24 de junho de 2017

Capítulo 56 - Lacuna, segunda parte

Por instantes Eragon não conseguia mover-se nem respirar.
Depois sussurrou:
— Ovos, Saphira... Ovos.
Ela estremeceu, como se estivesse com frio, e as escamas ao
longo da coluna eriçaram-se, erguendo-se ligeiramente da pele, nas
extremidades.
Quem és tu?, perguntou ela mentalmente. Como sabemos se
podemos confiar em ti?
Eles estão a dizer a verdade, Eragon, disse Glaedr, na língua
antiga. Eu sei porque Oromis foi um dos que concebeu o plano
para este local.
Oromis?...
Antes que Glaedr pudesse explicar, a outra mente disse:
O meu nome é Umaroth. O meu Cavaleiro era o elfo Vrael, líder
da nossa ordem, antes de cairmos em desgraça. Eu falo em nome
dos outros, mas eles não estão sob as minhas ordens, pois embora
muitos de nós estivessem ligados a Cavaleiros, muitos outros não
estavam, e os nossos irmãos selvagens apenas reconhecem a sua
própria autoridade. Disse-o num tom ligeiramente exasperado.
Seria demasiado confuso se todos falássemos ao mesmo tempo,
por isso eu falo em nome dos demais.
Tu és?... Eragon apontou para o homem prateado, com cabeça
de dragão, que estava à frente dele e de Saphira.
Não, respondeu Umaroth. Ele é Cuaroc, Caçador de Nidhwals
e Veneno de Urgals. Foi Silvarí, a Feiticeira, que lhe fez o corpo
que agora tem, para que houvesse um herói que nos defendesse,
caso Galbatorix ou qualquer outro inimigo invadisse o Cofre das
Almas.
Enquanto Umaroth falava, o homem com cabeça de dragão
esticou a mão direita sobre o torso, destrancou um trinco
escondido e abriu a parte da frente do peito, como se fosse a porta
de um armário. Dentro do peito de Cuaroc estava um coração dos
corações púrpura, rodeado de milhares de fios prateados, da
espessura de um cabelo. Depois Cuaroc fechou o peito de armas e
Umaroth disse:
Não, eu estou aqui, e guiou a visão de Eragon para um nicho
que continha um enorme Eldunarí branco.
Eragon desembainhou lentamente Brisingr.
Ovos e Eldunarís. Eragon não parecia estar a conseguir digerir a
a dimensão daquela revelação de uma só vez. Sentia-se lento,
como se lhe tivessem dado uma pancada na cabeça — o que, de
certa forma, acontecera, no seu ponto de vista.
Encaminhou-se para as bancadas, à direita do arco negro, que
estava coberto de hieróglifos, e deteve-se diante de Cuaroc,
dizendo, simultaneamente com a voz e com a mente:
— Posso?
O homem com cabeça de dragão bateu os dentes e retirou-se,
com passos ruidosos, parando junto do fosso, no meio da sala.
Contudo, não embainhou a espada, algo a que Eragon se mantinha
atento.
Um sentimento de assombro e de reverência apossou-se de
Eragon, ao aproximar-se dos ovos. Inclinou-se sobre a bancada
mais baixa e suspirou tremulamente, ao olhar para um ovo dourado
e vermelho, de quase um metro e meio de altura. Tomado de um
desejo súbito de lhe tocar, tirou a luva e colocou a palma da mão
sobre o ovo. Estava morno. Ao estender a mente, juntamente com
a mão, sentiu a consciência adormecida do dragão que estava no
interior.
Sentiu o hálito quente de Saphira, no pescoço, quando esta se
reuniu a ele.
O teu ovo era mais pequeno, disse dele.
Isso é porque a minha mãe não era tão velha e tão grande como
o dragão que pôs este ovo.
Ah, não tinha pensado nisso.
Ele olhou para o resto dos ovos e sentiu a garganta contrair-se:
— São tantos — sussurrou Eragon. E encostou o ombro contra a
enorme mandíbula de Saphira, sentindo os tremores que a
percorriam. Tudo o que ela desejava era regozijar-se e abraçar as
mentes dos seus parentes, mas tal como Eragon, mal conseguia
acreditar no que tinha diante de si.
