3 de junho de 2017

Capítulo 51 - A mente sobre o metal

[Em revisão]

O
nde você encontrou isso? — perguntou Rhunön quando Eragon cambaleou para o interior do átrio da casa e jogou o reluzente bloco de metal bruto no chão aos seus pés. Em poucas palavras, Eragon explicou a respeito de Solembum e da Menoa.
Agachando-se perto do bloco, Rhunön acariciou a superfície marcada por pequenas crateras, seus dedos se detendo sobre as partes metálicas espalhadas na rocha. — Ou você foi muito tolo ou muito corajoso para confrontar a árvore desse jeito. Ela não se sujeita com tanta facilidade a esse tipo de desrespeito. Ai tem metal suficiente para uma espada?, Saphira quis saber. — Para várias espadas, se minha experiência serve para alguma coisa — respondeu Rhunön, levantando-se. A elfa olhou de relance para sua forja no centro do átrio, e bateu as palmas das mãos, seus olhos iluminando-se com uma combinação de ansiedade e determinação. — Vamos fazê-la então! Você precisa de uma espada, Matador de Espectros? Muito bem, eu lhe darei uma espada como nunca antes se viu na Alagaësia. — Mas e seu juramento? — indagou Eragon. — Não pense nisso por enquanto. Quando vocês devem retornar aos Varden? — Nós deveríamos ter partido no dia em que chegamos — informou Eragon. Rhunön fez uma pausa, sua expressão introspectiva.
— Então terei de me apressar da forma como jamais me apressei e utilizar magia para confeccionar aquilo que, de outro modo, requereria semanas de trabalho manual. Você e Escamas Brilhantes me ajudarão. — Não era uma pergunta, mas Eragon assentiu em concordância. — Nós não descansaremos essa noite, mas prometo, Matador de Espectros, você terá sua espada amanhã de manhã. — Inclinando os joelhos, Rhunön ergueu o bloco
sem esforço aparente e o carregou até a bancada onde estavam alguns trabalhos em andamento. Eragon removeu sua túnica e camisa para não arruiná-las durante o trabalho vindouro, e, em seu lugar, Rhunön lhe deu um casaco apertado e um avental de tecido grosso para suportar o fogo. Ela estava usando a mesma coisa. Quando Eragon perguntou-lhe a respeito de luvas, ela riu e balançou a cabeça. — Só os ferreiros desajeitados usam luvas. Então, Rhunön o conduziu a uma câmara baixa, com aspecto de grota, instalada no tronco de uma das árvores fora da qual sua casa estava assentada. Dentro da câmara estavam sacos de carvão e pilhas soltas de tijolos de argila esbranquiçados. Por meio de um encantamento, Eragon e Rhunön ergueram várias centenas de tijolos e os carregaram para fora, dispondo-os perto da forja sem parede, e então fizeram a mesma coisa com os sacos de carvão, cada qual do tamanho de um homem grande. Uma vez que os suprimentos estavam arrumados de acordo com a satisfação de Rhunön, os dois construíram uma fundição para o bloco. A fundição era uma estrutura complexa, e a elfa se recusou a usar magia para construí-la, de modo que o projeto levou quase a tarde toda. Primeiro, cavaram um fosso retangular de um metro e meio de profundidade, que preencheram com camadas de areia, cascalho, argila, carvão e cinzas e inseriram nele inúmeras câmaras e canais para escoar a umidade que, do contrário, encharcaria o local onde ficava o fogo da fundição. Quando o conteúdo do fosso ficou nivelado com o chão, juntaram uma pilha de tijolos no topo das camadas abaixo, usando água e argila não aquecida como argamassa. Rhunön entrou rapidamente em sua casa e retornou com um par de foles que eles grudaram na base da cuba. Então, pararam para beber e comer alguns pedaços de pão e queijo.
