3 de junho de 2017

Capítulo 52 - Um Cavaleiro completo

Acorde, pequenino, chamou Saphira. O sol nasceu e Rhunön está impaciente.
Eragon deu um salto, livrando-se do cobertor tão facilmente quanto de seu sonhar acordado. Seus braços e ombros estavam doloridos devido ao esforço do dia anterior. Calçou as botas, se atrapalhando com o cadarço em meio ao entusiasmo. Pegou no chão seu avental encardido e desceu às pressas as elaboradas escadas entalhadas até a entrada da casa curvada de Rhunön.
Lá fora, o céu brilhava com os primeiros raios de luz da manhã, embora o átrio ainda estivesse envolvido pela sombra. Eragon avistou Rhunön e Saphira na forja sem paredes e apressou-se em sua direção, arrumando os cabelos com os dedos.
Rhunön estava encostada na beira da bancada. Tinha olheiras escurecidas, e as rugas em seu rosto estavam mais pesadas do que antes. A espada estava diante dela, oculta embaixo de um pano branco.
— Fiz o impossível — comentou ela, as palavras roucas e entrecortadas. — Fiz uma espada tendo jurado não fazê-la. E ainda mais, a fiz em menos de um dia e com mãos que não eram as minhas. Contudo, a espada não é tosca ou de má qualidade. Não! É a melhor espada que já forjei até hoje. Teria preferido usar menos magia durante o processo, mas esse é o meu único remorso e é bem pequeno comparado à perfeição do resultado. Veja!
Rhunön segurou a ponta do pano e o puxou para o lado, revelando a espada. Eragon ficou sem ar.
Ele havia imaginado que, durante as horas após tê-la deixado, Rhunön feria tempo suficiente apenas para fabricar um cabo simples e uma guarda para a espada, e quem sabe uma bainha de madeira igualmente simples. Ao contrário de suas expectativas, a espada que Eragon via sobre a bancada era tão magnífica quanto Zar’roc, Naegling e Támerlein e, em sua opinião, mais bela do que todas. Uma lustrosa bainha de um azul-escuro igual ao das escamas das costas de Saphira cobria a lâmina. A cor projetava uma leve diversidade, como a luz pontilhada na base da fonte límpida de uma floresta. Um pedaço de aço de luz azulado entalhado no formato de uma folha cobria a extremidade da bainha, ao passo que um colarinho decorado com vinhas estilizadas circundava a abertura. A proteção do punho também era feita do aço azulado, assim como as quatro arestas que sustentavam a grande safira que formava o botão do punho da espada. O cabo de um palmo e meio de comprimento era feito de madeira negra e dura.
Acometido por uma sensação de reverência, Eragon aproximou-se da espada, parou e olhou de relance para Rhunön.
— Posso?
Ela inclinou a cabeça.
— Pode. A ti a entrego, Matador de Espectros.
Eragon ergueu a espada da bancada. A bainha e a madeira do cabo estavam frias ao toque. Por vários minutos, maravilhou-se com os detalhes da bainha, da guarda e do botão do cabo. Então, apertou com mais força o cabo e desembainhou a lâmina.
Como o restante da espada, a lâmina era azul, mas com uma tonalidade mais leve. Mais parecida com o azul das escamas na altura do pescoço de Saphira do que com as das costas. E, assim como Zar’roc, a cor era iridescente. À medida que Eragon movia a espada no ar, a cor tremeluzia e variava de tom, projetando todas as tonalidades de azul encontradas em Saphira. Em meio à explosão colorida, o padrão estriado do aço de luz e as tiras esbranquiçadas ao longo do fio ainda eram visíveis. Com apenas uma das mãos, Eragon brandiu a espada no ar, e riu da sensação de leveza e velocidade proporcionada por ela. A arma parecia quase estar viva. Então, agarrou-a com as duas mãos e ficou deliciado ao descobrir que se encaixavam perfeitamente no cabo. Deu uma estocada para a frente, golpeando um inimigo imaginário, e ficou confiante de que morreriam com o ataque.
— Aqui — disse Rhunön, e apontou para o feixe de três hastes de ferro enfiadas no chão do lado de fora da forja. — Faça uma tentativa nelas.
