24 de junho de 2017

Capítulo 55 - Lacuna, primeira parte

Eragon reparou, de imediato, em várias coisas.
Primeiro, estavam de um dos lados de uma câmara circular,
com mais de sessenta metros de diâmetro, com um grande
fosso ao meio, de onde irradiava um brilho fosco e alaranjado.
Segundo, o ar estava sufocante e quente. Terceiro, em torno do
perímetro exterior da sala havia dois anéis concêntricos,
semelhantes a bancadas — o de trás era mais alto que o da frente —,
em cima dos quais estavam inúmeros objetos escuros. Quarto, a
parede por trás das bancadas cintilava em inúmeros sítios, como se
estivesse decorada com cristais coloridos. Porém, ele não teve
hipótese de examinar a parede nem os objetos escuros, pois havia
um homem com cabeça de dragão no espaço aberto, junto do
poço luminoso.
O homem era de metal e cintilava como aço polido. Usava
apenas uma tanga segmentada, do mesmo material lustroso do
corpo, e existia músculos ondulantes no peito e nos membros de
Kull. Tinha um escudo metálico na mão esquerda e uma espada
iridescente na mão direita, que Eragon percebeu ser uma espada de
Cavaleiro.
Atrás do homem, no lado oposto da sala, Eragon distinguiu
vagamente um trono, com as costas e o assento gastos pelos
contornos do corpo de uma criatura.
O homem com cabeça de dragão avançou. A pele e as
articulações moviam-se tão suavemente como carne, mas cada
passo ressoava como se ele descarregasse um enorme peso no
chão. Parou a uns nove metros de Eragon e de Saphira, fitando-os
com uns olhos que tremeluziam como duas chamas vermelhas.
Depois, erguendo a cabeça escamosa, deixou escapar um estranho
rugido metálico que se desdobrou em ecos, como se uma dúzia de
criaturas estivesse a gritar.
Ao mesmo tempo que Eragon pensava se deveriam combater a
criatura, ele sentiu uma mente estranha e imensa a tocar na sua. A
consciência não se comparava a qualquer outra que tivesse
encontrado até então e parecia conter uma horda de vozes aos
gritos, um enorme coro dissonante que lhe lembrava o vento de
uma tempestade.
Antes que ele pudesse reagir, a mente penetrou nas suas
defesas, controlando-lhe os pensamentos e, apesar de todo o
tempo que passara a treinar com Glaedr e Saphira, Eragon não
conseguiu impedir o ataque, nem abrandá-lo. Seria o mesmo que
tentar deter uma torrente apenas com as mãos.
Uma mancha de luz e um estrépito incoerente de ruídos rodeouo,
enquanto o coro lamuriento invadia todos os recantos e fendas
do seu ser. Depois, foi como se o invasor lhe desfizesse a mente em
vários pedaços — em que cada um estava consciente da presença
dos outros, mas em que nenhum tinha liberdade de ação — e a sua
visão fragmentou-se, como se observasse a sala através das facetas
de uma jóia.
Seis memórias distintas percorreram velozmente a sua
consciência fragmentada. Ele não as invocara voluntariamente. As
memórias apareceram e deslocavam-se depressa demais para ele
as conseguir seguir. Ao mesmo tempo, o seu corpo dobrou-se e
fletiu-se em várias poses e, depois, o seu braço ergueu Brisingr,
posicionando-se de maneira a que os seus olhos a pudessem ver, e
ele contemplou seis versões distintas da espada. O invasor forçouo
a lançar um feitiço, cujo propósito não entendia nem podia
entender, visto que só conseguia pensar no que o outro lhe
permitia. Além disso, não sentia qualquer emoção a não ser uma
vaga sensação de alarme a dissipar-se.
Aparentemente, durante horas, a mente alienígena examinou
todas as suas memórias, desde o dia em que partira da quinta da
sua família, para caçar veados na Espinha — três dias antes de
encontrar o ovo de Saphira —, até ao presente. Algures na sua
mente, Eragon sentia que o mesmo estava a acontecer a Saphira,
mas essa evidência não tinha qualquer significado para ele.
Por fim, muito depois de ter perdido a esperança de libertar-se,
caso ainda conseguisse controlar os pensamentos, o coro
rodopiante reuniu cuidadosamente os fragmentos da sua mente e
retirou-se.
Eragon cambaleou para a frente e caiu sobre um joelho, antes de
conseguir recuperar o equilíbrio, e viu Saphira, vacilante, junto dele,
a dar patadas no ar.
Como foi isto possível?, pensou ele. Quem fez isto? Capturá-los
ao mesmo tempo, juntamente com Glaedr, era algo que nem
Galbatorix seria capaz.
A consciência voltou a tocar na mente de Eragon, mas desta vez,
não o atacou, dizendo:
As nossas desculpas, Saphira. As nossas desculpas Eragon, mas
tínhamos de nos certificar das vossas intenções. Bem-vindos ao
Cofre das Almas. Há muito que vos esperávamos. Bem-vindo sejas
também, primo. Ficámos felizes por saber que ainda você está vivo.
Recolham agora as vossas memórias e saibam que conseguiram
finalmente terminar a vossa missão!
Um raio de energia brilhou entre Glaedr e a consciência.
Instantes depois, Glaedr soltou um grito mental que deixou as
têmporas de Eragon a latejar de dor. Uma torrente confusa de
emoções projetou-se do dragão dourado: mágoa, triunfo,
descrença, remorsos e, sobre todas elas, uma sensação rejubilante
de alívio, tão intensa que Eragon deu consigo a sorrir sem saber
porquê, sentindo não apenas uma mas miríades de mentes, roçar na
mente de Glaedr, todas a murmurarem entre si.
— Quem fez isto? — sussurrou Eragon. O homem com cabeça de
dragão, diante deles, não se movera um centímetro.
Eragon, disse Saphira, olha para a parede... Olha...
Eragon olhou e viu que a parede circular não estava decorada
com cristais, como no início julgara. Dúzias e dúzias de nichos
salpicavam a parede e, dentro de cada nicho, havia um globo
cintilante. Alguns eram grandes, outros pequenos, mas todos
pulsavam com um brilho suave interior, como carvões em brasa
numa fogueira quase extinta.
O coração de Eragon parou por instantes, ao compreender o
que estava a ver.
Baixou os olhos para os objetos escuros nas bancadas; eram
lisos e ovalados, e pareciam ter sido esculpidos em pedras de
diversas cores. Tal como as esferas, uns eram grandes e outros
pequenos, mas, independentemente do seu tamanho, tinham uma
forma que teria reconhecido em qualquer parte.
Eragon foi percorrido por uma vaga de calor e os seus joelhos
fraquejaram. “Não pode ser.” Queria acreditar no que estava a ver,
mas receava que fosse uma ilusão criada para atacar a sua
esperança. Contudo, a possibilidade de tudo aquilo ser real,
cortou-lhe a respiração, deixando-o de tal forma surpreendido e
esmagado que ficou sem saber o que fazer nem o que dizer. A
reação de Saphira foi muito semelhante, senão mais intensa.
Depois a mente voltou a falar:
Não estão enganados, jovens. Os vossos olhos não vos estão a
trair. Nós somos a esperança secreta da nossa raça. Aqui estão os
nossos corações dos corações — os últimos Éldunarís livres do
reino —, e aqui estão os ovos que guardamos há mais de um século.

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