Após o rápido repasto, Rhunön colocou uni punhado de pequenos galhos na cuba, acendeu-os com fogo murmurando uma palavra e, quando as chamas estavam bem assentadas, colocou pedaços medianos de carvalho velho ao longo da base. Por quase uma hora, ela cuidou do fogo, cultivando-o com o carinho que um jardineiro teria com suas rosas, até que a madeira tivesse queimado a ponto de virar um leito nivelado de carvão. Então, a elfa dirigiu-se a Eragon acenando-lhe com a cabeça e dizendo:
— Agora. Ele ergueu o bloco e delicadamente o abaixou na cuba. Quando o calor em seus dedos ficou insuportável, Eragon soltou o bloco e deu um salto para trás assim que uma fonte de fagulhas começou a se desprender como um enxame de moscas. Em cima do metal e da madeira carbonizada, deitou uma espessa camada de carvão como combustível para o fogo. Eragon limpou a sujeira do carvão das palmas das mãos, agarrou os puxadores de um dos foles e começou a bombear, como fazia Rhunön com os foles do outro lado da fundição. Ambos supriam o fogo com uma corrente estável de ar fresco, de modo que queimasse cada vez mais. As escamas no peito de Saphira, assim como as debaixo da cabeça e do pescoço, brilhavam com rajadas de luz à medida que as chamas na fundição dançavam. Ela se agachou vários metros longe dali com os olhos fixos sobre o coração derretido do fogo. Eu podia ajudar nisso, vocês sabem, ela comentou. Eu não levaria mais de um minuto para derreter o metal. — Sim — concordou Rhunön —, mas se o derretermos muito rapidamente, o metal não vai combinar com o carvão para se tornar suficientemente duro e flexível para uma espada. Guarde seu fogo, dragão. Poderemos precisar dele mais tarde. O calor da fundição e o esforço de bombear os foles logo deixaram Eragon coberto de suor; seus braços nus brilhavam com a luz do fogo. Vez por outra, ele e Rhunön abandonavam seus postos para deitar uma nova camada de carvão no fogo. O trabalho era monótono e, como resultado, Eragon logo perdeu a noção do tempo. O constante rugir do fogo, a sensação dos puxadores dos foles em suas mãos, o barulho do ar escapando e a presença vigilante de Saphira eram as únicas coisas em que reparava. Não foi nenhuma surpresa para ele quando Rhunön interrompeu o trabalho. — Já e suficiente. Pode parar com os foles.
Enxugando a testa, Eragon ajudou-a a retirar as pedras de carvão incandescentes da fundição e a colocá-las em um barril cheio de água. As
pedras crepitaram e emitiram um cheiro azedo quando atingiram o líquido. Quando finalmente expuseram a piscina de metal fervente e brilhante escória e outras impurezas abandonadas durante o processo —, Rhunön cobriu o metal com dois centímetros de fina cinza branca e então recostou sua pá contra o lado da fundição e foi se sentar na bancada perto da forja. — E agora? — perguntou Eragon, juntando-se a ela. — Agora esperamos. — O quê? Rhunön fez um gesto na direção do céu, onde a luz do sol poente dava tons avermelhados, purpúreos e dourados a uma sequência de nuvens esparsas. — È importante que esteja escuro quando começarmos a trabalhar o metal para que possamos julgar corretamente sua cor. Da mesma forma, o aço de luz necessita de tempo para esfriar, de modo que fique macio e fácil de moldar. Alcançando a nuca, Rhunön desfez o laço que mantinha seus cabelos presos, e então juntou novamente os cabelos fazendo um novo laço. — Nesse meio-tempo, vamos conversar sobre sua espada. Como você luta, com uma ou duas mãos? Eragon pensou por um minuto. — Varia. Se tiver escolha, prefiro segurar uma espada com uma das mãos e carregar um escudo com a outra. Entretanto, as circunstâncias nem sempre foram favoráveis para mim, e frequentemente precisei lutar sem escudo. Assim, gosto de poder agarrar o cabo com as duas mãos, para que eu possa dar um golpe mais poderoso. O cabo de Zar’roc: era suficientemente largo para eu agarrá-la com minha mão esquerda, se eu necessitasse, mas as cristas em torno do rubi eram desconfortáveis e não me permitiam uma empunhadura segura. Seria bom ter um cabo um pouco mais longo. — Estou entendendo que você não deseja uma verdadeira espada para duas mãos — notou Rhunön. Eragon balançou a cabeça.
