24 de junho de 2017

Capítulo 60 - Uma questão de dever

C

ontinuaram a falar durante mais uma hora — os dez, incluindo
Umaroth. Orrin exigiu argumentos mais convincentes, além de
que havia numerosos detalhes sobre os quais teriam de tomar
decisões: questões de coordenação, posicionamento e sinalização.
Eragon ficou aliviado ao ouvir Arya dizer:
— Eu irei convosco, amanhã, a menos que você ou Saphira se
oponham.
— Será um prazer ter-te connosco — respondeu ele.
Islanzadí ficou tensa:
— Que vantagem haveria nisso? Precisamos das tuas aptidões
noutros sítios, Arya. Blödhgarm e os outros feiticeiros que
destaquei para proteger Eragon e Saphira são mais experientes do
que você em magia e em combate. Lembra-te de que eles lutaram
contra os Renegados e, ao contrário de muitos, sobreviveram para
contar a história. Muitos dos membros mais velhos da nossa raça
oferecer-se-iam para tomar o teu lugar. Seria egoísta da tua parte
insistires em ir, quando há outros mais habilitados para a missão
que estão dispostos a assumi-la, e estão aqui bem perto.
— Acho que não há ninguém mais habilitado do que Arya para
esta missão — disse Eragon, num tom calmo —, e não há ninguém
que eu desejasse tanto ter a meu lado, para além de Saphira.
Islanzadí continuou a olhar para Arya e disse:
— você ainda és jovem, Matador de Espectros, e você está a deixar
que as tuas emoções te confundam.
— Não, Mãe — disse Arya —, você é que você está a deixar que as tuas
emoções te confundam. — Aproximou-se de Islanzadí, com um
andar demorado e gracioso. — Tens razão, há quem seja mais forte,
mais sabedor e experiente do que eu, mas fui eu que andei com o
ovo de Saphira por Alagaësia, fui eu que ajudei a salvar Eragon do
Espetro Durza e fui eu que matei o Espetro Varaug, em Feinster,
com a ajuda de Eragon. Agora, sou uma Aniquiladora de Espetros,
tal como Eragon, e você sabes muito bem que eu jurei servir o nosso
povo há muito tempo. Quem mais, de entre a nossa espécie, se
poderá arrogar de ter feito tanto? Não viraria costas a isto, mesmo
que quisesse. Mais depressa desejaria morrer. Estou tão preparada
para este desafio como qualquer um dos nossos anciãos, pois
devotei toda a minha vida a isto, tal como Eragon.
— E essa vida foi tão curta — disse Islanzadí, levando a mão ao
rosto de Arya. — Empenhaste-te em combater Galbatorix, durante
todos estes anos, depois da morte do teu pai, mas pouco sabes das
alegrias que a vida nos pode dar. Pouco tempo passámos juntas,
durante esse período: meia dúzia de dias ao longo de um século. Só
depois de levares Saphira e Eragon a Ellesméra, voltámos a falar
como mãe e filha devem falar. Não gostaria de te voltar a perder,
tão-pouco tempo depois, Arya.
— Não fui eu que escolhi manter-me afastada — disse Arya.
— Não — disse Islanzadí, afastando a mão —, mas foste você que
decidiste abandonar Du Weldenvarden. — A sua expressão
suavizou-se. — Não quero discutir, Arya. Entendo que encares isto
como um dever, mas permitirás que outro tome o teu lugar? Por
favor, fá-lo por mim.
Arya baixou os olhos e ficou em silêncio por instantes. Depois
disse:
— Eu não posso permitir que Eragon e Saphira partam sem mim,
tal como você não podes permitir que o teu exército marche para a
batalha sem ti. Não posso... Gostarias de ouvir dizer que sou uma
cobarde? As pessoas da nossa família não viram costas ao que tem
de ser feito, por isso não me peças que me envergonhe.
Eragon teve a sensação que o brilho nos olhos de Islanzadí eram
lágrimas.
— Sim — disse a rainha —, mas combater Galbatorix...
— Se tens tanto receio — disse Arya, embora o seu tom não fosse
indelicado —, vem comigo.
— Não posso. Tenho de ficar para comandar as minhas tropas.
— E eu tenho de ir com Eragon e Saphira, mas prometo-te que
não vou morrer. — Arya levou a mão à face de Islanzadí, tal como a
mãe lhe fizera. — Eu não vou morrer — repetiu Arya, desta vez na
língua antiga.
Eragon ficou impressionado com a determinação de Arya. Para
o ter dito na língua antiga, ela tinha de acreditar incondicionalmente
nisso. Islanzadí parecia igualmente impressionada e orgulhosa,
sorrindo e beijando Arya em ambas as faces.
