3 de junho de 2017

Capítulo 54 - Despedida

Da casa de Rhunön, Saphira e Eragon voaram para a casa da árvore. Eragon juntou seus pertences no quarto, selou Saphira e retornou ao seu lugar costumeiro na crista de seus ombros.
Antes de irmos para os rochedos de Tel’naeír, disse ele, há mais uma coisa que eu preciso fazer em Ellesméra.
Precisa?, perguntou ela.
Não estarei satisfeito se não o fizer.
Saphira alçou voo da casa. Planou na direção oeste até que as construções começaram a rarear. Então, guinou para baixo, aterrissando sobre uma trilha estreita, coberta de musgo. Depois de pedirem e conseguirem informações sobre o itinerário com um elfo que estava sentado nos galhos de uma árvore nas proximidades, Eragon e Saphira continuaram pela floresta até atingirem uma pequena casa de um cômodo construída a partir do tronco de um abeto que se encontrava em um ângulo agudo, como se estivesse sendo constantemente atingido por uma ventania.
À esquerda da casa encontrava-se um suave aterro muitos centímetros mais alto do que Eragon. Um regato caía sobre o aterro e se transformava em uma límpida piscina antes de ziguezaguear em direção aos mal-iluminados recessos da floresta. Orquídeas brancas margeavam a piscina. Uma raiz bulbosa se projetava do chão entre as frágeis flores que cresciam ao longo de uma bancada. Sentado de pernas cruzadas sobre a raiz estava Sloan. Eragon prendeu a respiração, não querendo alertar o outro homem de sua presença.
O açougueiro estava usando uma túnica marrom-alaranjada, à moda dos elfos. Uma estreita faixa de tecido preto estava amarrada em volta de sua cabeça, escondendo as cavidades oculares. Em seu colo, ele segurava uma porção de pedaços de madeira envelhecidos que estava cortando com uma pequena faca curva. Seu rosto estava coberto com muito mais rugas do que lembrava Eragon, e sobre suas mãos e braços encontravam-se diversas novas cicatrizes, lívidas em contraste com a pele circundante.
Espere aqui, Eragon pediu a Saphira, e deslizou de suas costas.
Quando Eragon se aproximou, Sloan parou o entalhe e levantou a cabeça.
— Vá embora — disse, irritado.
Sem saber como responder, Eragon parou onde estava e ficou em silêncio. Com os músculos da mandíbula tensos, Sloan removeu mais alguns pedacinhos da madeira que segurava, bateu com a ponta da faca na raiz e esbravejou:
— Maldito seja! Você não pode me deixar em paz com minha desgraça apenas por algumas horas? Não quero mais ouvir nenhuma história de bardo ou de menestrel, e por mais que continue me perguntando, não vou mudar de ideia. Agora vá embora. Suma daqui.
Pena e raiva tomaram conta de Eragon, e também uma sensação de deslocamento ao ver um homem perto do qual crescera e que tanto temera e odiara em tal estado.
— Você está confortável? — perguntou Eragon na língua antiga, adotando um tom leve e cadenciado.
Sloan proferiu um rosnado de desgosto.
— Você sabe que não entendo sua língua e não quero aprender. As palavras soam em meus ouvidos por mais tempo do que deveriam. Se você não falar na língua de minha raça, é melhor nem falar comigo.
Apesar da solicitação de Sloan, Eragon não repetiu a pergunta na língua comum a ambos. Nem foi embora.
Praguejando, Sloan recomeçou seu entalhe. Depois de um ou outro golpe, passava seu polegar direito sobre a superfície da madeira, verificando o progresso do que quer que estivesse entalhando. Vários minutos se passaram, e então, com uma voz mais suave, Sloan disse:
— Você estava certo. Ter alguma coisa para fazer com as mãos acalma meus pensamentos. Às vezes... às vezes quase consigo esquecer o que perdi, mas as lembranças sempre retornam, e tenho a sensação de me engasgar com elas... Estou contente por você ter afiado a faca. A faca de um homem deve estar sempre afiada.
Eragon observou-o por mais um minuto. Então, virou-se e caminhou de volta para Saphira.
Ao subir na sela, comentou: Sloan não parece ter mudado muito.
