3 de junho de 2017

Capítulo 56 - Brisingr!

Saphira fixou as asas junto ao corpo e iniciou um mergulho quase vertical na direção das construções escuras da cidade. Eragon abaixou a cabeça para se proteger da força do vento que atingia seu rosto. O mundo girou em torno deles quando Saphira rolou para a direita para que os arqueiros no chão não conseguissem atirar nela.
Os braços e pernas de Eragon ficaram pesados quando Saphira interrompeu o mergulho. Ela então nivelou o voo, e o peso que o pressionava para baixo desapareceu. Como se fossem falcões estranhos e aos gritos, flechas passavam zunindo por eles, algumas errando o alvo, enquanto as proteções de Eragon desviavam as outras. Planando baixo por cima das muralhas externas da cidade, Saphira rugiu novamente e atacou com as garras e o rabo, derrubando grupos de homens aos berros de cima do parapeito para o chão duro vinte e cinco metros abaixo.
Uma torre alta e quadrada equipada com quatro balistas se elevava na outra extremidade da muralha sul. As bestas descomunais atiravam dardos de quase quatro metros de comprimento contra os Varden aglomerados diante dos portões da cidade. Do lado de dentro das antemuralhas, Eragon e Saphira avistaram cerca de cem soldados reunidos em torno de dois guerreiros, encurralados contra a base da torre, tentando desesperadamente rechaçar o ataque cerrado das espadas.
Mesmo na penumbra e de tão alto, Eragon reconheceu Arya. Saphira saltou do alto do parapeito e pousou no meio dos soldados, esmagando alguns homens com as patas. Os outros se dispersaram, com gritos de medo e espanto. Saphira rugiu, frustrada de ver a presa escapar e bateu com o rabo na terra batida, esmagando mais uma dúzia de soldados. Um homem tentou passar correndo por ela. Rápida como uma cobra no bote, apanhou-o com a boca e sacudiu a cabeça, rompendo a espinha do homem. Livrou-se de mais quatro de maneira semelhante.
A essa altura, os homens que restavam haviam desaparecido entre as construções. Eragon soltou depressa as tiras que prendiam suas pernas e pulou de cima de Saphira. O peso adicional da armadura fez com que caísse sobre um joelho ao bater no chão. Grunhiu e se forçou a ficar em pé.
— Eragon! — Arya correu até ele. Estava ofegante e encharcada de suor. Sua única armadura era um gibão acolchoado e um elmo leve pintado de preto para não lançar reflexos inconvenientes.
— Bem-vinda, Bjartskular. Bem-vindo, Matador de Espectros — cumprimentou Blödhgarm, todo satisfeito, ali, ao lado, com as presas curtas da cor de laranja cintilando à luz dos archotes; os olhos amarelos, acesos. A crista de pelo nas costas e na nuca do elfo se eriçou, o que lhe deu uma aparência ainda mais feroz que a de costume.
Tanto ele como Arya estavam com manchas de sangue, embora Eragon não soubesse dizer se eram suas ou não.
— Vocês se machucaram? — perguntou ele.
— Alguns arranhões, mas nada sério — respondeu Blödhgarm, e Arya concordou.
O que estão fazendo aqui sem reforços?, indagou Saphira.
— Os portões — Arya arquejou. — Há três dias, nós tentamos derrubá-los, mas são imunes à magia, e o aríete praticamente não fez mossa na madeira. Por isso, convenci Nasuada a...
Quando Arya parou para recuperar o fôlego, Blödhgarm assumiu o fio da narrativa.
— Arya convenceu Nasuada a organizar o ataque de hoje para que nós pudéssemos entrar sorrateiramente em Feinster, sem sermos percebidos, para abrir os portões pelo lado de dentro. Infelizmente, encontramos um trio de feiticeiros. Eles nos enfrentaram mentalmente e nos impediram de usar magia enquanto convocavam soldados para nos sobrepujar em número.
Enquanto Blödhgarm falava, Eragon pôs uma mão no tórax de um soldado morto e transferiu qualquer energia que restasse na carne do homem para seu próprio corpo e de lá para Saphira.
— Onde estão esses feiticeiros agora? — quis saber ele, passando para outro cadáver.
Os ombros cobertos de pelos de Blödhgarm subiram e baixaram.
— Parece que se apavoraram com sua aparição, Shur’tugal.
E deveriam mesmo, rosnou Saphira. Eragon esgotou a energia de mais três soldados e do último tirou também o escudo redondo de madeira.
— Pois bem — ele pôs-se de pé —, vamos abrir os portões para os Varden, certo?
— Sim e sem demora — respondeu Arya. Ela começou a avançar e então olhou de esguelha para Eragon. — Você está com uma espada nova. — Não foi uma pergunta.
