24 de junho de 2017

Capítulo 59 - Conselho de guerra

D
urante o voo de Vroengard para Urû’baen, Saphira não
atravessou qualquer tempestade e teve a sorte de ter o vento
de feição. Isso ajudou-a a avançar mais depressa, pois os
Eldunarís disseram-lhe onde encontrar a corrente de ar mais rápida,
que, segundo eles, soprava em quase todos os dias do ano. Além
disso, eles forneciam-lhe constantemente energia, por isso Saphira
nunca se sentiu fraca nem cansada.
A cidade surgiu no horizonte, apenas dois dias depois de terem
deixado a ilha.
Por duas vezes, durante a viagem, quando o sol estava mais
brilhante, Eragon julgou ver, à distância, a entrada para a bolsa de
espaço onde os Eldunarís flutuavam, escondidos, atrás de Saphira.
Parecia um ponto negro e era tão pequeno que não conseguia
manter os olhos fixos nele por mais de um segundo. Primeiro,
julgou que fosse uma partícula de pó, mas depois reparou que o
ponto estava sempre à mesma distância de Saphira e, quando o via,
estava sempre no mesmo sítio.
Enquanto voavam, os dragões verteram uma sucessão de
memórias em Eragon e Saphira, por intermédio de Umaroth: uma
cascata de experiências — batalhas ganhas e perdidas, amores,
ódios, feitiços, acontecimentos presenciados por todo o reino,
remorsos, realizações e reflexões acerca do funcionamento do
mundo. Os dragões tinham milhares de anos de conhecimento e
pareciam dispostos a partilhar tudo com eles.
É demasiado, protestou Eragon, não vamos conseguir lembrarnos
de tudo, muito menos entendê-lo.
Não, disse Umaroth. Mas poderás lembrar-te de alguma coisa e
talvez seja o suficiente para derrotares Galbatorix. Agora deixa-nos
prosseguir.
A torrente de informação era avassaladora. Por vezes Eragon
sentia que estava a esquecer quem era, visto que as memórias dos
dragões eram de longe mais numerosas que as suas. Quando isso
acontecia, desligava a mente da deles e repetia o seu verdadeiro
nome para si, até voltar a sentir-se seguro da sua identidade.
Tudo aquilo que ele e Saphira aprenderam impressionaram-no e
perturbaram-no, levando-o frequentemente a questionar as suas
próprias crenças. Mas nunca teve tempo para se debater
demasiado com esses pensamentos, pois havia sempre mais para
preencher o seu lugar. Sabia que levaria anos a perceber o que os
dragões estavam a mostrar-lhe.
Quanto mais aprendia acerca dos dragões, maior era a
admiração que sentia por eles. Os que viveram durante centenas de
anos tinham uma forma estranha de pensar e os mais velhos eram
tão diferentes de Glaedr e de Saphira quanto estes dos Fanghur das
Montanhas Beor. Interagir com esses anciãos era confuso e
inquietante, pois saltavam de um assunto para outro e faziam
associações e comparações que pareciam não fazer qualquer
sentido, mas que Eragon sabia terem significado a um nível mais
profundo. Raramente conseguia perceber o que eles estavam a
tentar dizer e os velhos dragões também não se dispunham a
explicar-se em termos que ele entendesse.
Ao fim de algum tempo, Eragon percebeu que eles não
conseguiam expressar-se de outra maneira. As suas mentes tinham
mudado ao longo dos séculos e o que era simples e direto para ele,
muitas vezes parecia-lhes complicado, e vice-versa. Escutar os seus
pensamentos devia ser como escutar os pensamentos de um deus.
Ao fazer essa observação em particular, Saphira roncou e disselhe:
Há uma diferença.
Qual é?
Ao contrário dos deuses, nós participamos nos acontecimentos
do mundo.
Talvez os deuses optem por agir sem que os vejamos.
Então para que é que servem?
Achas que os dragões são melhores que deuses?, perguntou ele
divertido.