— Não, seria grande demais para lutar cm lugares fechados. — Depende dos tamanhos do cabo e da lâmina combinados, mas no geral, você está correto. Estaria disposto, então, a uma espada para mão e meia? Uma imagem da espada original de Murtagh lampejou na mente de Eragon, e ele sorriu. Por que não?, pensou. — Sim, urna espada de mão e meia seria perfeita, creio eu. — E o comprimento da lâmina? — Não maior do que o de Zar’roc. — Hum. Quer uma lâmina reta ou curva? — Reta. — Tem alguma preferência por guarda de mão? — Não. Cruzando os braços, Rhunön se sentou com o queixo tocando o tórax, as pálpebras pesadas sobre os olhos. Seus lábios tremeram. — E quanto à largura da lâmina? Lembre-se, por mais estreita que seja, a espada não se quebrará. — Talvez pudesse ser um pouco mais larga na guarda do que Zar’roc. — For que? — Penso que ficaria com uma aparência melhor. Uma gargalhada intensa escapou da garganta de Rhunön. — Mas em que isso melhoraria o uso da espada? Constrangido, Eragon inquietou-se, sem achar justificativas.
— Nunca me peça para alterar uma arma somente para melhorar sua aparência — advertiu Rhunön. — Uma arma é uma ferramenta, e se é bonita, então é bonita porque é útil. Uma espada que não conseguisse preencher suas funções seria horrorosa aos meus olhos, por mais bela que fosse sua aparência, mesmo se fosse adornada com as mais finas joias e os mais intricados entalhes. A elfa mordeu os lábios, fazendo um bico enquanto
pensava. — Assim, uma espada igualmente adequada para o irrestrito banho de sangue do campo de batalha e para defendê-lo nos estreitos túneis de Farthen Dûr. Uma espada para todas as ocasiões, de comprimento mediano, exceto o cabo, que deve ser mais longo do que a média. — Uma espada para matar Galbatorix — completou Eragon. Rhunön assentiu. — E como tal, deve ser bem protegida contra a magia... — O queixo da elfa tocou novamente o tórax. — As armaduras melhoraram bastante no último século, então a ponta deverá ser mais estreita do que as que eu costumava fabricar, a melhor para despedaçar chapas de metal e cotas de malha e para deslizar pelos vãos que se formam entre os vários pedaços. Hum. — De um pequeno saco ao seu lado, Rhunön retirou um pedaço de barbante amarrado com um nó, com o qual tomou diversas medidas da mão e dos braços de Eragon. Em seguida, resgatou urna tenaz de ferro trabalhado da forja e jogou na direção de Eragon. Ele pegou o objeto com uma das mãos e ergueu urna sobrancelha para a elfa. Ela fez um gesto com o dedo em sua direção. — Vamos lá. Levante-se e me deixe ver como você se move com urna espada. Fora do abrigo da forja, Eragon a satisfez demonstrando várias das maneiras que Brom o ensinara. Depois de um minuto, ouviu o clique do metal sobre a pedra, e então Rhunön tossiu e comentou: — Ah, não consigo evitar. — Ela parou na frente de Eragon, segurando outra tenaz. Sua testa estava emoldurada por uma expressão ameaçadora quando ergueu a ferramenta diante de si com uma saudação e gritou: — Em guarda, Matador de Espectros! A pesada tenaz de Rhunön vibrou no ar quando ela avançou na direção dele com um forte golpe. Dançando para o lado, Eragon se desviou do ataque. A ferramenta vibrou em sua mão quando os dois pedaços de ferro colidiram. Por um breve instante, os dois duelaram. Embora fosse óbvio que ela não praticava esgrima havia um bom tempo, ainda assim Eragon a considerou uma formidável oponente. Finalmente, foram forçados a parar porque o macio ferro das tenazes havia entortado, deixando-as parecidas com as raízes retorcidas de um teixo.