Eragon assentiu.
— Rhunön me ajudou a forjá-la — explicou ele.
— E como se chama sua arma, Matador de Espectros? — perguntou Blödhgarm.
Eragon estava prestes a responder quando quatro soldados saíram correndo de um beco escuro, com as lanças em riste. Num movimento simples e harmonioso, ele tirou Brisingr da bainha, cortou a haste da lança do chefe do pelotão e, continuando com o movimento, decapitou o soldado. Brisingr parecia tremeluzir com um prazer selvagem.
Arya atacou com uma espada e atingiu mais dois antes que pudessem reagir, enquanto Blödhgarm saltou de lado e se encarregou do último soldado, matando-o com a adaga.
— Depressa! — gritou Arya, correndo na direção dos portões da cidade.
Eragon e Blödhgarm seguiram-na, enquanto Saphira os acompanhava de perto, com as garras batendo ruidosas nas pedras do calçamento da rua. Arqueiros disparavam flechas contra eles de lá de cima do parapeito. E, por três vezes, soldados saíram correndo do corpo principal da cidade e investiram contra o grupo. Sem reduzir a velocidade, Eragon, Arya e Blödhgarm abateram seus agressores, ou Saphira os atingiu com um jato de fogo escorchante.
O retumbar regular do aríete ficou ainda mais alto à medida que eles se aproximavam dos portões de doze metros de altura da cidade. Eragon avistou dois homens e uma mulher, trajados em vestes escuras, em pé, diante dos portões blindados, cantando na língua antiga e balançando de um lado para outro com os braços levantados. Os três feiticeiros se calaram quando viram Eragon e os companheiros e, com as vestes panejando, seguiram correndo pela rua principal de Feinster, que levava ao castelo do outro lado da cidade. Eragon teve vontade de persegui-los. Era, porém, mais importante dar aos Varden acesso à cidade, onde não estariam mais à mercê dos homens nas muralhas.
Pergunto-me que tipo de tramoia planejaram, pensou, preocupado ao ver os feiticeiros irem embora. Antes que Eragon, Arya, Blödhgarm e Saphira chegassem aos portões, cinquenta soldados em armadura reluzente saíram em grupo das torres da guarda e se posicionaram diante das enormes portas de madeira.
— Vocês jamais passarão, seus demônios imundos! — gritou um deles, batendo com o punho da espada no escudo. — Esta cidade é nossa, e não vamos permitir a entrada de Urgals, elfos e outros monstros desumanos! Fora daqui! Em Feinster, vocês nada encontrarão a não ser sangue e dor.
Arya indicou para Eragon as torres da guarda.
— Os mecanismos para abrir os portões estão escondidos ali dentro.
— Podem ir — instruiu ele. — Você e Blödhgarm, passem pelos homens sem chamar atenção e entrem de mansinho nas torres. Saphira e eu vamos mantê-los ocupados nesse meio-tempo.
Arya assentiu, e então ela e Blödhgarm sumiram nas sombras negras em que estavam mergulhadas as casas por trás de Eragon e Saphira. Através do seu vínculo com ela, Eragon percebeu que Saphira estava se preparando para investir contra o pelotão de soldados. Ele pôs a mão numa das suas patas dianteiras.
Espere, pediu ele. Deixe-me tentar uma ideia primeiro.
Se não funcionar, vou poder destroçar todos eles?, perguntou ela, lambendo as presas.
Sim, se for esse o caso, vai poder fazer com eles o que quiser.
Eragon caminhou lentamente na direção dos soldados, segurando a espada e o escudo afastados de cada lado do corpo. Uma flecha foi atirada do alto contra ele, só para parar a trajetória a menos de um metro do seu peito e cair direto no chão. Examinou os rostos assustados dos soldados e ergueu a voz.
— Meu nome é Eragon Matador de Espectros! Talvez vocês tenham ouvido falar de mim e talvez não. Seja qual for o caso, saibam o seguinte: sou um Cavaleiro de Dragão e me comprometi a ajudar os Varden a derrubar Galbatorix do trono. Digam-me se algum de vocês jurou fidelidade na língua antiga a Galbatorix ou ao Império... Então, juraram ou não?
O mesmo homem que tinha falado antes, que parecia ser o capitão dos soldados, respondeu.
— Não juraríamos lealdade ao rei nem que ele estivesse com uma espada em nosso pescoço. Nossa lealdade pertence a lady Lorana. Ela e sua família nos governam há quatro gerações e sempre foram competentes na tarefa. — Os outros soldados murmuraram, concordando.
— Então, juntem-se a nós! — bradou Eragon. — Deponham as armas, e prometo que nenhum mal acontecerá a vocês e a suas famílias. Não podem ter esperança de resistir em Feinster contra o poderio combinado dos Varden, de Surda, dos anões e dos elfos.