Quando somos completamente adultos, sim. Haverá criaturas
mais grandiosas do que nós? Até a força de Galbatorix depende de
nós.E os Nidhwal?
Saphira fungou.
Nós podemos nadar, mas eles não podem voar.
O mais velho dos Eldunarís, um dragão que dava pelo nome de
Valdr — que significava “líder”, na língua antiga — só falou
diretamente com eles uma vez. Através dele receberam uma
imagem de raios de luz que se transformavam em ondas de areia,
tal como a noção desconcertante de que tudo o que parecia sólido
era em grande parte um espaço vazio. Depois Valdr mostrou-lhes
um ninho de estorninhos adormecidos e Eragon conseguiu sentir os
sonhos percorrerem as suas mentes, num abrir e fechar de olhos. A
princípio, a reação de Valdr foi de desprezo — os sonhos dos
estorninhos pareciam insignificantes, mesquinhos e inconsequentes —
mas, depois, o seu estado de espírito mudou e ele tornou-se
afetuoso e empático, e mesmo a mais pequena preocupação dos
estorninhos pareceu ganhar importância até se tornar igual às
preocupações de reis.
Valdr prolongou a visão como se quisesse ter a certeza de que
Eragon e Saphira se recordariam dela de entre todas as outras
memórias. Contudo, nenhum deles tinha a certeza do que o dragão
estava a tentar dizer-lhes. E Valdr recusou dar-lhes mais
explicações.
Quando finalmente avistaram Urû’baen, os Eldunarís pararam de
partilhar memórias com Eragon e Saphira, e Umaroth disse:
Agora será mais proveitoso que estudem o covil do vosso
inimigo.
E foi isso que fizeram, num percurso de várias léguas, enquanto
Saphira descia em direção ao solo. O que viram não encorajou
nenhum deles e o que Glaedr disse a seguir tão-pouco os animou:
Galbatorix construiu muita coisa desde que nos expulsou daqui.
No nosso tempo as muralhas não eram tão maciças nem tão altas.
Umaroth ainda acrescentou:
Ilirea também não estava tão fortificada durante a guerra entre a
nossa espécie e os Elfos. O traidor escavou bem fundo e empilhou
uma montanha de pedra sobre a sua toca. Acho que não sairá
voluntariamente. É como um texugo que, escondido na toca,
morderá o nariz de todos os que tentem tirá-lo de lá.
Um quilômetro e meio a sudoeste da saliência murada e da
cidade por baixo desta, estava o acampamento dos Varden. Era
bastante maior que a imagem que Eragon tinha dele, o que o
intrigou, até perceber que a rainha Islanzadí e o seu exército já
deviam ter unido forças aos Varden. Deu um pequeno suspiro de
alívio. “Até Galbatorix receava o poder dos Elfos.”
Quando Saphira e Eragon estavam a cerca de uma légua das
tendas, o Eldunarí ajudou Eragon a ampliar o raio de alcance dos
seus pensamentos até conseguir sentir a mente dos homens, Anões,
Elfos e Urgals reunidos no acampamento. O seu toque era
demasiado leve para que alguém se apercebesse, a menos que o
esperassem, e logo que localizou os acordes selvagens que
caraterizavam os pensamentos de Blödhgarm, concentrou-se
unicamente no elfo.
Blödhgarm, disse ele, sou eu, Eragon. Um fraseado mais formal
parecia-lhe natural depois de passar tanto tempo a reviver
experiências de há muitas eras atrás.
Matador de Espectros! Você está bem? A tua mente parece-me
estranha. Saphira está contigo? Está ferida? Aconteceu alguma
coisa a Glaedr?
Estão ambos bem, tal como eu.
Então... A confusão de Blödhgarm era evidente.
Eragon interrompeu-o, dizendo:
Não estamos longe, mas estamos invisíveis, por agora. As
nossas ilusões ainda são visíveis para os que aí estão em baixo?
