a derrubava do
dorso de Saphira.
— Apanhaste-o? — perguntou ele.
— Sim — respondeu ela, puxando o escudo para cima do colo.
Depois enxotou-o com uma mão, dizendo:
— Vai, vai!
Segurando no pomo de Brisingr, para que a espada não se
metesse entre as pernas, Eragon correu para o topo da colina e
assentou o joelho no chão, baixando-se tanto quanto possível.
Atrás de si, Saphira rastejou até meio do declive e deitou-se,
alongando o pescoço por entre a relva até ficar com a cabeça junto
dele para ambos conseguirem ver o mesmo.
Uma coluna cerrada de humanos, Anões, Elfos, Urgals e
meninos-gatos saía do acampamento dos Varden. Sob a luz mortiça
e acinzentada do amanhecer, era difícil distingui-los, muito menos
sem lanternas. A coluna descia os campos em declive, em direção a
Urû’baen, e logo que os guerreiros ficaram a uns oitocentos metros
da cidade, dividiu-se em três linhas. Uma posicionou-se diante do
portão da frente, outra virou para a zona sudeste da muralha
exterior e outra para noroeste.
O último grupo era o que Eragon dera a entender que ele e
Saphira iriam acompanhar.
Os guerreiros levavam panos presos nos pés e nas armas e
falavam em surdina. Ainda assim, Eragon ouvia de vez em quando
um burro a zurrar, um cavalo a relinchar e vários cães a ladrar ao
movimento. Os soldados nas muralhas, em breve, iriam aperceberse
do movimento — muito provavelmente quando os guerreiros
começassem a mover as catapultas, balistas e as torres de cerco
que os Varden já tinham montado e posicionado nos campos em
frente à cidade.
Eragon estava impressionado pelo fato dos homens, Anões e
Urgals ainda estarem dispostos a marchar para a batalha, depois de
verem Shruikan. Devem ter muita fé em nós, disse ele a Saphira.
Ele sentia o peso dessa responsabilidade e tinha a plena consciência
que poucos guerreiros iriam sobreviver, se ele e os que estavam
consigo falhassem.
Sim, mas se Shruikan voltar a voar cá para fora, vão fugir em
debandada como ratos assustados.
Então, o melhor é não permitirmos que isso aconteça.
Ouviu-se o toque de um corno em Urû’baen, depois um
segundo e um terceiro, e começaram a aparecer luzes por toda a
cidade, à medida que as lanternas e as tochas se acendiam.
— Cá vamos nós — murmurou Eragon, sentindo a pulsação
acelerar.
Assim que o alarme foi dado, os Varden abandonaram todos os
seus esforços para manter a presença em segredo. A este, um
grupo de Elfos a cavalo partiu a galope em direção à colina que
protegia a cidade, planeando subir a encosta e atacar a muralha, ao
cimo da enorme saliência que se erguia sobre Urû’baen.
No centro do acampamento praticamente deserto dos Varden,
Eragon viu o que lhe parecia ser a forma cintilante de Saphira. Uma
figura solitária — cujas feições sabia serem uma réplica perfeita das
suas — vinha sentada sobre o dorso da miragem, empunhando uma
espada e um escudo.
A réplica de Saphira ergueu a cabeça, abriu as asas e levantou
voo com um rugido sonoro.
Cumprem bem o seu papel, não achas?, disse ele a Saphira.
Os Elfos têm um bom entendimento sobre a aparência e o
comportamento dos dragões... ao contrário de alguns humanos.
O espetro de Saphira aterrou junto do grupo, mais a norte,
embora Eragon reparasse que os Elfos tentavam mantê-la distante
dos homens e dos Anões, para que estes não roçassem nela e
percebessem que era tão insubstancial como o arco-íris.
O céu começava a aclarar à medida que os Varden e os seus
aliados se dispunham em formações ordenadas, em cada uma das
três posições, do exterior das muralhas. Dentro da cidade, os
soldados de Galbatorix continuavam a preparar-se para o assalto,
mas era óbvio que estavam apavorados e desorganizados,
correndo pelas ameias. No entanto, Eragon sabia que aquela
confusão não duraria muito.