— Isso é o que você diz — gritou um dos soldados. — Mas e se Murtagh e aquele seu dragão vermelho voltarem para cá?
Eragon hesitou antes de responder em tom confiante.
— Ele não é páreo para mim e para os elfos que lutam ao lado dos Varden. Já os rechaçamos uma vez.
À esquerda dos soldados, Eragon viu Arya e Blödhgarm se esgueirarem por trás de uma escada de pedra que levava ao topo das muralhas e, silenciosos, passarem na direção da torre da guarda.
— Podemos não ter jurado fidelidade ao rei, mas lady Lorana jurou — disse o capitão. — Que destino lhe darão? A morte? A prisão? Não, não trairemos nossa confiança, deixando que vocês passem, nem os monstros que arranham as garras nas nossas muralhas. Vocês e os Varden não oferecem nada além da promessa da morte para quem foi forçado a servir ao Império!
“Por que não deixou as coisas como estavam, hein, Cavaleiro de Dragão? Por que não manteve a cabeça baixa para que todos nós vivêssemos em paz? Mas, não, a atração da fama, da glória e da fortuna foi forte demais. Você tinha de trazer tragédia e destruição para nossas casas só para satisfazer suas ambições. Pois eu lhe rogo uma praga, Cavaleiro de Dragão! Eu o amaldiçoo do fundo do coração. Que você deixe a Alagaësia para nunca mais voltar!”
Eragon sentiu um calafrio percorrer seu corpo porque a maldição do homem repetia a que o último Ra’zac lhe lançara em Helgrind; e lembrava-se de como Angela lhe predissera exatamente esse tipo de futuro. Com esforço, Eragon deixou esses pensamentos de lado.
— Não quero matá-los, mas é o que farei, se for preciso. Deponham as armas!
Em silêncio, Arya abriu a porta no térreo da torre da guarda mais à esquerda e entrou de mansinho. Sorrateiro como um felino em caça, Blödhgarm passou por trás dos soldados na direção da outra torre. Se qualquer um dos homens tivesse olhado para trás, poderia vê-lo.
O capitão cuspiu no chão junto dos pés de Eragon.
— Você nem mesmo parece humano! Um traidor da sua raça é o que você é! — E com isso o homem levantou o escudo, desembainhou a espada e andou lentamente em direção a Eragon. — Matador de Espectros — rosnou ele. — Ora, seria mais fácil eu acreditar que o filho de doze anos do meu irmão tivesse matado um Espectro do que um rapazinho como você.
Eragon esperou até o capitão estar a poucos palmos de distância. Então, deu um único passo para a frente e fincou Brisingr no centro do escudo reforçado do homem, atravessando o braço que estava por trás da proteção, atravessando o corpo que o sustentava e saindo pelas costas. O capitão se contorceu uma única vez e acabou imóvel.
Quando Eragon estava arrancando a lâmina do cadáver, ouviu-se um clangor dissonante proveniente do interior das torres da guarda, à medida que correntes e engrenagens começavam a girar e as vigas colossais que mantinham fechados os portões da cidade começaram a se recolher.
— Deponham as armas ou morrerão! — gritou Eragon.
Com um berro uníssono, vinte soldados avançaram contra ele, de espada em riste. Os outros ou se dispersaram, fugindo para o centro da cidade, ou aceitaram o conselho de Eragon, descansando as espadas, lanças e escudos nas pedras cinzentas do calçamento, e se ajoelharam ao longo da rua com uma reverência.
Uma névoa fina de sangue se formou em torno de Eragon à medida que abria caminho através dos soldados, alternando de um para outro mais veloz do que eles conseguiam reagir. Saphira derrubou dois e incendiou outros dois com uma labareda curta lançada pelas narinas, assando-os dentro da armadura. Eragon deslizou até conseguir parar alguns palmos depois do último soldado, mantendo a postura, com o braço da espada ainda esticado pelo golpe que acabara de proferir, e esperou até ouvir o homem tombar no chão, primeiro uma metade, depois a outra.
Arya e Blödhgarm saíram das torres da guarda no exato momento em que os portões gemeram e giraram nos gonzos, revelando a ponta rombuda e lascada do gigantesco aríete dos Varden. Lá em cima, os arqueiros no parapeito gritaram desalentados e se retiraram para posições mais defensáveis. Dezenas de mãos surgiram em torno das bordas dos portões, para abri-los ainda mais; e Eragon avistou uma grande quantidade de Varden de expressão feroz, tanto homens como anões, aglomerados no arco mais além. “Matador de Espectros!” gritavam, como também gritavam “Argetlam!” e “Seja bem-vindo de volta. A caça está boa hoje!”.
