24 de junho de 2017

Capítulo 53 - Uma questão de personalidade

O

pé de Eragon escorregou-lhe ao subir para um pedaço de lama,
e ele caiu bruscamente de lado, na erva húmida. Gemeu e
retraiu-se ao sentir a anca latejar de dor. Aquele embate iria
certamente provocar-lhe uma nódoa negra.
— Barzûl — disse, rebolando sobre o corpo e levantando-se
cuidadosamente. “Pelo menos não aterrei em cima de Brisingr”,
pensou, ao arrancar camadas de lama agarradas às perneiras.
Macambúzio, recomeçou o percurso em direção ao edifício em
ruínas, onde tinham decidido acampar, por acharem que seria mais
seguro do que junto da floresta.
Ao caminhar pela relva, assustou uma série rãs-touro, que
saltaram dos seus esconderijos e fugiram para ambos os lados. As
rãs-touro foram as últimas criaturas estranhas que eles encontraram
na ilha. Tinham uma projeção, semelhante a um corno, sobre os
olhos avermelhados, e um apêndice curvo — muito parecido com
uma cana de pesca — na extremidade do qual pendia um órgão
carnudo que brilhava a branco ou a amarelo, à noite. A luz permitia
às rãs-touro atrair centenas de insetos voadores, para perto da
língua e, por terem fácil acesso à comida, cresciam imenso. Eragon
vira algumas do tamanho de uma cabeça de urso, grandes torrões
carnudos de olhos fixos e bocas mais largas que as suas duas mãos
abertas, juntas.
As rãs lembravam-lhe Angela, a herbolária, pelo que, de
repente, desejou que ela estivesse ali com eles, na Ilha de
Vroengard. “Se alguém nos poderia revelar os nossos verdadeiros
nomes, aposto que seria ela.” Por qualquer razão, sempre sentira
que a herbolária conseguia ver a sua natureza, como se percebesse
tudo acerca dele. Era uma sensação desconcertante, mas, naquele
momento, seria bem-vinda.
Ele e Saphira tinha decidido confiar em Solembum e ficar em
Vroengard, no máximo, mais três dias, enquanto tentavam
descobrir os seus verdadeiros nomes. Glaedr deixou a decisão ao
seu critério, dizendo:
Vocês conhecem Solembum melhor do que eu. Façam o que
entenderem. Seja como for, o risco é elevado, pois já não há
caminhos seguros.
Foi Saphira quem acabou por tomar a decisão:
Os meninos-gatos jamais serviriam Galbatorix, disse ela, pois
prezam demasiado a sua liberdade. Mais depressa confiaria na sua
palavra do que na de qualquer outra criatura, mesmo um elfo.
Por isso ficaram.
Passaram o resto desse dia, e grande parte do seguinte,
sentados, a pensar, a conversar, a partilhar memórias, a examinar
as mentes uns dos outros e a experimentar diferentes combinações
de palavras, na língua antiga, na esperança de conseguirem
descobrir os seus verdadeiros nomes conscientemente ou — com
um pouco de sorte — por acidente.
Quando inquirido, Glaedr oferecera-lhes a sua ajuda, mas
fechara-se em si durante a maior parte do tempo, dando a Eragon e
a Saphira alguma privacidade para as suas conversas, muitas das
quais seriam motivo de embaraço para Eragon se mais alguém as
ouvisse.
A descoberta do nosso verdadeiro nome é algo que deveria ser
feito a sós, disse Glaedr. Se os vossos nomes me ocorrerem, dirvos-
ei — pois não temos tempo a perder — mas seria melhor que os
descobrissem sozinhos.
Até então, nenhum dos dois conseguira.
Desde que Brom lhe falara acerca dos verdadeiros nomes que
Eragon queria descobrir o seu. O conhecimento, especialmente o
auto-conhecimento, era útil e ele esperava que o seu verdadeiro
nome lhe permitisse dominar melhor os seus pensamentos e
sentimentos. Ainda assim, não podia deixar de sentir um certo
receio do que poderia descobrir.
Isto, partindo do princípio de que conseguiria descobrir o seu
nome nos próximos dois dias, algo de que não estava inteiramente
seguro. Esperava consegui-lo, pelo sucesso da missão e porque
não queria que Glaedr ou Saphira o descobrissem por ele. Se
tivesse que ouvir a descrição de todo o seu ser numa palavra ou
frase, queria alcançar esse conhecimento sozinho, em vez de lho
imporem.