E Saphira respondeu: Você não pode esperar que ele se transforme inteiramente em outra pessoa em tão pouco tempo.
Não, mas eu tinha esperança de que ele aprendesse alguma coisa sábia aqui em Ellesméra, e que talvez se arrependesse de seus crimes.
Se ele não deseja reconhecer seus erros, Eragon, nada poderá forçá-lo a isso. De qualquer modo, você fez tudo o que pôde. Agora, ele tem de achar um meio de se reconciliar com seu destino. Se não conseguir, então deixe que ele procure o conforto do túmulo eterno.
De uma clareira próxima à casa de Sloan, Saphira alçou voo por sobre as árvores circundantes e seguiu para o norte, na direção dos rochedos de Tel’naeír, batendo as asas com o máximo de força e velocidade que podia.
O sol da manhã estava cheio no horizonte, e os raios de luz pelas copas das árvores criavam sombras longas e escuras que, unidas como se fossem uma, apontavam para oeste como flâmulas purpúreas. Saphira descendeu na direção da clareira próxima à casa de pinheiro de Oromis, onde Glaedr e ele estavam em pé esperando pelos dois.
Eragon ficou espantado de ver que Glaedr estava com uma sela aninhada entre dois dos imensos espinhos em suas costas e que Oromis estava trajando uma pesada túnica de viagem azul e verde, sobre a qual usava um corselete dourado. Também usava braçais. Um longo escudo em formato de diamante estava colocado em suas costas, um capacete arcaico descansava em seu braço esquerdo e, em volta de sua cintura, estava encaixada sua espada cor de bronze, Naegling.
Com um sopro de vento de suas asas, Saphira aterrissou sobre uma faixa de grama e trevo. Colocou a língua para fora, saboreando o ar à medida que Eragon deslizava para o chão.
Você vai voar conosco para os Varden?, ela perguntou. A ponta de seu rabo vibrou de excitação.
— Nós voaremos com vocês até o limite de Du Weldenvarden, mas lá nossos caminhos se separam — informou Oromis.
Desapontado, Eragon quis saber:
— Então vocês retornam a Ellesméra?
Oromis balançou a cabeça.
— Não, Eragon. Depois nós continuaremos até a cidade de Gil’ead.
Saphira sibilou, surpresa. Sentimento compartilhado por Eragon.
— Por que Gil’ead? — perguntou ele, atordoado.
Porque Islanzadí e seu exército marcharam de Ceunon para lá, e eles estão a ponto de sitiar a cidade, respondeu Glaedr.
As estranhas estruturas brilhantes de sua mente se chocavam com a consciência de Eragon.
Mas você e Oromis não desejam permanecer ocultos do Império?, Saphira perguntou.
Oromis fechou os olhos por um momento, sua expressão distante e enigmática.
— O tempo de se esconder se encerrou, Saphira. Glaedr e eu ensinamos a vocês dois tudo o que podíamos no breve tempo em que estiveram aqui conosco. Foi um ensino inferior comparado com o que teriam recebido antigamente, mas, devido à urgência dos eventos, nós somos afortunados de ter conseguido ensiná-los tanto quanto pudemos. Glaedr e eu estamos satisfeitos por agora saberem tudo o que pode vir a ser útil para derrotarem Galbatorix.
“Dessa forma, já que parece improvável que algum de vocês tenha outra chance de voltar aqui para receber mais instruções antes do fim dessa guerra, e já que parece ainda mais improvável que surja outro dragão e outro Cavaleiro para instruirmos enquanto Galbatorix ainda estiver dominando nossa bela terra, decidimos que não havia mais nenhuma razão para permanecermos isolados em Du Weldenvarden. É mais importante que ajudemos Islanzadí e os Varden a derrotar Galbatorix do que ficar aqui num conforto ocioso enquanto esperamos que outro Cavaleiro e outro dragão nos procurem.
“Quando Galbatorix descobrir que ainda estamos vivos, sua confiança ficará abalada, pois não saberá se outros dragões e Cavaleiros sobreviveram à sua tentativa de extermínio. E também, o conhecimento de nossa existência fortalecerá os espíritos dos anões e dos Varden e neutralizará quaisquer efeitos adversos que a aparição de Murtagh e Thorn na Campina Ardente possam ter tido sobre a coragem de seus guerreiros. E também pode muito bem aumentar o número de recrutas que Nasuada recebe do Império.”
