24 de junho de 2017

Capítulo 61 - Fogo na noite

Q

uando a noite caiu, Eragon lançou um feitiço para se esconder.
Depois acariciou o focinho de Saphira e partiu a pé, em direção
ao acampamento dos Varden.
Tem cuidado, disse ela.
Mantendo-se invisível, não lhe foi difícil passar pelos guerreiros
que estavam de sentinela, em torno do perímetro do acampamento.
Desde que não fizesse barulho e os homens não reparassem nas
suas pegadas nem nas sombras, poderia deslocar-se à vontade.
Caminhou por entre as tendas de lã até encontrar Roran e
Katrina. Bateu com os nós dos dedos no poste central e Roran
ergueu a cabeça.
— Onde você está? — sussurrou Roran. — Entra, depressa!
Eragon quebrou o fluxo de magia e revelou-se. Roran vacilou e
agarrou-lhe no braço, puxando-o para o interior escuro da tenda.
— Bem-vindo, Eragon — disse Katrina, erguendo-se do pequeno
catre onde estava sentada.
— Katrina.
— É bom ver-te de novo — disse ela, abraçando-o brevemente.
— Isto vai demorar muito? — perguntou Roran.
Eragon abanou a cabeça.
— Não deve demorar. — Depois, agachou-se sobre os
calcanhares, meditou durante uns instantes e começou a cantar
suavemente na língua antiga. Primeiro ergueu feitiços em torno de
Katrina, para a proteger contra qualquer pessoa que lhe quisesse
fazer mal. Criou feitiços mais abrangentes do que planeara de início,
permitindo que ela e a criança por nascer escapassem às tropas de
Galbatorix, se algo acontecesse a ele ou a Roran. Estas defesas
proteger-te-ão de uma série de ataques — disse-lhe ele. — Não sei
ao certo de quantos, porque depende da força dos golpes ou dos
feitiços. Dei-te também uma outra proteção. Se estiveres em
perigo, diz a palavra frethya duas vezes e ficarás invisível.
— Frethya — murmurou ela.
— Exatamente. Porém, esta não te esconderá por completo. Os
sons que emitires continuarão a ser ouvidos e as tuas pegadas
manter-se-ão visíveis. Aconteça o que acontecer, não vás para
dentro de água, de contrário serás de imediato descoberta. O
feitiço alimentar-se-á da tua energia, o que significa que te cansarás
mais depressa do que o habitual. Também não te aconselharia a
dormir enquanto estiver ativo, pois poderás não voltar a acordar.
Para quebrares o feitiço, basta dizeres frethya letta.
— Frethya letta.
— Ótimo.
Eragon desviou a sua atenção para Roran. Demorou mais algum
tempo a erguer proteções ao primo — era provável que Roran se
confrontasse com um maior número de ameaças —, e muniu-as de
mais energia do que Roran certamente teria aprovado, mas não se
preocupou. Não suportava a ideia de derrotar Galbatorix e
descobrir que Roran tinha morrido durante a batalha.
Depois disse:
— Desta vez fiz algo de diferente, algo em que já deveria ter
pensado há muito. Para além das proteções habituais, dei-te mais
algumas que se alimentam da tua força. Proteger-te-ão do perigo
desde que estejas vivo, porém — e levantou o dedo —, só serão
ativadas quando esgotares as outras proteções e, se as
circunstâncias forem demasiado exigentes, ficarás inconsciente e
morrerás.
— Quer isso dizer que para me salvarem poderão matar-me? —
perguntou Roran.
Eragon acenou afirmativamente.
— Se não deixares que ninguém te atire outra muralha para cima,
tudo correrá bem. É um risco, mas acho que vale a pena corrê-lo,
se impedir um cavalo de te atropelar ou um dardo de te trespassar.
Lancei-te também o mesmo feitiço que lancei a Katrina. Tudo o
que tens de fazer é dizer frethya duas vezes e frethya letta
consoante queiras ficar invisível ou voltar a ficar visível. É capaz de
te dar jeito durante a batalha.
Roran deu uma gargalhada malévola.
— Certamente que sim.
— Mas zela para que os Elfos não te confundam com um dos
feiticeiros de Galbatorix.
Quando Eragon se levantou, Katrina levantou-se também e
surpreendeu-o ao agarrar numa das suas mãos e ao encostá-la ao
seu peito.
— Obrigada, Eragon — agradeceu ela, brandamente. — És um
bom homem.
Ele corou, embaraçado.
— Não tens de quê.
— Protege-te bem, amanhã. você significas muito para nós e eu
espero que estejas por cá para cumprires o teu papel de tio
babado. Ficaria bastante ofendida, se morresses.
Ele deu uma gargalhada.
