24 de junho de 2017

Capítulo 54 - O Cofre das Almas

Eragon ergueu a espada e o escudo, ansioso por prosseguir, mas
ao mesmo tempo um pouco receoso.
Tal como anteriormente, ele e Saphira ficaram na base do
Rochedo de Kuthian e o coração dos corações de Glaedr no
pequeno baú, escondido nos alforges, presos ao dorso de Saphira.
Ainda era de manhã cedo e o sol brilhava intensamente através
dos grandes rasgões num teto de nuvens. Eragon e Saphira queriam
ir diretamente para o Rochedo de Kuthian, assim que ele regressara
à casa de nidificação. Mas Glaedr insistira para que Eragon
comesse primeiro e esperassem até que a comida lhe assentasse no
estômago.
Mas, finalmente, estavam no pináculo escarpado de pedra e
Eragon mostrava-se cansado de esperar, tal como Saphira.
Desde que tinham partilhado os seus verdadeiros nomes, o laço
entre ambos parecia ter-se fortalecido, talvez por terem ouvido o
quanto gostavam um do outro. Era algo que sempre souberam,
mesmo assim proferi-lo em termos tão irrefutáveis potenciara a
sensação de proximidade que partilhavam.
Algures a norte um corvo grasnou.
Eu vou primeiro, disse Glaedr, se for uma armadilha, talvez seja
capaz de a desmontar antes que ela apanhe um de vós.
Eragon afastou a sua mente de Glaedr, tal como Saphira, para
que o dragão proferisse o seu verdadeiro nome sem que o
ouvissem. Mas Glaedr disse:
Não, vocês disseram-me os vossos nomes. É perfeitamente
justo que saibam o meu.
Eragon olhou para Saphira e, a seguir, ambos disseram:
Obrigado, Ebrithil.
Depois Glaedr disse o seu nome e este ecoou na mente de
Eragon como uma fanfarra de trombetas régias e dissonantes, todo
ele colorido pela dor e pela raiva de Glaedr provocada pela morte
de Oromis. O seu nome era mais extenso que o de Eragon ou o de
Saphira, prolongando-se em várias frases — o registo de uma vida
que durara séculos e continha alegrias, mágoas e incontáveis
realizações. O nome evidenciava a sua sabedoria, mas também as
suas contradições: complexidades que dificultavam a compreensão
da sua identidade.
Saphira sentiu o mesmo assombro que Eragon, ao ouvir o nome
de Glaedr, e ambos se aperceberam do quanto eram ainda jovens e
do longo percurso que tinham ainda a percorrer, antes de poderem
igualar o conhecimento e a experiência de Glaedr.
“Pergunto-me qual será o verdadeiro nome de Arya”, pensou
Eragon.
Olharam atentamente para o Rochedo de Kuthian mas não viram
qualquer modificação.
Saphira foi a seguir. Arqueando o dorso e batendo com as patas
no chão, como um impetuoso cavalo de guerra, proferiu
orgulhosamente o seu verdadeiro nome. Mesmo à luz do dia, as
escamas voltaram a tremeluzir e a cintilar quando o disse.
Ao ouvi-los a ambos dizer os verdadeiros nomes, Eragon sentiuse
menos embaraçado com o seu. Nenhum deles era perfeito e, no
entanto, não se condenavam mutuamente pelos seus defeitos,
reconhecendo-os e perdoando-os.
Mais uma vez, nada aconteceu depois de Saphira proferir o seu
nome.
Por fim, Eragon avançou. Sentia suores frios na testa.
Consciente de que aquele poderia ser o seu último ato como
homem livre, proferiu o seu nome mentalmente, tal como Glaedr e
Saphira. Tinham concordado antecipadamente que seria mais
seguro que ele evitasse dizer o nome em voz alta, reduzindo as
hipóteses de alguém o ouvir.
Quando Eragon proferiu a última palavra, uma linha escura e fina
surgiu na base do pináculo.
A linha prolongou-se a uma altura de quinze metros, dividiu-se
em duas e desceu, de ambos os lados, delineando os contornos de
duas portas largas. Sobre as portas apareceram várias linhas de
hieróglifos desenhados a dourado: proteções contra a deteção física
e mágica.
Assim que os contornos ficaram completos, as portas abriram-se
para fora, em dobradiças ocultas, empurrando terra e plantas que
se acumularam diante do pináculo, desde que as portas se tinham
aberto pela última vez, fosse em que altura fosse. Para lá da porta,
havia um grande túnel abobadado que descia até às entranhas da
terra, num ângulo bastante inclinado.
As portas pararam e a clareira voltou a ficar em silêncio.
Eragon olhou para o túnel escuro, com uma apreensão
crescente. Tinha descoberto o que procuravam, mas ainda não
sabia ao certo se era uma armadilha ou não.
Solembum não mentiu, disse Saphira, deitando a língua de fora
para sentir o ar.