Eragon olhou de relance para Naegling e comentou:
— Mas, mestre, certamente vocês não pretendem se aventurar nas batalhas.
— E por que não deveríamos? — inquiriu Oromis, pendendo a cabeça para o lado.
Como não queria ofender Oromis ou Glaedr, Eragon ficou em dúvida de como responder. Por fim, disse:
— Perdoe-me, mestre, mas como você poderá lutar se não consegue lançar encantamentos que requerem mais do que uma pequena quantidade de energia? E os espasmos que o acometem de vez em quando e o fazem sofrer? Se algum ocorrer no meio de uma batalha, poderia ser fatal.
Oromis retrucou:
— Como você já deve estar bastante ciente agora, o simples uso da força raramente decide a vitória quando dois magos duelam. Mesmo assim, tenho toda a força que necessito aqui, na joia de minha espada. — E ele colocou a palma da mão direita sobre o diamante amarelo que formava o botão do cabo de Naegling. — Por mais de cem anos, Glaedr e eu temos estocado qualquer quantidade excedente de nossa força nesse diamante, por mais ínfima que seja. E outros também adicionaram suas forças à gema. Duas vezes por semana, vários elfos de Ellesméra me fazem uma visita e transferem o máximo que podem de suas forças vitais para a gema. A quantidade de energia contida nessa pedra é formidável, Eragon. Com ela, eu poderia mover uma montanha. Não será grande problema, portanto, defender Glaedr e a mim mesmo de espadas, lanças e flechas, ou mesmo de um pedregulho arremessado por uma catapulta. Quanto aos meus ataques, atei algumas proteções à pedra de Naegling que me protegerão de algum perigo se eu ficar incapacitado no campo de batalha. Então, Eragon, você pode ver que Glaedr e eu estamos muito além de incapacitados.
Sentindo-se devidamente repreendido, Eragon baixou a cabeça e murmurou:
— Sim, mestre.
A expressão de Oromis suavizou um pouco.
— Eu agradeço sua preocupação, Eragon, e você tem razão em estar preocupado, pois a guerra é um esforço perigoso e mesmo o guerreiro mais habilitado pode encontrar a morte esperando por ele em meio ao acalorado frenesi da batalha. Entretanto, nossa causa vale a pena. Se Glaedr e eu encontrarmos a morte, iremos de bom grado, pois com nosso sacrifício podemos ajudar a libertar a Alagaësia da sombra tirânica de Galbatorix.
— Mas se vocês morrerem — começou Eragon, sentindo-se apequenado — e ainda assim nós obtivermos êxito em matar Galbatorix e em libertar o último ovo de dragão, quem treinará esse dragão e seu Cavaleiro?
Oromis surpreendeu Eragon ao se aproximar e tocá-lo no ombro.
— Se isto acontecer — disse o elfo, seu rosto grave —, então a responsabilidade será sua, Eragon, e sua, Saphira, de instruir o novo dragão e o novo Cavaleiro nas regras de nossa ordem. Ah, não fique tão apreensivo, Eragon. Você não estaria sozinho nessa tarefa. Sem dúvida Islanzadí e Nasuada assegurariam que os mais sábios estudiosos de ambas as nossas raças estariam prontos para ajudá-lo.
Uma estranha sensação de inquietude perturbava Eragon. Sempre ansiou ser tratado como adulto, mas, em todo caso, não se sentia preparado para assumir o lugar de Oromis. Parecia errado até mesmo pensar na possibilidade.
Pela primeira vez, Eragon compreendeu que em algum momento se tornaria parte da velha geração e que quando isso acontecesse não teria nenhum mentor para o guiar. Sentiu a garganta apertando.
Oromis soltou o ombro de Eragon e fez um gesto na direção de Brisingr, que estava em seus braços.
— Toda a floresta tremeu quando você acordou a árvore Menoa, Saphira, e metade dos elfos em Ellesméra contataram Glaedr e a mim com pedidos frenéticos para que fôssemos correndo ajudá-la. Além disso, tivemos de interceder a seu favor com Gilderien, o Sábio, para impedir que ele a punisse por usar métodos tão violentos.
