24 de junho de 2017

Capítulo 58 - A cidade da dor

O

sol estava ainda perto do zénite quando os Varden chegaram a
Urû’baen.
Roran ouviu os gritos dos homens na parte dianteira da
coluna, ao alcançarem a crista de uma cordilheira. Curioso, desviou
os olhos dos calcanhares do anão que tinha diante de si e, quando
chegou ao topo da cordilheira, deteve-se para contemplar a vista,
tal como todos os guerreiros à sua frente o tinham feito.
O terreno descia suavemente durante vários quilômetros, dando
lugar a uma ampla planície salpicada de quintas, moinhos e
imponentes propriedades de pedra que lhe lembravam as que havia
perto de Aroughs. A planície estendia-se até às muralhas exteriores
de Urû’baen, a cerca de oito quilômetros.
Ao contrário das muralhas de Dras-Leona, as defesas da capital
eram suficientemente longas para abranger toda a cidade e eram
também mais altas. Mesmo à distância, Roran percebeu que eram
muito maiores que as de Dras-Leona e Aroughs. Calculou que
tivessem, pelo menos, noventa metros de altura. Viu balistas e
catapultas instaladas em intervalos regulares, sobre os amplos
baluartes.
O cenário preocupou-o. Seria difícil desmantelar as máquinas de
guerra, pois estavam certamente protegidas contra ataques mágicos
e ele sabia, por experiência, quão mortíferas eram essas armas.
Por trás das muralhas, via-se uma mistura de estruturas
construídas pelo homem e outras que supunha serem obra de Elfos.
O edifício élfico que mais se destacava compunha-se de seis
graciosas torres de pedra, verde diamante, dispersas em arco ao
longo do que depreendeu ser a parte mais antiga da cidade. Duas
das torres não tinham telhado e ele julgou ver parte de outras duas,
parcialmente enterradas no amontoado de casas, em baixo.
Contudo, o que mais despertou a sua atenção, não foi a muralha
nem os edifícios, mas o fato de grande parte da cidade estar
oculta sob uma enorme saliência de pedra, com mais de oitocentos
metros de largura e cento e cinquenta metros de espessura, na
parte mais estreita. A saliência correspondia à extremidade de uma
enorme colina que se estendia vários quilômetros para Nordeste.
Sobre o rebordo rochoso da plataforma via-se uma outra muralha,
semelhante à que cercava a cidade, e várias torres de vigia de
aspecto maciço.
Ao fundo da reentrância, semelhante a uma caverna, erguia-se
uma enorme cidadela adornada por uma miríade de torres e
baluartes. A cidadela erguia-se tão acima da cidade que quase
roçava na parte inferior da saliência. Mas, o que mais assustava era
o portão, na parte da frente da fortaleza: uma caverna tão grande,
que Saphira e Thorn poderiam certamente caminhar lado a lado
através dela.
Roran sentiu o estômago contrair-se. A avaliar pelo portão,
Shruikan devia ser suficientemente grande para chacinar o exército
sozinho. “Seria melhor que Eragon e Saphira se despachassem”,
pensou, “e os Elfos também.” Pelo que testemunhara até então, os
Elfos talvez conseguissem enfrentar o dragão negro do rei, mesmo
eles teriam grande dificuldade em matá-lo.
Roran percebeu isso e mais ainda ao parar no cimo da
cordilheira. Depois, puxou as rédeas de Snowfire. O garanhão
branco resfolgou atrás dele e seguiu-o, ao retomar a cansativa
marcha, seguindo pela estrada sinuosa que descia até às terras
baixas.
Poderia ter ido a cavalo — deveria, na verdade, ter ido a cavalo,
sendo o capitão do batalhão — mas depois da viagem de ida e volta
a Aroughs, ganhara uma certa aversão à sela.
Enquanto caminhava, tentava pensar na melhor forma de atacar
a cidade. A cavidade de pedra onde Urû’baen estava aninhada
impediria que pudessem atacar pelos flancos ou pela retaguarda, e
iria interferir com os ataques vindos de cima. Esse era certamente o
motivo por que os Elfos tinham decidido instalar-se ali.