Sim, Matador de Espectros. Pusemos Saphira a voar em
círculos sobre as tendas, a mil e quinhentos metros de altitude. Por
vezes escondemo-la num banco de nuvens ou criamos a ilusão de
que ambos se ausentaram para patrulhar a região. Mas não
podemos permitir que Galbatorix pense que se ausentaram por
muito tempo. As vossas imagens irão afastar-se agora, para que
possam reunir-se a nós, sem levantar suspeitas.
Não, é melhor esperarem e manterem os vossos feitiços durante
mais algum tempo.
Como?
Não vamos regressar diretamente ao acampamento. Eragon
olhou de relance para o solo. Há uma pequena colina, a sudeste, a
pouco mais de três quilômetros. Conhece-la?
Sim, consigo vê-la daqui.
Saphira aterrará atrás dela. Pede a Arya, Orik, Jörmundur,
Roran, à rainha Islanzadí e ao rei Orrin para se reunirem lá
connosco. Mas certifica-te de que não abandonam o acampamento
todos ao mesmo tempo. O ideal seria ajudares a escondê-los. Tu
também deves vir.
Como queiras... Matador de Espectros, o que encontraste
em...
Não! Não me perguntes isso. Seria perigoso pensar no assunto
aqui. Vem e eu dir-te-ei. Não quero gritá-lo aos quatro ventos,
onde possa ser ouvido.
Compreendo. Iremos ter contigo logo que pudermos, mas
somos capazes de demorar algum tempo a organizar as partidas.
Claro. Sei que farás o melhor.
Eragon cortou a ligação e recostou-se na sela, sorrindo
ligeiramente ao imaginar a expressão de Blödhgarm quando
soubesse dos Eldunarís.
Saphira aterrou na depressão, por trás da base da colina, com
um redemoinho de vento, assustando um rebanho de ovelhas, que
fugiram a correr, com balidos lamentosos.
Ao recolher as asas, Saphira olhou em redor, à procura das
ovelhas e disse:
Seria fácil apanhá-las, visto que não me veem. E lambeu as
mandíbulas.
Sim, mas qual seria o gozo disso?, perguntou Eragon, soltando
as correias que tinha em torno das pernas.
O gozo não enche a barriga.
Não, mas também não tens fome, pois não? A energia dos
Eldunarís, embora insubstancial, tirara-lhe a fome.
Saphira exalou uma grande quantidade de ar, como que
suspirando.
Não, nem por isso...
Enquanto esperavam, Eragon esticou os membros doridos e fez
uma refeição leve, a partir do que restava das suas provisões. Sabia
que o corpo sinuoso de Saphira estava estendido no chão, a seu
lado, embora não a visse. Apenas a impressão mais escura do seu
corpo sobre os talos de erva esmagados denunciava a sua
presença, como uma depressão de estranhos contornos. A imagem
divertiu-o, embora não percebesse bem porquê.
Enquanto comia, contemplou a agradável paisagem em torno da
colina, observando a agitação do ar nas espigas de trigo e de
cevada. Os campos estavam separados por muros longos e baixos
feitos de pedras empilhadas. Os agricultores da zona deviam ter
levado centenas de anos a desenterrar tantas pedras.
“Pelo menos esse problema não se colocava no Vale de
Palancar”, pensou ele.
Instantes depois, um dos dragões transmitiu-lhe uma memória e
Eragon ficou a saber exatamente quantos anos tinham os muros.
Remontavam à época em que os humanos tinham vindo viver para
as ruínas de Ilirea, depois dos Elfos derrotarem os guerreiros do rei
Palancar. Conseguia vê-los como se ainda lá estivesse: filas de
homens, mulheres e crianças a vasculharem a terra acabada de arar
e a transportarem as pedras que encontravam para o local onde
iriam erguer os muros.