Eu não pedirei desculpa, disse Saphira. Nós não tínhamos tempo de esperar que algum tipo de diplomacia fizesse efeito.
Oromis assentiu.
— Compreendo, e não a estou criticando, Saphira. Só queria que você ficasse ciente das consequências de seus atos. — Atendendo ao pedido do mestre, Eragon entregou sua recém-forjada espada a ele e segurou o seu elmo enquanto o elfo examinava a espada.
— Rhunön se superou — declarou Oromis. — Poucas armas, espadas ou qualquer outra coisa, se equivalem a essa. Você tem sorte de portar uma lâmina tão impressionante, Eragon. — Uma das sobrancelhas salientes de Oromis se ergueu uma fração de centímetro enquanto lia o símbolo gravado na espada. — Brisingr... um nome bastante apropriado para a espada de um Cavaleiro de Dragão.
— Sim — concordou Eragon —, mas por alguma razão, sempre que eu pronuncio seu nome, a lâmina... — ele hesitou e, em vez de dizer fogo, que, é claro, era o significado de brisingr na língua antiga, disse: — fica em chamas.
As sobrancelhas de Oromis ficaram ainda mais salientes.
— É mesmo? Rhunön tem uma explicação para esse fenômeno único? — À medida que falava, Oromis devolvia Brisingr a Eragon e pegava de volta seu elmo.
— Tem, mestre — respondeu Eragon, e contou as duas teorias de Rhunön.
Quando terminou, Oromis murmurou:
— Imagino que... — E seu olhar vagou de Eragon em direção ao horizonte. Então, Oromis balançou levemente a cabeça e novamente focou seus olhos cinzentos em Eragon e Saphira. Seu rosto ficou ainda mais solene do que antes. — Sinto muito por ter deixado meu orgulho falar por mim. Glaedr e eu podemos não ser desamparados, mas tampouco somos inteiramente imunes, como você mesmo apontou. Glaedr tem seu ferimento, e eu tenho as minhas próprias... debilidades. Não é por acaso que eu sou conhecido como O Imperfeito Que E Perfeito.
“Nossas incapacidades não seriam problema se nossos inimigos fossem homens mortais. Mesmo agora, poderíamos facilmente chacinar uma centena de homens comuns; uma centena ou milhares, pouco importaria. Entretanto, nosso inimigo é o mais perigoso que nós ou que nossa terra jamais enfrentou. Por mais que me desagrade reconhecer isso, Glaedr e eu estamos em desvantagem, e é bem possível que não sobrevivamos às batalhas que ainda estão por vir. Nós vivemos bastante e intensamente, e as lamentações de séculos nos pressionam, mas vocês dois são jovens e cheios de vida, e acredito que suas possibilidades de derrotarem Galbatorix são maiores do que as de quaisquer outros seres.”
Oromis olhou de relance para Glaedr, e o rosto do elfo demonstrou preocupação.
— Portanto, para ajudar a garantir sua sobrevivência, e como precaução contra nossa possível morte, Glaedr decidiu, com a minha bênção...
Eu decidi, informou Glaedr, dar a você, Saphira Escamas Brilhantes, e a você, Eragon Matador de Espectros, meu coração dos corações.
O espanto de Saphira não foi menor do que o de Eragon. Juntos, eles miraram o majestoso dragão de ouro que assomava muito acima deles. Foi Saphira quem falou: Mestre, a honra que você nos concede está acima de qualquer palavra, mas... tem certeza de que deseja confiar seu coração a nós?
Tenho certeza, afirmou Glaedr, e baixou sua gigantesca cabeça até que ela ficasse levemente acima de Eragon. Tenho certeza por várias razões. Se vocês possuírem meu coração, poderão se comunicar comigo e com Oromis – independentemente da distância que nos separar – e eu poderei ajudá-los com minha força sempre que estiverem em dificuldades. E se Oromis e eu cairmos em batalha, nosso conhecimento e experiência, e também minha força, ainda estarão à disposição de vocês. Há muito tempo eu medito acerca dessa escolha, e tenho plena confiança de que é a mais correta.
— Mas, se Oromis viesse a morrer — disse Eragon, com a voz baixa —, você estaria disposto a viver sem ele, e como um Eldunarí?
