3 de junho de 2017

Capítulo 6 - Caminhar sozinho pela terra

O estômago de Eragon gorgolejava.
Estava deitado de costas, sobre as pernas dobradas – um alongamento para as coxas depois de correr uma distância maior e levando mais peso do que jamais tinha feito – quando o ronco alto, líquido, irrompeu das suas entranhas. O som foi tão inesperado que Eragon se empertigou assustado, tateando em busca do cajado.
O vento zunia pela terra vazia. O sol tinha se posto; e, na sua ausência, tudo estava azul e roxo. Nada se mexia, exceto as folhas de capim que esvoaçavam, e Sloan, cujos dedos se abriam e se fechavam em resposta a alguma visão no seu sono encantado.
Um frio de doer os ossos anunciava a verdadeira chegada da noite. Eragon relaxou e se permitiu um pequeno sorriso. Seu divertimento logo se extinguiu quando refletiu mais sobre a fonte do seu desconforto. Lutar com os Ra’zac, lançar inúmeros encantos e carregar Sloan nos ombros pela maior parte do dia tinham deixado Eragon tão faminto que ele imaginou que, se pudesse viajar no tempo, conseguiria comer todo o banquete que os anões prepararam em sua homenagem durante a sua visita a Tarnag.
A lembrança do aroma do Nagra, o javali gigante, assado – ardido, picante, temperado com mel e especiarias, e gotejando gordura – bastava para lhe dar água na boca. O problema era que ele não tinha provisões. Era bastante fácil conseguir água; ele podia extrair umidade do solo sempre que quisesse. Encontrar alimento naquele lugar desolado era, porém, não só muito mais difícil, era algo que lhe apresentava um dilema moral que ele tinha esperado evitar.
Oromis tinha dedicado muitas aulas às várias regiões climáticas e geográficas que existiam em toda a Alagaësia. Por isso, quando Eragon deixou o acampamento para investigar a área ao redor, ele foi capaz de identificar a maioria das plantas que encontrou. Poucas eram comestíveis; e dessas, nenhuma tinha o tamanho ou a quantidade suficiente para ele conseguir colher uma refeição para dois homens adultos num prazo razoável. Com certeza os animais locais deviam ter escondido estoques de sementes e frutas, mas ele não fazia ideia do ponto por onde devia começar a procurar por eles. Também não considerava provável que um camundongo do deserto tivesse acumulado mais do que alguns bocados de alimento.
Isso o deixava com duas opções, nenhuma delas atraentes. Poderia – como tinha feito antes – esgotar a energia das plantas e insetos em torno do acampamento. O preço disso seria deixar uma área morta sobre a terra, uma devastação onde nada permanecesse vivo, nem mesmo os minúsculos organismos do solo. E, embora ele e Sloan pudessem com isso se manter em pé, transfusões de energia estavam longe de ser satisfatórias, pois nada faziam para saciar o estômago. Ou ele podia caçar.
Eragon franziu o cenho e girou a ponta do cajado no chão. Depois de compartilhar os pensamentos e desejos de inúmeros animais, ele sentia repugnância diante da ideia de comer um. Mesmo assim, não estava disposto a se enfraquecer e talvez permitir que o Império o capturasse só por ter ficado sem jantar para poupar a vida de um coelho.
Tanto Saphira quanto Roran tinham salientado que toda criatura viva sobrevivia se alimentando de alguma outra. Nosso mundo é cruel, pensou ele, e eu não posso mudar o jeito como foi feito... Os elfos podem estar certos ao evitar carne, mas, neste momento, minha necessidade é enorme. Eu me recuso a sentir culpa se as circunstâncias me impelem. Não é crime apreciar um pouco de bacon, uma truta ou seja lá o que for.
Continuou a se tranquilizar com vários argumentos, mas a repulsa à ideia ainda fazia nós em seu estômago. Por quase meia hora, não saiu do lugar, incapaz de fazer o que a lógica lhe dizia ser necessário. Depois, tomou consciência de como era tarde e se amaldiçoou pela perda de tempo. Precisava de cada minuto de descanso que conseguisse obter.
Reunindo coragem, Eragon enviou ramificações da sua mente para sondar a região até localizar dois lagartos grandes e, toda enrolada numa toca arenosa, uma colônia de roedores que lhe lembraram um cruzamento entre rato, coelho e esquilo.
— Deyja — disse Eragon, e matou os lagartos e um roedor. Morreram instantaneamente e sem dor, mas ele ainda trincou os dentes enquanto extinguia a forte chama de suas mentes. Os lagartos, recolheu com as próprias mãos, virando as rochas por baixo das quais estavam escondidos. O roedor, porém, extraiu da toca por meio de magia. Teve o cuidado de não acordar os outros animais enquanto manobrava o corpo até a superfície. Parecia cruel aterrorizar os bichos com o conhecimento de que um predador invisível podia matá-los nos seus abrigos mais secretos.
Ele estripou, esfolou e limpou como pôde os lagartos e o roedor, enterrando as vísceras numa profundidade suficiente para escondê-las de animais que comem carniça. Com pedras finas e planas, ele construiu um pequeno forno, acendeu um fogo ali dentro e pôs a carne para assar. Sem sal, ele não teria como temperar direito nenhum tipo de comida, mas algumas das plantas nativas liberaram um aroma agradável quando ele as esmagou entre os dedos, e, com essas, recheou as carcaças, também esfregando-as por fora. Por ser menor que os lagartos, o roedor ficou pronto primeiro. Tirando-o do alto do forno improvisado, Eragon segurou a carne diante da boca. Fez uma careta e teria permanecido nas garras da repulsa se não precisasse continuar a cuidar do fogo e dos lagartos.
As duas atividades o distraíram tanto que, sem pensar, ele obedeceu ao comando estridente da fome e comeu. A primeira mordida foi a pior: ficou entalada na garganta, e o gosto de gordura quente ameaçou fazê-lo vomitar. Estremeceu e engoliu em seco duas vezes. Com isso, a vontade passou. Depois, foi mais fácil. Na realidade, ficou grato pela falta de sabor da carne, que o ajudou a se esquecer do que estava mastigando.
Comeu o roedor inteiro e parte de um lagarto. Arrancando o último pedaço de carne de um osso fino de perna, deu um forte suspiro de satisfação e então hesitou, mortificado, ao perceber que, apesar de si mesmo, tinha apreciado a refeição.