— Não te preocupes. Saphira não me deixará cometer qualquer
imprudência.
— Ótimo — disse ela, beijando-o em ambas as faces e largandoo.
— Adeus, Eragon.
— Adeus Katrina.
Roran acompanhou-o até lá fora. E fazendo um gesto na direção
da tenda disse:
— Obrigado.
— Fico feliz por ter podido ajudar.
Agarraram-se pelos antebraços, abraçaram-se e depois Roran
disse:
— Que a sorte te acompanhe.
Eragon respirou fundo, tremulamente.
— Que a sorte te acompanhe. — Apertou o antebraço de Roran,
relutante em largá-lo, pois sabia que poderiam não voltar a ver-se.
— Se Saphira e eu não voltarmos — disse ele —, farás o necessário
para que sejamos enterrados em casa? Não gostaria que os nossos
ossos ficassem aqui.
Roran arqueou as sobrancelhas.
— Não seria fácil transportar Saphira de volta.
— Os Elfos ajudariam, tenho a certeza.
— Nesse caso, sim, prometo. Há algum local do teu especial
agrado?
— No topo da colina árida — disse Eragon, referindo-se ao
contraforte perto da quinta. A colina árida sempre lhe parecera um
excelente local para um castelo, algo que tinham discutido
longamente quando eram mais jovens.
Roran acrescentou:
— E se eu não voltar...
— Faremos o mesmo por ti.
— Não era isso que eu ia pedir. Se eu não voltar, cuidam de
Katrina?
— Claro. você sabes que sim.
— Sim, mas tinha de ter a certeza. — Olharam um para o outro
durante mais um minuto. Finalmente, Roran disse: — Contamos
contigo para jantar amanhã.
— Lá estarei.
Depois Roran voltou para dentro da tenda, deixando Eragon
sozinho na noite.
Ele olhou para as estrelas e sentiu uma pontada de dor, como se
tivesse perdido alguém próximo.
Momentos depois, afastou-se e mergulhou nas sombras, usando
a escuridão para se esconder.
Procurou pelo acampamento até encontrar a tenda que Horst e
Elain partilhavam com a bebé, Esperança. Os três estavam ainda
acordados e a bebé chorava.
— Eragon! — exclamou Horst suavemente, quando Eragon se
mostrou. — Entra, entra! Desde Dras-Leona que não te vemos!
Como você está?
Eragon passou quase uma hora a falar com eles — não lhes
contou dos Eldunarís, mas falou-lhes da viagem a Vroengard — e,
quando Esperança finalmente adormeceu, despediu-se, voltando a
embrenhar-se na noite.
A seguir, procurou Jeod, que encontrou a ler pergaminhos à luz
de uma vela, enquanto a sua mulher, Helen, dormia. Quando
Eragon bateu e enfiou o rosto na tenda, o homem de rosto fino,
coberto de cicatrizes, pôs os pergaminhos de parte e saiu da tenda
para se reunir a Eragon.
Jeod fez-lhe muitas perguntas e, embora Eragon não lhe tivesse
respondido a todas, revelou-lhe o suficiente para que ele
percebesse muito do que estava prestes a acontecer.
Depois, Jeod poisou a mão sobre o ombro de Eragon.
— Não te invejo pela missão que te espera. Brom orgulhar-se-ia
da tua coragem.
— Espero que sim.
— Tenho a certeza... Se não te voltar a ver, quero que saibas
que escrevi um pequeno relato das tuas experiências e dos
acontecimentos que conduziram a elas — especialmente as minhas
aventuras com Brom enquanto tentávamos recuperar o ovo de
Saphira. — Eragon olhou-o surpreendido. — Posso não ter hipótese
de o terminar, mas achei que seria um complemento útil ao trabalho
de Heslant no Domia abr Wyrda.
Eragon deu uma gargalhada.
— Acho que isso faz todo o sentido, mas se ambos estivermos
vivos e livres depois de amanhã, tenho umas coisas para te contar
que tornarão o teu relato muito mais completo e muito mais
interessante.
— Ficarei à espera que cumpras a tua palavra.
Eragon vagueou pelo acampamento durante mais uma hora,
detendo-se junto das fogueiras onde via homens, Anões e Urgals
ainda acordados. Falou brevemente com todos os guerreiros que
encontrou, perguntando-lhes se estavam a ser bem tratados, e
demonstrou alguma empatia pelos seus pés doridos e as suas
magras rações, trocando um ou dois gracejos com eles. Esperava
que ao aparecer entre eles, os encorajasse, reforçando a sua
determinação e espalhando uma atmosfera de otimismo por todo o
exército. Os Urgals mostravam-se mais animados; pareciam
encantados com a batalha que se avizinhava e com a oportunidade
de consagração que esta lhes proporcionaria.