“Se conseguíssemos partir a saliência, poderíamos esmagar a
cidadela e grande parte da cidade”, pensou, concluindo depois que
era improvável, pelo fato de a pedra ser demasiado grossa.
“Ainda assim, talvez possamos tomar a muralha ao cimo da colina,
e depois atirar pedras e óleo a ferver para cima dos que estiverem
em baixo. Mas não será fácil. Lutar colina acima com aquelas
muralhas... Talvez os Elfos consigam, ou os Kull. Talvez lhes dê
gozo.”
O Rio Ramr ficava vários quilômetros a Norte de Urû’baen,
demasiado longe para lhes ser útil. Saphira poderia escavar uma
vala suficientemente profunda para o desviar, mas mesmo ela
demoraria semanas a fazê-lo e os Varden não tinham comida para
tanto tempo. Restavam-lhes apenas mantimentos para alguns dias.
Depois teriam de passar fome ou desmembrar-se.
A única alternativa era atacar antes do Império, embora Roran
não acreditasse que Galbatorix atacasse. Até então, o rei parecera
disposto a permitir que os Varden viessem ao seu encontro.
“Porque haveria de arriscar a pele? Quanto mais tempo esperarmos
mais fracos nós ficamos.”
O que significava um ataque frontal — um ataque descarado e
imprudente, em terreno aberto, em direção a muralhas demasiado
sólidas para serem derrubadas, demasiado altas para serem
escaladas, com arqueiros e máquinas de guerra a bombardeá-los
constantemente. Só de imaginar ficou com a testa a suar.
Morreriam aos milhares. Roran praguejou. “Ficaremos feitos em
pedaços e Galbatorix continuará a rir, sentado na sala do trono...
Se conseguirmos aproximar-nos das muralhas, os soldados não
conseguirão atingir-nos com os seus terríveis engenhos, mas
ficaremos vulneráveis ao pez, ao óleo e às pedras que nos atirem
para cima da cabeça.”
Mesmo que conseguissem derrubar as muralhas, teriam ainda de
vencer o exército de Galbatorix. Mais importante que as defesas da
cidade seria o caráter e a qualidade dos homens que os Varden
iriam enfrentar. Lutariam até ao último fôlego? Ficariam assustados?
Iriam ceder e fugir, se os pressionassem o suficiente? A que tipo de
juramentos e feitiços estariam vinculados?
Segundo as informações dos espiões dos Varden, Galbatorix
entregara o comando das tropas aquarteladas em Urû’baen a um
conde conhecido como Lorde Barst. Roran nunca ouvira falar dele,
mas Jörmundur parecera ficar consternado com a informação, e as
histórias que ouviu dos homens do seu batalhão foram suficientes
para o convencer da vilania de Barst. Ao que parece, ele fora
senhor de uma propriedade bastante grande, perto de Gil’ead, e
fora forçado a abandoná-la por ocasião da invasão dos Elfos. Os
seus vassalos viviam apavorados, pois Barst tinha tendência a
resolver disputas e a punir criminosos da forma mais severa,
optando muitas vezes por executar sumariamente aqueles que
acreditava serem os culpados. Tal comportamento, em si, seria
dificilmente digno de nota, pois a brutalidade era apanágio de
muitos nobres do Império. Barst, contudo, além de impiedoso era
forte — impressionantemente forte — e extremamente engenhoso. A
inteligência de Barst era óbvia em tudo o que Roran ouvira acerca
dele. Poderia ser um estupor, mas era um estupor inteligente e
Roran sabia que seria um erro menosprezá-lo. Galbatorix não iria
escolher um fraco nem um cretino para comandar as suas tropas.
Depois havia também Thorn e Murtagh. Galbatorix poderia não
se dignar a pôr um pé fora da fortaleza, mas o dragão vermelho e o
seu Cavaleiro iriam certamente defender a cidade. “Eragon e
Saphira terão de os atrair para longe, de contrário jamais
conseguiremos ultrapassar as muralhas.” Roran franziu a sobrancelha.