Sua fome era tamanha que o jantar escasso lhe pareceu delicioso, uma vez que havia superado suas inibições. Talvez, refletia, quem sabe, quando eu voltar... se me encontrar à mesa de Nasuada ou do rei Orrin, e carne for servida... talvez, se eu sentir vontade e for uma grosseria recusar, eu pudesse comer alguns bocados... não vou comer como comia antes, mas também não vou ser tão rígido como os elfos. A moderação é uma política mais sábia que o fanatismo, creio eu.
À luz das brasas no torno, examinou as mãos de Sloan. O açougueiro estava ali, a um metro ou dois de distância, onde Eragon o tinha deitado. Dezenas de cicatrizes brancas e finas riscavam de um lado para outro seus dedos longos e ossudos, com as juntas grossas e unhas compridas que, embora em Carvahall se mantivessem meticulosamente limpas, agora, estavam quebradas, rasgadas e enegrecidas com a imundície acumulada. As cicatrizes comprovavam a quantidade relativamente pequena de erros cometidos por Sloan ao longo das décadas que tinha passado manejando facas. Sua pele era enrugada, ressecada pelo tempo e marcada por veias salientes, semelhantes a minhocas. Já os músculos por baixo eram duros e magros. Eragon se agachou, cruzando os braços sobre os joelhos.
— Não posso simplesmente deixá-lo sair por aí — murmurou.
Se agisse desse modo, Sloan poderia acabar encontrando Roran e Katrina, uma perspectiva que Eragon considerava inaceitável. Além disso, muito embora não fosse matar Sloan, acreditava que o açougueiro deveria ser punido por seus crimes. Eragon não tinha sido amigo íntimo de Byrd, mas sabia que era um homem bom, honesto e leal. Lembrava-se também da mulher de Byrd, Felda, e dos seus filhos com algum carinho, pois Garrow, Roran e Eragon tinham comido e dormido na sua casa em várias ocasiões. Portanto, a morte de Byrd o havia abalado como um ato particularmente cruel, e achava que a família do vigia merecia justiça, mesmo que nunca tomassem conhecimento.
Contudo, o que constituiria uma punição correta? Eu me recusei a me tornar um carrasco, pensou Eragon, só para me tornar um juiz. O que eu sei sobre a lei? Pondo-se de pé, ele foi até Sloan e se curvou junto do seu ouvido, dizendo “Vakna”.
Com um sobressalto, Sloan acordou, riscando o chão com as mãos rijas. O que restava das suas pálpebras estremeceu quando, por instinto, tentou abri-las para olhar ao redor. Em vez disso, continuava preso na sua própria noite.
— Tome, coma isso — disse Eragon, empurrando a metade que sobrara do seu lagarto na direção de Sloan, que, apesar de não enxergar, sem dúvida sentia o aroma da comida.
— Onde estou? — perguntou Sloan.
Com as mãos trêmulas, começou a explorar as rochas e plantas à sua frente. Tocou os pulsos e tornozelos lacerados e pareceu confuso ao descobrir que os grilhões tinham sumido.
— Os elfos e também os Cavaleiros em tempos passados chamavam este lugar de Mírnathor. Os anões se referem a ele como Werghadn; e os humanos, como Charneca Cinzenta. Se isso não lhe servir de resposta, então talvez sirva dizer que estamos a uma quantidade de léguas a sudeste de Helgrind, onde você estava encarcerado.
Sloan formou com os lábios a palavra Helgrind.
— Você me salvou?
— Salvei.
— E o que houve com...?
— Deixe suas perguntas para depois. Coma primeiro.
Seu tom severo teve o efeito de um açoite sobre o açougueiro. Sloan se encolheu e estendeu os dedos, tateando, para segurar o lagarto. Eragon soltou o alimento e voltou para seu lugar ao lado do forno de pedra. Com as mãos em concha jogou punhados de terra sobre as brasas, apagando o clarão para que não denunciasse sua presença na improvável hipótese de que houvesse mais alguém ali por perto. Depois de uma lambida inicial hesitante, para determinar o que Eragon lhe tinha dado, Sloan fincou os dentes no lagarto e rasgou um bom naco da carcaça.
A cada mordida, entupia a boca com o máximo de carne que conseguia, e só mastigava uma vez ou duas antes de engolir e repetir o processo. Limpou osso por osso, com a eficiência de um homem que possuía um conhecimento profundo de como os animais eram estruturados e de qual era o modo mais rápido de desconjuntá-los. Os ossos ele deixou cair numa pilha organizada à sua esquerda.
Quando o último pedaço de carne do rabo do lagarto sumiu pela goela de Sloan, Eragon lhe entregou o outro réptil, que ainda estava inteiro. O homem deu um resmungo de agradecimento e continuou a se empanturrar, sem fazer a menor menção de limpar a gordura da boca e do queixo. O segundo lagarto se revelou grande demais para Sloan. Parou duas costelas acima da parte inferior da cavidade torácica e pôs o que restava do animal na pilha de ossos. Então, empertigou-se, passou a mão de um lado a outro da boca e ajeitou o cabelo comprido para trás das orelhas.
— Obrigado, estranho senhor, por sua hospitalidade. Faz tanto tempo que não faço uma refeição decente que acho que valorizo sua comida ainda mais que minha liberdade... Se me permite uma pergunta, o senhor tem notícia de minha filha, Katrina, e do que aconteceu com ela? Ela estava presa comigo em Helgrind. — Sua voz continha uma complexa mistura de emoções: respeito, medo e submissão diante de uma autoridade desconhecida; esperança e receio quanto ao destino da filha; e uma determinação tão inabalável quanto as montanhas da Espinha. O único elemento que Eragon esperava ouvir, mas não ouvia, era o desdém zombeteiro que Sloan demonstrava para com ele quando se deparavam um com o outro em Carvahall. — Ela está com Roran.
— Roran! — disse Sloan, boquiaberto. — Como ele chegou aqui? Os Ra’zac também o capturaram? Ou...
— Os Ra’zac e suas montarias estão mortos.
— Você os matou? Como?... Quem... — Por um instante, Sloan ficou parado, como se estivesse gaguejando com o corpo inteiro, e então deixou o queixo cair, com os ombros afundados, e se agarrou a um arbusto para se apoiar, abanando a cabeça. — Não, não, não... Não... Não pode ser. Os Ra’zac falaram nisso. Exigiram respostas que eu não sabia, mas achei... Quer dizer, quem poderia acreditar...?