Ele tinha também um outro propósito: espalhar falsas
informações. Sempre que alguém o inquiria sobre o ataque a
Urû’baen, dava a entender que ele e Saphira estariam entre o
batalhão que iria montar o cerco na zona noroeste da cidade, na
esperança que os espiões de Galbatorix repetissem essa mentira ao
rei, logo que os alarmes despertassem Galbatorix na manhã
seguinte.
Ao olhar para os rostos dos que o ouviam, Eragon não pôde
deixar de perguntar-se quais seriam os servos de Galbatorix, se é
que estava lá algum. A ideia deixou-o desconfortável, dando
consigo à escuta, na tentativa de ouvir passos atrás de si, sempre
que se deslocava de uma fogueira para a outra.
Finalmente, quando reconheceu ter falado com um número
suficiente de guerreiros para que a informação chegasse aos
ouvidos de Galbatorix, abandonou as fogueiras e encaminhou-se
para uma tenda ligeiramente separada das outras, no extremo sul
do acampamento.
Tocou uma, duas, três vezes no poste central. Ao ver que não
obtinha qualquer resposta voltou a bater, desta vez com mais força
e durante mais tempo.
Momentos depois, ouviu um gemido sonolento e o restolhar de
cobertores. Esperou pacientemente até que viu uma pequena mão
afastar a pala de entrada e Elva surgiu da tenda. Usava um vestido
escuro, demasiado grande para ela. Tinha o rosto pequeno e duro,
debilmente iluminado por uma tocha que ardia a alguns metros dali,
e ela revelou-lhe um sobrancelha franzido.
— O que queres, Eragon? — perguntou ela, enfaticamente.
— Não consegues adivinhar?
Elva franziu ainda mais a sobrancelha.
— Não, a única coisa que sei é que não deve ser nada de bom
para me acordares a meio da noite, algo que até um idiota
perceberia. O que é? Não tenho tido grande descanso, por isso é
bom que seja importante.
— E é.
Ele falou sem interrupções durante alguns minutos, descrevendolhe
o seu plano e depois disse:
— Sem ti não vai resultar. você és o elemento-chave.
Ela deu uma gargalhada horrível.
— Mas que ironia, o poderoso guerreiro incumbe uma criança de
matar aquele que não consegue matar.
— Vais ajudar-nos?
A menina olhou para baixo, esfregando o pé descalço no chão.
— Se o fizeres, tudo isto — apontou para o acampamento e para a
cidade mais adiante — poderá acabar muito mais cedo e a seguir
não terás de suportar tanta...
— Eu ajudo. — Bateu com o pé no chão e olhou-o ferozmente. —
Não precisas de me subornar. Fosse como fosse, eu iria ajudar.
Não permitirei que Galbatorix destrua os Varden só porque não
gosto de ti. você não és assim tão importante. Além disso, fiz uma
promessa a Nasuada e tenciono cumpri-la. — Inclinou a cabeça. —
Há algo que não me você está contar. Algo que receias que Galbatorix
descubra antes de o atacarmos. Algo acerca...
Um ruído metálico de correntes interrompeu-a.
Por instantes, Eragon ficou confuso, mas depois percebeu que o
ruído vinha da cidade.
Levou a mão à espada.
— Prepara-te — disse ele a Elva. — Talvez tenhamos de partir de
imediato.
A menina virou-se e desapareceu no interior da tenda, sem
ripostar.
Eragon projetou a mente e contatou Saphira.
Você está a ouvir isto?
Sim.
Encontramo-nos junto à estrada, se necessário.
O ruído metálico continuou a ouvir-se durante mais algum tempo
e, depois, ouviu-se um estrondo cavo. A seguir fez-se silêncio.
Eragon escutou o mais atentamente possível mas não ouviu mais
nada. Estava prestes a lançar um feitiço para aumentar a
sensibilidade auditiva, quando ouviu uma pancada seca,
acompanhada de uma série de estalidos agudos.
Depois outra...
E outra ainda...
Um arrepio de pavor percorreu-lhe a espinha. Era o ruído
inconfundível de um dragão a caminhar sobre pedra. Mas que
dragão seria aquele para conseguir ouvir os seus passos a quase
dois quilômetros de distância?
“Shruikan”, pensou ele, e o seu estômago contraiu-se de pavor.
Por todo o acampamento soaram cornetas a dar o alarme.
Homens, Anões e Urgals acenderam tochas e todo o exército
acordou espavorido.
Eragon olhou de soslaio para Elva, que saía apressadamente da
tenda, seguida de Greta, a sua velha tutora. A menina trazia uma
túnica curta, vermelha, sobre a qual usava uma cota de malha
exatamente do seu tamanho.