Isso seria um problema. Murtagh estava mais forte do que Eragon e
este precisaria da ajuda dos Elfos para o matar.
Roran voltou a sentir a raiva amarga e o ressentimento
crescerem dentro de si. Detestava estar à mercê dos que podiam
praticar magia. Pelo menos na questão da força e do engenho, um
homem podia compensar com uma ou com outra, mas não havia
forma de compensar a falta de aptidão para a magia.
Frustrado, apanhou um seixo do chão e, tal como Eragon lhe
ensinara, disse:
— Stenr rïsa. — Mas o seixo ficou imóvel.
O seixo ficava sempre imóvel.
Roncou e atirou-o para a beira da estrada.
A mulher e filho por nascer estavam com os Varden e ele não
podia fazer nada para matar Murtagh ou Galbatorix. Cerrou os
punhos e imaginou-se a partir coisas. Ossos, sobretudo.
“Talvez fosse melhor fugirmos.” Era a primeira vez que pensava
em tal. Sabia que havia terras a Este, fora do alcance de Galbatorix
— planícies férteis, onde viviam apenas nómadas. Se os outros
aldeões o acompanhassem a ele e a Katrina, poderiam recomeçar
as suas vidas, livres do Império e de Galbatorix. Mas ficou
nauseado só de pensar. Estaria a abandonar Eragon, os seus
homens e a terra que considerava lar. “Não, não permitirei que o
nosso filho nasça num mundo ainda dominado por Galbatorix. Mais
vale morrer do que viver apavorado.”
É claro que isso continuava a não lhe dizer como tomar
Urû’baen. Anteriormente, sempre encontrara fraquezas que podiam
ser exploradas. Em Carvahall fora o fato de os Ra’zac não terem
percebido que os aldeões iam lutar. Ao defrontar o Urgal Yarbog,
tinham sido os chifres da criatura. Em Aroughs, os canais. Mas ali
em Urû’baen não via fraquezas, nenhum local onde pudesse utilizar
a força dos adversários contra eles.
“Se tivéssemos provisões, esperaria até os matar à fome.” Essa
seria a melhor forma. Tudo o resto era uma loucura. Mas ele sabia
bem que a guerra era um catálogo de loucuras.
“Magia é única solução”, concluiu finalmente. “Magia e Saphira.
Se conseguirmos matar Murtagh, ou ela ou os Elfos terão de nos
ajudar a ultrapassar as muralhas.”
Franziu a sobrancelha, com um gosto amargo na boca e apressou o
passo. Quanto mais depressa montassem o acampamento, melhor.
Tinha os pés doridos de caminhar e, se tivesse de morrer num
ataque absurdo, queria pelo menos comer uma refeição quente e
dormir uma boa noite de sono antes disso.
Os Varden montaram as tendas a um quilômetro e meio de
Urû’baen, junto de um pequeno riacho que desaguava no Rio
Ramr. Depois os homens, os Anões e os Urgals começaram a
construir defesas, uma operação que iria prolongar-se até à noite e
que retomariam na manhã seguinte. Na verdade, enquanto
permanecessem no mesmo local, continuariam a fortificar o
perímetro. Os guerreiros detestavam esse trabalho, mas mantinhaos
ocupados e, além disso, poderia salvar-lhes a vida.
Todos pensavam que as ordens tinham vindo do espetro de
Eragon, mas Roran sabia que vinham de Jörmundur. Desde o rapto
de Nasuada e da partida de Eragon que ele fora ganhando respeito
pelo velho guerreiro. Jörmundur combatera o Império durante
quase toda a vida e tinha profundos conhecimentos de tática e
logística. Roran dava-se bem com ele, pois eram ambos homens do
aço e não da magia.
Depois havia o rei Orrin, com quem Roran tinha acabado a
discutir, depois de montarem as defesas iniciais. Orrin conseguia
sempre irritá-lo. Se havia alguém que podia ser a causa da morte
deles, era ele. Roran sabia que não era muito saudável ofender um
rei, mas o tolo queria mandar um mensageiro aos portões da frente
de Urû’baen para anunciar um desafio formal, como tinham feito
em Dras-Leona e Belatona.