Eragon suspirou ao subir os cinco degraus partidos que davam
acesso ao edifício. Aquela estrutura tinha sido uma casa de
nidificação, pelo menos segundo Glaedr, e era tão pequena de
acordo com os padrões de Vroengard, que passaria totalmente
despercebida. Ainda assim, as paredes erguiam-se à altura de mais
de três andares e o interior era suficientemente espaçoso para que
Saphira se movesse sem dificuldade. O canto, a sudeste,
desmoronara para o interior, arrastando consigo parte do teto.
Mas, tirando isso, o edifício estava intacto.
Os passos de Eragon ecoaram, passando pela entrada em arco
e caminhando sobre o chão vidrado da sala principal. Lâminas de
cor, rodopiantes, embutidas no material transparente, compunham
um desenho abstrato de uma complexidade estonteante. Cada vez
que olhava para ele, parecia-lhe que as linhas estavam prestes a
compor uma forma reconhecível; mas isso nunca aconteceu.
A superfície do chão estava coberta de uma fina teia de rachas
que irradiavam para fora, a partir dos destroços, sob o grande
buraco onde as paredes tinham cedido. Longos filamentos de eras
pendiam da beira do telhado partido, como pedaços nodosos de
corda. A água pingava da extremidade das trepadeiras, caindo em
pequenas poças disformes. E o som das gotas da água a cair no
chão ecoava por todo o edifício, num ritmo constante e regular que
Eragon achou que daria com ele em doido, se o tivesse de ouvir
durante mais do que alguns dias.
Encostado à parede virada a Norte havia um semicírculo de
pedras que Saphira arrastara e montara para proteger o
acampamento. Ao alcançar a barreira, Eragon saltou para cima do
bloco de pedra mais próximo, que tinha mais de um metro e meio
de altura, saltando depois para o outro lado, onde aterrou
pesadamente.
Saphira parou de lamber a pata dianteira e ele sentiu-se
questionado, mas abanou-lhe a cabeça e ela voltou a concentrar-se
na sua higiene.
Desapertando o manto, Eragon aproximou-se da fogueira que
fizera junto da parede. Estendeu o manto ensopado, tirou as botas
cobertas de lama e poisou-as para secarem.
Achas que vai começar a chover outra vez?, perguntou Saphira.
Provavelmente.
Agachou-se ligeiramente junto do fogo e sentou-se sobre o
cobertor, encostando-se à parede. Observou Saphira enquanto
esta passava a língua carmesim em torno da cutícula flexível, na
base de cada uma das garras. Depois ocorreu-lhe uma ideia e
murmurou uma frase na língua antiga, mas, para sua deceção, não
sentiu qualquer mudança de energia nas palavras, nem Saphira
reagiu quando as proferiu, tal como acontecera com Sloan, quando
Eragon proferira o seu verdadeiro nome.
Eragon fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás.
Sentia-se frustrado por não conseguir desvendar o verdadeiro
nome de Saphira. Conseguia aceitar o fato de não se entender
totalmente a si mesmo, mas conhecia Saphira desde que nascera e
testemunhara quase todas as suas memórias. Como era possível
que uma parte dela fosse ainda um mistério? Como era possível
que conseguisse entender melhor um assassino como Sloan do que
a sua parceira, à qual estava ligado por magia? Seria por ela ser
dragão e ele humano? Seria pelo fato da identidade de Sloan ser
mais simples do que a de Saphira?
Ele não fazia ideia.
Um dos exercícios que ele e Saphira tinham feito — por
recomendação de Glaedr — era revelarem um ao outro todos os
defeitos em que tinham reparado; ele em Saphira e vice-versa. Foi
um exercício humilhante. Glaedr também fizera as suas observações
e, embora o dragão tivesse sido brando, Eragon não pôde deixar
de sentir o orgulho ferido ao ouvir Glaedr enumerar os seus pontos
fracos, mesmo sabendo que isso também teria de ser tido em
consideração, ao tentar descobrir o seu verdadeiro nome.
Para Saphira, o mais difícil de encarar fora a vaidade, que se
recusara a reconhecer como tal, durante bastante tempo. E para
Eragon tinha sido a arrogância que Glaedr dizia por vezes revelar,
os seus sentimentos em relação aos homens que matara, a sua
petulância, egoísmo, raiva e outros defeitos que o afetavam, à
semelhança de tantos outros.
Contudo, embora se tivessem examinado tão honestamente
quanto possível, a sua introspeção não sentira quaisquer efeitos.
