3 de junho de 2017

Capítulo 53 - Grevas e braçais

Uma única vela estava acesa no interior da tenda de lã cinzenta, uma pobre substituta para o brilho do sol.
Roran estava com os braços estendidos enquanto Katrina atava os lados do gibão acolchoado que havia feito para ele. Quando terminou, ela puxou a borda do gibão, alisando os vincos.
— Pronto. Está muito apertado?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
Ela retirou as grevas do catre que compartilhavam e se ajoelhou diante dele em meio à luz tremeluzente da vela. Roran observou quando ela afivelou as grevas na parte de baixo de suas pernas. Pegou com a mão a curva da panturrilha enquanto prendia a segunda peça da armadura, sua pele quente contra a dele através do tecido das calças. Levantando-se, ela voltou-se para o catre novamente e pegou os braçais.
Roran estendeu os braços na sua direção e a mirou nos olhos, no exato instante em que ela mirava os seus. Com movimentos lentos e pensados, ela apertou os braçais nos antebraços dele, e então deslizou suas mãos da parte interna do cotovelo até o pulso, onde ele juntou as mãos dela com a suas. Ela sorriu e livrou-se do delicado aperto.
Perto do catre, ela pegou a camisa. Ficou na ponta dos pés, colocou a cota de malha sobre a cabeça de Roran e ficou segurando enquanto ele ajustava os braços nas mangas. A malha brilhou como gelo quando ela a soltou, descaindo sobre os ombros e se desfraldando de tal modo que a bainha ficou nivelada com os joelhos. Sobre a cabeça de Roran, Katrina colocou a boina de couro, amarrando-a firmemente com um nó sob o queixo. Ela segurou o rosto do marido entre as mãos por um momento e então o beijou uma vez nos lábios e pegou o elmo, que cuidadosamente deslizou por sobre a boina.
Roran deslizou seu braço em volta da cintura larga da mulher, interrompendo seu movimento de volta para o catre.
— Ouça-me — pediu ele. — Estarei bem. — E tentou transmitir todo o seu amor por ela no tom de sua voz e na força de seu olhar. — Não fique aqui sentada, sozinha, o tempo todo. Prometa-me isso. Vá se encontrar com Elain, ela pode estar precisando de sua ajuda. Está doente, e sua criança está quase nascendo.
Katrina ergueu o queixo, seus olhos brilhando com lágrimas que ele sabia que ela não choraria até que ele tivesse partido.
— Você precisava marchar na linha de frente? — sussurrou ela.
— Alguém precisa, e pode muito bem ser eu. Quem você mandaria em meu lugar?
— Qualquer pessoa... qualquer uma mesmo. — Katrina baixou os olhos e ficou em silêncio algum tempo, então, removeu um lenço vermelho de seu corpete e disse: — Aqui, leve essa lembrança minha, de modo que o mundo todo possa saber o quanto eu me orgulho de você. — E ela amarrou o lenço no cinto da espada do marido.
Roran a beijou duas vezes e a soltou. Ela pegou seu escudo e sua lança no catre. Ele a beijou uma terceira vez enquanto pegava as armas de sua mão, e então encaixou o braço na correia do escudo.
— Se alguma acontecer comigo... — começou ele a dizer.
Katrina colocou um dedo sobre os lábios dele.
— Shh. Não fale sobre isso, senão acontece.
— Muito bem. — Ele a abraçou uma última vez. — Fique em segurança.
— Você também.
Embora odiasse deixá-la, Roran ergueu seu escudo e saiu às pressas da tenda na tênue luminosidade do amanhecer. Homens, anões e Urgals atravessavam o acampamento como uma enxurrada para oeste, na direção do local onde os Varden estavam reunidos.
Roran encheu os pulmões com o ar frio da manhã e então seguiu em frente, ciente de que seu grupo de guerreiros estaria esperando por ele. Assim que chegou ao campo, procurou a divisão de Jörmundur e, após se apresentar a ele, seguiu para a dianteira do grupo, onde escolheu ficar ao lado de Yarbog. O Urgal olhou para ele e rosnou:
— Um bom dia para uma batalha.
— Um bom dia.
Uma corneta soou na vanguarda dos Varden assim que o sol rompeu no horizonte. Roran ergueu a lança e começou a correr, como todos os outros à sua volta, uivando a plenos pulmões à medida que flechas choviam sobre eles e pedras zuniam sobre suas cabeças, voando em todas as direções. À sua frente, avultava um muro de pedra de vinte e quatro metros de altura.
O sítio a Feinster havia começado.

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Boa leitura :)