Rhunön pegou a tenaz de Eragon, e então levou os dois danificados pedaços de metal para unia pilha de ferramentas quebradas. Assim que voltou, a elfa ergueu o queixo e concluiu: — Agora eu sei exatamente qual formato deve ter sua espada. — Mas como você a fará? Um brilho de bom humor apareceu nos olhos de Rhunön. — Não a farei. Você a fará em meu lugar, Matador de Espectros. Eragon mirou-a por um momento, então explodiu. — Eu? Mas nunca fui aprendiz de ferreiro ou de espadeiro. Não tenho habilidade para forjar nem mesmo uma faca de cozinha. O brilho nos olhos de Rhunön se acentuou. Em todo caso, você mesmo fará essa espada. — Mas como? Você vai ficar ao meu lado me orientando enquanto martelo o metal? — Pouco provável — respondeu Rhunön. — Não. Eu guiarei suas ações de dentro de sua mente, de modo que suas mãos possam fazer o que as minhas não podem. Não é uma solução perfeita, mas não consigo imaginar outra maneira que me permita realizar o trabalho sem quebrar meu juramento. Eragon franziu o cenho. — Mas que diferença faz você mover minhas mãos por mim? Não é a mesma coisa que fazer a espada você mesma? O semblante de Rhunön ficou nebuloso, e sua voz assumiu um tom brusco. — Você quer essa espada ou não, Matador de Espectros? — Sim, quero. — Então evite me atazanar com tais questões. Fazer a espada por seu intermédio é diferente porque acredito ser diferente. Se eu pensasse de outra maneira meu juramento me impediria de participar do processo. Assim, a menos que você deseje retornar para os Varden de mãos vazias, seria prudente que permanecesse em silêncio acerca desse assunto.
— Sim, Rhunön-elda. Então, encaminharam-se para a fundição, e Rhunön pediu para Saphira extrair a massa solidificada de aço de luz, ainda aquecida, da base da cuba de tijolo. — Quebre-a em pedaços do tamanho de um punho — orientou Rhunön, e se retirou para um local seguro. Erguendo sua perna dianteira, Saphira pisou com toda a força na viga ondulada de aço de luz. A terra tremeu, e o aço se partiu em vários pedaços. Três vezes mais Saphira pisou sobre o metal até que Rhunön ficasse satisfeita com o resultado. A elfa reuniu as partes afiadas de metal em seu avental e os carregou até uma mesa baixa próxima da forja. Lá, separou o material de acordo com a dureza, o que conseguia determinar pela cor e a textura do metal fraturado, como ela mesma disse a Eragon. — Alguns são duros demais e alguns são macios demais — explicou ela — e apesar de eu conseguir consertar isso se desejasse, seria necessário aquecê-los outra vez. Então, usaremos somente os pedaços que já estão adequados para uma espada. Nas bordas da lâmina utilizaremos aço levemente mais duro — ela tocou uma seleção de pedaços que cintilavam —, estes são os melhores para o fio. O meio da espada será feito de aço levemente menos duro — agora tocou uma seleção de pedaços que eram mais acinzentados e não tão brilhantes —, os melhores para envergar e para absorver o choque de um golpe. Antes que o metal possa ser forjado, contudo, deve ser trabalhado para ficar livre das impurezas que ainda permanecem. Como isso é feito?, Saphira quis saber. — Você verá em alguns instantes. — Rhunön foi até um dos pilares que sustentavam o telhado da forja, sentou-se de costas para ele, cruzou as pernas e fechou os olhos, seu rosto imóvel e tranquilo. — Está pronto, Matador de Espectros? — Estou — respondeu Eragon, apesar da tensão em seu estômago.
A primeira coisa que reparou em Rhunön assim que suas mentes se encontraram foram os acordes menores que ecoavam pela paisagem escura e emaranhada de seus pensamentos. A música era lenta e cadenciada, e expressa
em um tom tão estranho e desconcertante que arranhava seus nervos. O que aquilo dizia a respeito da personalidade da elfa. Eragon não tinha certeza, mas a assustadora melodia fez com que ele repensasse se era prudente permitir que ela controlasse seu corpo. Mas pensou em Saphira sentada perto da forja, montando guarda, e sua trepidação diminuiu, e ele baixou a última das defesas em torno de sua consciência. Eragon teve a sensação de um pedaço de lã crua deslizando sobre sua pele quando Rhunön envolveu a mente do Cavaleiro na dela, insinuando-se no interior das áreas mais privadas de seu ser. Ele tremeu ao contato e quase se afastou, mas então a voz rouca de Rhunön soou em seu crânio: Matador de Espectros, relaxe, e tudo ficará bem. Sim, Rhunön-elda. Então, Rhunön começou a erguer seus braços, suas pernas, rolar sua cabeça e experimentar as habilidades do seu corpo. Por estranho que fosse para Eragon sentir sua cabeça e membros se movendo à revelia, a sensação ficou mais estranha ainda quando seus olhos começaram a piscar de um lado para o outro, aparentemente de comum acordo. A sensação de desamparo desencadeou um repentino acesso de pânico em Eragon. Quando Rhunön fez com que ele caminhasse e seu pé atingiu o canto da forja e pareceu-lhe que estava prestes a cair, Eragon imediatamente reassumiu o comando de suas faculdades e agarrou o chifre da bigorna de Rhunön para se equilibrar. Não interfira, rebateu Rhunön. Se seus nervos falharem no momento errado durante a forja, você poderá causar um dano irreparável a si mesmo. E acontecerá o mesmo se você não for cuidadosa, retorquiu Eragon. Seja paciente, Matador de Espectros. Ao anoitecer já terei dominado todo o processo.
