23 de junho de 2017

Capítulo 6 - Lembranças dos mortos

— Galbatorix é louco e portanto imprevisível, mas também possui lacunas em seu raciocínio que uma pessoa normal não teria. Se você puder encontrá-las, Eragon, talvez você e a Saphira consigam derrotá-lo. — Brom baixou o cachimbo, com uma expressão grave. — Espero que sim. O meu maior desejo, Eragon, é que você e Saphira tenham vidas longas e proveitosas, livres do medo de Galbatorix e do Império. Eu gostaria de poder protegê-los de todos os perigos que os ameaçam, mas, infelizmente, isso não está ao meu alcance. Tudo o que posso fazer é aconselhá-los e ensinar-lhes tudo o que puder enquanto ainda estou aqui... Meu filho. O que quer que venha a acontecer a você, saiba que eu o amo e sua mãe também o amava. Que as estrelas zelem por você, Eragon, filho de Brom.
Eragon abriu os olhos e a memória desvaneceu-se. Por cima dele o teto da tenda estava abaulado, frouxo como um cantil de pele vazio depois da sova que recebera durante a tempestade agora terminada. Uma gota de água caiu de uma dobra e atingiu-o na coxa direita, molhando suas calças e gelando a pele por baixo. Ele sabia que teria de esticar as cordas que seguravam a tenda, mas estava relutante em sair do catre.
Brom nunca te disse nada sobre Murtagh? Nunca te contou que Murtagh e eu éramos meios-irmãos?
Saphira, que estava enroscada no exterior da tenda, disse: Perguntar de novo não mudará a minha resposta.
Mas por que não? Por que ele não contou? Ele devia saber de Murtagh. Não é possível que não soubesse.
Saphira demorou a responder. Os motivos de Brom eram os motivos dele, mas se me tivesse de adivinhar, imagino que ele achava mais importante dizer-lhe o quanto te amava e te dar todos os conselhos que pudesse, do que passar o tempo falando de Murtagh.
Mas ele podia ter me avisado! Meia dúzia de palavras teriam sido o suficiente.
Não posso dizer ao certo o que o motivou, Eragon. Você tem que aceitar que há perguntas acerca de Brom que jamais conseguirá responder. Confie no amor que ele tinha por você e não permita que essas preocupações te perturbem.     
Eragon olhou para os polegares apoiados sobre o peito e colocou-os lado a lado, para poder compará-los melhor. O seu polegar esquerdo tinha mais rugas que o direito na segunda articulação. Por outro lado, o direito tinha uma pequena cicatriz irregular que ele não se recordava onde ganhara, embora tenha sido certamente depois do Agaetí Blödhren, a Celebração do Juramento de Sangue.
Obrigado, disse a Saphira. Assistira e ouvira três vezes a mensagem de Brom através dela desde a queda de Feinster e, a cada vez que a ouvia reparava num detalhe no discurso ou nos movimentos de Brom que anteriormente lhe tinha escapado. A experiência reconfortava-o e dava-lhe prazer, pois satisfazia um desejo que o atormentara durante a vida inteira: saber o nome do seu pai e saber que ele o amava.
Saphira retribuiu os seu agradecimento com um caloroso brilho de afeição no olhar.
Embora Eragon tivesse comido e depois descansado por cerca de uma hora, o cansaço não lhe passara por completo. Nem ele esperava que passasse. Sabia, por experiência, que poderia demorar semanas para se recuperar dos efeitos debilitantes de uma batalha prolongada. À medida que os Varden se aproximassem de Urû’baen, ele e todos os outros membros do exército de Nasuada teriam cada vez menos tempo para se recuperarem antes de um novo confronto. A guerra os desgastaria até ficarem completamente arrasados e quase incapazes de combater, altura em que teriam ainda de se confrontar com Galbatorix, que estaria tranquilamente à espera deles, rodeado de conforto.
Tentou não pensar muito no assunto.
Outra gota de água fria e pesada atingiu-o na perna. Irritado, balançou as pernas para fora do catre e sentou-se, encaminhando-se para o pedaço de terra nua em um dos cantos da tenda e ajoelhando-se junto desta.
— Deloi sharjalví — disse, bem como várias outras frases na língua antiga, necessárias para desarmar as armadilhas que montara no dia anterior.
A terra começou a ferver como água, a entrar em ebulição, e um baú revestido de ferro, de quarenta e cinco centímetros de largura, ergueu-se da fonte revolta de pedras, insetos e vermes. Esticando o braço, Eragon agarrou no baú, quebrou o feitiço e a terra aquietou-se de novo.
Poisou o baú no chão agora sólido.
— Ládrin — sussurrou, passando a mão pela fechadura sem chave que prendia o fecho e este abriu-se com um estalido.
Um vago brilho dourado inundou a tenda quando Eragon ergueu a tampa do baú. Aninhado em segurança no interior forrado de veludo estava o Eldunarí de Glaedr, o coração dos corações do dragão. A grande pedra semelhante a uma jóia brilhava escura como uma brasa se apagando. Eragon segurou o Eldunarí entre as mãos, sentindo as suas facetas irregulares quentes contra a palma das mãos, e olhou para as suas profundezas palpitantes. Uma galáxia de estrelas minúsculas rodopiava no centro da pedra, embora o seu movimento tivesse abrandado, e parecessem ser muito menos do que da primeira vez que Eragon contemplara a pedra, em Ellesméra, quando Glaedr a expelira do seu corpo e a entregara aos cuidados de Eragon e Saphira.