Glaedr virou sua cabeça e focou um de seus imensos olhos em Eragon. Não desejo me separar de Oromis, mas o que quer que aconteça, continuarei fazendo o que for possível para destronar Galbatorix. Essa é nossa única meta, e nem mesmo a morte poderá nos impedir de alcançá-la. A ideia de perder Saphira o deixa horrorizado, Eragon, o que é compreensível. Entretanto, Oromis e eu tivemos séculos para nos resignar com o fato de que tal separação é inevitável. Não importa o quanto sejamos cuidadosos, mais cedo ou mais tarde um de nós morrerá. Não é um pensamento agradável, mas é a verdade. Assim é o mundo.
Mudando de postura, Oromis disse:
— Não posso fingir que vejo isso com bons olhos, mas o propósito da vida não é fazer o que desejamos, mas o que deve ser feito. É isso o que o destino nos demanda.
Então agora, continuou Glaedr, eu pergunto a você, Saphira Escamas Brilhantes, e a você, Eragon Matador de Espectros, vocês aceitam meu presente e tudo o que ele acarreta?
Aceito, disse Saphira.
Aceito, respondeu Eragon, depois de um breve instante de hesitação.
Então, Glaedr afastou a cabeça. Os músculos de seu abdômen ondularam e enrijeceram várias vezes, e sua garganta começou a convulsionar, como se algo estivesse preso nela. Ampliando sua postura, o dragão de ouro estendeu seu pescoço à frente do restante do corpo, cada nervo e tendão de seu corpo em alto-relevo abaixo da armadura de escamas cintilantes. A garganta de Glaedr continuava flexionando e relaxando em velocidade crescente até que, finalmente, ele baixou a cabeça de modo que ficasse nivelada com Eragon e abriu a mandíbula.
Ar quente e penetrante escapou de seu gigantesco estômago. Eragon mirou, com os olhos semicerrados, tentando não ficar nauseado. Quando olhou fixamente dentro da boca de Glaedr, Eragon viu a garganta do dragão se contrair uma última vez, e então uma leve luz dourada apareceu entre as curvas dos tecidos sanguinolentos. Um segundo depois, um objeto redondo com mais ou menos trinta centímetros de diâmetro deslizou tão rapidamente pela língua carmesim de Glaedr que Eragon quase não conseguiu pegar.
Assim que suas mãos se fecharam em torno do Eldunarí escorregadio e coberto de saliva, Eragon arfou e cambaleou para trás, pois começou a sentir, subitamente, cada emoção e pensamento de Glaedr, e todas as sensações de seu corpo. A quantidade de informação era assoberbante, assim como era a proximidade do contato entre eles. Eragon esperara algo parecido, mas ainda estava chocado por perceber que estava segurando todo o ser de Glaedr em suas mãos.
Glaedr recuou, sacudindo a cabeça como se tivesse sido picado, e rapidamente protegeu sua mente de Eragon, embora o Cavaleiro ainda pudesse sentir seus pensamentos se movendo, assim como a cor geral de suas emoções.
O Eldunarí propriamente dito era como uma gigantesca joia de ouro. Sua superfície era quente e coberta com centenas de facetas bem trabalhadas, que variavam de tamanho e à vezes projetavam ângulos estranhos. O centro do Eldunarí tinha um leve brilho, similar ao de uma lanterna coberta, e a luz difusa latejava num ritmo lento e estável. A partir de uma inspeção inicial, a luz parecia uniforme, mas quanto mais Eragon olhava para ela, mais detalhes ele via por dentro: pequenos torvelinhos e correntes que se enrascavam e se contorciam em direções aparentemente casuais, partículas mais escuras que quase não se moviam e lampejos agitados de luminosidade, não maiores do que a cabeça de um alfinete, que brilhavam por um instante e então desapareciam no campo de luz subjacente. Estava vivo.
— Aqui — chamou Oromis, e entregou a Eragon um saco de pano firme.
Para alívio de Eragon, sua conexão com Glaedr sumiu assim que ele colocou o Eldunarí na sacola e suas mãos soltaram a pedra-gema. Ainda trêmulo, Eragon apertou o agora coberto Eldunarí contra o peito, maravilhado por saber que seus braços estavam envolvendo a essência de Glaedr e com medo do que pudesse acontecer com ela se ele permitisse que o coração dos corações escapasse de seu domínio.