Enquanto esperavam o último raio de luz sumir no céu aveludado, Rhunön preparou a forja e começou a praticar o manuseio de diversas, ferramentas. Sua falta de jeito inicial com o corpo de Eragon não durou muito, embora uma vez tenha batido com as pontas dos dedos na mesa quando procurava um martelo. A dor encheu de água os olhos de Eragon. A elfa se desculpou: Seus braços são mais longos do que os meus. Alguns minutos mais tarde, quando
estavam prestes a começar, ela comentou: Você tem sorte de ter a velocidade e a força de um elfo, Matador de Espectros, senão nós não teríamos a menor esperança de terminar isto esta noite. Rhunön colocou dentro da forja os pedaços de aço de luz duros e macios que decidira utilizar. Ao pedido da elfa, Saphira aqueceu o aço, abrindo suas mandíbulas apenas um centímetro, de modo que as chamas azuis e brancas que escapavam de sua boca permanecessem focadas em uma estreita torrente e não derramassem no resto da oficina. O barulhento pilar de fogo iluminava todo o átrio com uma forte luz azul e fazia com que as escamas de Saphira cintilassem de forma ofuscante. Rhunön mandou Eragon remover o aço de luz da torrente de chamas com um par de tenazes assim que o metal adquiriu um brilho avermelhado. Ele o depositou sobre a bigorna e, com uma série de golpes rápidos do martelo, achatou os blocos de metal até atingirem apenas alguns centímetros de espessura. A superfície do aço avermelhado e fervente brilhava em partículas incandescentes. A medida que terminava cada placa, Rhunön as depositava em uma cuba de água salgada. Tendo achatado todos os pedaços de aço de luz, Rhunön puxou as placas da cuba com um pedaço de arenito para remover as crostas pretas que haviam se formado na superfície do metal. O polimento expôs uma estrutura cristalina, que a elfa examinava com grande atenção. Ela ainda separou o metal pela relativa dureza e pureza de acordo com as qualidades dos cristais que eram liberados. Eragon estava a par de cada pensamento e sensação de Rhunön, devido à proximidade. A profundidade de seu conhecimento o impressionava; ela via coisas no metal que ele jamais suspeitaria que existissem, e os cálculos que fazia concernentes ao tratamento necessário ao material estavam além de sua compreensão. Ele também sentia que a elfa estava insatisfeita com a forma com a qual ela manuseara o martelo enquanto achatava o metal. A insatisfação de Rhunön continuou a crescer até verbalizá-la: Bak! Veja essas falhas no metal! Não posso forjar uma espada assim. Meu controle sobre seus braços e mãos não está bom o suficiente para confeccionar uma espada digna de nota.
Antes que Eragon pudesse ponderar, Saphira se manifestou: As ferramentas não fazem o artista, Rhunön-elda. Certamente você achará um meio de compensar essa inconveniência.