Temos apenas hoje e amanhã. A ideia de regressarem aos
Varden de mãos vazias, deprimia-o.
Como poderemos vencer Galbatorix?, perguntou para si mesmo,
como tantas vezes o fizera. Mais alguns dias e as nossas vidas
poderão deixar de nos pertencer. Seremos escravos tal como
Murtagh e Thorn.
Praguejou entredentes e esmurrou o chão, sub-repticiamente.
Tem calma, Eragon, disse Glaedr, e Eragon reparou que o
dragão estava a proteger os seus pensamentos para que Saphira
não os ouvisse.
Como posso ter calma?, rosnou.
É fácil ficar calmo quando não temos nada que nos preocupe,
Eragon. Porém, o verdadeiro teste ao nosso auto-controlo é
conseguir ficar calmo numa situação difícil. Não podes permitir que
a raiva ou a frustração te confundam, não agora. Neste momento
precisas de estar lúcido.
Conseguiste sempre ficar calmo em momentos como este?
O velho dragão pareceu rir baixinho.
Não, costumava rugir, morder, derrubar árvores, e revolver o
solo. Uma vez parti o cume de uma montanha na Espinha e os
outros dragões ficaram bastante aborrecidos comigo por causa
disso. Mas tive muitos anos para aprender que perder a cabeça
raramente ajuda. você não tiveste, eu sei, mas deixa que a minha
experiência te guie em relação a isto. Esquece as tuas
preocupações e concentra-te apenas na tarefa que tens em mãos.
O futuro será o que tiver de ser. Torturares-te com isso apenas
contribuirá para que os teus receios se concretizem.
Eu sei, disse Eragon com um suspiro, mas não é fácil.
Claro que não. O que tem valor raramente é. Depois, Glaedr
recolheu-se, abandonando-o ao silêncio da sua própria mente.
Eragon foi buscar a tigela aos alforges, saltou por cima do
círculo de pedras e caminhou, descalço, até uma das poças de
água, por baixo da abertura no teto. Uma chuva miúda começara a
cair, cobrindo essa parte do chão com uma camada escorregadia
de água. Ele agachou-se junto da poça e começou a deitar água
para dentro da tigela, com as mãos.
Assim que a tigela ficou cheia, Eragon recuou uns passos,
poisou-a sobre um pedaço de pedra da altura de uma mesa,
fixando depois uma imagem de Roran na sua mente e disse:
— Draumr kópa. — A água dentro da tigela tremeluziu e uma
imagem de Roran surgiu sobre um fundo branco, imaculado.
Caminhava junto de Horst e Albriech, conduzindo o seu cavalo,
Snowfire. Os três homens pareciam cansados e com os pés
doridos, mas mantinham-se armados, o que lhe revelou que o
Império não os capturara.
Depois espiou Jörmundur, a seguir Solembum — que estava a
dilacerar um pisco acabado de matar — e finalmente, Arya, mas as
suas proteções esconderam-na; assim tudo o que viu foi escuridão.
Por fim, Eragon quebrou o feitiço e voltou a atirar a água para a
poça. Ao trepar pela barreira, em redor do acampamento, Saphira
espreguiçou-se e bocejou, arqueando o dorso como um gato, e
disse:
Como estão eles?
— Em segurança, tanto quanto me foi dado ver.
Guardou a tigela nos alforges, deitou-se sobre os cobertores,
fechou os olhos e retomou a reflexão acerca do seu verdadeiro
nome. De tantos em tantos minutos, ocorria-lhe uma nova
possibilidade, mas nenhuma parecia despertar-lhe nada
intimamente, por isso descartava-a e recomeçava tudo de novo.
Todos os nomes tinham algumas constantes: o fato de ser um
Cavaleiro; a sua afeição por Saphira e Arya; o seu desejo de
vencer Galbatorix; o seu relacionamento com Roran, Garrow e
Brom; e o fato de ser do mesmo sangue que Murtagh. Mas,
independente da forma como combinasse esses elementos, o nome
não lhe dizia nada. Era óbvio que se estava a esquecer de um
aspecto crucial de si mesmo, por isso continuou a construir nomes
cada vez mais longos, na esperança de tropeçar naquilo que estava
a deixar passar.
