3 de junho de 2017

Capítulo 55 - Voo



D
e Ellesméra, Saphira e Glaedr voaram sem parar sobre a floresta antiga dos elfos, pairando bem acima dos altos e escuros pinheiros. Às vezes, a floresta se abria e Eragon conseguia ver um lago ou um rio sinuoso na região. Frequentemente, surgia alguma manada de pequenos cervos agrupados à margem do rio. Os animais paravam e erguiam as cabeças para observar os dragões voando no céu. Contudo, era raro Eragon prestar atenção à paisagem porque estava ocupado recitando em sua mente cada palavra da língua antiga que Oromis lhe havia ensinado. E se esquecia alguma ou cometia algum erro de pronúncia, Oromis o obrigava, a repetir a palavra até que ele a memorizasse. Fies chegaram ao ponto limítrofe de Du Weldenvarden ao fim da tarde do primeiro dia. Lá, acima da fronteira sombreada entre as árvores e os campos gramados, Glaedr e Saphira voaram entrelaçados em círculos, e Glaedr orientou: Mantenha seu coração em segurança, Saphira. E o meu também. Manterei, mestre, Saphira replicou. E Oromis gritou das costas de Glaedr: — Bons ventos para vocês dois, Eragon e Saphira! Que nosso próximo encontro seja diante dos portões de Urû’baen. — Bons ventos para vocês também! — falou Eragon, em resposta. Então, Glaedr guinou e seguiu a linha da floresta na direção oeste — que o levaria até o ponto mais ao norte do lago Isenstar, e de lá até Gil’ead — enquanto Saphira continuou na mesma direção sudoeste que estava antes.
Fia voou toda aquela noite, aterrissando somente para beber e para que Eragon pudesse esticar as pernas e se aliviar. Diferentemente da viagem até Ellesméra, não depararam com nenhum vento de proa. O ar permaneceu claro e tranquilo, como se até a natureza estivesse ansiosa para que voltassem para os Varden. Quando o sol nasceu no segundo dia, os encontrou já sobre o deserto Hadarac e em direção ao sul, de modo a costear a fronteira do Império. E quando a escuridão novamente engolfou a terra e o céu e os reteve
em seu frio abraço, Saphira e Eragon já estavam bem além dos confins arenosos e secos e mais uma vez pairando sobre os campos verdejantes do Império, seguindo um curso que os faria passar entre Urû’baen e o lago Tüdosten a caminho da cidade de Feinster. Depois de voar por dois dias e por duas noites sem dormir, Saphira sentia-se incapaz de continuar. Rodopiando até um pequeno aglomerado de bétulas brancas perto de uma fonte, abrigou-se na sombra e dormiu por algumas horas enquanto Eragon montava guarda e praticava esgrima com Brisingr. Desde que haviam se separado de Oromis e Glaedr, uma sensação de constante ansiedade perturbava Eragon quando imaginava o que estaria à sua espera e de Saphira em Feinster. Sabia que estariam mais bem protegidos da morte e dos ferimentos do que a maioria dos seres. Mas quando seus pensamentos se voltavam para a Campina Ardente e a batalha de Farthen Dûr, e quando lembrava a visão do sangue espirrando de vários membros golpeados, os gritos dos homens feridos e a brancura fervente de uma espada retalhando sua própria carne, Eragon sentia enjoos e seus músculos tremiam, como se sua energia houvesse acabado. E ele não sabia se desejava lutar contra todos os soldados na região ou fugir para a direção oposta e se esconder em uma caverna funda e escura. Seu horror apenas piorou quando ele e Saphira retomaram a viagem e avistaram fileiras de homens armados marchando sobre os campos abaixo. Aqui e acolá, torres de fumaça subiam das aldeias saqueadas. A visão da destruição irrestrita o enojava. Desviando o olhar, apertou o espinho à sua frente e olhou de esguelha até que a única coisa visível através de suas pálpebras semicerradas eram os calos brancos em suas juntas. Pequenino, chamou Saphira, seus pensamentos lentos e cansados. Nós já fizemos isso antes. Não fique tão perturbado. Ele lamentou tê-la distraído durante o voo. Sinto muito... Estarei bem quando chegarmos. Só quero que tudo termine. Eu sei. Eragon fungou e enxugou o nariz frio na manga da túnica. Às vezes gostaria de sentir tanto prazer em lutar quanto você. Tudo seria tão mais fácil.
Se você sentisse, ela disse, o mundo todo se acovardaria aos nossos pés, incluindo
Galbatorix. Mas eu discordo. E bom você não compartilhar meu amor pelo sangue. Nós equilibramos um ao outro, Eragon... Separados, nós somos incompletos, mas juntos somos um todo. Agora limpe sua mente desses pensamentos venenosos e conte-me uma charada pra me manter acordada. Muito bem, ele concordou, depois de um instante, ‘lenho as cores vermelha e azul e amarela e todas as outras tonalidades do arco-íris. Sou alto e baixo e estou quase sempre enroscado. Consigo comer uma centena de ovelhas em sequência e ainda ficar com fome. O que sou eu? Um dragão, é claro, ela respondeu, sem hesitação. Não, um tapete de lã. Bah! O terceiro dia de viagem passou com agonizante lentidão. Os únicos sons eram o bater de asas de Saphira, o irritante e constante som de seus arquejos e o incômodo ruído do ar passando pelas orelhas de Eragon. Suas pernas e a região lombar doíam pelo tempo excessivo sentado na sela, mas seu desconforto era leve comparado ao de Saphira. Os músculos das asas queimavam com uma dor quase insuportável. Ainda assim, ela se mantinha perseverante e não reclamava. E recusou a oferta de aliviar seu sofrimento com um encanto, justificando: Você uai precisar de força quando estivermos lá. Muitas horas depois do anoitecer, Saphira bamboleou e descaiu vários metros com uma única guinada nauseante. Eragon se esticou na sela, alarmado, e olhou em torno para ver se encontrava alguma pista para a causa do distúrbio, mas viu apenas negritude abaixo e estrelas brilhantes acima. Acho que acabamos de chegar ao rio Jiet, disse Saphira. O ar aqui está frio e úmido, como deve ser sobre a água. Então, Feinster não deve estar muito distante. Tem certeza de que consegue encontrar a cidade no escuro? Nós podemos estar a centenas de quilômetros ao norte ou ao sul de lá!