Sim, mas o que nos esperará, lá dentro?, perguntou Eragon.
Este lugar não devia existir, disse Glaedr. Nós e os Cavaleiros
escondemos muitos segredos em Vroengard, mas a ilha é
demasiado pequena para um túnel tão grande como este ter sido
construído em segredo, no entanto, nunca ouvi falar dele.
Eragon franziu a sobrancelha, olhando em redor. Continuavam
sozinhos; ninguém tentava aproximar-se furtivamente deles.
Não teria sido construído antes de os Cavaleiros se instalarem
em Vroengard?
Glaedr ponderou por uns instantes.
Não sei... talvez. É a única explicação que faz sentido. Nesse
caso é de fato bastante antigo.
Os três sondaram a passagem com as mentes, mas não sentiram
qualquer ser vivo no interior.
Muito bem, então, disse Eragon, sentindo o travo amargo do
pavor e a palma das mãos pegajosa dentro das luvas. O que quer
que fosse que estivesse do outro lado do túnel, ele queria conhecer,
de uma vez por todas. Saphira também estava nervosa, mas menos
do que ele.
Vamos lá desencantar o esconderijo do rato neste ninho.
Depois, passaram os três através da porta e entraram no túnel.
Quando os últimos centímetros da cauda de Saphira cruzaram a
entrada, as portas fecharam-se atrás deles com um estrondo de
pedra a embater em pedra, mergulhando-os na escuridão.
— Ah, não, não, não! — rosnou Eragon, correndo para as portas.
— Nina hvitr — disse e uma luz branca, sem direção definida,
iluminou a entrada do túnel.
A superfície interior das portas era perfeitamente lisa e, por
muito que Eragon as empurrasse e batesse nelas, não se mexeram.
— Raios, devíamos ter usado um tronco ou um pedregulho para
travar as portas — disse ele, num lamento, censurando-se por não
ter pensado nisso antes.
Poderemos sempre arrombá-las, se for necessário, disse
Saphira.
Duvido muito, disse Glaedr.
Eragon voltou a agarrar em Brisingr.
Nesse caso, acho que não temos outro remédio senão avançar.
Alguma vez tivemos outro remédio senão avançar?, perguntou
Saphira.
Eragon alterou o feitiço para que a luz mágica irradiasse de um
único ponto, junto do teto — de contrário, a falta de sombras
tornaria difícil para ele e Saphira avaliarem as profundidades — e
juntos começaram a percorrer o túnel inclinado.
O chão do corredor era um pouco rugoso o que lhes permitia
apoiar os pés mais facilmente, na ausência de degraus. No sítio
onde o chão se unia à parede, ambos se fundiam como se a pedra
tivesse sido derretida, o que revelou a Eragon que o túnel teria sido
muito provavelmente escavado por Elfos.
Continuaram a descer, cada vez mais fundo, em direção às
entranhas da terra. Até Eragon deduzir que tinham passado por
baixo dos contrafortes, que estavam atrás do Rochedo de Kuthian,
e penetravam nas profundezas da montanha para lá destes. O túnel
não virava nem se ramificava, e as paredes continuavam
perfeitamente nuas.
Por fim, Eragon sentiu ar quente a subir do túnel e reparou num
vago brilho alaranjado, à distância.
— Letta — murmurou, extinguindo a luz mágica.
O ar continuou a aquecer, à medida que desciam, e o brilho
diante deles aumentava de intensidade. Pouco depois, conseguiram
distinguir o fim do túnel: um grande arco negro, inteiramente
coberto de hieróglifos esculpidos, como se estivesse envolto em
espinhos. Um cheiro a enxofre contaminava o ar e Eragon começou
a sentir os olhos a lacrimejar.
Pararam diante do arco. Tudo o que conseguiam ver através
dele era uma porta cinzenta.
Eragon olhou de relance para o caminho que tinham percorrido,
voltando depois a observar o arco. A estrutura entalhada estava a
deixá-lo nervoso, bem como a Saphira. Tentou ler os hieróglifos,
mas estes estavam demasiado misturados e unidos para se
conseguirem decifrar. Também não detetou qualquer forma de
energia armazenada na estrutura negra. Custava-lhe, contudo, a
acreditar que ela não estivesse encantada. Quem construíra o túnel
tinha conseguido esconder o feitiço que destrancava a portas para
o exterior, o que significava que poderia ter feito o mesmo com
qualquer outro feitiço que lançasse no arco.
Trocou brevemente um olhar com Saphira e humedeceu os
lábios ao lembrar-se do que Glaedr dissera: Já não há caminhos
seguros.
Saphira roncou, lançando um pequeno jato de chamas de cada
narina e, depois, entraram pelo arco como se fossem um só.

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