— Esses são meus prisioneiros! — disse Eragon, apontando com Brisingr para os soldados ajoelhados ao lado da rua. — Quero que os prendam e se certifiquem de que sejam bem tratados. Dei minha palavra de que nenhum mal lhes ocorreria.
Seis guerreiros se apressaram em cumprir suas ordens. Os Varden avançaram velozes, derramando-se pela cidade adentro, com o retinir das armaduras e as batidas das botas gerando um trovejar contínuo e retumbante.
Eragon ficou satisfeito ao ver Roran e Horst, bem como outros homens de Carvahall na quarta fileira dos guerreiros. Saudou-os, e Roran, erguendo o martelo num cumprimento, correu em sua direção. Eragon agarrou o antebraço direito de Roran e o puxou para um forte abraço. Afastando-se um pouco, deu-se conta de que o primo parecia mais velho e de olhos mais fundos em comparação com o que era antes.
— Estava mais que na hora de você chegar — grunhiu Roran. — Estamos morrendo feito moscas no esforço de romper as muralhas.
— Saphira e eu viemos o mais rápido que pudemos. Como vai Katrina?
— Vai bem.
— Quando tudo isso terminar, você vai precisar me contar o que lhe aconteceu desde que fui embora.
Roran crispou os lábios e fez que sim. Depois apontou para Brisingr.
— Onde conseguiu a espada?
— Com os elfos.
— E como se chama?
— Bris... — começou Eragon a dizer, mas nesse instante os outros onze elfos que Islanzadí tinha designado para proteger Saphira e ele se destacaram da coluna dos homens e cercaram os dois.
Arya e Blödhgarm também se juntaram a eles, Arya limpando a lâmina fina da sua espada. Antes que Eragon pudesse falar, Jörmundur cruzou os portões a cavalo e o saudou.
— Matador de Espectros! — gritou. — Como é bom vê-lo de novo!
— O que deveríamos fazer agora? — perguntou Eragon, depois de retribuir o cumprimento.
— O que você achar que deve fazer — respondeu Jörmundur, freando seu garanhão castanho. — Precisamos abrir caminho até o castelo. Parece que Saphira não caberia entre a maior parte das casas. Por isso, saiam voando por aí e atormentem as forças do inimigo onde puderem. Se conseguirem derrubar os portões do castelo ou capturar lady Lorana, seria uma ajuda enorme.
— Onde está Nasuada?
Jörmundur fez um gesto para trás do ombro.
— Na retaguarda do exército, coordenando nossas forças com o rei Orrin. — Jörmundur olhou de relance para a maré de guerreiros que chegavam e então voltou a olhar para Eragon e Roran. — Martelo Forte, seu lugar é com seus homens, não tagarelando com seu primo. — E então o comandante esguio e vigoroso esporeou o cavalo e seguiu pela rua escura, gritando ordens para os Varden.
Quando Roran e Arya começaram a acompanhá-lo, Eragon agarrou Roran pelo ombro e tocou com sua espada na de Arya.
— Esperem — disse ele.
— O que foi? — perguntaram os dois, em tom exasperado.
Sim, o que foi?, quis saber Saphira. Não deveríamos estar sentados conversando quando temos diversão à nossa espera.
— Meu pai — exclamou Eragon. — Não é Morzan. É Brom.
— Brom? — repetiu Roran, piscando.
— Sim, Brom!
Até mesmo Arya pareceu surpresa.
— Tem certeza, Eragon? E como você sabe?
— Claro que tenho. Explico depois, mas não podia esperar para contar a verdade para vocês.
— Brom... — disse Roran, abanando a cabeça. — Eu nunca teria calculado, mas suponho que faça sentido. Você deve estar feliz por se ver livre do nome de Morzan.
— Mais do que isso — respondeu Eragon, com um largo sorriso.
— Então, trate de se cuidar — disse Roran, dando-lhe um tapinha nas costas antes de correr atrás de Horst e dos outros aldeões.
Arya foi se afastando na mesma direção, mas antes que desse mais que alguns passos, Eragon chamou seu nome.
— O Imperfeito Que É Perfeito deixou Du Weldenvarden e se juntou a Islanzadí em Gil’ead — informou ele.
Os olhos verdes de Arya se arregalaram e seus lábios se abriram como se ela fosse fazer uma pergunta. Mas, antes que conseguisse, a coluna de guerreiros em investida a carregou mais para dentro da cidade.
— Matador de Espectros, por que o Sábio Pesaroso deixou a floresta? — indagou Blödhgarm, aproximando-se de Eragon lateralmente.
— Ele e seu companheiro acreditam que chegou a hora de atacar o Império e revelar sua presença para Galbatorix.
O pelo do elfo se encrespou.
— Essa é de fato uma notícia importantíssima.