Inconveniência?, Rhunön bufou. Minha coordenação não é maior do que a de uma novata. Sou uma estranha na casa de um estranho. Ainda reclamando, pôs-se a fazer cálculos mentais incompreensíveis a Eragon. Finalmente, concluiu: Bem, talvez eu tenha uma solução, mas aviso de imediato, não continuarei se não for capaz de manter a excelência de meu trabalho. Ela não explicou a solução nem para Eragon nem para Saphira. Uma após a outra, colocou as placas de metal na bigorna e as transformou em flocos que não ultrapassavam a largura de uma pétala de rosa. Juntando a metade feita do aço de luz mais duro, Rhunön os empilhou em um tijolo que revestiu com argila e cascas de bétula para sustentá-los. O tijolo foi para uma grossa pá de aço com um cabo de dois metros de comprimento, similar àqueles usados por padeiros para inserir e remover os pães de um forno quente. Rhunön colocou a extremidade da pá no centro da forja e afastou Eragon o máximo que pôde sem que ele deixasse de segurar o cabo. Então, pediu para Saphira recomeçar a soprar fogo, e novamente o átrio brilhou com o azulado fluxo luminoso. O calor era tão intenso que Eragon sentiu como se sua pele exposta estivesse tostando, e percebeu que as pedras de granito da forja haviam adquirido um brilho amarelado. O aço de luz poderia ter facilmente levado mais de uma hora para atingir a temperatura apropriada em um fogo de carvão, mas precisou apenas de alguns minutos no inferno devastador das chamas de Saphira para adquirir uma tonalidade esbranquiçada. Assim que isso ocorreu, Rhunön ordenou que Saphira cessasse o fogo. Escuridão engolfou a forja quando o dragão fechou as mandíbulas. Apressando Eragon, Rhunön o fez transportar o brilhante tijolo de aço revestido de argila para a bigorna, onde ela usou um martelo para soldar os flocos esparsos do aço de luz em um todo coeso. A elfa continuou a bater no metal, alongando-o até virar uma barra, então fez um corte no meio, colocou um pedaço sobre o outro, como uma dobradura, e soldou-os. Os estrondos do metal, similares ao de sinos, ecoavam nas antigas árvores que circundavam o átrio.
Rhunön fez com que Eragon retornasse o aço de luz à forja assim que sua cor atingiu um tom amarelado, e novamente Saphira banhou o metal com o fogo de seu ventre. Seis vezes Rhunön aqueceu e dobrou o aço, e, a cada uma, o metal ficava mais liso e mais flexível, até poder envergar sem se partir.
Enquanto Eragon martelava o aço, cada ação sua ditada por Rhunön, a elfa começou a cantar, não só com a língua dele, mas também com a sua. Juntos, suas vozes formavam uma harmonia não de todo desagradável que subia e descia com os golpes do martelo. Eragon sentiu uma espécie de picada ao longo da coluna quando percebeu Rhunön canalizar um fluxo estável de energia nas palavras que estavam pronunciando, e ele notou que a canção continha encantos para formar, moldar e juntar. Com suas vozes unidas, Rhunön cantava sobre o metal que estava na bigorna, descrevendo suas propriedades — alterando-as de um modo que excedia a compreensão de Eragon — e impregnando o aço de luz com urna complexa rede de encantamentos elaborados para lhe dar força e resistência além das de qualquer metal comum. Sobre o braço com que Eragon segurava o martelo, Rhunön também cantava e, sob a delicada influência de sua voz, cada golpe que dava com o braço dele aterrissava no alvo desejado. Rhunön apagou a barra de aço de luz depois que a sexta e última dobra foi completada. Repetiu todo o processo com a metade de aço duro, forjando uma barra idêntica à primeira. Então reuniu os fragmentos do aço mais macio, que dobrou e soldou dez vezes antes de formar uma pequena e compacta cunha. Em seguida, Rhunön mandou que Saphira reaquecesse as duas barras de aço mais duro. A elfa colocou as hastes brilhantes lado a lado sobre a bigorna, pegou as duas pelas extremidades com um par de tenazes e então torceu as hastes uma em volta da outra sete vezes. Fagulhas se soltavam no ar à medida que ela martelava as hastes para soldá-las em um único pedaço de metal. A massa resultante de aço de luz Rhunön dobrou, soldou e bateu mais seis vezes. Quando ficou satisfeita com a qualidade do metal, achatou o aço até transformá-lo em uma folha retangular, cortou a folha pela metade no comprimento com um cinzel afiado e curvou cada uma das duas metades até o meio, de modo que ficassem com a forma de um longo e oco.