Eragon se permitiu um instante para focalizar seus pensamentos e então deu um único passo na direção das hastes. Com um grito, golpeou para baixo e cortou as três vigas de metal. A lâmina emitiu uma única nota pura que lentamente desvaneceu no silêncio.
Quando examinou a posição do fio onde golpeara o ferro, Eragon constatou que o impacto não causara o menor estrago.
— Está bem satisfeito, Cavaleiro de Dragão? — perguntou Rhunön.
— Mais do que satisfeito, Rhunön-elda — respondeu Eragon, e lhe fez uma mesura. — Não sei como agradecer-lhe por um presente de tal magnitude.
— Pode me agradecer matando Galbatorix. Se existe alguma espada destinada a acabar com a vida daquele rei louco, é essa aqui.
— Vou me esforçar ao máximo, Rhunön-elda.
A elfa assentiu, parecendo satisfeita.
— Bem, você finalmente possui sua própria espada, que é como deveria ser. Agora você é um verdadeiro Cavaleiro de Dragão!
— Sim — concordou Eragon, e ergueu a espada em direção ao céu, admirando-a. — Agora sou um verdadeiro Cavaleiro.
— Antes de sair, ainda há uma coisa para você fazer — observou Rhunön.
— Sim?
Ela estalou um dedo na direção da espada.
— Você deve nomeá-la para que eu possa gravar o símbolo apropriado na lâmina e na bainha.
Eragon caminhou na direção de Saphira e perguntou: O que você acha?
Não sou eu quem vai carregar a lâmina. Dê o nome que melhor lhe convier.
Sim, mas você deve ter algumas ideias!
Ela abaixou a cabeça em sua direção e cheirou a espada. Então disse: Dente-gema-azul é como eu a chamaria. Ou Garra-azul-vermelha.
Isso pareceria ridículo aos humanos.
Então, que tal Arrebatadora ou Estripadora? Ou quem sabe Garra de Batalha ou Espinho Brilhante ou Desmembradora? Você poderia chamá-la de Terror, Dor, Quebra-braços, Sempre-afiada ou Escama-ondulada: isso por causa das linhas no aço. Também poderia ser Língua da Morte, Aço-elfo ou Metal Estelar, ou ainda muitos outros nomes.
Seu súbito extravasamento surpreendeu Eragon. Você tem talento para isso, ele comentou.
Inventar nomes ao acaso é fácil. Inventar o nome certo, contudo, pode testar até a paciência de um elfo.
Que tal Matadora de Rei?, ele sugeriu.
E se matarmos realmente Galbatorix? E então? Você não fará mais nada importante com a espada?
Hum. Colocando a espada ao longo da perna dianteira esquerda de Saphira, Eragon disse: Ela é exatamente da mesma cor que você... Eu poderia nomeá-la em sua homenagem.
Um grunhido baixo soou no peito de Saphira. Não.
Ele tentou conter um sorriso. Tem certeza? Imagine se estivéssemos em combate e...
Ela enterrou as garras no chão.
Não. Eu não sou uma coisa para você brandir e se divertir.
Não, você tem razão. Sinto muito... Bem, e se a chamasse de Esperança na língua antiga? Zar’roc significa “desgraça”. Não seria apropriado eu empunhar uma espada cujo próprio nome se contrapusesse à desgraça?
Um sentimento nobre, disse Saphira. Mas você realmente deseja dar esperança aos seus inimigos? Você deseja golpear Galbatorix com esperança?
Esse é um jogo de palavras divertido, ele disse, rindo.
Talvez tenha sido, mas não é mais.
Travado, Eragon fez uma careta e esfregou o queixo, estudando o jogo de luz ao longo da lâmina cintilante. À medida que mirava a profundidade do metal, seus olhos vislumbraram, por acaso, um desenho em forma de chama que marcava a transição entre o aço mais macio da parte central e o das extremidades, e se lembrou da palavra que Brom usara para acender seu cachimbo durante a lembrança que Saphira compartilhara com ele. Então, Eragon pensou em Yazuac, onde usara magia pela primeira vez, e também em seu duelo com Durza em Farthen Dûr, e, naquele instante, percebeu sem dúvida nenhuma que encontrara o nome certo para sua espada.