“Agora”, pensou ele. “Agora! Não esperes mais.” Passou os
olhos pelos edifícios, em busca do mais pequeno sinal de vermelho,
mas não viu nada. Onde você está tu, raios? Mostra-te!
Ouviram-se mais três toques de cornos — desta vez dos Varden.
Seguiu-se um alarido de vozes e gritos, e as máquinas de guerra
dos Varden começaram a lançar os seus projéteis sobre a cidade.
Os arqueiros dispararam rajadas de flechas, e as fileiras de
guerreiros destroçaram-se, avançando na direção da muralha,
aparentemente impenetrável.
As pedras, os dardos e as flechas pareciam mover-se
lentamente, ao descreverem arcos sobre o terreno que separava o
exército da cidade. Nenhum dos projéteis atingiu a muralha
exterior. Seria inútil tentar derrubá-la, por isso os homens que
manobravam as máquinas apontaram para cima e para lá das
muralhas. Algumas das pedras estilhaçaram-se ao bater em
Urû’baen, projetando fragmentos, aguçados como adagas, em
todas as direções, enquanto outras abalroavam os edifícios e
saltitavam pelas ruas como berlindes gigantes.
Eragon pensou como seria horrível acordar no meio daquela
confusão, com grandes pedaços de pedra a choverem do ar.
Depois a atividade num outro ponto chamou a sua atenção, ao
aperceber-se de que o espetro de Saphira levantava voo sobre os
guerreiros que corriam. Batendo três vezes as asas, o espetro
trepou a muralha, banhando as ameias com uma língua de fogo, que
Eragon achou mais clara do que o normal. O fogo era real e fora
conjurado pelos Elfos que estavam perto da secção norte da
muralha, os mesmos que o tinham criado e que sustinham a ilusão.
A aparição de Saphira voava para trás e para diante, na mesma
extensão da muralha, para afugentar os soldados. Logo que o
conseguiu, um grupo de vinte e poucos elfos voaram do exterior da
cidade, até ao topo de uma das torres da muralha, para poderem
continuar a vigiar a aparição, à medida que esta avançava para o
interior de Urû’baen.
Se Murtagh e Thorn não se mostrarem em breve, eles vão
começar a interrogar-se por que motivo não atacamos as outras
partes da muralha, disse ele a Saphira.
Vão pensar que estamos a proteger os guerreiros que tentam
entrar por esta parte, respondeu ela. Dá tempo ao tempo.
Noutros pontos da muralha, os soldados disparavam flechas e
azagaias sobre o exército, em baixo, atingindo dúzias de soldados
dos Varden. As mortes eram inevitáveis, mas Eragon lamentava-as
de qualquer modo, pois os ataques dos guerreiros eram apenas
uma distração. Tinham poucas hipóteses de conseguir dominar as
defesas da cidade. Entretanto as torres de cerco aproximavam-se
ruidosamente. Rajadas de flechas cruzavam-se entre os níveis
superiores e os homens nas ameias. Um regato fervente de pez,
vindo de cima, precipitou-se sobre a beira da saliência e
desapareceu entre os edifícios, em baixo. Eragon olhou para cima e
viu clarões de luz, ao cimo da muralha que protegia a beira do
precipício e, logo a seguir, distinguiu quatro corpos que caíam pela
encosta, precipitando-se em direção ao chão como bonecos de
trapos. Aquela visão agradou-lhe, pois significava que os Elfos
tinham tomado a muralha superior.
O espetro de Saphira descreveu um círculo sobre a cidade,
incendiando vários edifícios. Ao fazê-lo, um grupo de arqueiros
posicionados sobre um telhado próximo dispararam uma rajada de
flechas. A aparição desviou-se para evitar os projéteis e,
aparentemente por acidente, bateu contra uma das seis torres
verdes dos Elfos, dispersas por Urû’baen.
A colisão pareceu perfeitamente real e Eragon encolheu-se,
compadecido, ao ver a asa esquerda do dragão partir-se contra a
torre. Os ossos estalaram como caules de erva seca. A réplica de
Saphira rugiu e debateu-se, caindo para as ruas em espiral. Depois
disso, os edifícios esconderam-na, mas os seus rugidos ouviam-se a
quilômetros de distância e as chamas que parecia projetar tingiam
as partes laterais das casas, iluminando o teto da saliência de pedra,
suspensa sobre a cidade.