Depois roncou, baloiçou a cabeça, olhando para o resto da sala
e rugiu tão alto que soltou o pó do teto.
Como é possível?!, rugiu ela, mentalmente. Como podem ter
escapado a Galbatorix? Nós, dragões, não nos escondemos
quando lutamos. Não somos cobardes para fugir ao perigo.
Expliquem-se!
Não fales tão alto, Bjartskular, senão vais perturbar as crias que
estão dentro dos ovos, disse Umaroth, num tom de censura.
Saphira arreganhou os dentes.
Então fala, ancião, e explica-nos como foi isto possível.
Por momentos, Umaroth pareceu divertido. Mas, quando lhe
respondeu, falou-lhe num tom sombrio:
Tens razão, nós não somos cobardes nem nos escondemos
quando lutamos, mesmo os dragões podem ficar à espera, para
apanhar a sua presa desprevenida. Não concordas, Saphira?
Ela voltou a roncar, sacudindo a cauda de um lado para o outro.
Nós não somos como os Fanghur, nem como outras víboras
menores, que abandonam as suas crias à vida ou à morte,
consoante os caprichos do destino. Se nos tivéssemos reunido à
batalha de Doru Araeba, teríamos sido destruídos e a vitória de
Galbatorix teria sido absoluta — como ele, de fato, acredita que foi
— e a nossa espécie teria desaparecido para sempre da face da
terra.
Logo que a verdadeira dimensão do poder e da ambição de
Galbatorix se tornou evidente, disse Glaedr, e logo que nos
apercebemos de que ele e os traidores que se tinham reunido a ele
tencionavam atacar Vroengard, Vrael, Umaroth, Oromis, eu e mais
alguns decidimos que seria melhor esconder os ovos da nossa raça,
bem como alguns dos Eldunarís. Foi fácil convencer os dragões
selvagens, pois Galbatorix andava a caçá-los e eles não se podiam
defender da sua magia. Vieram aqui e confiaram as suas crias por
nascer aos cuidados de Vrael e os que podiam puseram ovos —
quando, de contrário, teriam esperado —, pois todos nós sabíamos
que a sobrevivência da nossa raça estava ameaçada. Parece que as
nossas precauções foram bem aceites.
Eragon massajou as têmporas.
— Porque não sabias disto? Porque não sabia Oromis? E como
foi possível esconder as suas mentes? você disseste-me que isso era
impossível.
E é, respondeu Glaedr, pelo menos, apenas com a ajuda de
magia. Nestas circunstâncias, porém, o que não se consegue com a
magia pode conseguir-se com a distância. É por isso que estamos
nas entranhas da terra, um quilômetro e meio abaixo do Monte
Erolas. Mesmo que Galbatorix ou os Renegados pensassem em
sondar com as mentes um local tão improvável como este,
dificilmente, sentiriam mais do que um fluxo confuso de energia,
devido à rocha intermédia, o que iriam atribuir a redemoinhos no
sangue da terra, um pouco abaixo. Além disso, antes da Batalha de
Doru Araeba, há mais de cem anos atrás, todos os Eldunarís
estavam mergulhados num transe profundo semelhante à morte, que
os tornava muito mais difíceis de encontrar. O nosso plano era
despertá-los depois da batalha terminar. Mas, os que construíram
este local lançaram também um feitiço que os despertaria do seu
transe, alguns meses depois.
Tal como aconteceu, disse Umaroth. O Cofre das Almas foi aqui
construído por outra razão. O fosso que veem diante de vós dá
acesso a um lago de lava que existe por baixo destas montanhas,
desde que o mundo surgiu. A lava fornece o calor necessário para
manter os ovos confortáveis e a luz necessária para que nós,
Eldunarís, conservemos a nossa energia.
Dirigindo-se a Glaedr, Eragon disse:
Ainda não respondeste à minha pergunta: Porque é que você e
Oromis não se lembravam deste local?