Quando começou a levar mais de um minuto a proferir os
nomes, percebeu que estava a perder o seu tempo. Teria de voltar
a examinar os pressupostos básicos. Estava convencido de que o
seu erro residia no fato de ignorar algum defeito, ou de não dar
importância suficiente a um defeito de que já estava consciente. As
pessoas que observara raramente se mostravam dispostas ao
reconhecer as suas imperfeições e ele sabia que o mesmo se
passava consigo. Teria de arranjar maneira de se curar dessa
cegueira, enquanto ainda havia tempo. Essa cegueira advinha do
orgulho e do instinto de auto-preservação, permitindo-lhe acreditar
no melhor de si, no seu quotidiano. Contudo, não podia dar-se ao
luxo de se entregar a essa auto-ilusão.
Por isso, pensou e voltou a pensar ao longo de todo o dia, mas
os seus esforços redundavam sempre no fracasso.
A chuva começou a ficar mais intensa. Eragon não gostava de a
ouvir tamborilar nas poças de água, porque esse ruído indefinido
tornava mais difícil ouvir alguém que tentasse apanhá-los de
surpresa. Desde a primeira noite em Vroengard que não havia
sinais das estranhas figuras encapuçadas que vira percorrer a
cidade, nem sentira qualquer vestígios das suas mentes. Contudo,
continuava consciente da sua presença e não podia deixar de
pensar que ele e Saphira poderiam ser atacados a qualquer
momento.
A luz cinzenta do dia depressa deu lugar ao crepúsculo e uma
noite cerrada, sem estrelas caiu sobre o vale. Eragon colocou mais
lenha na fogueira; era a única luz na casa de nidificação. O cacho
de chamas amarelas era como uma vela minúscula dentro daquele
enorme espaço repleto de ecos. Junto do fogo, o chão vidrado
refletia o brilho dos ramos em chamas, cintilando como um lençol
de gelo polido, e as lâminas coloridas no interior distraíam Eragon
das suas cogitações.
Não jantou. Tinha fome mas estava demasiado tenso para que a
comida lhe caísse bem. Além disso, achava que uma refeição lhe
iria abrandar o raciocínio. Era de barriga vazia que ele se sentia
mais perspicaz.
Decidiu que não voltaria a comer até saber o seu verdadeiro
nome ou até terem de abandonar a ilha, o que quer que
acontecesse primeiro.
Passaram algumas horas. Falaram pouco, ainda que, no geral,
Eragon estivesse consciente das oscilações de humor e dos
pensamentos de Saphira, tal como ela estava consciente dos seus.
Depois, quando ele estava prestes a mergulhar nas suas
divagações — não só para descansar, mas também na esperança de
que estas lhe dessem alguma perspetiva —, Saphira uivou, esticou a
pata direita e bateu com ela no chão. Vários ramos da fogueira
desfizeram-se em pedaços e desmoronaram, projetando uma
explosão de fagulhas em direção ao teto negro.
Alarmado, Eragon levantou-se bruscamente e desembainhou
Brisingr, esquadrinhando a escuridão para lá do semicírculo de
pedras, à procura de inimigos. Mas, pouco depois, percebeu que
Saphira não estava preocupada nem enraivecida, mas sim
triunfante.
Consegui!, exclamou ela, arqueando o pescoço e libertando um
jato de chamas azuis e amarelas em direção à zona mais alta do
edifício. Já sei o meu verdadeiro nome! Proferiu uma única frase na
língua antiga e esta pareceu ressoar como um sino na mente de
Eragon. As pontas das escamas de Saphira brilharam com uma luz
interior, como se ela fosse feita de estrelas.
O nome era majestoso, mas tinha igualmente uma nota de
tristeza, pois designava-a como a última fêmea da sua espécie.
Eragon conseguiu sentir o amor e a devoção que Saphira sentia por
ele, nas palavras, bem como todos os outros traços que
compunham a sua personalidade. Reconheceu a maior parte, mas
alguns não. Os seus defeitos estavam tão patentes como as suas
virtudes, mas a impressão geral era de fogo, beleza e esplendor.
Saphira estremeceu da ponta do focinho à ponta da cauda e
sacudiu as asas.
Eu sei quem sou, disse ela.
Bom trabalho, Bjartskular, disse Glaedr e Eragon sentiu que ele
estava bastante impressionado. Deves orgulhar-te do teu nome.
Contudo, eu não o diria de novo, até estarmos no ... no pináculo
que viemos visitar. Tens de tomar muito cuidado para manteres o
teu nome em segredo, agora que o conheces.
Saphira piscou os olhos e voltou a sacudir as asas.
Sim, Mestre. A excitação dentro dela era palpável.