Eragon voltou a montar em Saphira.
— Abram caminho até o castelo. Nos encontramos lá — instruiu ele a Blödhgarm e seus outros guardas.
Sem esperar pela resposta do elfo, Saphira pulou para a escada que levava ao topo das muralhas da cidade. Os degraus de pedra rachavam sob seu peso enquanto ela subia até o parapeito largo, de onde alçou voo acima dos casebres em chamas do lado de fora de Feinster, batendo forte as asas para ganhar altitude.
Arya terá de nos dar permissão antes que possamos transmitir para qualquer pessoa a notícia de Oromis e Glaedr, comentou Eragon, lembrando-se do juramento de sigilo que ele, Orik e Saphira haviam prestado à rainha Islanzadí durante sua primeira visita a Ellesméra.
Tenho certeza de que ela dará permissão assim que ouvir nosso relato, respondeu Saphira.
Certo.
Eragon e Saphira voaram de um lugar para outro dentro de Feinster pousando onde quer que avistassem um aglomerado maior de homens ou onde quer que membros dos Varden parecessem estar cercados. A menos que alguém atacasse primeiro, Eragon procurava convencer cada grupo de inimigos a se entregar. Fracassava tanto quanto tinha êxito, mas se sentia melhor por ter tentado, porque muitos dos homens que ocupavam as ruas eram cidadãos normais de Feinster, não soldados treinados.
— O Império é nosso inimigo; você, não — dizia ele a cada um. — Não pegue em armas contra nós e não terá motivo para nos temer.
As poucas vezes em que Eragon avistou uma mulher ou criança correndo pela cidade escura, ordenou-lhes que se escondessem na casa mais próxima; e, sem exceção, obedeceram. Eragon examinou a mente de cada pessoa ao seu redor e de Saphira, em busca de mágicos que pudessem representar-lhes perigo, mas não encontrou nenhum feiticeiro além dos três que já havia visto. E estes tinham o cuidado de manter-lhe seus pensamentos ocultos. O que o preocupava era o fato de não terem voltado à luta de nenhuma forma perceptível.
Pode ser que pretendam abandonar a cidade, comentou com Saphira.
Será que Galbatorix os deixaria partir no meio de uma batalha? Duvido que queira perder um feiticeiro que seja. Pode ser, mas devíamos ter muito cuidado. Quem sabe o que estão planejando? Eragon deu de ombros. Por enquanto, o melhor afazer é ajudar os Varden a controlar Feinster o mais rápido possível.
Ela concordou e se voltou para uma escaramuça numa praça próxima. Lutar numa cidade era diferente de lutar em campo aberto, como Eragon e Saphira estavam acostumados. As ruas estreitas e as construções juntas demais prejudicavam os movimentos do dragão e dificultavam a reação quando soldados atacavam, apesar do Cavaleiro perceber a aproximação dos homens muito antes de eles chegarem. Seus confrontos com os soldados acabavam se tornando combates sinistros e desesperados, interrompidos somente pela eventual explosão de fogo ou de magia. Mais de uma vez, Saphira destruiu a fachada de uma casa com um movimento descuidado do rabo. Os dois sempre conseguiam escapar de lesões permanentes, graças a uma combinação de sorte, talento e das proteções de Eragon, mas os ataques os deixaram mais cautelosos e tensos do que normalmente ficavam em batalhas.
O quinto confronto desse tipo deixou Eragon com tanta raiva que, quando os soldados começaram a fugir, como sempre faziam no final, ele os perseguiu, determinado a matar até o último deles. Os combatentes o surpreenderam ao guinar na rua para entrar numa chapelaria, destruindo a porta de grade. Eragon seguiu-os, saltando por cima dos destroços da porta. O interior da loja era de um negrume total e cheirava a penas de galinha e perfume velho. Poderia ter iluminado a loja com magia; mas, como sabia que os soldados estavam em desvantagem, conteve-se. Sentia que suas mentes estavam por perto e ouvia sua respiração entrecortada, mas não tinha certeza do que se encontrava no espaço que o separava deles. Foi avançando devagar pela escuridão da loja, tateando o caminho com os pés. Mantinha o escudo à sua frente e Brisingr acima da cabeça, pronta para um golpe. Leve como o som de um pedaço de linha que cai no chão, Eragon ouviu um objeto riscando o ar.
Deu um salto abrupto para trás e cambaleou quando uma maça ou martelo atingiu seu escudo, partindo-o em pedaços. Irromperam gritos. Um homem derrubou uma cadeira ou uma mesa, e alguma coisa se espatifou numa parede. Eragon golpeou a esmo e sentiu Brisingr afundar em carne e se enterrar em ossos. Um peso arrastava a ponta da espada. Eragon a arrancou com um puxão, e o homem que ele havia atingido desabou aos seus pés. Eragon ousou olhar para trás para Saphira, que esperava por ele na rua estreita lá fora. Só nesse momento viu que havia uma lanterna instalada num poste de ferro ao lado da rua e que a luz lançada por ela o deixava visível para os soldados.