Os passos em Urû’baen cessaram. O volume sombrio do corpo
do dragão encobria quase todas as lanternas e fogueiras de
vigilância na cidade. “Será muito grande?”, perguntou Eragon para
si, consternado. Era maior que Glaedr com toda a certeza. “Seria
tão grande como Belgabad?” Ele não fazia ideia, por enquanto
ainda não.
Depois o dragão saltou para fora da cidade, abrindo as suas
gigantescas asas. Foi como se cem velas negras se enchessem de
vento. Enquanto batia as asas, o ar agitava-se com um ruído
semelhante a um trovão. Por toda a região soavam cães a uivar e
galos a cacarejar.
Eragon agachou-se instintivamente, sentindo-se como um rato a
esconder-se de uma águia.
Elva puxou-lhe pela bainha da túnica.
— É melhor irmos andando — disse ela.
— Espera — sussurrou ele. — Ainda não.
Grandes rastos de estrelas desapareciam enquanto Shruikan
voava em círculos, subindo cada vez mais. Eragon tentou calcular o
tamanho do dragão pelos contornos do seu corpo, mas a noite
estava escura demais e à distância era difícil de determinar.
Quaisquer que fossem as proporções exatas de Shruikan, ele era
assustadoramente grande. Com cem anos de idade deveria ser mais
pequeno, mas Galbatorix parecia ter acelerado o seu crescimento,
tal como o de Thorn.
Ao observar a sombra a pairar lá no alto, Eragon rezou para que
Galbatorix não estivesse com o dragão, ou se estivesse, que não se
desse ao trabalho de examinar as mentes dos que estavam em
baixo. Se o fizesse descobriria...
— Eldunarís — arquejou Elva. — É isso que você você está a esconder! —
Atrás dela, a tutora da menina franziu a sobrancelha, perplexa, e
começou a fazer uma pergunta.
— Silêncio! — rosnou Eragon. Elva abriu a boa e ele tapou-a com
a mão, silenciando-a. — Aqui não. Agora não — advertiu ele. Ela
acenou com a cabeça e ele tirou-lhe a mão da boca.
Nesse mesmo instante um jato de fogo mais largo que o Rio
Anora descreveu um arco no céu. Shruikan sacudia a cabeça para
trás e para diante, espalhando uma torrente de chamas ofuscantes
sobre o acampamento e sobre os campos em redor, e um estrépito
semelhante a uma ruidosa queda-de-água ecoou na noite. Eragon
sentiu o calor arder-lhe no rosto, virado para cima. Depois as
chamas evaporam-se como nevoeiro ao sol, deixando no ar uma
imagem residual, palpitante, e um odor sulfuroso e fumarento.
O enorme dragão virou e bateu de novo as asas — sacudindo o
ar —, e a sua silhueta negra e informe, voltou a descer em direção à
cidade, poisando entre os edifícios. Seguiram-se passos e o ruído
metálico das correntes e, finalmente, o estrondo ecoante de um
portão a fechar-se pesadamente.
Eragon voltou a respirar e engoliu, embora tivesse a garganta
seca. O coração martelava-lhe o peito com tanta força que lhe
doía. “Temos de combater... aquilo? “, pensou ele, sentindo todos
os velhos medos a regressar.
— Porque é que ele não atacou? — perguntou Elva, baixinho, num
tom amedrontado.
— Queria assustar-nos — disse Eragon, franzindo a sobrancelha —,
ou distrair-nos. — Sondou as mentes dos Varden até encontrar
Jörmundur, e deu-lhe instruções para verificar se todas as sentinelas
estavam ainda nos seus postos e para redobrar o número de
homens, durante o resto da noite. Depois, dirigindo-se a Elva,
disse:
— Conseguiste sentir alguma coisa em Shruikan?
A menina estremeceu.
— Dor, uma grande dor, e raiva também. Se pudesse mataria
todas as criaturas que encontrasse e queimaria todas as plantas até
que não restasse mais nenhuma. Está completamente louco.
— Não haverá forma de o contactar?
— Nenhuma. Libertá-lo do seu sofrimento, seria o gesto mais
caridoso.
Essa evidência entristeceu-o, pois sempre esperara que
pudessem salvar Shruikan das garras de Galbatorix. Dando-se por
vencido, Eragon disse:
— É melhor irmos andando. Você está pronta?
Elva explicou à sua tutora que ia partir, o que desagradou à
velhota, mas Elva tranquilizou-a proferindo rapidamente algumas
palavras. Eragon ficava sempre impressionado — e perturbado —
com o poder que a menina tinha para sondar o coração dos
outros.
Logo que Greta lhe deu o seu consentimento, Eragon ocultou-os
a ambos com magia e partiram juntos em direção à colina onde
Saphira os esperava.

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