24 de junho de 2017

Capítulo 51 - Pedra de Kuthian

A
caminhada até ao pomar pareceu-lhes mais curta do que no dia
anterior. As árvores nodosas apresentavam-se mais sinistras do
que nunca e Eragon manteve a mão no punho de Brisingr
enquanto permaneceram no aglomerado de árvores.
Tal como anteriormente, ele e Saphira pararam junto do
emaranhado de vegetação da clareira, em frente ao Rochedo de
Kuthian. Um bando de corvos que estava empoleirado no grosseiro
rochedo, levantou voo grasnando ao ver Saphira — o que lhe
pareceu o pior dos presságios.
Durante meia hora, Eragon manteve-se onde estava, lançando
feitiço atrás de feitiço, em busca de qualquer tipo de magia que
pudesse molestá-lo a ele a Saphira ou a Glaedr. Ele descobriu uma
série de encantamentos por toda a clareira, no Rochedo de Kuthian
e — tanto quanto lhe era dado a entender — no resto da ilha. Alguns
dos feitiços enraizados nas profundezas da terra tinham tanto poder
que era como se tivesse um grande rio de energia a fluir debaixo
dos pés. Outros eram insignificantes e aparentemente inócuos,
afetando uma flor ou um ramo de árvore. Mais de metade dos
encantamentos estavam latentes — ou porque não tinham energia ou
porque já não havia objeto sobre o qual atuar, ou aguardavam que
um determinado conjunto de circunstâncias se conjugasse — e
alguns dos feitiços pareciam antagónicos, como se o propósito dos
Cavaleiros, ou de quem os lançara, fosse modificar ou contrariar
feitiços anteriores.
Eragon não conseguiu determinar o propósito da maioria dos
feitiços, pois não havia qualquer registo das palavras utilizadas para
os lançar, apenas estruturas de energia cuidadosamente criadas por
feiticeiros, há muito desaparecidos, e essas estruturas eram difíceis,
senão impossíveis de interpretar. Glaedr ajudou, pois conhecia
muitos dos feitiços mais antigos e mais significativos lançados em
Vroengard, de resto Eragon teve de se basear em suposições.
Felizmente, embora nem sempre conseguisse perceber que efeito
um determinado feitiço produziria, ele fora capaz de definir se este
o iria afetar a ele, Saphira ou Glaedr. Contudo, era um processo
complicado e que exigia encantamentos complexos, pelo que ele
demorou mais de uma hora a examinar todos os feitiços.
O que mais o preocupava — a ele e a Glaedr — eram os feitiços
que não tinham conseguido detetar. Descobrir encantamentos de
outros feiticeiros revelar-se-ia uma tarefa muito mais difícil se estes
tivessem tentado ocultar o seu trabalho.
Finalmente, quando Eragon se certificou de que já não havia
armadilhas em torno do Rochedo de Kuthian, ele e Saphira
atravessaram a clareira até à base do pináculo escarpado, coberto
de líquens.
Eragon inclinou a cabeça para trás e observou o topo da
formação. Parecia incrivelmente distante, mas nem ele nem Saphira
viram nada de invulgar na pedra.
Vamos dizer os nossos nomes e resolver este assunto, sugeriu
ele.
Eragon interrogou Glaedr e o dragão respondeu:
Não há qualquer motivo para adiar. Digam ambos o vosso nome
que eu farei o mesmo.
Nervoso, Eragon fechou as mãos duas vezes, tirou o escudo das
costas, desembainhou Brisingr e agachou-se:
— O meu nome — disse, num tom sonoro e claro — é Eragon
Matador de Espectros, filho de Brom.
O meu nome é Saphira Bjartskular, filha de Vervada.
E o meu é Glaedr Eldunarí, filho de Nithring da cauda longa.
E aguardaram.
Os corvos grasnaram à distância, como se desdenhassem deles.
A inquietação redemoinhava dentro de Eragon, mas ele ignorou-a,
pois não esperava que fosse fácil abrir o cofre.
Tenta de novo, mas desta vez diz a tua parte na língua antiga,
sugeriu Glaedr.
E Eragon disse:
— Nam iet er Eragon Sundavar-Vergandí, sönr abr Brom.
Depois Saphira repetiu o seu nome e a linhagem na língua antiga,
tal como Glaedr.
Mais uma vez, nada aconteceu.
A inquietação de Eragon acentuou-se. “Se aquela viagem tivesse
sido em vão...” Não, não havia motivo para ele pensar isso, por