Saiu rapidamente do portal aberto e dispensou o que restava do seu escudo. Mais um estrondo reverberou pela loja, e houve uma confusão de passadas quando os soldados saíram correndo pelos fundos e subiram um lance de escada. Eragon subiu atrás. O segundo andar era a moradia da família à qual pertencia a loja ali embaixo. Algumas pessoas gritaram, e um bebê começou a chorar enquanto Eragon pulava por um labirinto de cômodos pequenos; mas não lhes deu atenção, de tão concentrado que estava na perseguição. Por fim, encurralou os soldados numa sala de estar apertada, iluminada por uma única vela que bruxuleava. Eragon matou os quatro soldados com quatro golpes da espada, encolhendo-se quando o sangue respingou nele. Aproveitou para pegar um escudo novo de um deles e então parou para examinar os corpos. Pareceu grosseiro deixá-los jogados no meio do lugar. Por isso, atirou-os por uma janela próxima.
No caminho de volta para a escada, um vulto saiu de uma quina e tentou fincar uma adaga nas costelas de Eragon. A ponta da adaga parou a menos de um centímetro do seu corpo, impedida de avançar pelas suas proteções. Surpreso, Eragon levantou Brisingr e estava prestes a arrancar a cabeça do adversário quando percebeu que quem brandia a adaga era um garoto magro de não mais de treze anos. Eragon ficou petrificado. Esse poderia ser eu, pensou. Eu teria feito o mesmo se estivesse no seu lugar.
Olhando para além do menino, Eragon avistou um homem e uma mulher em pé, de roupa de dormir e gorro, um agarrado ao outro, olhando apavorados para ele.
Um tremor percorreu seu corpo. Abaixou Brisingr e, com a mão livre, tirou a adaga das mãos agora relaxadas do menino.
— Se eu fosse vocês — disse Eragon, e a altura da sua voz o espantou — não sairia enquanto a batalha não tiver terminado. — Hesitou e então acrescentou um pedido de desculpas.
Envergonhado, Eragon saiu às pressas da chapelaria e foi se juntar a Saphira. Os dois seguiram pela mesma rua. Não longe da chapelaria, dragão e Cavaleiro depararam com alguns homens do rei Orrin que vinham carregando castiçais de ouro, travessas e utensílios de prata, joias e uma variedade de objetos tirados de uma mansão bem mobiliada que haviam arrombado. Eragon arrancou uma pilha de tapetes dos braços de um homem.
— Devolvam essas coisas! — gritou ele para todo o grupo. — Estamos aqui para ajudar essa gente, não para lhes roubar nada! Eles são nossos irmãos e irmãs, nossos pais e mães. Não vou castigá-los desta vez, mas espalhem o aviso de que, se vocês ou quaisquer outros forem apanhados saqueando, eu mandarei enforcá-los e açoitá-los como os ladrões que de fato são!
Saphira rugiu, reforçando a mensagem de Eragon. Sob seu olhar vigilante, os guerreiros repreendidos devolveram a pilhagem para a mansão de mármore.
Agora, disse Eragon a Saphira, pode ser que consigamos...
— Matador de Espectros! Matador de Espectros! — gritava um homem que corria na sua direção, de algum lugar mais para dentro da cidade. Suas armas e armadura o identificavam como um Varden.
— O que foi? — perguntou Eragon, apertando Brisingr com mais força.
— Precisamos da sua ajuda, Matador de Espectros. E da sua também, Saphira!
Eles seguiram o guerreiro por Feinster até chegarem a uma grande construção de pedra. Algumas dezenas de Varden estavam agachados por trás de um muro baixo diante da construção. Pareceram aliviados ao ver Eragon e Saphira.
— Não se aproximem! — disse um Varden, com um gesto. — Aí dentro há todo um pelotão de soldados, e seus arcos estão nos mirando.
Cavaleiro e dragão pararam exatamente fora do ângulo de visão do prédio.
— Não conseguimos chegar a eles — disse o guerreiro que os tinha buscado. — As portas e janelas estão tapadas, e atiram em nós se tentamos abrir caminho destruindo os tapumes.
Eragon olhou para seu dragão.
Quem vai até lá, eu ou você?
Eu cuido disso, respondeu Saphira, saltando para o ar com um farfalhar das asas que se abriram.