— Obrigado, mestre — Eragon conseguiu dizer, abaixando a cabeça na direção de Glaedr.
Nós guardaremos seu coração com nossas próprias vidas, acrescentou Saphira.
— Não! — exclamou Oromis, com a voz resoluta. — Não com suas vidas! Isso é precisamente o que eu desejo evitar. Não permitam que algum infortúnio aconteça com o coração de Glaedr por descuido de vocês, mas tampouco se sacrifiquem para protegê-lo ou a mim ou qualquer outro ser. Vocês precisam permanecer vivos custe o que custar. Se não, nossas esperanças serão arruinadas e tudo será escuridão.
— Sim, mestre — disseram Eragon e Saphira ao mesmo tempo, ele em sua língua e ela com seus pensamentos.
Glaedr disse: Por terem jurado fidelidade a Nasuada – e devem a ela lealdade e obediência – podem contar-lhe de meu coração, se preciso for, mas apenas se preciso for. Pela segurança dos dragões em todo o mundo, os poucos que restam de nós, a verdade sobre o Eldunarí não pode ser divulgada.
Podemos contar para Arya?, perguntou Saphira.
— E quanto a Blödhgarm e os outros elfos que Islanzadí enviou para me proteger? — quis saber Eragon. — Eu permiti que tivessem acesso à minha mente na última vez em que e eu Saphira lutamos com Murtagh. Irão notar sua presença, Glaedr, se você nos ajudar no meio de alguma batalha.
Vocês podem informar Blödhgarm e seus feiticeiros a respeito do Eldunarí, concordou Glaedr, mas somente depois que jurarem a vocês que guardarão segredo.
Oromis colocou seu elmo na cabeça.
— Arya é filha de Islanzadí. Assim, suponho que seja apropriado que saiba. Entretanto, da mesma forma que Nasuada, não digam a ela a não ser que se torne absolutamente necessário. Um segredo compartilhado não é segredo algum. Se forem disciplinados, nem pensem nisso, nem no próprio Eldunarí, de modo que ninguém possa roubar a informação de suas mentes.
— Sim, mestre.
— Agora, vamos sair daqui — sugeriu Oromis, e vestiu um par de grossas luvas. — Ouvi de Islanzadí que Nasuada sitiou a cidade de Feinster, e que os Varden precisam muito da ajuda de vocês.
Nós passamos muito tempo em Ellesméra, comentou Saphira.
Talvez, retrucou Glaedr, mas foi um tempo bem empregado.
Apressando-se, Oromis escalou a única perna de Glaedr e chegou às costas arqueadas, onde se sentou na sela e começou a apertar as correias em volta das pernas.
— Enquanto estivermos voando — o elfo dirigiu-se a Eragon — poderemos revisar as listas de nomes verdadeiros que vocês aprenderam durante a última visita.
Eragon foi até Saphira e subiu cuidadosamente nela. Envolveu o coração de Glaedr com um de seus cobertores e colocou o pacote no alforje. Depois, prendeu as pernas do mesmo jeito que Oromis.
Atrás de si, podia sentir uma constante onda de energia emanando do Eldunarí. Glaedr caminhou até a beira dos rochedos de Tel’naeír e abriu as volumosas asas. A terra tremeu quando o dragão de ouro saltou na direção do céu raiado de nuvens, e o ar retumbou e tremeu quando Glaedr dirigiu suas asas para baixo, afastando-se da floresta abaixo. Eragon agarrou o espinho à sua frente quando Saphira o seguiu, lançando-se ao céu aberto e caindo dezenas de metros num mergulho íngreme antes de ascender ao lado de Glaedr.
Glaedr assumiu a ponta quando os dois dragões se orientaram na direção sudoeste. Cada um batendo as asas em um tempo diferente, Saphira e Glaedr voavam em grande velocidade sobre a floresta. Saphira arqueou o pescoço e deu um rugido sonoro. À frente, Glaedr respondeu da mesma maneira. Os gritos intensos dos dois ecoavam na vasta cúpula do céu, assustando os pássaros e os animais abaixo.

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