Eu nunca teria sido tão desastrada, disse Saphira, fungando.
Eu sei.
Passou um minuto. A tensão dentro de Eragon estava a atingir
um nível quase insuportável.
— Onde estão eles? — rosnou ele, cerrando os punhos. A
probabilidade de os soldados descobrirem que o dragão que
julgavam ter abatido, na verdade não existia, aumentava a cada
segundo.
Foi Saphira que os viu primeiro.
Ali, disse ela, indicando-lhe mentalmente o local.
Thorn mergulhou de uma abertura escondida no interior da
saliência, como uma lâmina de rubi, caída dos céus. Deixou-se cair
a direito durante quase cem metros e, depois, abriu as asas apenas
o suficiente para abrandar para uma velocidade segura, aterrando
numa praça, perto do local onde o espetro de Saphira tinha caído.
Eragon julgou ver Murtagh no dragão vermelho mas a distância
era demasiado grande para ter a certeza.
Teriam de esperar que fosse Murtagh, porque se fosse
Galbatorix, o seu plano estaria certamente condenado ao fracasso.
Deve haver túneis na pedra, disse ele a Saphira.
Mais fogo de dragão irrompeu por entre os edifícios. Depois, a
aparição de Saphira saltou sobre os telhados e esvoaçou
brevemente, como um pássaro com uma asa ferida, voltando a
mergulhar em direção ao chão, seguida de Thorn.
Eragon não quis ver mais.
Deu meia-volta, correu ao longo do pescoço de Saphira e
atirou-se para cima da sela, atrás de Elva. Demorou apenas alguns
segundos a enfiar as pernas nas correias e a prender duas de cada
lado, deixando as restantes soltas. Mais tarde só iriam empatá-lo.
A correia de cima prendia também as pernas de Elva.
Proferindo, de imediato, as palavras, Eragon lançou um feitiço
para ocultar os três e, quando a magia produziu efeito,
experimentou a habitual sensação de desorientação, enquanto o seu
corpo desaparecia. Era como se estivesse a flutuar alguns metros
acima de um padrão escuro, em forma de dragão, prensado nas
plantas da colina.
Mal terminou o feitiço, Saphira atirou-se para a frente, saltando
do topo da colina e batendo as asas energicamente, para tentar
ganhar altitude.
— Não é lá muito confortável, pois não? — disse Elva, quando
Eragon lhe tirou o escudo.
— Não, nem sempre! — respondeu ele, levantando a voz para se
fazer ouvir sobre o ruído do vento.
Algures na sua mente, conseguia sentir Glaedr e Umaroth e os
outros Eldunarís a observarem, enquanto Saphira se inclinava para
baixo, mergulhando em direção ao acampamento dos Varden.
Agora, consumaremos a nossa vingança, disse Glaedr.
Saphira começou a ganhar velocidade e Eragon dobrou-se
sobre Elva. Ao centro do acampamento viu Blödhgarm com os
seus doze feiticeiros e Arya — que tinha a Dauthdaert. Cada um
trazia um pedaço de corda de nove metros de comprimento,
amarrado à volta do peito, por baixo dos braços. Todas as cordas
estavam presas a um tronco tão grosso como a coxa de Eragon e
do comprimento de um Urgal adulto.
Quando Saphira desceu em direção ao acampamento, Eragon
fez-lhes sinal com a mente e dois elfos atiraram o tronco ao ar.
Saphira apanhou-o entre as garras e os elfos saltaram. Momentos
depois, Eragon sentiu uma sacudidela e Saphira afundou-se no ar,
absorvendo o peso. Através do corpo dela, Eragon viu os Elfos, as
cordas e o tronco desaparecerem, depois destes lançarem um
feitiço de invisibilidade, tal como ele próprio fizera.
Saphira bateu as asas poderosamente e subiu cerca de trezentos
metros acima do solo, o suficiente para que os Elfos pudessem
passar facilmente por cima das muralhas e edifícios da cidade.