Foi Umaroth que respondeu:
Porque todos os que sabiam da existência do Cofre das Almas
concordaram em deixar que esse conhecimento fosse removido da
sua mente e substituído por falsas memórias, incluíndo Glaedr. Não
foi uma decisão fácil, especialmente para as mães dos ovos, mas
não podíamos permitir que ninguém fora desta sala continuasse na
posse da verdade, não fosse Galbatorix saber da nossa existência.
Por isso despedimo-nos dos nossos amigos e camaradas,
plenamente conscientes de que poderíamos nunca mais voltar a vêlos,
e que se o pior acontecesse, eles morreriam com a convicção
de que tínhamos mergulhado no vazio... Como eu disse, não foi
uma decisão fácil. Apagámos também de todas as memórias os
nomes do rochedo que assinala a entrada deste santuário, da
mesma forma que tínhamos apagado os nomes dos treze dragões
que decidiram trair-nos.
Passei os últimos cem anos convencido de que a nossa espécie
estava condenada ao esquecimento, disse Glaedr, e agora sei que
toda a minha angústia foi em vão... Ainda assim, estou satisfeito
por ter conseguido salvaguardar a nossa raça, graças à minha
ignorância.
Depois Saphira disse a Umaroth:
Porque é que Galbatorix não deu pela vossa falta nem pela falta
dos ovos?
Pensou que tivéssemos sido mortos durante a batalha. Nós
éramos apenas uma pequena fração dos Eldunarís de Vroengard,
não em número suficiente para ele suspeitar da nossa ausência.
Quanto aos ovos, sem dúvida que ficou furioso pelo fato de os
perder, mas não tinha razões para acreditar que houvesse algum
estratagema.
Ah sim, disse Glaedr, tristemente. Foi por isso que Thuviel
aceitou sacrificar a sua vida: para esconder o nosso embuste de
Galbatorix.
— Mas Thuviel não matou muitos da sua espécie? — interpelou
Eragon.
Matou e foi uma grande tragédia, respondeu Umaroth. Contudo,
tínhamos concordado que ele não o faria a menos que se tornasse
óbvio que a derrota era inevitável. Ao imolar-se, destruiu os
edifícios onde guardávamos os ovos e também tornou a ilha
venenosa, para garantir que Galbatorix jamais decidiria instalar-se
aqui.
— Ele sabia porque se estava a matar?
Na altura, não, apenas sabia que era necessário. Um dos
Renegados matara o dragão de Thuviel um mês antes. Embora
Thuviel tivesse decidido não mergulhar no vazio, pois precisávamos
de todos os guerreiros que tínhamos para combater Galbatorix, não
queria continuar a viver. Por isso, ficou satisfeito com a missão,
pois garantia-lhe a libertação que ansiava, permitindo-lhe de igual
modo servir a nossa causa. Ao dar a sua vida, ele assegurou o
futuro da nossa raça e dos Cavaleiros. Foi um herói de grande
coragem e o seu nome será um dia cantado por todos os recantos
de Alagaësia.
E, depois da batalha, esperaram, disse Saphira.
E depois esperámos, anuiu Umaroth. Eragon encolheu-se ao
pensar como seria passar mais de cem anos dentro de uma sala
enterrada nas profundezas da terra. Mas não temos estado inativos.
Quando acordámos do nosso transe, começámos a projetar as
nossas mentes, primeiro cautelosamente, e depois com uma
crescente confiança, logo que percebemos que Galbatorix e os
Renegados tinham abandonado a ilha. Juntos reunimos muita força
e temos conseguido observar muito do que se tem passado, por
todo o reino, desde então. Não conseguimos fazer vidência, por
norma não, mas conseguimos ver o emaranhado de energia, em
toda a Alagaësia, e muitas vezes conseguimos ouvir os
pensamentos dos que não fazem qualquer esforço para proteger a
mente. Foi dessa forma que conseguimos reunir a informação que
temos.
Com o passar das décadas, começámos a perder a esperança
de que alguém conseguisse matar Galbatorix. Estávamos dispostos
a esperar séculos, se necessário, mas sentíamos o poder do
Destruidor de Ovos a aumentar e receámos ter de esperar milhares
de anos, em vez de centenas. Decidimos que era inaceitável, fosse
pela nossa saúde mental, fosse pelo bem-estar das crias nos ovos.