Seu corpo arfava com tanta violência que Eragon se perguntou se Sloan iria se ferir. O homem então murmurou, ofegante, como se estivesse sendo forçado a falar depois de levar um soco no estômago.
— Você não pode ser Eragon.
Uma noção de fatalidade e destino se abateu sobre Eragon. Sentia-se como se fosse o instrumento desses dois senhores impiedosos e reagiu de acordo, reduzindo o ritmo da fala para que cada palavra caísse como um golpe de martelo e transmitisse todo o peso da sua dignidade, posição e cólera.
— Sou Eragon e muito mais. Sou Argetlam, Matador de Espectros e Espada de Fogo. Meu dragão é Saphira, aquela que também é conhecida como Bjartskular e Língua em Chamas. Aprendemos com Brom, que foi Cavaleiro antes de nós, com os anões e com os elfos. Já lutamos contra os Urgals, contra um Espectro e contra Murtagh, filho de Morzan. Servimos aos Varden e ao povo da Alagaësia. E eu o trouxe aqui, Sloan Aldensson, para julgá-lo por assassinar Byrd e trair Carvahall entregando-a ao Império.
— Você está mentindo! Você não pode ser...
— Mentindo? — rugiu Eragon. — Eu não minto!
Avançando com sua mente, mergulhou a consciência de Sloan na sua própria e forçou o açougueiro a aceitar memórias que confirmavam a veracidade do que dizia. Também queria que Sloan sentisse seu poder e percebesse que ele já não era totalmente humano. E, embora relutasse em admitir, Eragon estava gostando de exercer controle sobre um homem que muitas vezes havia criado problemas para ele além de atormentá-lo com provocações, insultando tanto a ele como a sua família.
Retirou-se meio minuto depois. Sloan continuou a tremer, mas não se prostrou, humilhado, como Eragon achou que poderia fazer. Pelo contrário, a expressão do açougueiro se tornou fria e insensível.
— O diabo que o carregue! Não preciso dar explicações a você, Eragon, Filho de Ninguém. Entenda, porém, o seguinte: fiz o que fiz pelo bem de Katrina e por mais nada.
— Eu sei. Essa é a única razão para você ainda estar vivo.
— Faça o que quiser comigo, então. Não me importo, desde que ela esteja em segurança... Ora, vamos! O que vai ser? Uma surra? Um estigma? Eles já tiraram meus olhos. Então, uma das minhas mãos? Ou vai me deixar aqui para morrer de fome ou ser recapturado pelo Império?
— Ainda não me decidi.
Sloan fez que sim num movimento abrupto e puxou as roupas esfarrapadas em volta dos braços e pernas para se proteger do frio da noite.
Ficou ali, sentado com precisão militar, contemplando com órbitas inexpressivas e vazias as sombras que cercavam seu acampamento. Não implorou. Não pediu misericórdia. Não negou seus atos nem tentou aplacar a disposição de Eragon. Simplesmente permaneceu sentado, esperando, protegido pela armadura da sua força moral de um estoicismo perfeito.
Sua coragem impressionou Eragon. A paisagem escura ao redor deles parecia de uma imensidão incalculável para Eragon, e ele tinha a impressão de que toda aquela amplidão oculta estava convergindo sobre ele, uma noção que agravava sua ansiedade quanto à escolha que tinha pela frente.
Meu veredicto moldará o resto da sua vida, pensou. Abandonando por um instante a questão da punição, Eragon refletiu sobre o que sabia de Sloan: o amor supremo que o açougueiro tinha por Katrina – obsessivo, egoísta e no geral nocivo como era, apesar de um dia ter sido algo saudável – seu ódio e medo da Espinha, que resultaram da dor pela perda da mulher, Ismira, que caíra para a morte daqueles picos que rasgavam os céus; seu distanciamento dos ramos remanescentes da família; o orgulho pelo seu trabalho; as histórias que Eragon tinha ouvido sobre a infância do açougueiro; e o próprio conhecimento de Eragon de como era a vida em Carvahall. Ele pegou a coleção de percepções fragmentadas, dispersas e as examinou mentalmente, avaliando sua importância. Procurou encaixá-las, como peças de um quebra-cabeça. Não teve muito sucesso, mas persistiu; aos poucos detectou uma infinidade de ligações entre os acontecimentos e as emoções na vida de Sloan, e, com isso, teceu uma trama complexa, cujos desenhos representavam quem Sloan era.
Ao lançar o último fio da trama, Eragon teve a impressão de que finalmente compreendia os motivos para o comportamento de Sloan. Por isso, conseguiu alguma empatia com ele. Mais do que uma empatia, sentia que compreendia Sloan, que tinha isolado os elementos centrais de sua personalidade, aqueles aspectos que não poderiam ser removidos sem modificá-lo irrevogavelmente.
Ocorreram-lhe, então, três palavras na língua antiga que pareciam encarnar Sloan. E, sem pensar, Eragon murmurou muito baixo as palavras. O som não poderia ter chegado a Sloan, mas ele se mexeu – com as mãos agarradas às coxas – e sua expressão passou a demonstrar inquietação.
Um formigamento frio desceu pelo lado esquerdo de Eragon, e a pele dos seus braços e pernas se arrepiou enquanto ele observava o açougueiro. Pensou numa série de explicações diferentes para a reação de Sloan, cada uma mais rebuscada que a outra, mas apenas uma pareceu plausível, e até mesmo essa era improvável na sua opinião. Ele murmurou as três palavras novamente. Como antes, Sloan se mexeu sem sair do lugar, e Eragon ouviu seu resmungo:
— ... a morte passou aqui por perto.
Eragon soltou uma respiração trêmula. Era difícil para ele acreditar, mas seu teste não deixava a menor dúvida: ele, totalmente por acaso, tinha dado com o verdadeiro nome de Sloan.
A descoberta o deixou bastante confuso. Saber o verdadeiro nome de alguém era uma grande responsabilidade, pois esse conhecimento lhe conferia poder absoluto sobre aquela pessoa. Por causa dos riscos inerentes, os elfos raramente revelavam seus nomes verdadeiros; e, quando o faziam, era somente a alguém em quem confiassem sem reservas. Eragon nunca tinha aprendido o nome verdadeiro de ninguém até aquele momento. Sempre tinha calculado que, se o fizesse, seria como um presente de alguém de quem gostasse muito. Conquistar o verdadeiro nome de Sloan sem seu consentimento era um desdobramento para o qual Eragon não estava preparado e com o qual não tinha certeza se saberia lidar. Ocorreu-lhe então que, para adivinhar o verdadeiro nome de Sloan, devia entender o açougueiro melhor do que entendia a si mesmo, pois não fazia a menor ideia de qual pudesse ser o seu próprio.