— Quereis provocar Galbatorix? — rugiu Roran. — Se o fizermos,
ele é capaz de reagir!
— Claro — disse o rei Orrin, endireitando-se. — É perfeitamente
razoável que anunciemos as nossas intenções e lhe dêmos uma
oportunidade de negociar a paz.
Roran ficou a olhar para ele e depois virou a cara indignado,
dizendo a Jörmundur:
— Não consegues chamá-lo à razão?
Estavam os três reunidos no pavilhão de Orrin, onde o rei os
convocara.
— Majestade — disse Jörmundur. — Roran tem razão. Seria
melhor esperarmos para contactar o Império.
— Mas eles conseguem ver-nos — protestou Orrin. — Estamos
acampados mesmo à saída das muralhas. Seria... indelicado não
mandar um enviado definir a nossa posição. Vocês são ambos
plebeus e eu não esperaria que o entendessem. A realeza exige
certas cortesias, mesmo quando estamos em guerra.
Roran sentiu vontade de bater no rei.
— Sereis presunçoso a ponto de acreditardes que Galbatorix vos
considera seu igual? Bah! Nós somos como insetos para ele. Ele
não quer saber da vossa cortesia. Estais esquecido que Galbatorix
era um plebeu como nós, antes de derrotar os Cavaleiros. As suas
maneiras não são as mesmas que as vossas. Não há ninguém como
ele no mundo e julgais ainda poder antecipar as suas ações?
Esperais aplacá-lo? Bah!
Orrin corou e afastou o cálice de vinho, atirando com ele para
cima do tapete.
— Foste longe de mais, Martelo Forte. Nenhum homem tem o
direito de me insultar dessa forma.
— Eu tenho o direito de fazer o que quiser — rosnou Roran. —
Não sou vosso súbdito e não tenho de responder perante vós. Sou
um homem livre e insulto quem eu quiser, quando quiser e como
quiser... até mesmo vós. Seria um erro mandar esse mensageiro e
eu...
Ouviu-se um guincho deslizante do aço e o rei Orrin
desembainhou bruscamente a espada, mas não apanhou Roran
totalmente desprevenido. Este já tinha a mão no martelo e puxou-o
do cinto, ao ouvir o barulho.
A espada do rei era uma mancha prateada, na luz mortiça da
tenda, mas Roran percebeu onde Orrin o iria atacar e desviou-se.
Depois bateu na espada do rei, e esta arqueou-se, tilintou, saltando
da mão de Orrin.
A arma com jóias encastoadas caiu no chão com a lâmina
trémula.
— Senhor — gritou um dos guardas lá fora. — Estais bem?
— Apenas deixei cair o escudo — respondeu Jörmundur. — Não
há motivo para se preocuparem.
— Sim, senhor.
Roran olhou para o rei. Orrin tinha um olhar selvagem e
amedrontado. Roran voltou a colocar o martelo no cinto, sem tirar
os olhos dele.
— Contactar Galbatorix é estúpido e perigoso. Se o tentardes,
matarei quem enviardes, antes que chegue à cidade.
— Não te atreverias a fazer isso! — ripostou Orrin.
— Faria e é o que farei. Não vou permitir que nos ponhais a
todos em perigo só para satisfazer o vosso orgulho... real. Se
Galbatorix quiser falar, sabe onde nos encontrar, de contrário
deixai-o sossegado.
Roran saiu impetuosamente do pavilhão. Parou de mãos nas
ancas e olhou para as nuvens volumosas, esperando que a pulsação
abrandasse. Orrin parecia uma mula de um ano: teimoso,
excessivamente confiante, e ansioso por dar um coice se lhes
déssemos oportunidade.
“Além disso bebe de mais”, pensou Roran.
Circulou diante do pavilhão até Jörmundur sair, e antes que este
falasse Roran disse:
— Lamento.
— E é para lamentares. — Jörmundur passou a mão pelo rosto e
tirou um cachimbo de barro de uma bolsa que trazia pendurada no
cinto, começando a enchê-lo de erva de cardus, que acamou com
o polegar. — Demorei este tempo todo para convencê-lo a não
enviar um mensageiro só para te faltar ao respeito. — Calou-se por
instantes. — Serias mesmo capaz de matar um dos homens de
Orrin?