E tudo isso, Eragon estimou, Rhunön foi capaz de realizar no curso de uma hora e meia. Ele ficou maravilhado com a rapidez da elfa, mesmo tendo sido seu próprio corpo o responsável pela consecução das tarefas. Nunca antes havia visto um ferreiro moldar um metal com tanta desenvoltura; o que Horst levaria horas para conseguir, ela havia feito em apenas alguns minutos. E por mais difícil que fosse a forja, a elfa continuava cantando, tecendo uma rede de encantos para o interior do aço de luz e guiando o braço de Eragon com. infalível acuidade.
Em meio ao frenesi de ruídos, fogo, fagulhas e esforço, Eragon imaginou ter visto — quando Rhunön olhou de relance para a forja — um trio de figuras esguias em pé na extremidade do átrio. Saphira confirmou sua suspeita um instante depois quando comentou: Eragon, não estamos sozinhos. Quem são eles?, perguntou ele. Saphira enviou-lhe uma imagem da pequena e mirrada menina-gata Maud em forma humana, em pé entre dois pálidos elfos, não maiores do que ela. Um deles era macho, o outro, uma fêmea, e ambos eram extraordinariamente belos, mesmo para os padrões dos elfos. Seus solenes rostos em forma de lágrima pareciam sensatos e inocentes na mesma proporção, o que tornava impossível para Eragon adivinhar suas idades. A pele dos dois continha tanta energia que vazava dos poros. Eragon inquiriu Rhunön acerca da identidade dos elfos quando ela fez uma pausa para permitir-lhe um breve descanso. Rhunön olhou-os de relance — dando a ele uma visão levemente melhor — sem interromper sua canção. Informou em pensamento: Eles são Alanna e Dusan, as únicas crianças elfas de Ellesméra. Houve muita euforia quando foram concebidas doze anos atrás. Não se parecem com nenhum outro elfo que eu tenha conhecido, ele observou. Nossas crianças são especiais, Matador de Espectros. São abençoadas com certas dádivas — dádivas de beleza e dádivas de poder— que nenhum elfo adulto pode esperar possuir. A medida que envelhecemos, nosso viço se esvai de algum modo, embora a magia de nossos primeiros anos jamais nos abandone totalmente. Rhunön não desperdiçou mais tempo falando. Fez com que Eragon colocasse a cunha de aço entre as duas faixas em forma de V e as martelasse até que envolvessem quase completamente a cunha e a fricção mantivesse os três pedaços unidos. Então, a elfa soldou os pedaços num todo e, enquanto o metal ainda estava quente, começou a retirá-lo para formar uma tosca forma de metal que se transformaria na espada. A cunha macia tornou-se a lombada da lâmina, ao passo que as duas faixas duras passaram a ser os flancos, as bordas e a ponta da espada. Assim que o comprimento da forma chegou quase ao da espada, o trabalho adquiriu um ritmo mais lento à medida que Rhunön retornou ao espigão e cuidadosamente martelou a peça, estabelecendo os ângulos e as proporções finais.
Rhunön mandou Saphira aquecer a lâmina em segmentos curtos de quinze centímetros por vez, feito conseguido porque a elfa segurava a lâmina por sobre uma das narinas de Saphira, através das quais o dragão liberaria ura
único jato de fogo. Uma sequência de sombras agonizantes voava na direção do perímetro do átrio cada vez que o fogo dava sinais de vida. Eragon assistia, impressionado, suas mãos transformarem o tosco bloco de metal em um elegante instrumento de guerra. A cada golpe, o feitio da lâmina ficava mais claro, como se o aço quisesse virar uma espada e estivesse ansioso para assumir o formato que Rhunön desejava. Finalmente a forja chegou ao fim, e sobre a bigorna se encontrava uma longa lâmina negra que, embora ainda estivesse crua e incompleta, já irradiava um desígnio de mortíferos propósitos. Rhunön permitiu que os braços exaustos de Eragon descansassem enquanto a lâmina esfriava. Então, fez com que ele levasse o objeto para outro canto de sua oficina, onde ela havia disposto seis diferentes amola-dores e, sobre um pequeno banco, uma ampla coleção de limas, raspadores e pedras abrasivas. Ela afixou a lâmina entre dois blocos de madeira e passou a hora seguinte aplainando os flancos da espada com uma faca de tanoeiro, assim como refinando seus contornos com as limas. A exemplo das marteladas, cada golpe da faca de tanoeiro e cada raspagem da lima pareciam ter duas vezes o efeito que normalmente teriam; era como se as ferramentas soubessem a quantidade exata de aço a ser removido, sem que um grama a mais fosse retirado. Quando terminou de limar, Rhunön fez uma fogueira de carvão em sua forja, e, enquanto esperava o fogo maturar, misturou uma pasta com argila escura e fina, cinzas, pedra-pomes em pó e seiva cristalizada de juníperos. Pincelou a lâmina com o preparado, colocando duas vezes mais na longitude da parte central do que ao longo das bordas e na ponta. Quanto mais densa a solução de argila, mais lentamente o metal subjacente esfriaria quando o fogo fosse apagado. Consequentemente, mais macia ficaria aquela área da espada.