— Então vai, vai com a minha bênção, e não corras riscos
desnecessários.
— Nem você — e deram um abraço.
Quando se separaram, Islanzadí olhou para Eragon e para
Saphira, dizendo:
— Tomem conta dela, suplico-vos. Ela não tem um dragão nem
um Eldunarí que a protejam.
Tomaremos, responderam Eragon e Saphira, na língua antiga.
Logo que acertaram todos os detalhes, o conselho de guerra foi
encerrado e os seus membros começaram a dispersar-se. Eragon
ficou a ver os outros afastarem-se, junto de Saphira. Nem ele nem
ela fizeram qualquer esforço para se mexer. Saphira ficaria
escondida atrás da colina até ao ataque e ele esperaria até ao
anoitecer, antes de se aventurar a entrar no acampamento.
Orik foi o segundo a partir, depois de Roran, mas antes de o
fazer, o rei dos anões aproximou-se de Eragon e deu-lhe um
abraço rude.
— Ah, quem me dera ir convosco — disse ele, com um olhar
solene por cima da barba.
— E eu gostava que você viesses — disse Eragon.
— Bom, encontrar-nos-emos depois e brindaremos à nossa
vitória com barris de hidromel. Que tal?
— Estou ansioso por isso.
Eu também, disse Saphira.
— Ótimo — disse Orik, acenando firmemente com a cabeça. —
Então, está combinado. É bom que não te deixes vencer por
Galbatorix, de contrário a minha honra obrigar-me-á a atacar
depois de ti.
— Seremos cautelosos — disse Eragon, com um sorriso.
— Espero que sim, pois desconfio que só conseguiria beliscar o
nariz a Galbatorix.
Isso é que eu gostaria de ver, disse Saphira.
Orik pigarreou.
— Que os deuses zelem por ti, Eragon e por ti também, Saphira.
— Igualmente Orik, filho de Thrifk. — Orik deu uma palmada no
ombro de Eragon e encaminhou-se pesadamente para o local onde
tinha deixado o pônei amarrado a um arbusto.
Depois de Islanzadí e Blödhgarm partirem, Arya ficou. Mas ela
estava entretida a conversar com Jörmundur, por isso Eragon não
deu grande importância. Porém, ao ver que ela continuava por
perto, depois de Jörmundur se afastar a cavalo, percebeu que Arya
queria falar com eles a sós.
Como seria de esperar, depois de todos partirem, ela olhou para
Eragon e para Saphira, dizendo:
— Aconteceu-vos mais alguma coisa enquanto estiveram
ausentes? Algo de que não quisessem falar na presença de Orrin,
Jörmundur... ou da minha mãe?
— Porque perguntas?
Ela hesitou.
— Porque... ambos parecem ter mudado. É por causa dos
Eldunarís, ou tem a ver com a vossa experiência na tempestade?
Eragon sorriu pela sua perspicácia. A seguir consultou Saphira e,
depois de obter o seu consentimento, disse:
— Descobrimos os nossos verdadeiros nomes.
Arya arregalou os olhos:
— A sério? E... ficaram satisfeitos com eles?
Em parte, respondeu Saphira.
— Descobrimos os nossos verdadeiros nomes — repetiu Eragon.
— Descobrimos que a terra é redonda e, enquanto voávamos para
aqui, Umaroth e os outros Eldunarís partilharam muitas das suas
memórias connosco. — Sorriu ironicamente. — Não posso dizer que
os entenda a todos, mas fazem com que tudo pareça... diferente.
— Compreendo — murmurou Arya. — Achas que a mudança será
positiva?
— Acho. A mudança em si não é má nem boa, mas o
conhecimento é sempre útil.
— Foi difícil descobrirem os vossos verdadeiros nomes?
Eragon contou-lhe como o tinham conseguido e falou-lhe
também acerca das estranhas criaturas que encontraram na Ilha de
Vroengard, o que lhe interessou bastante.
Enquanto falava, Eragon teve uma ideia que lhe fazia demasiado
sentido para a ignorar. Explicou-a a Saphira e esta deu-lhe mais
uma vez o seu consentimento, embora um pouco mais relutante do
que anteriormente.
Tens mesmo de o fazer?, perguntou ela.
Sim.
Então, faz como entenderes, mas só se ela concordar.
Depois de falarem acerca de Vroengard, Eragon olhou Arya nos
olhos e disse:
— Gostarias de ouvir o meu verdadeiro nome? Eu gostava de o
partilhar contigo.