Eragon consultou Saphira, e quando ela concordou com a escolha, ele ergueu a arma até a altura do ombro e disse:
— Estou decidido. Eu a nomeio Brisingr!
E com um som parecido com uma ventania, a lâmina pegou fogo, um invólucro de chamas azul-safira lambia a lâmina de aço afiada. Proferindo um grito sobressaltado, Eragon soltou a espada e saltou para trás, com medo de se queimar.
A lâmina continuava flamejando no chão, as chamas translúcidas calcinando a grama ao seu redor. Então percebeu que era ele que estava alimentando a energia para manter o fogo sobrenatural. Rapidamente encerrou a magia, e o fogo desapareceu da espada. Confuso por haver lançado um encanto sem ter a intenção, pegou a espada novamente e tocou a lâmina com a ponta do dedo. Não estava mais quente do que antes.
Com uma expressão raivosa, Rhunön se aproximou, arrancou a espada de Eragon e examinou-a da ponta até o botão do cabo.
— Você teve sorte por eu já tê-la protegido contra calor e estragos. Do contrário, você teria arranhado a proteção e destruído a tempera do metal. Não jogue a espada no chão novamente, Matador de Espectros, mesmo que ela vire uma cobra, ou a pegarei de volta e lhe darei em troca um martelo velho.
Eragon desculpou-se. E, parecendo de alguma forma mais tranquila, Rhunön devolveu-lhe a espada.
— Você lhe pôs fogo propositalmente? — quis saber ela.
— Não — respondeu Eragon, incapaz de explicar o que havia ocorrido.
— Diga novamente — ordenou Rhunön.
— O quê?
— O nome, o nome. Diga novamente.
Segurando a espada o mais distante possível de si, Eragon exclamou:
— Brisingr!
Uma coluna de chamas tremeluzentes engolfou a lâmina da espada, o calor aquecendo o rosto de Eragon. Dessa vez, ele notou uma leve perda de força devido ao encanto.
Depois de alguns instantes, extinguiu o fogo sem fumaça. Mais uma vez, Eragon exclamou:
— Brisingr! — E mais uma vez a lâmina tremeluziu com línguas de chama azuladas que mais pareciam fantasmas.
Agora existe uma espada compatível com Cavaleiro e dragão!, disse Saphira, deliciando-se com as palavras. Solta fogo como eu.
Mas eu não estava tentando lançar um encanto! — protestou Eragon. — Tudo o que fiz foi dizer Brisingr e... — gritou e praguejou quando a espada novamente pegou fogo, que ele apagou pela quarta vez.
— Posso? — perguntou Rhunön, estendendo uma das mãos na direção de Eragon. Ele entregou-lhe a espada, e ela também, disse: — Brisingr! — Um tremor pareceu percorrer a lâmina. Mas, fora isso, permaneceu inanimada. Com a expressão contemplativa, Rhunön devolveu a espada a Eragon. — Imagino duas explicações para esse fenômeno. A primeira é que, ao se envolver na forja, você introjetou na lâmina uma porção de sua personalidade. Dessa forma, ela ficou em sintonia com seus desejos. Minha outra explicação é que você descobriu o nome verdadeiro da espada. Talvez ambas as coisas tenham ocorrido. De qualquer maneira, você escolheu bem, Matador de Espectros. Brisingr! Sim, eu gosto. É um bom nome para uma espada.
Um ótimo nome, Saphira concordou.
Então, Rhunön colocou sua mão sobre o meio da lâmina de Brisingr e murmurou um encanto inaudível. O símbolo élfico para fogo apareceu sobre os dois lados da lâmina. Ela fez o mesmo com a frente da bainha.
Novamente, Eragon fez uma mesura para a elfa, e tanto ele quanto Saphira expressaram sua gratidão com ela. Um sorriso apareceu no rosto envelhecido de Rhunön, e ela tocou as testas dos dois com seu polegar caloso.
— Estou feliz por ter sido capaz de ajudar os Cavaleiros mais essa vez. Vá, Matador de Espectros. Vá, Escamas Brilhantes. Retornem aos Varden, e que seus inimigos fujam de medo quando virem a espada que você agora possui.
Então, Eragon e Saphira se despediram dela e juntos saíram da casa de Rhunön. Eragon segurando Brisingr nos braços como se fosse um bebê recém-nascido.

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