À sua esquerda, Eragon viu primeiro Thorn e depois o espetro
de Saphira, enquanto estes se perseguiam um ao outro, a pé, na
parte norte da cidade. Os Elfos que controlavam a aparição
tentavam manter Murtagh e Thorn tão ocupados quanto possível,
para que nenhum tivesse a hipótese de a atacar mentalmente. Se o
fizessem ou se apanhassem a aparição, depressa iriam perceber
que tinham sido enganados.
“Só mais uns minutos”, pensou Eragon.
Saphira voou sobre os campos, sobre as catapultas, com os
seus dedicados operadores, sobre as fileiras de arqueiros com as
flechas enterradas no chão, diante deles, como tufos de juncos de
pontas brancas, sobre uma torre de cerco, e sobre guerreiros a pé
— homens, anões e Urgals — escondidos debaixo dos seus escudos,
que corriam com escadas, em direção à muralha exterior. Entre eles
estavam Elfos altos e esguios, de elmos cintilantes, lanças de pontas
alongadas e longas espadas.
Saphira sobrevoou a muralha e Eragon sentiu uma estranha
ferroada. Ela reapareceu por baixo do seu corpo e Eragon deu
consigo a olhar para a nuca de Elva, deduzindo que Arya e os
outros elfos, suspensos por baixo deles, também se tinham tornado
visíveis. Praguejando entredentes, Eragon quebrou o feitiço que os
escondia. Aparentemente, as proteções de Galbatorix não lhes
permitiriam entrar na cidade sem ser vistos. Saphira acelerou o voo
em direção ao gigantesco portão da cidadela. Em baixo, Eragon
ouviu gritos de pavor e de perplexidade, mas não lhes prestou
atenção. Era com Murtagh e Thorn que ele estava preocupado e
não com os soldados.
Recolhendo as asas, Saphira mergulhou em direção ao portão e,
quando parecia que iria embater contra ele, virou e empinou-se,
batendo as asas no sentido inverso, para abrandar. Ao imobilizarse
quase por completo no ar, deixou-se flutuar no sentido
descendente até poisar os Elfos em segurança, no chão.
Assim que estes se desembaraçaram das cordas e desimpediram
o caminho, Saphira aterrou no pátio em frente do portão,
sacudindo Eragon e Elva com a força do impacto.
Eragon soltou as fivelas das correias que o prendiam a ele e a
Elva à sela, ajudando depois a menina a sair do dorso de Saphira.
Ambos correram atrás dos Elfos, em direção ao portão.
A entrada da cidadela tinha duas gigantescas portas negras, que
se uniam no cimo. Pareciam feitas de ferro maciço e tinham
centenas, senão milhares de rebites pontiagudos, cada um do
tamanho da cabeça de Eragon. A visão era assustadora. Eragon
não conseguia imaginar uma entrada menos apetecível.
De lança em punho, Arya correu para o pequeno portal de
saída, montado na porta do lado esquerdo, do qual se distinguia
apenas uma linha de união escura que demarcava um retângulo, que
mal permitia a passagem de um homem. Dentro do retângulo havia
uma tira horizontal de metal, com cerca de três dedos de largura, e
o triplo do comprimento, ligeiramente mais clara que o resto da
porta.
Quando Arya se aproximou da porta, a tira afundou-se cerca de
um centímetro, deslizando depois para o lado, com um rangido
ferrugento. Dois olhos, semelhantes aos de uma coruja, espreitaram
do interior sombrio.
— Quem és tu? — perguntou uma voz altiva. — Diz ao que vens ou
vai-te daqui!
Arya enfiou de imediato Dauthdaert através da ranhura. Ouviuse
um gorgolejo no interior e Eragon distinguiu o ruído de um corpo
a cair.
Arya recolheu a lança, sacudindo sangue e os pedaços de carne
da lâmina serrilhada. Depois agarrou no cabo da arma com ambas
as mãos e encaixou a ponta na linha de união do lado direito do
portal de saída, dizendo:
— Verma!
Eragon franziu os olhos e virou-se para o lado ao ver uma chama
intensa, azul, surgir entre a lança e o portão. Sentia o calor mesmo
a vários metros de distância.