As crias estão encantadas com feitiços que desaceleram o
metabolismo e poderão ficar assim durante mais alguns anos. Mas
não é bom permanecerem demasiado tempo dentro da casca, pois
poderão ficar com uma mente distorcida e estranha.
Movidos pela preocupação, começámos a intervir nos
acontecimentos que víamos. A princípio, apenas de uma forma
insignificante; uma cotovelada ali, uma sugestão sussurrada acolá,
uma sensação de alarme a alguém prestes a sofrer uma emboscada.
Nem sempre éramos bem-sucedidos, mas conseguimos ajudar
aqueles que lutavam contra Galbatorix e, à medida que o tempo foi
passando, tornámo-nos mais hábeis e mais confiantes nas nossas
intervenções. A nossa presença não passou despercebida em
determinadas ocasiões, mas nunca ninguém conseguiu perceber
quem éramos ou o que éramos. Por três vezes, conseguimos
provocar a morte de Renegados; Brom era uma arma bastante útil
para nós, quando não se deixava levar pelas suas paixões.
— Ajudaram Brom? — exclamou Eragon.
Ajudámos Brom e muitos outros. Quando o humano que dava
pelo nome de Helfring roubou o ovo de Saphira do tesouro de
Galbatorix — há cerca de vinte anos — nós ajudámo-lo a escapar.
No entanto, fomos longe demais, porque ele deu pela nossa
presença e assustou-se. Fugiu e não foi ao encontro dos Varden
como deveria ter feito. Mais tarde, depois de Brom resgatar o teu
ovo, quando os Varden e os Elfos começaram a levar jovens junto
dele, na tentativa de descobrirem para quem este iria chocar,
decidimos que teríamos de fazer certos preparativos para essa
eventualidade. Por isso contactámos os meninos-gatos, que há muito
eram amigos dos dragões, e falámos com eles. Eles concordaram
em ajudar-nos e nós transmitimos-lhes o conhecimento do
Rochedo de Kuthian e do aço brilhante, debaixo das raízes da
árvore de Menoa, removendo-lhes em seguida todas as memórias
da nossa conversa.
— Fizeram tudo isso daqui? — interpelou Eragon, surpreendido.
E mais ainda. Nunca te interrogaste por que razão o ovo de
Saphira apareceu diante de ti, quando andavas pela Espinha?
Isso foi obra vossa?, perguntou Saphira, tão espantada quanto
Eragon.
— Eu julguei que fosse pelo fato de Brom ser meu pai e de Arya
me ter confundido com ele.
Não, disse Umaroth. Não é frequente os feitiços dos Elfos
correrem mal. Nós alterámos o fluxo de magia para que você e
Saphira se encontrassem. Achámos que havia uma hipótese —
ténue, mas ainda assim uma hipótese — de que você viesses a revelarte
a pessoa ideal para ela. E estávamos certos.
— Porque não nos trouxeram até aqui mais cedo? — perguntou
Eragon.
Porque precisavas de tempo para o teu treino e poderíamos
arriscar-nos a alertar Galbatorix para a nossa presença, antes de tu
ou os Varden estarem preparados para o defrontar. Se te
tivéssemos contactado depois da Batalha das Planícies
Flamejantes, por exemplo, de que iria valer, estando os Varden
ainda tão longe de Urû’baen?
Fez-se silêncio durante um minuto e depois Eragon disse, pausadamente:
— Que mais fizeram por nós?
Umas pequenas cotoveladas e advertências na sua maioria. As
visões de Arya em Gil’ead, quando ela precisou da tua ajuda. A
cura das tuas costas durante o Agaetí Blödhren.
Um sentimento de desaprovação emanou de Glaedr.
Vocês mandaram-nos a Gil’ead sem treino, nem proteções,
sabendo que eles iriam ter de enfrentar um Espetro?
Nós pensámos que Brom iria estar com eles. Mas, mesmo
depois de ele morrer, não conseguimos detê-los, visto que eles
teriam de ir a Gil’ead, à procura dos Varden.