A conscientização foi incômoda. Suspeitava que –g dada a natureza de seus inimigos – não saber tudo o que pudesse a respeito de si mesmo poderia acabar se revelando fatal. Jurou então dedicar mais tempo à introspecção e à revelação de seu verdadeiro nome.
Talvez Oromis e Glaedr possam me dizer qual é, pensou.
Por maiores que fossem as dúvidas e a confusão que o verdadeiro nome de Sloan despertou nele, esse conhecimento deu a Eragon o esboço de uma ideia de como lidar com o açougueiro. Mesmo depois de ter o conceito básico, ainda levou mais dez minutos para traçar o resto do plano e se certificar de que funcionaria como pretendia.
Sloan inclinou a cabeça na direção de Eragon quando o Cavaleiro se levantou e saiu do acampamento para a noite estrelada lá fora.
— Aonde você vai? — perguntou Sloan.
Eragon permaneceu calado. Perambulou pelo mato até encontrar uma rocha larga e baixa coberta com crostas de líquen e com uma concavidade no formato de uma tigela no centro.
— Adurna reisa — disse ele.
Em torno da rocha, inúmeras gotículas minúsculas de água vieram se infiltrando pelo solo até se reunirem em perfeitos tubos prateados que caíam em arco sobre a borda, descendo para a concavidade. Quando a água começou a transbordar e voltar para a terra, só para voltar a ser dominada pelo encanto, Eragon dispensou o fluxo da magia.
Esperou que a superfície da água se tornasse perfeitamente imóvel – para que pudesse funcionar como um espelho e ficou em pé diante do que agora parecia ser uma bacia de estrelas.
— Draumr kópa — disse ele, então, além de muitas outras palavras, recitando uma fórmula mágica que lhe permitisse não apenas ver, mas também falar com outros que estivessem distantes.
Oromis tinha lhe ensinado as variações da cristalomancia dois dias antes que ele e Saphira deixassem Ellesméra para ir a Surda. A água ficou totalmente negra, parecia que alguém havia apagado as estrelas como se tossem velas. Depois de um instante, uma forma oval clareou o meio da água, e Eragon contemplou o interior de uma grande tenda branca, iluminada pela luz sem chamas de uma Erisdar vermelha, uma das lanternas mágicas dos elfos. Normalmente, Eragon não conseguiria enxergar por cristalomancia nenhuma pessoa ou lugar que não tivesse visto antes, mas o cristal vidente dos elfos era encantado de modo que transmitisse uma imagem das proximidades a qualquer um que entrasse em contato com ele. Da mesma forma, o encanto de Eragon projetaria uma imagem, dele e das proximidades sobre a superfície do cristal. O sistema permitia que desconhecidos entrassem em contato uns com os outros de qualquer local no mundo, o que era uma técnica inestimável em tempos de guerra.
Um elfo alto, de cabelos prateados e armadura marcada pelo combate entrou no campo visual de Eragon, e ele reconheceu lorde Däthedr, conselheiro da rainha Islanzadí e amigo de Arya. Se Däthedr ficou surpreso ao ver Eragon, não demonstrou. Inclinou a cabeça, levou aos lábios os dois primeiros dedos da mão direita e falou com a voz cantada.
— Atra esterní ono thelduin, Eragon Shur’tugal.
— Atra du evarínya ono varda, Däthedr-vodhr — respondeu Eragon, imitando o gesto e fazendo a conversão mental para comunicar-se na língua antiga.
— Estou feliz em saber que você está bem, Matador de Espectros — continuou Däthedr, em sua língua materna. — Arya Dröttningu nos informou da sua missão há alguns dias, e ficamos muito preocupados com você e com Saphira. Espero que nada tenha dado errado.
— Não, mas me deparei com um imprevisto; e, se me for possível, gostaria de fazer uma consulta à rainha Islanzadí para ouvir seus sábios conselhos sobre essa questão.
Os olhos de gato de Däthedr quase se fecharam, tornando-se duas riscas inclinadas, que lhe deram uma expressão feroz indecifrável.
— Sei que você não pediria isso se não fosse importante, Eragon-vodhr, mas tome cuidado: um arco retesado pode com a mesma facilidade se partir e ferir o arqueiro como lançar a flecha ao alvo... Queira, por favor, aguardar, e irei perguntar pela rainha.
— Esperarei. Agradeço imensamente seu auxílio, Däthedr-vodhr.
Quando o elfo virou as costas para o espelho e se afastou, Eragon fez uma careta. Não lhe agradavam as formalidades dos elfos, mas principalmente detestava tentar interpretar suas declarações enigmáticas. Ele estava me avisando que armar esquemas e intrigas em torno da rainha é um passatempo perigoso ou que Islanzadí é um arco pronto para se partir? Ou será que ele queria dizer algo totalmente diferente?
Pelo menos, tenho condição de entrar em contato com os elfos, pensou Eragon. Suas proteções impediam que qualquer coisa entrasse em Du Weldenvarden por meio de magia, o que incluía a visão a distância da cristalomancia.
Enquanto os elfos permanecessem em suas cidades, a comunicação com eles era possível somente por meio de mensageiros enviados floresta adentro. Mas agora que estavam em movimento e haviam deixado a sombra de seus pinheiros de acículas negras, seus impressionantes encantos já não os protegiam, e era possível usar recursos, como o da visão pelo cristal.
Eragon ficou cada vez mais ansioso à medida que um minuto e depois outro passaram lentamente.
— Vamos — murmurou ele.
E olhou rápido à sua volta para se certificar de que nenhuma pessoa nem animal estava se aproximando sorrateiramente enquanto ele mantinha o olhar fixo na água. Com um som semelhante ao de tecido sendo rasgado, a aba de entrada da tenda foi aberta com violência quando a rainha Islanzadí a empurrou para um lado e veio veloz na direção do cristal.
Usava um corselete brilhante de armadura feita com escamas douradas, reforçado por malha, grevas e um elmo primorosamente decorado – engastado com opalas e outras pedras preciosas – que prendia para trás suas trancas negras e ondulantes. Uma capa vermelha debruada de branco, que se enfurnava a partir dos seus ombros, fez com que Eragon se lembrasse da frente de uma tempestade iminente. Na mão esquerda, Islanzadí portava uma espada desembainhada. A mão direita estava vazia, mas parecia enluvada em vermelho; e, depois de um instante, Eragon percebeu que era sangue que gotejava, cobrindo seu pulso e dedos.