enquanto não.
Talvez todos os nossos nomes tenham de ser proferidos em voz
alta, disse ele.
Como?, perguntou Saphira. Tenho de rugir para a pedra? E
Glaedr?
Eu posso dizer os vossos nomes, disse Eragon.
Não me parece que seja isso, mas podemos tentar, disse
Glaedr.
Nesta língua ou na língua antiga?
Na língua antiga, suponho, mas tenta em ambas para jogarmos
pelo seguro.
Eragon recitou os seus nomes duas vezes, mas a pedra
continuou imperturbável e imutável. Frustrado, Eragon acabou por
dizer:
Talvez estejamos no sítio errado; talvez a entrada para o Cofre
das Almas seja do outro lado da pedra ou no topo.
Se assim fosse não achas que as instruções do Domia abr
Wyrda o diriam?, perguntou Glaedr.
Eragon baixou o escudo.
Haverá algum enigma fácil de entender?
E se só você tiveres de dizer o teu nome?, disse Saphira a Eragon.
Solembum não disse... “quando tudo parecer perdido e o teu
poder for insuficiente, vai ao Rochedo de Kuthian e diz o teu nome
para abrires o Cofre das Almas”. O teu nome, Eragon, não o meu
ou o de Glaedr.
Eragon franziu a sobrancelha.
É possível, mas se apenas o meu nome for necessário, talvez eu
tenha de estar sozinho quando o proferir.
Saphira rosnou e saltou para o ar, despenteando Eragon e
fustigando as plantas da clareira com o vento das suas asas.
Então experimenta e sê rápido!, disse ela, voando para Este e
afastando-se do rochedo.
Quando Saphira estava a uns quatrocentos metros, Eragon
voltou a olhar para a face irregular do rochedo, erguendo mais uma
vez o escudo e voltando a dizer o seu nome, primeiro na sua
própria língua e depois na língua dos Elfos.
Nenhuma porta ou entrada se revelou. Nenhuma brecha ou
fissura surgiu na pedra. Nenhum símbolo emergia à superfície. O
gigantesco pináculo parecia não passar uma peça maciça de
granito, sem qualquer segredo.
Saphira!, gritou Eragon, mentalmente. Depois praguejou e
começou a andar de um lado para o outro na clareira, dando
pontapés nas pedras e nos ramos soltos.
Saphira voou para a clareira e ele voltou para a base do
rochedo. As garras das patas traseiras abriram sulcos profundos na
terra mole, ao aterrar, e ela bateu as asas no sentido inverso para
abrandar e parar. Folhas e ervas rodopiavam em torno de Saphira,
como que apanhadas num redemoinho.
Assim que ela aterrou sobre as quatro patas e recolheu as asas,
Glaedr disse:
Suponho que não tenhas sido bem-sucedido.
Não, disse Eragon, bruscamente, olhando furioso para o
pináculo.
O velho dragão pareceu suspirar.
Eu já receava isto. Só há uma explicação...
Que Solembum nos tivesse mentido? Que nos tivesse mandado
para aqui às cegas, para que Galbatorix pudesse destruir os Varden
na nossa ausência?
Não. Que para abrir este... este...
Cofre das Almas, disse Saphira.
Sim, este cofre de que ele vos falou... que para o abrir, tenham
de dizer os nossos verdadeiros nomes.
As suas palavras caíram como pedregulhos. Durante algum
tempo, nenhum falou. Aquela ideia intimidava-o e Eragon estava
relutante em abordar o assunto, como se fazê-lo pudesse piorar a
situação.
Mas, e se for uma armadilha..., disse Saphira.
Se for uma armadilha é diabólica, disse Glaedr. A pergunta que
têm de colocar a vós próprios é se confiam em Solembum, na
medida em que prosseguir é arriscar mais do que as nossas vidas; é
pôr em risco a nossa liberdade. Se confiam nele, serão
suficientemente honestos para descobrirem rapidamente os vossos
verdadeiros nomes? Estão dispostos a viver com esse
conhecimento, por muito desagradável que ele seja? É que se não
estiverem, o melhor será irmos embora neste momento. Eu mudei
desde a morte de Oromis, mas sei quem sou. E tu, Saphira? E tu
Eragon, sabes? Conseguem realmente dizer-me o que faz de vós o
dragão e o Cavaleiro que são?
O desalento cresceu dentro de Eragon, ao olhar para o Rochedo
de Kuthian.
Quem sou eu?, pensou ele.

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