— Espera aí! — disse Eragon. — Vocês foram os responsáveis
pela minha... transformação?
Em parte. Tocámos o reflexo da nossa raça que os Elfos
invocam durante a celebração. Nós fornecemos a inspiração e ela,
ele, algo, forneceu a energia para o feitiço.
Eragon baixou os olhos e cerrou o punho, não por estar zangado
mas por sentir tantas outras emoções, que não conseguia ficar
quieto. Saphira, Arya, a sua espada, a forma do seu corpo — ele
devia tudo isso aos dragões que estavam naquela sala.
— Elrun ono — disse ele. — Obrigado.
Não tens de quê, Matador de Espectros.
— Também ajudaram Roran?
O teu primo não precisou da nossa ajuda. Umaroth fez uma
pausa. Há já muitos anos que vos observamos, Eragon e Saphira.
Vimos-vos passar de crias a poderosos guerreiros e estamos
orgulhosos de tudo o que conseguiram. Tu, Eragon, tens sido tudo
o que esperávamos de um novo Cavaleiro e tu, Saphira, mereces
ser vista como um dos maiores membros da nossa raça.
O regozijo e o orgulho de Saphira misturaram-se com os de
Eragon. Ele baixou-se sobre o joelho e ela bateu com as patas no
chão, baixando a cabeça. Eragon tinha vontade de saltar, gritar e
celebrar, mas não fez nada disso, optando por dizer:
— A minha espada é vossa...
... E os meus dentes e as minhas garras também, disse Saphira.
— Até ao fim das nossas vidas — concluíram ambos em uníssono.
— O que pretendes de nós, Ebrithilar?
Uma sensação de satisfação emanou de Umaroth e ele
respondeu:
Agora que nos encontraram, não podemos continuar
escondidos. Gostaríamos de ir convosco a Urû’baen e lutar a vosso
lado para matarmos Galbatorix. Chegou o momento de
abandonarmos o nosso covil e defrontar aquele destruidor de ovos,
traiçoeiro, de uma vez por todas. Sem a nossa ajuda, ele iria
conseguir penetrar na vossa mente tão facilmente como nós, pois
tem muitos Eldunarís às suas ordens.
Eu não vos posso levar a todos, disse Saphira.
Não terás de o fazer, esclareceu Umaroth. Cinco de nós ficarão
a vigiar os ovos, com Cuaroc. Se não conseguirmos derrotar
Galbatorix, eles deixarão de interferir nos emaranhados de energia,
contentando-se em esperar até que seja de novo seguro para os
dragões aventurarem-se em Alagaësia. Mas não te preocupes, não
seremos um fardo para vós. Seremos nós a fornecer a energia
necessária para deslocar o nosso peso.
— Quantos são? — perguntou Eragon, olhando em redor.
Cento e trinta e seis. Mas não penses que conseguiremos
superar o Eldunarí que Galbatorix escravizou. Somos poucos e
aqueles que foram escolhidos para ficarem guardados neste cofre,
ou eram demasiado velhos e valiosos para arriscarmos perdê-los
em combate ou demasiado jovens e inexperientes para participarem
nele. Por isso, decidi juntar-me a eles. Sou eu que faço a ponte
entre os grupos, estabelecendo um ponto de entendimento comum,
que de outra forma faltaria. Os mais velhos são, de fato, sábios e
poderosos, mas as suas mentes deambulam por estranhos
caminhos, pelo que normalmente é difícil convencê-los a
concentrarem-se em alguma coisa para além dos seus sonhos. Os
mais jovens são menos afortunados, pois abandonaram os corpos
antes do tempo, daí que as suas mentes estejam limitadas às
dimensões dos seus Eldunarís, que jamais poderão crescer ou
expandir-se depois de abandonarem a carne. Que isso te sirva de
lição, Saphira: não te despojes do teu Eldunarí, a menos que tenhas
atingido um tamanho respeitável ou enfrentes uma terrível
emergência.
— Então, continuamos em desvantagem — concluiu Eragon, num
tom sombrio.