As sobrancelhas inclinadas de Islanzadí se uniram quando ela contemplou Eragon. Com essa expressão, ela mostrava uma semelhança impressionante com Arya, embora sua estatura e postura causassem impacto ainda maior que as da filha. Era bela e terrível, como uma assustadora deusa da guerra.
Eragon tocou os lábios com os dedos, depois torceu a mão direita sobre o peito no gesto dos elfos para indicar lealdade e respeito. Recitou então a linha inicial do cumprimento formal dos elfos, falando primeiro, como era correto quando alguém se dirigisse a outro que fosse seu superior. Islanzadí deu a resposta esperada e, num esforço para agradá-la e demonstrar seus conhecimentos dos costumes élficos, Eragon concluiu com a terceira linha da saudação, que era opcional.
— Que a paz viva no seu coração.
A ferocidade da postura de Islanzadí diminuiu um pouco, e um leve sorriso tocou seus lábios, um reconhecimento de seu gesto.
— E no seu também, Matador de Espectros. — Sua voz grave e cheia continha sugestões do farfalhar de acículas de pinheiros, do gorgolejar de regatos e de música tocada em pífanos. Embainhando a espada, ela atravessou a tenda até a mesa de armar e se postou em diagonal em relação a Eragon enquanto lavava o sangue da pele com a água de um jarro. — Receio que seja difícil encontrar a paz nestes nossos tempos.
— A luta está acirrada, Vossa Majestade?
— Estará em breve. Meu povo está se reunindo ao longo da borda ocidental de Du Weldenvarden, onde podemos nos preparar para matar e ser mortos enquanto estamos próximos das árvores que tanto amamos. Somos uma raça dispersa e não marchamos em fileiras como outras raças, por causa dos danos que esse tipo de movimentação causa à terra, e assim é preciso tempo para que possamos nos reunir vindo dos confins mais remotos da floresta.
— Entendo. Só que... — Ele procurou um jeito de fazer sua pergunta sem ser grosseiro. — Se a luta ainda não começou, não posso deixar de me perguntar por que sua mão está manchada de sangue derramado.
Sacudindo dos dedos gotículas de água, Islanzadí levantou seu perfeito antebraço bronzeado para Eragon examinar, e ele percebeu que ela havia sido o modelo para a escultura de dois braços entrelaçados que estava na entrada da casa na árvore onde ele havia ficado em Ellesméra.
— Não está mais manchada. A única nódoa que o sangue deixa numa pessoa é na sua alma, não no corpo. Eu disse que a luta ia se acirrar no futuro próximo, não que ainda não tínhamos começado. — Ela puxou de volta ao pulso a manga do corselete e da túnica por baixo. Do cinto cravejado de pedras preciosas em torno da cintura fina, retirou uma manopla costurada com fio de prata e nela enfiou a mão. — Estivemos observando a cidade de Ceunon, pois é lá que pretendemos atacar primeiro. Há dois dias, nossas tropas de reconhecimento avistaram turbas de homens e mulas que saíram de Ceunon para penetrar em Du Weldenvarden. Achamos que eles fossem apanhar madeira da borda da floresta, como costumam fazer. É uma prática que toleramos porque os humanos necessitam de madeira, e as árvores nos limites são jovens e estão praticamente fora da nossa influência, além do fato de que antes não quisemos nos expor. Contudo, as turbas não pararam nos limites da floresta. Eles se embrenharam em Du Weldenvarden, acompanhando trilhas de caçada com as quais estavam obviamente familiarizados. Estavam procurando as árvores mais altas e mais grossas: árvores da idade da própria Alagaësia, árvores que já eram antigas e adultas quando os anões descobriram Farthen Dûr. Quando as encontraram, eles começaram a derrubá-las. — Sua voz fervilhava de ódio. — Pelos seus comentários, soubemos por que estavam aqui. Galbatorix queria as maiores árvores que pudesse conseguir para substituir os engenhos de sítio e os aríetes que perdeu durante a batalha na Campina Ardente. Se seu motivo tivesse sido puro e honesto, nós poderíamos ter perdoado a perda de uma monarca de nossa floresta. Talvez até mesmo duas. Mas não vinte e oito.
Um calafrio percorreu Eragon.
— O que vocês fizeram? — perguntou ele, embora já suspeitasse da resposta.
Islanzadí levantou o queixo e endureceu o rosto.
— Eu estava presente com dois dos nossos batedores. Juntos, nós corrigimos o erro dos humanos. No passado, o povo de Ceunon tinha juízo e não invadia nossas terras. Hoje, nós lhes relembramos por que esse era o costume. — Sem parecer perceber, ela esfregou a mão direita como se lhe causasse dor e ficou olhando para além do cristal, fixando uma visão só sua. — Você já aprendeu como é, Eragon-finiarel, tocar a força vital das plantas e animais à sua volta. Imagine como você os valorizaria se tivesse possuído essa capacidade pelos séculos afora. Nós doamos de nós mesmos para sustentar Du Weldenvarden, e a floresta é uma extensão dos nossos corpos e mentes. Qualquer ferimento que ela sofra nós sofremos também... Somos um povo que demora a se inflamar; mas, uma vez inflamados, somos como os dragões. A fúria nos enlouquece. Já faz mais de cem anos que não derramo sangue em combate, nem eu nem praticamente qualquer outro elfo. O mundo se esqueceu daquilo de que somos capazes. Nossa força pode ter se reduzido desde a queda dos Cavaleiros, mas nós ainda faremos valer nossa plenitude. Aos olhos dos nossos inimigos, vai parecer que até mesmo os elementos se voltaram contra eles. Somos uma Raça Antiga, e nossas técnicas e conhecimentos superam de longe os dos mortais. Que Galbatorix e seus aliados estejam atentos, pois nós elfos estamos prestes a abandonar nossa floresta, e retornaremos vitoriosos ou jamais retornaremos.
Eragon estremeceu. Mesmo durante seu confronto com Durza, nunca se deparara com uma determinação tão implacável e impiedosa.
Não é humano, pensou ele, e então riu de si mesmo. É claro que nãoE seria bom eu me lembrar dissoPor mais que sejamos parecidos – e, no meu caso, quase idênticos – não somos seres da mesma espécie.