Algum tempo depois, Eragon permitiu que a memória se
dissipasse, abrindo depois a mente para as flutuações de energia
que existiam em redor deles. Escutou os pensamentos dos ratos na
erva, dos vermes na terra e dos pássaros que esvoaçavam. Era um
pouco arriscado, pois poderia acabar por denunciar a sua presença
a feiticeiros inimigos que estivessem por perto. Mas preferia saber
o que tinha em seu redor, para que ninguém os pudesse atacar de
surpresa.
Entretanto sentiu a aproximação Arya, Blödhgarm e da rainha
Islanzadí, não ficando alarmado ao ver a sombra das suas pegadas
a moverem-se na sua direção, do lado oeste da colina.
O ar ondulou como água e os três elfos apareceram diante dele.
A rainha Islanzadí vinha à frente, mais majestosa do que nunca.
Envergava um corpete dourado de uma armadura de escamas,
usava um elmo com jóias encastoadas e uma capa vermelha,
debruada a branco, presa em torno dos ombros. Uma espada
longa e esguia pendia-lhe da cintura estreita. Trazia uma lança
comprida, de ponta branca, numa das mãos, e um escudo com a
forma de uma folha de bétula — com rebordos serrados e tudo — na
outra.
Arya envergava também uma bela armadura. Trocara as suas
roupas, habitualmente escuras, por um corpete como o da mãe —
embora o de Arya fosse de aço acinzentado e não de ouro —, e
usava um elmo decorado com um entrançado gravado em relevo na
testa e na peça do nariz, e um par de asas de águia estilizadas
viradas para trás, em cada têmpora. O traje de Arya era sombrio,
em relação ao que era usado por Islanzadí, e, por isso mesmo, mais
mortífero. Juntas, mãe e filha eram como um par de lâminas
idênticas, uma adornada para exposição e a outra equipada para a
guerra.
Tal como as duas mulheres, Blödhgarm usava uma túnica de
armadura de escamas, mas tinha a cabeça descoberta e não trazia
qualquer arma a não ser uma pequena faca no cinto.
— Mostra-te, Eragon, Matador de Espectros — disse Islanzadí,
olhando para o local onde ele estava.
Eragon quebrou o feitiço que o escondia a ele e a Saphira, e fez
uma vénia à rainha dos Elfos.
Ela passou os olhos escuros por ele, estudando-o como se fosse
um cavalo de carga premiado. Contrariamente ao habitual, Eragon
não teve dificuldade em olhá-la diretamente. Segundos depois, a
rainha disse:
— Melhoraste, Matador de Espectros.
Ele fez-lhe uma segunda vénia, mais curta.
— Obrigado, Majestade. — Como sempre, o som da sua voz
provocou-lhe um estremecimento. Parecia vibrar de magia e
musicalidade, como se cada palavra fosse parte de um poema
épico. — Tal cumprimento tem grande significado vindo de alguém
tão sábio e justo como vós.
Islanzadí deu uma gargalhada, revelando uns dentes longos, e a
colina e os campos vibraram com o seu riso.
— E também você está eloquente! Não me contaste que ele se tinha
tornado tão bem-falante, Arya!
Um ligeiro sorriso desenhou-se no rosto do Arya.
— Ele ainda está a aprender.
Depois, dirigindo-se a Eragon, disse:
— É bom saber que regressaste são e salvo.
Os Elfos assaltaram Eragon, Saphira e Glaedr com inúmeras
perguntas, mas os três recusaram-se a responder até os outros
chegarem. Ainda assim, Eragon achou que os Elfos tinham sentido
os Eldunarís, pois reparou que eles, por vezes, olhavam na direção
dos corações dos corações, embora não parecessem aperceber-se
disso.
Orik surgiu a seguir, vindo de Sul, montado num pônei,
desgrenhado, suado e ofegante.
— Olá Eragon! Olá Saphira! — gritou o rei dos Anões, erguendo
o punho. Deslizou da montada exausta, aproximou-se com passos
pesados, puxou Eragon, e abraçou-o rudemente, batendo-lhe nas
costas.