O prédio oscilou, com janelas se estilhaçando, quando Saphira pousou no telhado. Eragon e os outros guerreiros olharam assombrados quando ela encaixou a ponta das garras nos sulcos de argamassa entre as pedras e rosnando com o esforço, demoliu o prédio até expor os soldados apavorados, que matou como um terrier mata ratos. Quando Saphira voltou para o lado de Eragon, os Varden abriram espaço para ela, nitidamente assustados com a demonstração de sua ferocidade. Não lhes deu atenção e começou a lamber as patas, para limpar o sangue grudado nas escamas.
Alguma vez lhe disse como me sinto feliz por nós não sermos inimigos?, perguntou Eragon.
Não, mas é muita gentileza sua.
Pela cidade inteira, os soldados lutavam com uma tenacidade que impressionou Eragon. Cediam terreno somente quando forçados e faziam de tudo para retardar o avanço dos Varden. Por causa dessa resistência determinada, os Varden só chegaram ao lado ocidental da cidade, onde se erguia o castelo, quando a primeira claridade fraca do amanhecer começava a se espalhar pelo céu.
O castelo tinha uma estrutura imponente: alto, quadrado e provido de numerosas torres de alturas diferentes. O telhado era de ardósia para que quem o atacasse não conseguisse incendiá-lo. Na frente, havia um pátio espaçoso – no qual haviam sido construídos alguns anexos baixos e uma fileira de quatro catapultas. E, cercando tudo isso, uma grossa antemuralha dotada de suas próprias torres menores. Centenas de soldados ocupavam as ameias, outras centenas se apinhavam no pátio. A única forma de entrar no pátio pelo chão era por um corredor largo aberto em arco na antemuralha, fechado tanto por uma grade levadiça quanto por um par de grossos portões de carvalho. Alguns milhares de Varden estavam aglomerados de encontro à antemuralha, lutando para romper a grade levadiça com o aríete que haviam trazido do portão principal da cidade, ou então para galgar as muralhas com escadas e ganchos de escalada, que os defensores não paravam de empurrar de volta. Bandos de flechas gemiam, descrevendo arcos para lá e para cá por cima da muralha. Nenhum dos dois lados parecia estar com a vantagem.
O portão!, apontou Eragon. Saphira desceu de muito alto e, com um violento jato de fogo, esvaziou o parapeito acima da grade levadiça, deixando a fumaça escapar pelas narinas. Ela se deixou cair no topo da muralha, com um solavanco que atingiu Eragon.
Vá, Eu cuido das catapultas antes que comecem a atirar rochas sobre os Varden.
Tenha cuidado.
Ele desceu de seu dorso para o parapeito.
São eles que devem ter cuidado!, respondeu ela, rosnando para os tanoeiros que se reuniam em torno das catapultas. Metade deles deu meia-volta e fugiu para dentro do castelo. A muralha era muito alta para Eragon pular sem riscos para a rua lá embaixo. Por isso, Saphira deixou o rabo cair por um lado, prendendo-o entre dois merlões. Eragon embainhou Brisingr e então desceu, usando os espinhos no rabo como degraus numa escada de mão. Quando chegou à ponta, soltou-se e caiu os seis metros que faltavam. Rolou para reduzir o impacto quando parou no meio da multidão dos Varden.
— Saudações, Matador de Espectros — cumprimentou Blödhgarm, saindo da aglomeração com os outros onze elfos.
— Saudações.
Eragon sacou Brisingr novamente.
— For que vocês ainda não abriram o portão para os Varden?
— O portão está protegido por muitos encantamentos, Matador de Espectros. Muita força seria necessária para destroçá-lo. Meus companheiros e eu estamos aqui para sua proteção e para a de Saphira. E não poderemos cumprir nosso dever se nos esgotarmos em outras tarefas.
— Você prefere que eu e Saphira nos esgotemos, Blödhgarm? — perguntou Eragon, reprimindo uma maldição. — Isso nos deixará mais seguros?
O elfo olhou fixamente para Eragon por um momento, os olhos amarelos indecifráveis, e então abaixou de leve a cabeça.
— Abriremos o portão imediatamente, Matador de Espectros.
— Não, não abram — retrucou Eragon, irritado. — Esperem aqui.
Eragon abriu caminho até a frente dos Varden e seguiu a passos largos até a grade fechada.
— Abram espaço! — gritou, gesticulando para os guerreiros.
Os Varden recuaram, deixando uma área livre com uns seis metros de largura. Um dardo lançado por uma balista ricocheteou nas proteções de Eragon e seguiu girando por uma rua transversal. Saphira rugiu de dentro do pátio, e então vieram os sons de madeira que se partia e de cordas retesadas que se rompiam. Segurando a espada com as duas mãos, Eragon a ergueu acima da cabeça e gritou “Brisingr!”. A lâmina irrompeu num fogo azul, e os guerreiros atrás dele soltaram exclamações de espanto. Eragon deu um passo adiante e golpeou uma das barras transversais da grade levadiça. Um clarão ofuscante iluminou a muralha e os prédios vizinhos enquanto a espada cortava com facilidade a grossa barra de metal. Ao mesmo tempo, Eragon percebeu um repentino cansaço quando Brisingr rasgou as proteções aplicadas à grade levadiça. Ele sorriu. Como tinha esperado, as fórmulas de contramagia com que Rhunön impregnara Brisingr eram mais do que suficientes para derrotar os encantamentos.