— Se vocês tomarem Ceunon, como vão controlar o povo de lá? Eles podem odiar o Império mais do que a própria morte, mas duvido que confiem em vocês, nem que seja só porque são humanos e vocês, elfos.
Islanzadí abanou a mão.
— Isso não tem importância. Uma vez dentro das muralhas da cidade, temos meios de garantir que ninguém se oponha a nós. Esta não é a primeira vez que lutamos com sua gente. — Ela então removeu o elmo, e seus cabelos caíram para a frente emoldurando o rosto entre as mechas negras. — Não fiquei satisfeita ao saber da sua incursão contra Helgrind, mas imagino que o ataque já esteja terminado e tenha tido êxito.
— Sim, Vossa Majestade.
— Então, minhas objeções são por nada. Advirto-o, porém, Eragon Shur’tugal, não se arrisque em aventuras tão desnecessariamente perigosas. O que devo dizer é cruel, embora seja verdadeiro: sua vida é mais importante que a felicidade do seu primo.
— Jurei a Roran que o ajudaria.
— Então jurou impensadamente, sem levar em consideração as consequências.
— A senhora preferiria que eu abandonasse aqueles com quem me importo? Se agisse desse modo, eu me tornaria um homem desprezível e indigno de confiança: um veículo malformado para as esperanças das pessoas que acreditam que eu, de algum modo, hei de derrubar Galbatorix. E ainda mais, enquanto Katrina fosse refém de Galbatorix, Roran estaria vulnerável a ser manipulado por ele.
A rainha ergueu uma sobrancelha afiada como uma adaga.
— Uma vulnerabilidade que você poderia ter impedido Galbatorix de explorar instruindo Roran a usar certos juramentos nesta língua da magia... Não o aconselho a abandonar amigos nem parentes. Seria realmente uma loucura. Mas trate de manter em mente com firmeza o que está em jogo: a Alagaësia como um todo. Se fracassarmos agora, a tirania de Galbatorix se estenderá a todas as raças, e seu reino não terá fim. Você é a ponta da lança que é nosso esforço. E, se a ponta se partir e se perder, nossa lança resvalará na armadura do inimigo, e nós também estaremos perdidos.
Camadas de líquen se quebraram debaixo dos dedos de Eragon enquanto ele agarrava a beira da bacia de pedra e reprimia o impulso de fazer um comentário impertinente sobre como um guerreiro bem equipado deveria ter uma espada ou outra arma além da lança. Sentia-se frustrado pelo rumo que a conversa tinha tomado e ansioso por mudar de assunto assim que possível. Não tinha entrado em contato com a rainha para ela poder repreendê-lo como se fosse uma criança. Entretanto, permitir que a impaciência ditasse suas ações de modo algum seria útil para sua causa. Por isso permaneceu calmo e respondeu:
— Acredite em mim, por favor, Vossa Majestade. Levo muito, muito a sério suas preocupações. Só posso dizer que, se eu não tivesse ajudado Roran, teria me sentido tão infeliz quanto ele, e ainda mais se ele tentasse salvar Katrina sozinho e morresse por isso. Num caso ou no outro, eu teria ficado abalado demais para ser de qualquer valia para a senhora, ou para qualquer um. Pelo menos, não podemos aceitar que discordamos quanto a esse assunto? Nenhum de nós dois conseguirá convencer o outro.
— Muito bem — disse Islanzadí. — Deixemos essa questão de lado... por enquanto. Mas não pense que você escapou de uma investigação adequada da sua decisão, Eragon, Cavaleiro de Dragão. Parece-me que você tem uma atitude frívola para com suas responsabilidades maiores, e essa é uma questão grave. Vou discuti-la com Oromis. Ele decidirá o que se deve fazer a seu respeito. Agora, diga-me, por que pediu esta audiência?
Eragon trincou os dentes algumas vezes antes de conseguir se forçar a explicar, num tom educado, os acontecimentos do dia, as razões para seus atos em relação a Sloan e a punição que pretendia para o açougueiro. Quando terminou, Islanzadí girou nos calcanhares e percorreu a circunferência da tenda, com movimentos ágeis como os de um gato, e então parou.
— Você decidiu ficar para trás, no meio do Império, para salvar a vida de um assassino e traidor. Você está sozinho com esse homem, a pé, sem provisões nem armas, exceto a magia, e seus inimigos estão no seu encalço. Vejo que minha repreensão anterior foi mais que justificada. Você...
— Se Vossa Majestade tiver de me demonstrar sua ira, por favor, demonstre-a depois. Quero resolver esse assunto rapidamente para poder descansar antes do amanhecer. Tenho muitos quilômetros a percorrer amanhã.
— Sua sobrevivência é só o que importa — disse a rainha, concordando. — Ficarei furiosa depois que terminarmos de falar... Quanto a seu pedido, uma coisa dessas não tem precedentes na nossa história. Se tivesse sido eu no seu lugar, teria matado Sloan e me livrado do problema de uma vez.
— Sei que Vossa Majestade teria agido assim. Uma vez vi Arya matar um gerifalte que estava ferido, porque ela disse que sua morte era inevitável e, ao matá-lo, estava poupando à ave horas de sofrimento. Talvez eu devesse ter feito o mesmo com Sloan, mas não consegui. Acho que teria sido uma decisão da qual me arrependeria pelo resto da vida, ou pior, que no futuro tornaria mais fácil para mim a tarefa de matar.
Islanzadí deu um suspiro e, de repente, aparentou cansaço. Eragon lembrou que ela também tinha passado o dia inteiro lutando.
— Oromis pode ter sido seu mestre verdadeiro, mas você se revelou herdeiro de Brom, não de Oromis. Brom é a outra única pessoa que conseguia se enredar em tantas atribulações quanto você. Como ele, você parece ser levado a procurar o trecho mais fundo de areia movediça para mergulhar nele.
Eragon escondeu um sorriso, satisfeito com a comparação.
— E Sloan? — perguntou. — O destino dele agora está nas suas mãos.
Lentamente, Islanzadí se sentou num banco ao lado da mesa de armar, pôs as mãos no colo e olhou para um lado do cristal vidente. Seu semblante adquiriu uma expressão de observação enigmática: uma bela máscara que escondia seus pensamentos e sentimentos, máscara que Eragon não conseguia decifrar, por mais que se esforçasse.