Eragon embainhou Brisingr e aproximou-se. Ela baixou a cabeça
até esta ficar ao nível de Eragon. Ele acariciou-lhe as mandíbulas e
encostou a testa ao seu focinho rijo, abraçando-a com toda a força,
e sentiu as suas escamas aguçadas nos dedos. Lágrimas quentes
escorreram-lhe pelas faces.
Porque choras?, perguntou ela.
Porque... tenho a sorte de estar ligado a ti.
Pequenino.
Falaram durante mais algum tempo, pois Saphira estava ansiosa
por discutir o que aprendera acerca de si. Eragon gostou de a
ouvir, mas não pôde deixar de sentir uma certa amargura pelo fato
de ainda não ter conseguido adivinhar o seu verdadeiro nome.
Depois, Saphira enroscou-se ao lado do semicírculo e
adormeceu, deixando Eragon a meditar à luz do fogo mortiço da
fogueira. Glaedr manteve-se acordado e atento, e Eragon
consultava-o de vez em quando, mas manteve-se quase sempre
fechado em si.
As horas passavam e Eragon sentia-se cada vez mais frustrado.
O tempo estava a esgotar-se — o ideal seria ele e Saphira terem
partido para os Varden no dia anterior — contudo, por muito que
ele tentasse, parecia incapaz de se descrever como era.
Devia ser quase meia-noite, quando a chuva parou.
Eragon debatia-se, na tentativa de tomar uma decisão. Depois
levantou-se bruscamente, demasiado ansioso para continuar
sentado.
Vou dar uma volta, disse a Glaedr.
Esperava que o dragão se opusesse, mas em vez disso, o dragão
disse:
Deixa aqui as tuas armas e a tua armadura.
Porquê?
Seja o que for que encontres, terás de o enfrentar por ti. Não
podes saber do que és feito, se recorreres a alguém ou a algo para
te ajudar.
As palavras de Glaedr fizeram sentido, mas ainda assim Eragon
hesitou antes de desapertar a espada e a adaga, tirando a cota de
malha. Calçou as botas e colocou o manto húmido, depois arrastou
os alforges que continham o coração dos corações de Glaedr,
aproximando-os de Saphira.
Ao abandonar o semicírculo de pedras, Glaedr disse:
Faz o que tiveres de fazer, mas tem cuidado.
No exterior da casa de nidificação, Eragon ficou satisfeito ao
deparar-se com pedaços do céu estrelado e um luar
suficientemente intenso, por entre as nuvens, permitindo-lhe ver o
que o rodeava.
Saltou várias vezes, pensando para onde ir, e depois partiu num
passo acelerado, em direção ao coração da cidade em ruínas.
Segundos depois, a frustração tomou conta de si, pelo que ele
começou a correr a toda a velocidade.
Ao ouvir o ruído da sua respiração e dos seus passos nas pedras
do pavimento, perguntou-se:
“Quem sou eu?” Mas não obteve qualquer resposta.
Correu até os pulmões começarem a falhar. Correu um pouco
mais e, quando já nem os pulmões nem as pernas o sustinham,
parou junto de uma fonte afogada em ervas daninhas e apoiou-se
nos braços, encostado a ela, enquanto recuperava o fôlego.
Em seu redor erguiam-se as formas de diversos edifícios
enormes, silhuetas sombrias semelhantes a uma antiga cordilheira de
montanhas despedaçadas. A fonte ficava no meio de um amplo
pátio quadrado, grande parte do qual estava coberto de pedaços
partidos de pedra.
Afastou-se da fonte e virou-se lentamente em círculo. Conseguia
ouvir o coaxar grave e ressonante das rãs-touro, à distância, um
ruído estrondoso que se tornava particularmente intenso sempre
que as rãs maiores participavam.
Uma laje rachada, a alguns metros de distância, chamou a sua
atenção. Aproximou-se, agarrou-a pelas extremidades, erguendo-a
do chão com um puxão. Cambaleou para junto do pátio, com os
músculos dos braços a arder, e atirou a laje para cima da erva,
para lá daquele.
A laje aterrou com um ruído seco e suave, mas gratificante.
Regressou à fonte, desatou o manto e estendeu-o sobre o
rebordo da escultura. Depois encaminhou-se para o pedaço de
entulho mais próximo — uma pedra aguçada, em forma de cunha,
que se partira de um bloco maior —, metendo os dedos por baixo e
erguendo-o sobre o ombro.
Trabalhou durante mais de uma hora para desobstruir o pátio.