Depois de se cumprimentarem — e Orik dar uma esfregadela no
focinho de Saphira, arrancando-lhe um gemido de prazer — Eragon
perguntou:
— Onde estão os teus guardas?
Orik apontou por cima do ombro:
— A entrançar as barbas numa granja, a oeste, a um quilômetro e
meio daqui e nada satisfeitos, presumo. Eu teria confiado em todos
eles — pois são membros do meu clã —, mas Blödhgarm disse que
era melhor vir sozinho, por isso assim o fiz. Agora, explica-me,
porquê todo este secretismo? O que descobriste em Vroengard?
— Terás de esperar pelo resto do conselho, para saberes —
respondeu Eragon —, mas é bom voltar a ver-te — e deu uma
palmada no ombro de Orik.
Roran chegou a pé, pouco depois, com um ar sombrio e
empoeirado. Agarrou no braço de Eragon e deu-lhe as boasvindas,
puxando-o depois à parte e dizendo-lhe:
— Podes impedir que eles nos oiçam? — E apontou com o queixo
para Orik e para os Elfos.
Eragon demorou apenas uns segundos a lançar um feitiço que os
protegeu dos ouvintes:
— Está feito. — Ao mesmo tempo, desligou a mente de Glaedr e
dos outros Eldunarís, embora não se tivesse desligado de Saphira.
Roran acenou com a cabeça e olhou para os campos.
— Tive uma conversinha com o rei Orrin enquanto estavas
ausente.
— Uma conversinha, como?
— Ele estava a ser um tolo e eu disse-lho.
— Presumo que não tenha reagido muito bem.
— Pode dizer-se que não. Tentou golpear-me.
— O quê?
— Consegui arrancar-lhe a espada da mão antes que ele me
atingisse, mas se tivesse conseguido o que queria, ter-me-ia
matado.
— Orrin? — Era-lhe difícil imaginar o rei a fazer tal coisa. —
Feriste-o com gravidade?
Roran sorriu pela primeira vez: um breve sorriso que depressa
desapareceu por baixo da barba:
— Assustei-o, o que pode ser pior.
Eragon roncou e apertou o pomo de Brisingr. Depois reparou
que estavam em posições simétricas; ambos com a mão na arma e
o peso do corpo na perna oposta.
— Quem mais sabe acerca disso?
— Jörmundur — pois estava lá — e àqueles a quem Orrin possa ter
contado.
Eragon franziu a sobrancelha e começou a andar para trás e para
diante, enquanto tentava decidir o que fazer.
— A ocasião não podia ser pior.
— Eu sei. Eu não teria sido tão brusco com Orrin, se ele não
estivesse prestes a enviar “saudações régias” a Galbatorix e outros
disparates do género. Ter-nos-ia colocado a todos em perigo e eu
não podia permitir que isso acontecesse. Terias feito o mesmo.
— Talvez, mas isto torna tudo mais difícil. Agora, eu sou o líder
dos Varden. Um ataque dirigido a ti ou a qualquer outro dos
guerreiros sob as minhas ordens, é o mesmo que me dirigirem um
ataque. Orrin sabe disso e sabe que nós somos do mesmo sangue.
Mais valia ter-me atirado uma luva à cara.
— Ele estava bêbado — disse Roran. — Não me parece que
tivesse pensado nisso quando desembainhou a espada.
Eragon viu Arya e Blödhgarm a atirarem-lhe olhares curiosos,
por isso parou e virou-se de costas para eles.
— Estou preocupado com Katrina — acrescentou Roran. — Se
Orrin estiver demasiado furioso, pode mandar homens atrás de mim
ou atrás dela. De qualquer modo, ela pode ser ferida. Jörmundur já
colocou um guarda na nossa tenda, mas não é a proteção
suficiente.
Eragon abanou a cabeça.
— Orrin não se atreveria a fazer-lhe mal.
— Não? Ele não pode fazer-te mal e não tem estômago para me
confrontar diretamente. O que lhe resta? Uma emboscada. Facas
na escuridão. Matar Katrina seria uma forma fácil de se vingar.