— Eu não faço ameaças vãs — disse Roran.
— Eu também achei que não... Bom, esperemos que as coisas
não cheguem a esse ponto.
Jörmundur começou a percorrer o caminho entre as tendas e
Roran seguiu-o. Enquanto caminhavam, os homens desviavam-se
curvando respeitosamente a cabeça.
Gesticulando com o cachimbo apagado, Jörmundur disse:
— Confesso que já, por várias vezes, me apeteceu dar uma boa
descompostura a Orrin. — Um sorriso fino desenhou-se nos seus
lábios. — Infelizmente, a descrição nunca me permitiu fazer isso.
— Ele foi sempre assim tão... intratável?
— Hum? Não, não, em Surda era bastante mais razoável.
— Então, o que aconteceu?
— É medo, creio eu. O medo provoca coisas estranhas nos
homens.
— Sim.
— É possível que fiques ofendido ao ouvires isto, mas você também
te comportaste de uma forma bastante estúpida.
— Eu sei, o mau génio tomou conta de mim.
— E ganhaste um rei como inimigo.
— Outro rei, queres você dizer.
Jörmundur riu baixinho.
— Sim, acho que quando se tem Galbatorix como inimigo
pessoal, todos os outros parecem bastante inofensivos. Ainda
assim... — Parou junto de uma fogueira e tirou um ramo fino, do
meio das chamas. Colocou a ponta do ramo dentro do fornilho do
cachimbo, aspirou a fumaça várias vezes, acendeu-o e voltou a atirar
o ramo para a fogueira. — Ainda assim, eu não ignoraria a raiva de
Orrin. Ele estava disposto a matar-te ali. Se te ficar com rancor, e
eu acho que vai ficar, pode tentar vingar-se. Colocarei um guarda
junto da tua tenda, durante os próximos dias, depois disso... —
Jörmundur encolheu os ombros.
— Depois disso, podemos todos estar mortos ou escravizados.
Caminharam em silêncio durante mais alguns minutos e
Jörmundur continuou a fumar o seu cachimbo. Quando estavam
prestes a separar-se, Roran disse:
— Da próxima vez que vires Orrin...
— Sim?
— Talvez lhe pudesses dizer que, se ele ou algum dos seus
homens molestarem Katrina, eu arranco-lhe as entranhas em frente
de todo o acampamento.
Jörmundur aninhou o queixo no peito e ponderou no assunto por
instantes. Depois levantou os olhos e acenou com a cabeça:
— Creio que descobrirei uma forma de o fazer, Martelo de
Ferro.
— Os meus agradecimentos.
— Não tens de agradecer. Foi um prazer único, como sempre.
— Comandante.
Roran procurou Katrina e convenceu-a a trazer o jantar para o
aterro a Norte, onde ficou de guarda para o caso de Orrin mandar
algum mensageiro. Comeram sobre um pano que ela estendeu no
chão revolvido há pouco tempo. E sentaram-se os dois, enquanto
as sombras se alongavam e a estrelas começavam a aparecer no
céu púrpura, sobre a saliência.
— Estou contente por aqui estar — disse ela, encostando a cabeça
ao ombro dele.
— A sério? Você está mesmo?
— É lindo e tenho-te a ti só para mim. — Apertou-lhe o braço.
Ele puxou-a mais para junto de si, mas uma sombra continuava a
pairar no seu coração. Não podia esquecer o perigo que a
ameaçava a ela e ao seu filho. A evidência de que o seu maior
inimigo estava apenas a alguns quilômetros de distância, ardia
dentro dele. Tudo o que desejava era levantar-se, correr para
Urû’baen e matar Galbatorix.
Mas isso era impossível. Sorriu e deu uma gargalhada,
escondendo o medo, e sabia que ela também lhe estava a esconder
o seu.
“Raios, Eragon”, pensou, “é melhor despachares-te, ou juro que
te assombrarei depois de morto.”

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