Como sempre, a imagem fascinou-o. Poderia contemplar aquele padrão em constante mudança durante dias.
Deveríamos tentar de novo, disse Saphira, e ele concordou.
Juntos, tentaram alcançar mentalmente as luzes distantes, o mar de estrelas que representavam a consciência de Glaedr, viajando pelo frio e pela escuridão, depois pelo calor, pelo desespero e por uma indiferença tão vasta e tão imensa que lhes minou a vontade até que eles queriam apenas parar e chorar.
Glaedr... Elda, chamaram vezes sem conta, mas não obtiveram qualquer resposta, apenas a mesma indiferença.
Por fim recuaram, incapazes de suportar o peso esmagador do sofrimento de Glaedr.
Ao voltar a si, Eragon, percebeu alguém batendo no poste da frente da tenda e depois ouviu Arya dizer:
— Eragon? Posso entrar?
Ele fungou e pestanejou para clarear a vista.
— Claro.
A luz tênue e acinzentada do céu encoberto inundou-o quando Arya afastou a aba da entrada e ele sentiu uma pontada súbita quando os seus olhos se cruzaram com os dela – verdes, oblíquos, inescrutáveis – e uma ânsia dolorosa apossou-se dele.
— Houve alguma alteração? — perguntou, ajoelhando-se junto dele.
Em vez da armadura, vestia a mesma camisa preta de couro, as calças e botas de sola fina que usava quando ele a salvara em Gil’ead. O seu cabelo estava molhado do banho e caía-lhe pelas costas em cascatas longas e pesadas. Cheirava a agulhas de pinheiro esmagadas, como habitualmente, e Eragon se perguntou se ela usava um feitiço para criar o aroma ou se aquele seria o seu cheiro natural. Gostaria de lhe perguntar, mas não se atreveu.
Abanou a cabeça em resposta à pergunta dela.
— Posso? — disse ela, apontando para o coração dos corações de Glaedr.
Ele saiu do caminho.
— Por favor.
Arya colocou uma mão de cada lado do Eldunarí e fechou os olhos. Enquanto isso, ele aproveitou para estudá-la com uma intensidade que de outra forma seria ofensiva. Ela parecia-lhe a personificação da beleza em todos os aspectos, embora soubesse que outro poderia dizer que tinha o nariz demasiado longo ou o rosto demasiado anguloso, os olhos oblíquos demais ou os braços muito musculosos.
Arfando bruscamente, Arya de repente afastou as mãos do coração dos corações como se este a tivesse queimado. Depois, curvou a cabeça e Eragon viu o seu queixo estremecer ligeiramente.
— Ele é a criatura mais infeliz que já encontrei. Quem me dera que pudéssemos ajudá-lo. Não creio que ele consiga sair da escuridão sozinho.
— Acha que... — Eragon hesitou, pois não queria dar voz às suas suspeitas, mas depois prosseguiu. — Acha que ele vai enlouquecer?
— Pode já ter enlouquecido. Se não enlouqueceu, deve estar à beira da insanidade.
A dor se abateu sobre Eragon enquanto ambos olhavam para a pedra dourada.
Quando finalmente conseguiu decidir falar de novo, perguntou:
— Onde está a Dauthdaert?
— Escondida na minha tenda, da mesma forma que você escondeu o Eldunarí de Glaedr. Posso trazê-la para cá se quiser, ou mantê-la guardada em segurança até precise dela.
— Guarde-a. Não posso andar com ela por aí, senão Galbatorix poderá saber de sua existência. Além disso, seria imprudente guardar tantos tesouros num único local.
Ela acenou afirmativamente.
A dor de Eragon intensificou-se.
— Arya, eu... — E parou, pois Saphira avistara um dos filhos de Horst, o ferreiro. Parecia-lhe Albriech, embora fosse difícil distingui-lo do irmão, Baldor, devido às distorções da visão de Saphira, e ele vinha correndo em direção à tenda. A interrupção foi um alívio para Eragon, pois não sabia bem o que dizer.
— Alguém vem aí — anunciou ele, fechando a tampa do baú.
Ouviram-se passos pesados e úmidos na lama lá fora, e depois Albriech (era de fato Albriech) gritou:
— Eragon! Eragon!
— O que é?
— As dores do parto de minha mãe começaram! Meu pai mandou-me avisá-lo e pedir se pode aguardar com ele, para o caso de algo correr mal e ser necessário recorrer às suas habilidades mágicas. Por favor, se puder...
Eragon não ouviu mais o que ele disse, com a pressa de fechar e enterrar o baú. Depois colocou o manto sobre os ombros e estava a remexer no fecho, quando Arya tocou seu braço e disse:
— Posso acompanhá-lo? Tenho alguma experiência nisso. Se o seu povo deixar, posso facilitar o nascimento.
Eragon não parou sequer para pensar, fazendo um gesto em direção à entrada da tenda.
— Por favor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)