— Como você decidiu salvar a vida desse homem — disse ela, quando falou — o que exigiu muito trabalho e esforço de sua parte, não posso negar seu pedido e com isso tornar seu sacrifício sem sentido. Se Sloan sobreviver à prova que você lhe impôs, Gilderien, o Sábio, permitirá sua passagem. E Sloan terá um quarto, uma cama e alimento. Mais do que isso, não posso prometer, pois o que vier depois dependerá dele mesmo. Mas, se as condições que você estipulou forem cumpridas, sim, nós iluminaremos sua escuridão.
— Obrigado. Vossa Majestade é extremamente generosa.
— Não, não sou generosa. Esta guerra não me permite ser generosa, apenas prática. Vá e faça o que deve fazer. E tome cuidado, Eragon Matador de Espectros.
— Vossa Majestade. — Ele fez uma reverência. — Se posso lhe fazer um último pedido: a senhora poderia, por favor, não relatar minha situação atual a Arya, Nasuada ou a qualquer outro Varden? Não quero que se preocupem comigo nem um pouco a mais do que o necessário, e logo terão notícias por Saphira.
— Vou pensar em sua solicitação.
Eragon esperou, mas, quando ela permaneceu calada e deixou claro que não tinha a menor intenção de anunciar sua decisão, ele fez uma segunda reverência e agradeceu mais uma vez.
A imagem luminosa na superfície da água tremeluziu e desapareceu na escuridão quando Eragon encerrou o encanto que tinha usado para criá-la. Apoiou-se nos calcanhares e olhou para a infinidade de estrelas, permitindo que seus olhos se reajustassem â luz fraca e lampejante que elas forneciam.
Deixou então a rocha friável com a poça de água e refez seus passos pelo capim e mato baixo até o acampamento, onde Sloan ainda estava sentado, empertigado, rígido como se fosse de ferro fundido.
Eragon pisou num seixo, e o ruído resultante revelou sua presença a Sloan, que girou a cabeça de repente, rápido como um passarinho.
— Já tomou sua decisão? — perguntou Sloan.
— Tomei — disse Eragon. Ele parou e se agachou diante do açougueiro, firmando-se com a mão no chão. — Ouça bem porque não pretendo repetir. Você fez o que fez por causa do seu amor por Katrina, ou é isso o que diz. Quer admita, quer não, acredito que teve outros motivos mais desprezíveis no seu desejo de separá-la de Roran: raiva... ódio... vingança... e sua própria dor.
Os lábios de Sloan se retesaram em linhas brancas e finas.
— Você está me ofendendo.
— Não, acho que não estou. Como minha consciência me impede de matá-lo, sua pena há de ser a mais terrível que pude imaginar, com exceção da morte. Estou convencido de que o que disse antes é a verdade: que Katrina é mais importante para você que qualquer outra coisa. Portanto, sua pena é a seguinte: você não voltará a ver sua filha, tocá-la nem conversar com ela, até o próprio dia da sua morte, e conviverá com o conhecimento de que ela está com Roran e que os dois estão felizes juntos, sem você.
Sloan respirou fundo entre dentes.
— Essa é a sua punição? Ora! Você não tem como garantir seu cumprimento. Nem tem uma cadeia onde me prender.
— Ainda não terminei. Vou garantir seu cumprimento com juramentos na língua dos elfos, a língua da verdade e da magia, que você fará comprometendo-se a se sujeitar aos termos da sentença.
— Você não pode me forçar a dar minha palavra — rosnou Sloan. — Nem que me torture.
— Posso, sim, e não vou torturá-lo. Além disso, vou lançar sobre você uma compulsão de viajar para o norte até chegar à cidade élfica de Ellesméra, que se encontra nas profundezas de Du Weldenvarden. Pode tentar resistir ao impulso, se quiser, mas não importa por quanto tempo se oponha a ele, o encanto irá irritá-lo como uma comichão que não se consegue cocar, até que obedeça ao comando e siga para o reino dos elfos.
— Você não tem coragem para me matar? — perguntou Sloan. — É covarde demais para levar uma espada ao meu pescoço, e por isso vai me fazer perambular pelo mato, cego e perdido, até que as intempéries ou as feras acabem comigo? — Ele cuspiu à esquerda de Eragon. — Você não passa de um tolo, cria de um moloide perebento; filho sem pai é o que você é, sim, que até a mãe largou; um devorador de pedra, de cara sem cor, borrado de medo; um vilão vomitador, sujeito desprezível e doente; um nanico chorão nascido de uma porca sebenta. Eu não lhe daria uma casca de pão se estivesse morrendo de fome, nem uma gota d’água se estivesse queimando, nem uma cova de indigentes se estivesse morto. No lugar da medula você tem é pus; e fungos no lugar do cérebro. Seu frouxo encorujado!
Na opinião de Eragon, os xingamentos de Sloan chegavam a ser obscenamente impressionantes, muito embora sua admiração não o impedisse de ter vontade de estrangular o açougueiro ou de, pelo menos, responder à altura. O que freou esse desejo de retaliação foi sua suspeita de que Sloan estava tentando deliberadamente enfurecê-lo o suficiente para ele agredir o homem mais velho e assim lhe proporcionar um fim rápido do qual não era merecedor.
— Sem pai, posso ser, mas não sou assassino — disse Eragon.
Sloan inspirou ruidosamente. Antes que pudesse retomar sua série de insultos, Eragon acrescentou:
— Aonde quer que vá, não lhe faltará comida, nem você será atacado por animais selvagens. Lançarei ao seu redor alguns encantamentos que impedirão homens e feras de perturbá-lo e farão com que animais lhe tragam alimento quando precisar.
— Você não tem como fazer isso — murmurou Sloan.
Mesmo à luz das estrelas, Eragon pôde ver os últimos resquícios de cor fugirem da pele de Sloan, deixando-o branco como cera.
— Você não tem os meios. Não tem o direito.
— Sou um Cavaleiro de Dragão. Tenho tanto direito quanto qualquer rei ou rainha.
E então Eragon, que não tinha nenhum interesse em continuar a repreender Sloan, pronunciou o verdadeiro nome do açougueiro alto o suficiente para que ele o ouvisse. Uma expressão de horror e revelação invadiu o rosto de Sloan, e ele lançou os braços para o alto à sua frente, uivando como se tivesse sido esfaqueado. Seu grito era bruto, desigual e desolado: o berro de um homem condenado por sua própria natureza a um destino do qual não podia escapar. Caiu para a frente sobre as palmas das mãos, permanecendo nessa posição, e começou a soluçar, com o rosto oculto por mechas desgrenhadas. Eragon observava, petrificado com a reação de Sloan. Será que descobrir o próprio nome verdadeiro afeta todas as pessoas dessa forma? Será que isso aconteceria também comigo?