— Duvido que Orrin recorresse a facas na escuridão — ou fizesse
mal a Katrina.
— Não podes ter a certeza.
Eragon ponderou por instantes.
— Lançarei alguns feitiços em Katrina para a manter em
segurança e direi a Orrin que o fiz. Isso deverá por termo a
qualquer intenção.
A tensão em Roran pareceu diminuir:
— Ficar-te-ia agradecido.
— Dar-te-ei também novas proteções.
— Não, poupa a tua energia. Eu sei tomar conta de mim.
Eragon insistiu, mas Roran continuou a recusar. Finalmente
Eragon disse-lhe:
— Raios! Escuta-me. Estamos prestes a iniciar uma batalha
contra os homens de Galbatorix. Tens de ter alguma proteção,
quanto mais não seja contra a magia. Eu vou dar-te proteções, quer
isso te agrade ou não, por isso o melhor é sorrires e agradecer-me!
Roran olhou-o furioso e depois resmungou, erguendo as mãos:
— Está bem, como queiras. você nunca soubeste quando parar.
— Ah, e você sabes?
Uma gargalhada emergiu das longas barbas de Roran.
— Creio que não. Acho que é de família.
— Hum. Entre Brom e Garrow, não sei quem seria o mais
teimoso.
— Era o Pai — disse Roran.
— Ei, Brom também... Não, tens razão, era Garrow.
E trocaram um sorriso, recordando a vida na quinta. Depois
Roran mudou de posição e atirou-lhe um estranho olhar:
— Pareces diferente.
— Pareço?
— Sim. Pareces mais seguro de ti.
— Talvez porque me entenda melhor.
Roran não tinha resposta.
Meia hora mais tarde, Jörmundur e o rei Orrin apareceram
juntos, a cavalo. Eragon saudou Orrin, mais educadamente que
nunca, mas este retribuiu-lhe com uma resposta breve e evitou o
seu olhar. Mesmo a mais de um metro de distância, Eragon
conseguia sentir o cheiro a vinho no seu hálito.
Logo que todos se reuniram diante de Saphira, Eragon começou
a falar. Primeiro exigiu que fizessem um voto de silêncio na língua
antiga e, depois, explicou o conceito de um Eldunarí a Orik, Roran,
Jörmundur e Orrin, fazendo-lhes um breve resumo da história dos
corações dos dragões semelhantes a jóias, que estavam na posse
dos Cavaleiros e de Galbatorix.
Os Elfos pareceram ficar inquietos pelo fato de Eragon se
mostrar disposto a falar dos Eldunarís perante os outros, mas
nenhum protestou, o que lhe agradou. Pelo menos, merecia-lhes
esse tipo de confiança. Orik, Roran e Jörmundur demonstraram
surpresa, incredibilidade e fizeram imensas perguntas. Roran, em
especial, pareceu ficar com um brilho intenso no olhar, como se a
informação lhe tivesse dado uma infinidade de ideias novas acerca
de como matar Galbatorix.
Orrin revelou-se sempre intratável e asperamente cético em
relação à existência dos Eldunarís. No final, as suas dúvidas
acalmaram, quando Eragon tirou o coração dos corações de
Glaedr dos alforges, apresentando o dragão aos quatro.
A reverência que todos demonstraram, ao conhecer Glaedr,
satisfez Eragon. Mesmo Orrin parecia impressionado, embora
tivesse trocado algumas palavras com Glaedr e, depois, se virasse
para Eragon e dissesse:
— Nasuada sabia disto?
— Sim, eu disse-lhe em Feinster.
Tal como esperava, a confissão não agradou a Orrin.
— Mais uma vez, os dois decidem ignorar-me. Os Varden não
teriam hipótese de defrontar o Império sem o apoio dos meus
homens e a comida da minha nação. Eu sou soberano de um dos
quatro países de Alagaësia e o meu exército corresponde a uma
boa parte das nossas forças. Contudo, nenhum dos dois achou
conveniente informar-me acerca disto!