Num ritmo rápido, porém constante, Eragon abriu o maior buraco possível na grade levadiça e se postou de lado quando o trecho solto do gradil tombou direto nas pedras do calçamento com um ruído estridente. Passou pela grade caída e avançou para as portas de carvalho escondidas mais adiante dentro da antemuralha. Alinhou Brisingr com a fenda finíssima entre as duas portas, pôs seu peso por trás da espada e empurrou a lâmina através da brecha estreita até ela sair do outro lado. Então, aumentou o fluxo de energia para o fogo que ardia em torno da lâmina até a arma ficar quente o bastante para atravessar a madeira densa com a mesma facilidade com que uma faca corta o pão recém-assado.
Uma enorme quantidade de fumaça subiu em espirais a partir da lâmina, fazendo com que a garganta e os olhos de Eragon ardessem. Ele subiu a espada gradativamente, queimando a enorme viga que travava as portas por dentro. Assim que sentiu diminuir a resistência à lâmina de Brisingr, recolheu a espada e extinguiu a chama. Estava usando luvas grossas e não hesitou em segurar as bordas incandescentes de uma porta para abri-la com um puxão vigoroso. A outra também se abriu para fora, aparentemente por vontade própria, embora um instante depois Eragon visse que tinha sido aberta por Saphira. Estava sentada à direita da entrada, olhando para ele com olhos cintilantes, cor de safira. Atrás dela, as quatro catapultas estavam em ruínas.
Eragon foi se postar ao lado de seu dragão enquanto os Varden entravam no pátio em enxurrada, enchendo o ar com seus gritos de guerra clamorosos. Esgotado pelo esforço, Eragon pôs a mão sobre o cinto de Beloth, o Sábio, e reabasteceu suas forças precárias com parte da energia que armazenara nos doze diamantes ocultos ali.
Ofereceu a que sobrava a Saphira, que estava tão cansada quanto ele, mas ela recusou. Guarde-a para você mesmo. Não lhe resta tanto assim. Além do mais o que realmente preciso é de uma refeição e de uma boa noite de sono.
Eragon se encostou nela e deixou que suas pálpebras se semicerrassem. Em breve, disse ele, em breve, tudo isso estará acabado.
Espero que sim, respondeu ela.
Entre os guerreiros que passavam estava Angela, trajando sua estranha armadura verde e preta, com rebordos, e portando sua hûthvír, a arma em forma de bastão de lâmina dupla dos sacerdotes dos anões. A herbolária parou ao lado de Eragon, com uma expressão travessa.
— Exibição impressionante, mas não acha que está exagerando um pouco?
— O que quer dizer? — perguntou Eragon, carrancudo.
— Ora, vamos! — Ela ergueu uma sobrancelha. — Será que era realmente necessário incendiar sua espada?
A expressão de Eragon se desanuviou quando compreendeu a objeção de Angela. Deu uma risada.
— Não, para a grade levadiça, não, mas gostei de fazer daquele jeito. Além do mais, não tenho como impedir que seja assim. Dei à espada o nome de Fogo na língua antiga. E, cada vez que pronuncio a palavra, a lâmina se acende como um galho de madeira seca numa fogueira.
— Você deu à sua espada o nome de Fogo? — indagou Angela com um sorriso de incredulidade. — Fogo? Como pôde escolher um nome tão sem graça? Bem que podia tê-la chamado de Lâmina de Labareda e deixar por isso mesmo. Fogo, faça-me o favor! Você não preferiria ter uma espada chamada Mordedora-de-Carneiros, Colhedora-de-Crisântemos ou algum outro nome mais criativo?
— Já tenho aqui minha Mordedora-de-Carneiros — disse Eragon, pondo a mão em Saphira. — Por que iria precisar de outra?
Angela abriu um largo sorriso.
— Quer dizer que no final das contas você não é totalmente desprovido de humor! Talvez ainda haja esperança para você! — E foi embora dançando na direção do castelo, girando ao seu lado o bastão de lâmina dupla e resmungando: — Fogo? Ora essa!
De Saphira veio um rosnado baixo: Cuidado com quem chama de Mordedora-de-Carneiros, Eragon, ou você mesmo pode acabar sendo mordido.
Está bem, Saphira.

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Boa leitura :)