Com o rosto desfigurado do esforço, Arya enterrou a lâmina da
lança no interior do portão, cortando lentamente o aço. Faíscas e
pingos de metal fundido escorriam por baixo da lâmina, deslizando
pelo chão pavimentado, como gordura numa panela quente. Eragon
e os outros foram obrigados a recuar.
Enquanto ela trabalhava, Eragon olhou de relance na direção de
Thorn e do espetro de Saphira. Não conseguia vê-los, mas
continuava a ouvir os rugidos e o estrondo da alvenaria a partir-se.
Elva deixou-se cair contra ele. Ao baixar os olhos, Eragon
percebeu que ela tremia e suava, como se estivesse febril, e
ajoelhou-se junto dela.
— Queres que te leve ao colo?
Ela abanou a cabeça.
— Ficarei melhor logo que estivermos lá dentro e longe...
daquilo. — Apontou na direção da batalha.
Eragon viu uma série de pessoas a observarem-nos, junto do
pátio, no espaço entre as casas. Não pareciam soldados. Importaste
de os afugentar?, pediu ele a Saphira. Ela virou a cabeça,
deixando escapar um rosnido baixo e os espetadores fugiram de
imediato.
Quando a fonte de faíscas e metal incandescente cessou, Arya
deu três pontapés na porta de saída e esta caiu em cima do corpo
do guarda do portão. Instantes depois, um cheiro a lã e a pele
queimada impregnou o ar.
Empunhando ainda a Dauthdaert, Arya passou através do portal
escuro e Eragon conteve a respiração. Quaisquer que fossem os
feitiços que Galbatorix tivesse lançado na cidadela, a Dauthdaert
deveria permitir-lhe passá-los incólumes, tal como lhe possibilitara
abrir o portal de saída. Mas, havia sempre a hipótese de o rei ter
lançado um feitiço que a Dauthdaert não pudesse neutralizar.
Para seu alívio, nada aconteceu quando Arya entrou na cidadela.
Depois, um grupo de vinte soldados correu na direção dela, de
piques em riste. Eragon desembainhou Brisingr e correu para o
portal de saída, mas não se atreveu a atravessá-lo e a entrar na
cidadela, para se reunir a ela, pelo menos naquele momento.
Empunhando a lança com a mesma eficiência que a espada,
Arya abriu caminho por entre os homens, eliminando-os com uma
rapidez impressionante.
— Porque não a avisaste? — exclamou Eragon, sem tirar os olhos
do combate.
Elva reuniu-se a ele junto da abertura do portão.
— Porque eles não vão fazer-lhe mal.
As suas palavras revelaram-se proféticas e nenhum dos soldados
conseguiu atingi-la. Os dois últimos homens tentaram fugir, mas
Arya correu atrás deles e matou-os antes que conseguissem
afastar-se mais de dez metros, no imenso corredor, que parecia
ainda maior que os quatro corredores principais de Tronjheim.
Depois de matar os quatro soldados, Arya arrastou os corpos
para o lado, desimpedindo o caminho até ao portal da entrada. A
seguir, percorreu cerca de doze metros do corredor, poisou a
Dauthdaert no chão e fê-la deslizar até junto de Eragon.
Ao largar a lança contraiu o corpo, como se esperasse ser
atingida, mas qualquer que fosse o tipo de magia ali presente, não
pareceu afetá-la.
— Sentes alguma coisa? — perguntou Eragon. A sua voz ecoou no
interior do corredor.
Ela abanou a cabeça.
— Desde que fiquemos longe do portão, estaremos em
segurança.
Eragon entregou a lança a Blödhgarm, que a agarrou e entrou
pelo portal de saída. Juntos, Arya e o elfo coberto de pelo,
entraram nas salas, de ambos os lados do portão, manipulando os
mecanismos ocultos para o abrir, uma tarefa impossível para igual
número de humanos.
O ruído das correntes ecoou no ar e as gigantescas portas de
ferro abriram-se lentamente.
Logo que a porta se abriu o suficiente para Saphira entrar,
Eragon gritou:
— Parem! — E as portas rangeram e imobilizaram-se.
Blödhgarm saiu da sala da direita e entregou a Dauthdeart a
outro elfo, tendo o cuidado de se manter a uma distância segura da
entrada.
E assim entraram na cidadela, um por um.