Antes que Eragon pudesse responder, Orik avançou um passo.
— Eles também não me falaram no assunto, Orrin — resmungou o
rei dos Anões —, e o meu povo apoia os Varden há mais tempo que
o teu. Não deves levar isso a mal. Eragon e Nasuada fizeram o que
acharam melhor para a nossa causa; não era sua intenção
desrespeitar ninguém.
Orrin franziu a sobrancelha e parecia querer continuar a discutir.
Mas Glaedr antecipou-se, dizendo:
Eles fizeram o que eu lhes pedi, rei de Surda. Os Eldunarís são o
maior segredo da nossa raça e nós não o partilhamos de ânimo
leve, mesmo que seja com reis.
— Então, porque decidiram fazê-lo agora? — perguntou Orrin,
enfaticamente. — Poderias ter entrado em combate sem nunca te
revelares.
Em resposta, Eragon contou-lhes a história da viagem a
Vroengard, incluindo o encontro com a tempestade no mar, e o
cenário que tinham testemunhado do topo das nuvens. Arya e
Blödhgarm foram os que se mostraram mais interessados nessa
parte da história, e Orik revelou-se mais constrangido.
— Barzûl, mas isso parece ter sido uma experiência bastante
desagradável — disse ele. — Só de pensar fico a tremer. O lugar
indicado para um anão é o chão e não o ar.
Concordo, disse Saphira. Orrin franziu a sobrancelha e olhou-a,
desconfiando, torcendo as pontas da barba entrançada.
Resumindo a história, Eragon explicou como ele, Saphira e
Glaedr tinham entrado no Cofre das Almas, embora não lhes
revelasse que isso lhes exigira proferir os seus verdadeiros nomes.
E, quando finalmente lhes revelou o que o cofre continha, um
silêncio de perplexidade instalou-se entre eles.
Depois Eragon disse:
— Abram as vossas mentes!
Momentos depois, o som de vozes sussurrantes pareceu
impregnar o ar e Eragon sentiu a presença de Umaroth e dos outros
dragões ocultos, em seu redor.
Os Elfos cambalearam e Arya deixou-se cair sobre o joelho,
encostando a mão à cabeça como se alguém lhe tivesse batido.
Orik deu um grito e olhou em redor, de olhos arregalados, e Roran,
Jörmundur e Orrin ficaram pasmados.
A rainha Islanzadí ajoelhou-se, adotando uma pose muito
semelhante à da filha, e Eragon sentiu-a falar com os dragões,
saudando muitos deles pelo nome e dando-lhes as boas-vindas
como velhos amigos. Blödhgarm fez o mesmo e, durante alguns
minutos, um turbilhão de pensamentos fluiu entre os dragões e os
que estavam reunidos na base da colina.
A cacofonia mental era tão grande que Eragon se protegeu e se
recolheu, sentando-se numa das patas dianteiras de Saphira,
enquanto esperava que o ruído abrandasse. Os Elfos pareciam
bastante afetados pela revelação: Blödhgarm fixava o ar com uma
expressão de júbilo e de assombro e Arya continuava de joelhos.
Eragon julgou ver um fio de lágrimas nas suas faces. Islanzadí sorria
triunfantemente com um ar radioso e, pela primeira vez desde que a
conhecera, Eragon achou que ela parecia verdadeiramente feliz.
Orik sacudiu-se e despertou do seu devaneio, olhando para
Eragon e dizendo:
— Pelo martelo de Morgothal, isto modifica tudo! Com a ajuda
deles, poderemos realmente ser capazes de matar Galbatorix!
— Não achavas que pudéssemos antes? — perguntou Eragon,
brandamente.
— Claro que achava, mas não tanto como agora.
Roran sacudiu a cabeça, como se estivesse a acordar de um
sonho.