Alguns dos pedaços caídos de alvenaria eram tão grandes, que ele
teve de usar magia para os deslocar. Mas, de uma forma geral
conseguiu fazê-lo com as mãos. Trabalhou metodicamente,
transportando os blocos de um lado para o outro e parando para
remover cada pedaço de entulho que encontrava, por muito grande
ou pequeno que fosse.
Passado pouco tempo estava encharcado em suor devido ao
esforço. Teria tirado a túnica, mas as arestas da pedra eram
normalmente aguçadas e ter-se-ia cortado. Mesmo assim, fez uma
série de nódoas negras no peito e nos ombros, arranhando as mãos
em inúmeros sítios.
O esforço ajudou-o a acalmar e, como não exigia grande
concentração, permitiu-lhe ponderar livremente em tudo o que era
e em tudo o que poderia vir a ser.
A meio da tarefa que incumbira a si mesmo, descansando um
pouco depois de deslocar um pedaço particularmente pesado de
uma cornija, ouviu um silvo ameaçador e olhou para cima. Viu um
snalgí, com uma casca de quase dois metros de altura, que
deslizava da escuridão, a uma velocidade assustadora. O pescoço
invertebrado da criatura estava totalmente esticado, a boca sem
lábios parecia uma fenda de escuridão a dividir-lhe a carne mole, e
os olhos bulbosos estavam apontados para ele. À luz da lua, a
carne exposta do snalglí brilhava como prata, tal como o rasto de
baba que a criatura deixava atrás de si.
— Letta — disse Eragon, endireitando-se e sacudindo gotas de
sangue das mãos arranhadas. — Ono ach néiat threyja eom
verunsmal edtha, oh snalglí.
Ao proferir a sua advertência, o caracol abrandou e recolheu os
olhos alguns centímetros. Parou a alguns metros de distância e
voltou a silvar, começando a contorná-lo pela esquerda.
— Ah isso é que não — murmurou Eragon, virando-se também e
olhando por cima do ombro para ter a certeza de que nenhum
outro snalglí se aproximava por trás.
O caracol gigante pareceu perceber que não o poderia apanhar
de surpresa, pois parou e silvou, sacudindo os olhos.
— Pareces uma chaleira abandonada ao lume — disse-lhe.
O snalglí sacudiu os olhos mais depressa e depois avançou na
sua direção, ondulando as pregas da barriga plana.
Eragon esperou até ao último momento e depois saltou para o
lado, deixando que o caracol passasse por si. Deu uma gargalhada
e bateu-lhe na parte de trás da casca.
— Não és muito esperto, pois não? — Desviou-se da criatura e
começou a provocá-la na língua antiga, insultando-a de todas as
formas, mas utilizando nomes perfeitamente corretos.
O caracol parecia bufar de raiva. O seu pescoço engrossou e
inchou, abriu mais a boca, e começou a cuspir e a bufar.
Tentou atacar Eragon várias vezes, mas ele desviava-se sempre.
Por fim, o snalglí cansou-se do jogo, recuou alguns metros e ficou a
observá-lo, com os olhos do tamanho de um punho.
— Como é possível que apanhes alguma coisa, se és tão lento? —
perguntou Eragon num tom zombeteiro, deitando-lhe a língua de
fora.O snalglí bufou mais uma vez, mas depois virou-se e deslizou
para a escuridão.
Eragon esperou alguns minutos para ter a certeza de que ele se
fora embora, antes de recomeçar a eliminar entulho.
— Talvez me pudesse chamar simplesmente Vencedor de
Caracóis — murmurou, enquanto empurrava uma secção de uma
coluna, ao longo do pátio. — Eragon Matador de Espectros,
Vencedor de Caracóis... Despertaria o pavor no coração dos
homens, onde quer que fosse.
Era já noite avançada quando Eragon largou o último pedaço de
pedra na fronteira de erva que delimitava o pátio, parando aí,
ofegante. Sentia-se gelado, esfomeado e exausto, e os arranhões
nas mãos e nos pulsos ardiam-lhe.
Acabara no canto norte do pátio. Mais a norte havia um enorme
palácio que fora quase totalmente destruído durante a batalha.
Tudo o que restava de pé era uma parte das paredes traseiras e
uma única coluna coberta de heras, onde outrora ficava a entrada.
Olhou demoradamente para a coluna. Um aglomerado de
estrelas — vermelhas, azuis e brancas — brilhava por cima da coluna,
através de um intervalo nas nuvens, como diamantes facetados.
Sentiu-se estranhamente atraído por elas, como se o seu
aparecimento significasse algo que deveria saber.