Quando apenas Eragon, Elva e Saphira estavam lá fora, um
terrível rugido ecoou na parte norte da cidade e, por instantes, o
silêncio abateu-se por toda a cidade.
— Eles descobriram o nosso embuste — gritou o elfo Uthinarë,
atirando a lança a Eragon. — Despacha-te, Argetlam!
— você vais a seguir — disse Eragon, passando a Dauthdaert a Elva.
Aninhando-a nos braços, Elva correu para junto dos Elfos,
atirando depois a lança a Eragon, que a agarrou e correu pela
entrada. Quando se virou, ficou alarmado ao ver Thorn erguer-se
sobre os edifícios no lado oposto da cidade. Eragon baixou-se
sobre um joelho, poisou a Dauthdaert no chão e fê-la rolar na
direção de Saphira.
— Depressa! — gritou ele.
Saphira perdeu alguns segundos a remexer na lança, tentando
agarrá-la com a ponta das mandíbulas. Por fim, conseguiu prendêla
entre os dentes, saltando para o interior do gigantesco corredor,
coberto de corpos de soldados.
Thorn rugiu à distância e bateu furiosamente as asas, voando
velozmente na direção da cidadela.
Arya e Blödhgarm lançaram um feitiço, recitando-o em uníssono.
Ouviu-se um matraquear ensurdecedor no interior das muralhas de
pedra, e as portas de ferro fecharam-se três vezes mais depressa
do que se tinham aberto. O estrondo foi tão grande que Eragon o
sentiu através dos pés. Uma barra de metal, com noventa
centímetros de espessura e quase dois metros de largura, deslizou
do interior de cada parede, encaixando-se nos suportes presos ao
interior das portas, trancando-as.
— Isso deve contê-los durante algum tempo — disse Arya.
— Não por muito tempo — comentou Eragon, olhando para o
portal de saída, aberto.
Depois viraram-se para verem o que tinham diante de si.
Eragon calculava que o corredor tivesse uns quatrocentos
metros, conduzindo-os às profundezas da colina, atrás de
Urû’baen. Ao fundo do corredor havia mais um conjunto de portas,
tão grandes como as primeiras, folheadas a ouro trabalhado, que
brilhava maravilhosamente à luz das lanternas sem chama, instaladas
ao longo das paredes, em intervalos regulares. De ambos os lados,
viam-se dúzias de corredores mais pequenos, mas nenhum
suficientemente grande para Shruikan, embora Saphira coubesse
em muitos deles. Pendurados nas paredes, de trinta em trinta
metros, havia estandartes vermelhos, bordados com os contornos
da chama ondulante que Galbatorix usava como insígnia. Mas,
tirando isso, o corredor estava vazio.
As dimensões do corredo eram assustadoras e o fato de estar
vazio deixava Eragon ainda mais nervoso. Ele deduziu que a sala do
trono estivesse do outro lado das portas douradas, mas calculou
que não fosse tão fácil de alcançar como parecia. Mesmo que
Galbatorix não fosse tão engenhoso como constava, teria
espalhado dúzias, senão centenas de armadilhas pelo corredor.
Eragon achava intrigante que o rei ainda não os tivesse atacado e
não sentia o toque de qualquer mente a não ser a de Saphira e dos
seus companheiros. No entanto, ele estava plenamente consciente
de que se encontravam muito perto do rei. Toda a cidadela parecia
observá-los.
— Ele deve saber que nós estamos aqui — disse Eragon. — Todos
nós.—
Então é melhor apressarmo-nos — disse Arya, tirando a
Dauthdaert da boca de Saphira. A arma estava coberta de saliva.
— Thurra — disse Arya e a baba escorreu para o chão.
Atrás deles, no exterior do portão de ferro, Thorn aterrou no
pátio com um estrondo enorme. Ouviu-se um rugido de frustração
e, depois, algo pesado atingiu o portão e as paredes trepidaram
com o ruído. Arya correu para a frente do grupo e Elva reuniu-se a
ela. A menina de cabelo escuro colocou a mão sobre o cabo da
lança — beneficiando-a também do seu poder protetor — e ambas
começaram a andar, percorrendo apressadamente o longo

corredor e embrenhando-se cada vez mais no covil de Galbatorix.

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