Endurecendo o coração diante da infelicidade de Sloan, Eragon passou a fazer o que disse que faria. Repetiu o verdadeiro nome de Sloan e, palavra por palavra, ensinou ao açougueiro os juramentos na língua antiga que garantiriam que ele jamais se encontraria ou procuraria Katrina outra vez. Sloan resistiu com muito choro, lamentações e ranger de dentes; mas, ainda que lutasse com vigor, não tinha escolha a não ser obedecer, sempre que Eragon invocava seu nome verdadeiro. E, quando terminaram os juramentos, Eragon lançou os cinco encantos que levariam Sloan na direção de Ellesméra, que o protegeriam de violência não provocada e instigariam as aves, os animais e os peixes que moravam nos rios e lagos a alimentá-lo.
Eragon formulou os encantos para que extraíssem sua energia de Sloan, não de si. A meia-noite havia ficado muito para trás quando Eragon completou o encantamento final. Tonto de cansaço, apoiou-se no cajado de espinheiro. Sloan jazia, enroscado, aos seus pés.
— Encerrado — disse Eragon.
Um gemido trancado subiu do vulto jogado ali embaixo. Parecia que Sloan estava tentando dizer alguma coisa. Franzindo o cenho, Eragon se ajoelhou ao seu lado. O rosto do açougueiro estava vermelho e sangrento onde o tinha arranhado com as unhas. Seu nariz escorria, e lágrimas caíam do canto da órbita do olho esquerdo, que era o menos mutilado dos dois. Pena e culpa começaram a crescer dentro de Eragon. Não sentia o menor prazer em ver Sloan reduzido a uma condição tão humilhante. Era um homem arrasado, desprovido de tudo o que valoriza na vida, aí incluídas as ilusões a respeito de si mesmo, e Eragon era quem o tinha arrasado. O feito deixou o Cavaleiro se sentindo contaminado, como se tivesse feito algo de vergonhoso. Foi necessário, pensou ele, mas ninguém deveria ter de fazer o que fiz. Veio outro gemido de Sloan, antes que falasse novamente.
— ... só um pedaço de corda. Eu não pretendia... Ismira... Não, não, por favor, não... — Os devaneios do açougueiro foram amainando, e no silêncio subsequente Eragon pôs a mão no braço de Sloan, que se enrijeceu ao contato. — Eragon... — murmurou ele. — Eragon... estou cego, e você me manda caminhar pela terra... caminhar sozinho pela terra. Sou um renegado desamparado. Sei quem sou e não consigo tolerar saber. Ajude-me. Mate-me! Livre-me dessa agonia.
Seguindo um impulso, Eragon forçou a mão direita de Sloan a seguir o cajado de espinheiro.
— Leve meu cajado. Que o guie em sua jornada.
— Mate-me!
— Não.
Um grito esganiçado irrompeu da garganta de Sloan, e ele se debatia e socava a terra com os punhos.
— Cruel, cruel é o que você é!
Tendo esgotado suas parcas forças, enroscou-se numa bola ainda mais fechada, arfando e choramingando. Debruçando-se sobre ele, Eragon pôs a boca bem perto da orelha de Sloan para sussurrar:
— Não sou desprovido de misericórdia. Por isso, vou lhe dar a seguinte esperança: se chegar a Ellesméra, lá encontrará uma casa à sua espera. Os elfos cuidarão de você e permitirão que taça o que quiser pelo resto da vida, com uma única exceção: uma vez que entrar em Du Weldenvarden, não poderá sair... Sloan, preste atenção. Quando eu estava entre os elfos, aprendi que muitas vezes o verdadeiro nome de uma pessoa muda com a idade. Você entende o que isso significa? Quem você é não é eterno. Um homem poderia se reinventar se quisesse.
Sloan não lhe deu resposta. Eragon deixou o cajado ao seu lado e foi para a outra parte do acampamento, onde se estendeu no chão. Já com os olhos fechados, resmungou um encanto que o despertaria antes do amanhecer e então se deixou levar para o abraço reconfortante de seu descanso alerta.


A Charneca Cinzenta estava fria, escura e inóspita quando um zumbido baixo soou dentro da cabeça de Eragon.
— Letta — disse ele, e o zumbido cessou.
Gemendo enquanto esticava os músculos doloridos, pôs-se de pé e levantou os braços acima da cabeça, sacudindo-os para fazer o sangue correr. Sentia tanta dor nas costas que esperava um bom tempo passar antes que precisasse usar novamente uma arma. Abaixou os braços e então procurou por Sloan. O açougueiro tinha sumido.
Eragon sorriu ao ver pegadas, acompanhadas da marca redonda do cajado, que se afastavam do acampamento. Era um rastro confuso e sinuoso, mas, mesmo assim, em geral sua direção era o norte, para onde estava a grande floresta dos elfos.
Quero que ele consiga, pensou Eragon com certa surpresa. Quero que consiga porque isso significará que todos nós podemos ter uma chance de nos redimir de nossos erros. E, se Sloan puder reparar as falhas em seu caráter e encarar o mal que causou, descobrirá que sua provação não é tão terrível quanto acredita. Isto porque Eragon não contou a Sloan que, se o açougueiro demonstrasse estar realmente arrependido de seus crimes, se mudasse seu modo de agir e vivesse como uma pessoa melhor, a rainha Islanzadí faria com que seus criadores de encantamentos restaurassem sua visão.
Entretanto, esse era um prêmio que Sloan teria de conquistar sem ter conhecimento da sua existência, para que não procurasse iludir os elfos, levando-os a concedê-lo antes da hora. Eragon fixou o olhar nas pegadas por um bom tempo e depois ergueu os olhos para o horizonte.
— Boa sorte — disse ele.
Cansado, mas também satisfeito, deu as costas ao rastro de Sloan e começou a correr pela Charneca Cinzenta afora. Para o sudoeste, sabia que se erguiam as antigas formações calcárias onde Brom jazia encerrado em seu túmulo de diamante.
Sentiu uma vontade enorme de se desviar do caminho e ir prestar homenagem, mas não ousou fazê-lo. Se Galbatorix tivesse descoberto o local, mandaria seus agentes para procurá-lo.
— Eu volto — disse. — Prometo, Brom. Um dia eu volto.
E continuou a correr.

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