Sim, Matador de Espectros, mas agora Galbatorix já não te
pode forçar a pôr de joelhos assim que te vir. Poderemos não
conseguir superá-los, mas conseguiremos conter os seus Eldunarís
o tempo suficiente para que você e Saphira façam o que seja
necessário. E tenham esperança, pois nós sabemos muita coisa,
muitos segredos sobre guerra, a magia e o funcionamento do
mundo. Ensinar-vos-emos o que pudermos e pode ser que parte
do nosso conhecimento vos permita matar o rei.
Depois disso, Saphira inquiriu-os acerca dos ovos, descobrindo
que tinham sido salvos duzentos e quarenta e três, dos quais vinte e
seis estavam destinados a reunir-se aos Cavaleiros. Os restantes
não tinham elos. Começaram, entretanto, a discutir o voo para
Urû’baen. Enquanto Umaroth e Glaedr aconselhavam Saphira
sobre o caminho mais rápido para alcançar a cidade, o homem com
cabeça de dragão embainhou a espada, poisou o escudo e
começou a remover os Eldunarís, um por um, dos nichos. Colocou
cada um dos globos, semelhantes a jóias, dentro das bolsas de
seda sobre as quais eles estavam poisados, empilhando-os
delicadamente no chão, junto do fosso luminoso. O diâmetro do
Eldunarí maior era tão grande, que o dragão de corpo de metal não
conseguia pôr os braços à volta dele.
Enquanto Cuaroc trabalhava e os outros conversavam, Eragon
continuava a sentir um misto de confusão e incredibilidade.
Dificilmente teria imaginado que houvesse outros dragões
escondidos em Alagaësia e, no entanto, ali estavam eles, os restos
de uma era perdida. Era como se as histórias antigas ganhassem
vida, e ele e Saphira fossem apanhados no meio delas.
As emoções de Saphira eram mais complicadas. O fato de
saber que a sua raça já não estava condenada à extinção, dissipara
uma sombra na sua mente — uma sombra que a habitava desde que
Eragon se lembrava —, e uma profunda alegria que sentia elevaralhe
de tal forma o moral que os seus olhos e escamas pareciam
brilhar mais que o normal. Ainda assim, um curioso instinto
defensivo temperava o seu júbilo, como se sentisse alguma
insegurança perante os Eldunarís.
Apesar de desorientado, Eragon estava consciente da mudança
no estado de espírito de Glaedr. Não parecia ter esquecido
inteiramente a sua mágoa, mas Eragon nunca o vira tão feliz desde
que Oromis morrera. E, embora Glaedr não fosse obsequioso com
Umaroth, tratava o outro dragão com um respeito que Eragon
nunca testemunhara, nem mesmo quando falara com a rainha
Islanzadí.
Quando Cuaroc estava prestes a concluir o seu trabalho, Eragon
aproximou-se da beira do fosso e espreitou para o seu interior. Viu
um buraco circular que mergulhava pela pedra, a mais de trinta
metros de profundidade, e desembocava numa caverna
parcialmente cheia de um mar de lava. Um espesso líquido amarelo
borbulhava e projetava salpicos, como uma panela de cola a ferver,
libertando colunas rodopiantes de fumaça na superfície ondulante. Ele
julgou ver uma luz, a flutuar ao longo da superfície do mar
flamejante, mas desapareceu tão depressa que ficou sem saber.
Anda, Eragon, disse Umaroth quando o homem com cabeça de
dragão poisou o último dos Eldunarís que iriam viajar com eles.
Agora tens de lançar um feitiço. As palavras são as seguintes...
Eragon franziu a sobrancelha ao ouvi-las:
— O que significa o... torcer na segunda linha? O que tenho eu
de torcer, o ar?
Eragon ficou ainda mais confuso com a explicação de Umaroth.
Ele tentou explicar-lhe de novo, mas Eragon não entendia o
conceito. Outros Eldunarís mais velhos juntaram-se à conversa,
mas as suas explicações faziam ainda menos sentido, surgindo, em
grande parte, como uma torrente de imagens e sensações
sobrepostas, além de estranhas comparações esotéricas que o
deixaram irremediavelmente confuso.