Encaminhou-se para a base da coluna, sem sequer se dar ao
trabalho de pensar no que estava a fazer. Trepou por cima de
pilhas de destroços, subindo o mais alto possível, e agarrou-se à
parte mais grossa da hera: um caule do diâmetro do seu antebraço,
coberto de milhares de pelos minúsculos.
Deu um puxão à trepadeira e esta manteve-se firme, por isso
saltou do chão e começou a trepar. Colocando uma mão à frente
da outra, escalou a coluna que devia ter uns noventa metros de
altura, mas que entretanto começou a parecer-lhe mais alta à
medida que se distanciava do chão.
Sabia que estava a ser imprudente, mas era assim que ele se
sentia.
A meio do caminho, os filamentos mais finos da trepadeira
começaram a desprender-se da pedra, à medida que assentava o
peso do corpo sobre ela. Depois teve o cuidado de se agarrar
apenas ao caule principal e a alguns dos ramos laterais mais
grossos.
As suas mãos estavam quase a escorregar quando alcançou o
topo. A coroa da coluna ainda estava intacta e formava um
quadrado, com uma superfície plana suficientemente larga para se
sentar em cima dela, deixando ainda um espaço de trinta
centímetros de cada lado.
Um pouco trémulo do esforço, Eragon cruzou as pernas e
descansou as palmas das mãos virando-as para cima, sobre os
joelhos, e deixou que o ar lhe aliviasse as dores na pele arranhada.
Por baixo dele ficava a cidade em ruínas: um labirinto de
estruturas despedaçadas, onde frequentemente ecoavam estranhos
gritos de desamparo. Em alguns dos locais onde havia lagos, ele
conseguia distinguir as luzes ténues e fluorescentes dos chamarizes
das rãs-touro, como lanternas vistas a uma grande distância.
“Rãs pescadoras”, pensou ele, de repente na língua antiga. “É
esse o seu nome: rãs pescadoras.” E Eragon sabia que tinha razão,
pois as palavras pareciam servir-lhes como uma luva.
Depois desviou o olhar para o aglomerado de estrelas que
inspirara a sua escalada. Abrandou a respiração e concentrou-se
nele, tentando manter um fluxo constante de ar a entrar e a sair dos
pulmões. O frio, a fome e os tremores provocados pela exaustão
deram-lhe uma clareza peculiar. Parecia flutuar separado do seu
próprio corpo, como se o laço que existia entre a sua consciência e
a sua carne se tivesse acentuado, e a consciência que tinha da
cidade e da ilha em seu redor pareceu ampliar-se. Estava altamente
sensível a todos os movimentos do vento, bem como a todos os
sons e cheiros que flutuavam no topo do pilar.
Enquanto estava ali sentado, pensou em mais nomes e, embora
nenhum o descrevesse por completo, os fracassos não o
incomodaram, pois a clareza que sentia estava demasiado enraizada
para que alguma contrariedade perturbasse a sua paz de espírito.
“Como poderei incluir tudo o que sou em apenas algumas
palavras?”, perguntou-se a si mesmo, continuando a ponderar na
questão com a rotação das estrelas.
Três espetros deformados voaram ao longo da cidade — na
realidade, pareciam pequenas fendas móveis —, aterrando no
telhado do edifício, à sua esquerda. As silhuetas escuras, em forma
de coruja, enfunaram as plumas pontiagudas e observaram-no com
os seus olhos luminosos, aparentemente maléficos. Os espetros
tagarelaram baixinho uns com os outros, e dois deles coçaram as
asas vazias com garras sem profundidade. O terceiro segurava os
restos de uma rã-touro entre as garras cor de ébano.
Eragon observou as ameaçadoras aves durante alguns minutos e
elas observaram-no a ele. Depois levantaram voo e desapareceram
a oeste, como fantasmas, silenciosas como uma pena.
Perto do nascer do sol, ao distinguir a estrela da manhã entre
dois picos, a Este, Eragon perguntou a si mesmo:
— O que quero eu?
Até então não se dera ao trabalho de pensar nisso. Queria
derrotar Galbatorix: isso era óbvio. Mas, se fossem bemsucedidos,
o que faria depois? Desde que partira do Vale de
Palancar que achava que ele e Saphira voltariam lá um dia, para
viverem junto das montanhas que ele tanto amava. Contudo, ao
ponderar essa possibilidade, Eragon apercebeu-se lentamente de
que a ideia já não o atraía.