— Eu, não... Eu sabia que você e os Elfos iriam lutar com todas as
vossas forças, mas não acreditava que ganhassem. — Olhou Eragon
nos olhos. — Galbatorix derrotou muitos Cavaleiros. você és só um e
és jovem. Não me parecia possível.
— Eu sei.
— Porém, agora... — Uma expressão feroz perpassou os olhos
de Roran. — Agora temos uma hipótese.
— Sim — disse Jörmundur. — Pensem bem: já não temos de nos
preocupar muito com Murtagh. Ele não consegue fazer frente à tua
força combinada com a dos dragões.
Eragon bateu com os calcanhares na pata de Saphira, mas não
respondeu, pois tinha outras ideias a esse respeito. Além disso, não
lhe agradava de ter de matar Murtagh.
Depois Orrin falou:
— Umaroth diz que vocês têm um plano de batalha. Tencionas
partilhá-lo connosco, Matador de Espectros?
— Eu também gostava de o conhecer — disse Islanzadí, num tom
mais amável.
— E eu também — disse Orik.
Eragon olhou-os por momentos e depois acenou com a cabeça,
dizendo a Islanzadí:
— O teu exército está pronto para combater?
— Está. Há muito que esperamos o momento de nos vingarmos,
não precisamos de aguardar mais.
— E o nosso? — perguntou Eragon, dirigindo-se a Orrin,
Jörmundur e Orik.
— Os meus knurlan estão ansiosos por lutar — declarou Orik.
Jörmundur olhou de relance para o rei Orrin.
— Os nossos homens estão cansados e esfomeados, mas a sua
vontade está intacta.
— Os Urgals também?
— Também.
— Então vamos atacar.
— Quando?
— Ao raiar do dia.
Ninguém falou por instantes.
Foi Roran que quebrou o silêncio.
— Fácil de dizer, mas difícil de fazer. Como?
Eragon explicou-lhes.
Quando terminou, fez-me mais um momento de silêncio.
Roran agachou-se e começou a desenhar na terra com a ponta
de um dedo.
— É arriscado.
— Mas audacioso — disse Orik. — Muito audacioso.
— Já não há caminhos seguros — disse Eragon. — Se
conseguirmos apanhar Galbatorix desprevenido, ainda que
ligeiramente, poderá ser o suficiente para desequilibrar os pratos da
balança.
Jörmundur esfregou o queixo.
— Porque não matar Murtagh primeiro? Essa é a parte que não
entendo. Porque não acabar com ele e com Thorn, enquanto
podemos?
— Porque Galbatorix ficaria a saber da existência deles —
respondeu Eragon, apontando para o sítio onde os Eldunarís
ocultos flutuavam. — Perderíamos a vantagem do fator surpresa.
— E a criança? — perguntou Orrin, asperamente. — O que te leva
a crer que ela vai fazer o que você queres? Já se recusou.
— Desta vez fará — prometeu Eragon, mostrando-se mais
confiante do que na realidade estava.
O rei roncou, com um ar cético.
Depois Islanzadí disse:
— O que propões é algo de grandioso e terrível, Eragon. Você está
disposto a fazer isto? Pergunto-o não porque duvide da tua
dedicação, mas porque é algo que deverá ser feito depois de
grande ponderação. Por isso te pergunto: Você está disposto a fazer
isto, mesmo sabendo o preço que se poderá pagar?
Eragon não se levantou, injetando um pouco de aço no seu tom
de voz:
— Estou. Tem de ser feito e foi sobre nós que essa tarefa recaiu.
Não podemos recuar agora, seja qual for o preço a pagar.
Saphira abriu as mandíbulas alguns centímetros, fechando-as de
seguida, bruscamente, para enfatizar o final da frase e assinalar a
sua aprovação.
Islanzadí ergueu o rosto para o céu.
— você e aqueles em nome de quem falas aprovam isto, Umarothelda?
Aprovamos, respondeu o dragão branco.
— Então, avancemos — murmurou Roran.

2 comentários:

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Boa leitura :)