Para seu alívio, Saphira e Glaedr também pareciam intrigados,
embora Glaedr tivesse dito:
Acho que compreendo, mas é como tentar agarrar um peixe
assustado. E, sempre que penso que o apanhei, escapa-se por
entre os meus dentes.
Por fim, Umaroth disse:
Isto é uma lição para outra altura. você sabes o que o feitiço faz,
mesmo que não saibas como. Isso terá de bastar. Extrai a energia
que precisares de nós, lança o feitiço e vamos embora.
Nervoso, Eragon memorizou as palavras do feitiço, para evitar
cometer erros, e começou a falar. Ao proferir as frases, recorreu às
reservas dos Eldunarís e foi percorrido por uma enorme torrente de
energia, como um rio de água quente e fria, que lhe provocou um
formigueiro na pele.
O ar em torno do amontoado irregular de Eldunarís ondulou e
tremeluziu. Depois, a pilha começou a dobrar-se sobre si e
desapareceu. Uma rajada de vento despenteou Eragon e um ruído
seco e suave ecoou pela câmara.
Atónito, Eragon viu Saphira esticar a cabeça para a frente e a
baloiçá-la no local onde os Eldunarís estavam, instantes antes.
Tinham desaparecido, como se nunca tivessem existido, no entanto,
tanto ele como ela sentiam as mentes dos dragões por perto.
Logo que saiam do cofre, disse Umaroth, a entrada para esta
bolsa de espaço permanecerá a uma distância fixa, acima e atrás de
vós, salvo quando estiverem numa área confinada ou quando o
corpo de alguém passar por esse espaço. A entrada não é maior
que uma cabeça de alfinete, mas é mais mortífera do que qualquer
espada, e se lhe tocasses poderia retalhar-te a carne.
Saphira fungou:
Até o teu cheiro desapareceu.
— Quem descobriu como fazer isto? — perguntou Eragon,
impressionado.
Um eremita que vivia na costa norte de Alagaësia, há mil e
duzentos anos atrás, respondeu Umaroth. É um truque valioso se
quiserem esconder algo à vista de todos, mas é perigoso e difícil de
fazer. O dragão ficou um momento em silêncio e Eragon sentiu que
ele estava a reunir ideias. Depois Umaroth disse: Há mais uma coisa
que você e Saphira deviam saber. No momento em que passarem o
grande arco atrás de vós — o Portal de Vergathos — começarão a
esquecer Cuaroc bem como os ovos que aqui estão escondidos, e
quando chegarem às portas de pedra, ao fundo do túnel, tê-los-ão
esquecido por completo. Mesmo nós, Eldunarí, esqueceremos os
ovos. Se conseguirmos matar Galbatorix, o portal devolver-nos-á
as memórias, mas até lá teremos de as ignorar. Umaroth pareceu
resmungar. É... desagradável, eu sei, mas não podemos permitir
que Galbatorix saiba da existência dos ovos.
Eragon não gostou da ideia, mas não lhe ocorria qualquer
alternativa razoável.
Obrigada por nos dizeres, disse Saphira, e Eragon agradeceu
também.
O grande guerreiro de metal, Curaoc, apanhou o escudo do
chão, desembainhou a espada, encaminhou-se para o velho trono e
sentou-se nele. Depois de poisar a lâmina nua da espada sobre os
joelhos e de encostar o escudo à parte lateral do trono, poisou as
mãos abertas sobre as pernas e ficou imóvel como uma estátua.
Apenas os duendes saltitantes nos seus olhos vermelhos se moviam,
atentos aos ovos.
Eragon estremeceu ao virar costas ao trono. Havia algo de
perturbante na imagem daquela figura solitária, do lado oposto da
câmara. Era-lhe difícil sair, sabendo que Curaoc e os outros
Eldunarí que lá iam ficar, poderiam passar cem anos ou mais
sozinhos.
Adeus, disse ele mentalmente.
Adeus, Matador de Espectros, responderam cinco sussurros.
Adeus, Escamas Brilhantes, que a sorte esteja convosco.
Depois, Eragon endireitou os ombros e passou com Saphira
pelo Portal de Vergathos, abandonando o Cofre das Almas.

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