Crescera no Vale de Palancar e considerá-lo-ia sempre a sua
casa. Mas o que haveria lá para ele e para Saphira? Carvahall
estava destruída e, mesmo que os aldeões a reconstruíssem um dia,
a aldeia nunca mais seria a mesma. Além disso, a maior parte dos
amigos que ele e Saphira tinham feito, viviam noutros locais, além
de que ambos tinham obrigações para com as diferentes raças de
Alagaësia — obrigações que não podiam ignorar. Depois de tudo o
que tinham feito e visto, não imaginava que algum se contentasse
em viver num local tão vulgar e isolado.
Porque o céu é oco e o mundo é redondo...
Mesmo que voltassem, o que fariam? Criariam vacas e
cultivariam trigo? Não tinha qualquer desejo de suar as estopinhas
para viver da terra, como a família fizera durante a sua infância. Ele
e Saphira eram Cavaleiro e dragão. O seu fado era voar na
vanguarda da História e não ficarem ambos sentados à lareira a
engordar e a preguiçar.
E, depois, havia Arya. Se ele e Saphira fossem viver para o Vale
de Palancar, ele raramente a iria ver.
— Não — disse Eragon e a palavra foi como um golpe de martelo
no silêncio. — Eu não quero voltar.
Um formigueiro gelado percorreu-lhe a espinha. Ele sabia que
tinha mudado desde que partira com Brom e Saphira à procura dos
Ra’zac. No entanto, agarrara-se à ideia de que, no seu íntimo,
ainda era a mesma pessoa. Agora percebia que isso já não
correspondia à verdade. O rapaz que fora, quando saíra do Vale
de Palancar, já nem sequer existia. Eragon não se parecia com ele,
não agia como ele e já não queria o mesmo da vida.
Respirou fundo e suspirou tremulamente ao compenetrar-se da
verdade.
— Eu já não sou quem era. — Dizê-lo em voz alta, deu algum
peso à ideia.
Depois, quando os primeiros raios do amanhecer iluminaram o
céu, a Este, sobre a ilha ancestral de Vroengard, onde os
Cavaleiros e os dragões outrora viviam, Eragon pensou num nome
— um nome em que não tinha pensado antes — e, ao fazê-lo, foi
invadido por uma sensação de certeza.
Disse o nome, sussurrou-o para si nos recantos mais remotos da
sua mente e todo o seu corpo pareceu vibrar, como se Saphira
tivesse batido na coluna, lá em baixo.
Depois arfou e deu consigo a rir e a chorar ao mesmo tempo — a
rir por ter conseguido, pela satisfação absoluta da compreensão, e
a chorar porque todos os seus fracassos, todos os erros que tinha
cometido lhe pareciam agora óbvios e já não tinha ilusões que o
consolassem.
— Eu já não sou quem era — sussurrou Eragon, agarrando-se à
beira da coluna —, mas sei quem sou.
O seu nome, o seu verdadeiro nome era mais fraco e mais
imperfeito do que gostaria que fosse, pelo que odiou sentir isso.
Mas havia também muito de admirável nele, e quanto mais pensava
no assunto, mais fácil lhe era aceitar a verdadeira natureza do seu
eu. Não era a melhor pessoa do mundo, mas também não era a
pior.
— E não vou desistir — resmungou Eragon.
Consolou-se com o fato de que a sua identidade não era
imutável e que poderia melhorar se quisesse. E, nesse preciso
momento, jurou para si mesmo que faria melhor no futuro, por
muito difícil que fosse.
Ainda a rir e a chorar, Eragon virou o rosto em direção ao céu e
abriu os braços. A seu tempo, as lágrimas e as gargalhadas
cessaram, dando lugar a uma profunda sensação de paz, matizada
de felicidade e resignação. Apesar da advertência de Glaedr, voltou
a sussurrar o seu verdadeiro nome e todo o seu ser voltou a
estremecer com a força das palavras.
Ergueu-se no topo da coluna, de braços abertos, e inclinou-se
para a frente deixando-se cair de cabeça, em direção do chão.
Mesmo antes de bater no chão, disse:
— Vëoht — e abrandou, girou, aterrando sobre a pedra rachada,
tão suavemente como se estivesse a sair de uma carruagem.
Regressou à fonte, ao centro do pátio, e recolheu o manto.
Depois, à medida que a luz se espalhava pela cidade em ruínas,
Eragon regressava apressadamente à casa de nidificação, ansioso
para acordar Saphira, revelando a sua descoberta a ela e a Glaedr.

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