A oferta pareceu chocá-la.
— Não! Não mo deves revelar a mim nem a mais ninguém. Muito
menos estando tão perto de Galbatorix, pois ele pode roubá-lo da
minha mente. Além disso, só deves confiar o teu verdadeiro nome
a... a alguém em quem confies mais do que em qualquer outra
pessoa.
— Eu confio em ti.
— Eragon, mesmo nós, Elfos, só partilhamos os nossos
verdadeiros nomes depois de nos conhecermos há muitos, muitos
anos. O conhecimento que eles fornecem é demasiado pessoal,
demasiado íntimo para se conversar de ânimo leve acerca deles.
Não há maior risco do que partilhá-lo. Ao revelares a alguém o teu
verdadeiro nome, você está a colocar nas suas mãos tudo o que és.
— Eu sei, mas poderei não voltar a ter essa hipótese. É a única
coisa que tenho para oferecer e é a ti que o quero fazer.
— Eragon, o que propões... é o que de mais precioso se pode
oferecer a alguém.
— Eu sei.
Arya estremeceu e depois pareceu fechar-se em si. Algum
tempo depois, disse:
— Nunca ninguém me ofereceu um presente desses... Sinto-me
enaltecida com a tua confiança, Eragon, e entendo o quanto isso
significa para ti. Mas não, não posso aceitar. Seria errado que o
fizesses e seria errado que eu o aceitasse, só porque amanhã
poderemos ser mortos ou escravizados. O perigo não é razão para
agirmos imprudentemente, por muito grande que ele seja.
Eragon inclinou a cabeça. As razões de Arya eram pertinentes e
ele respeitaria a sua decisão.
— Muito bem. Como queiras — disse ele.
— Obrigada, Eragon.
Momentos depois, ele disse:
— Alguma vez revelaste o teu verdadeiro nome a alguém?
— Não.
— Nem mesmo à tua mãe?
Ela fez um trejeito com a boca.
— Não.
— Conhece-lo?
— Claro. O que te levaria a pensar o contrário?
Ele encolheu ligeiramente os ombros.
— Nada, apenas não tinha a certeza.
Fez-se silêncio e depois Eragon perguntou:
— Quando... como descobriste o teu verdadeiro nome?
Arya ficou tanto tempo em silêncio que Eragon pensou que iria
recusar-se a responder. Mas, depois ela respirou fundo, e disse:
— Foi alguns anos depois de partir de Du Weldenvarden, quando
finalmente me habituei ao meu papel entre os Varden e os Anões.
Faolin e os meus outros companheiros estavam ausentes e eu tinha
bastante tempo para mim. Passava a maior parte do tempo a
explorar Tronjheim, vagueando por regiões desertas da cidademontanha,
onde era raro alguém ir. Tronjheim é maior do que a
maioria imagina e tem muitas coisas estranhas: salas, pessoas,
criaturas, artefatos perdidos... Enquanto vagueava, pensava, e
comecei a conhecer-me melhor do que nunca. Um dia descobri
uma sala algures no alto de Tronjheim — duvido que a pudesse
voltar a localizar, mesmo que tentasse. Um feixe de luz parecia
penetrar nesse espaço, embora o teto fosse sólido. A meio da sala
havia um pedestal e em cima do pedestal estava uma flor brilhante.
Não sei que tipo de flor era, pois nunca vira nenhuma igual. As
pétalas eram roxas, mas o centro da flor era como uma gota de
sangue. Tinha espinhos no caule, emanava um perfume maravilhoso
e parecia vibrar com uma música própria. A descoberta pareceume
tão assombrosa e improvável que fiquei na sala, a olhar para a
flor, não sei quanto tempo. E foi então que consegui finalmente
expressar em palavras o que era e o que sou.
— Um dia gostaria de ver essa flor.
— Talvez a vejas — disse Arya, olhando de relance para o
acampamento dos Varden. — É melhor ir andando. Ainda há muito
que fazer.
Ele acenou com a cabeça.
— Então, vemo-nos amanhã.
— Amanhã. — Arya começou a afastar-se. Depois de alguns
passos, ela deteve-se e olhou para trás.
— Ainda bem que Saphira te escolheu como Cavaleiro, Eragon.
Tenho orgulho em ter lutado ao teu lado. você tornaste-te melhor do
que qualquer um de nós esperava. Aconteça o que acontecer
amanhã, quero que o saibas.
Depois retomou a marcha e não tardou a desaparecer, ao
contornar a colina, deixando-o sozinho com Saphira e os Eldunarís.

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