Não podemos, não. Meu senso de direção pode não ser infalível, mas certamente é melhor do que o seu ou de qualquer outra criatura terrestre. Se os mapas dos elfos que nós vimos estiverem corretos, nós não podemos estar mais distantes do que oitenta quilômetros, ao norte ou ao sul de Feinster. E, dessa altura, poderemos ver facilmente a cidade a
distância. Poderemos inclusive sentir o cheiro da fumaça das chaminés. E assim foi. Mais tarde naquela madrugada, com o amanhecer já bem próximo, um tênue brilho vermelho apareceu no horizonte, a oeste. Ao vê-lo, Eragon girou o corpo e removeu sua armadura do alforje. Então, vestiu sua cota de malha, seu gorro, seu elmo, seus braçais e suas grevas. Desejou estar com seu escudo, mas o havia deixado com os Varden antes de correr para o monte Thardûr com Nar Garzhvog. Em seguida, remexeu o conteúdo de suas bolsas até encontrar o frasco prateado de faelnirv que Oromis havia lhe dado. O contêiner de metal estava frio ao toque. Eragon bebeu uma pequena quantidade do licor encantado, que queimava o interior de sua boca e que tinha gosto de sabugo, hidromel e sidra adocicada. Seu rosto foi tomado de calor. Em questão de segundos, seu cansaço começou a diminuir à medida que as propriedades restauradoras do faelnirv faziam efeito. Eragon sacudiu o frasco. Ficou preocupado ao perceber que um terço do precioso licor já havia acabado, apesar de haver consumido apenas uma pequena dose antes. Preciso ser mais cuidadoso com isso no futuro, pensou. À medida que ele e Saphira se aproximavam, o brilho no horizonte se transformava cm milhares de pontos de luz individuais: pequenos lampiões, fogões de cozinha acesos, fogueiras e até enormes faixas de piche queimado que emitiam uma pútrida fumaça negra no céu noturno. Através da luz avermelhada das fogueiras, Eragon podia ver um mar de pontas de lanças brilhantes e elmos reluzentes surgindo na base da grande e bem fortificada cidade. Os muros estavam repletos de pequenas figuras ocupadas flechando o exército invasor, derramando caldeirões de óleo fervente por entre as seteiras do parapeito, cortando cordas que haviam sido jogadas sobre os muros e empurrando as frágeis escadas de madeira que os sitiantes insistiam em encostar contra as altas paredes. Fracos chamados e gritos ecoavam do chão, assim como o barulho do aríete tentando arrebentar os portões de ferro da cidade.
O que restava do cansaço de Eragon desapareceu quando analisou o campo de batalha e notou o posicionamento dos homens, dos edifícios e das várias peças de maquinário bélico. Fora dos muros de Feinster estavam centenas de choupanas caindo aos pedaços, grudadas umas nas outras, com um espaço entre elas que mal permitia a passagem de um cavalo: as habitações daqueles muito pobres para ter uma casa na parte principal da cidade. A
maioria das choupanas parecia deserta, e uma grande porção havia sido demolida para que os Varden pudessem se aproximar dos muros da cidade à força. Uns vinte ou mais desses horríveis casebres estavam queimando e, no exato momento em que Eragon estava observando, o fogo espalhava-se, saltando de um telhado arrasado para outro. À leste das choupanas, linhas negras em curva assolavam a terra onde as trincheiras haviam sido cavadas para proteger o acampamento dos Varden. No outro lado da cidade ficavam docas e píeres similares àqueles que ele conhecera em Teirm, e o oceano escuro e inquieto que parecia se estender até a eternidade. Um arrepio de excitação animalesca tomou conta de Eragon, e sentiu Saphira tremer abaixo de si ao mesmo tempo. Segurou com firmeza o cabo de Brisingr. Eles parecem não haver notado a nossa presença. Devemos anunciar nossa chegada? Saphira respondeu liberando um rugido que fez com que seus dentes rangessem e pintando o céu à sua frente com um espesso lençol de fogo azulado. Abaixo, os Varden aos pés da cidade e os defensores em cima dos parapeitos pararam e, por um momento, o campo de batalha ficou em silêncio. Então, os Varden começaram a gritar e a bater com suas lanças e espadas contra os escudos enquanto grandes rosnados de desespero escapavam do povo no interior da cidade. Ah!, exclamou Eragon, piscando. Preferia que você não tivesse feito isso. Agora não consigo enxergar nada. Sinto muito. Ainda piscando, ele disse: A primeira coisa que deveríamos fazer é encontrar um cavalo ou qualquer outro animal que tenha acabado de morrer para que eu possa restaurar sua força com a dele. Você não tem...
Saphira parou de falar quando outra mente tocou as mentes deles. Depois de meio segundo de pânico, Eragon reconheceu a consciência de Trianna. Eragon, Saphira!, gritou a feiticeira. Chegaram bem na hora! Arya e outro elfo escalaram o muro, mas foram emboscados por um grande grupo de soldados. Eles não sobreviverão nem mais um minuto se ninguém os ajudar! Apressem-se!

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Boa leitura :)