A argila tornou-se mais leve quando Rhunön a secou com um rápido encantamento. Sob a direção da elfa, Eragon foi até a forja, colocou a espada deitada sobre o leito de carvões cintilantes e, soprando os foles com sua mão livre, lentamente puxou-a na direção dos quadris. Assim que a ponta da lâmina ficou livre do fogo, Rhunön a virou e repetiu a sequência, colocando a lâmina nos carvões até as bordas adquirirem uma tonalidade ainda mais alaranjada e a parte central da espada, uma cor brilhante e avermelhada. Então, com um único e suave movimento, Rhunön ergueu a espada dos carvões, brandiu a resplandecente barra de aço no ar e a mergulhou na cuba de água próxima da
forja. Uma densa nuvem de vapor irrompeu da superfície da água, que chiou, crepitou e borbulhou em volta da lâmina. Depois de um minuto, a turbulência do líquido cessou e Rhunön retirou a espada, agora com a cor de pérola. De volta à fogueira, colocou toda a arma no mesmo fogo brando, de modo a reduzir as partes quebradiças das bordas, e então apagou o fogo mais uma vez. Eragon esperara que a elfa fosse liberar seu corpo depois de terem forjado, endurecido e temperado a lâmina, mas, para sua surpresa, ela permaneceu em sua mente e continuou a controlar seus membros. Rhunön o mandou apagar a forja e então encaminhou Eragon de volta à bancada onde estavam as limas, os raspadores e as pedras abrasivas. Lá, ela o sentou e, com pedras cada vez mais finas, poliu a lâmina. A partir de suas lembranças, Eragon aprendeu que a elfa normalmente levaria uma semana ou mais polindo uma lâmina, mas por causa da canção que haviam cantado, ela, através dele, seria capaz de completar a tarefa em apenas quatro horas, além de entalhar um sulco estreito ao longo de cada lado da lâmina. À medida que o aço de luz tornava-se mais liso, a verdadeira beleza do metal era revelada. Nele, Eragon podia ver bruxulcantes padrões em formato de feixes, cada linha dos quais marcava a transição entre duas camadas do aço aveludado. E ao longo de cada borda da espada encontrava-se uma ondulada tira prateada tão larga quanto seu polegar, dando a impressão de que as laterais estavam queimando com línguas de fogo congelado. Os músculos do braço direito de Eragon cederam quando Rhunön estava cobrindo o espigão com sombreados decorativos, e a lima que estava segurando escorregou do espigão e caiu de seus dedos. A extensão de sua exaustão o surpreendeu, pois estivera concentrado na espada e em nada mais. Chega, avisou Rhunön, e retirou-se da mente de Eragon sem mais delongas. Chocado pela súbita ausência dela, Eragon balançou em seu assento e quase perdeu o equilíbrio antes de restabelecer o controle sobre seus membros rebeldes. — Mas ainda não acabamos! — protestou ele, voltando-se para Rhunön. A noite parecia estranhamente quieta na sua opinião, sem o estresse do dueto.
Rhunön ergueu-se de onde se encontrava sentada de pernas cruzadas, encostada em um pilar, e balançou a cabeça. — Não preciso mais de você, Matador de Espectros. Vá embora e sonhe até o amanhecer. — Mas... — Você está cansado e, mesmo com minha magia, pode arruinar a espada se continuar trabalhando nela. Agora que a lâmina está pronta, posso cuidar do resto sem interferência no meu juramento. Então, descanse. Você encontrará uma cama no segundo andar da minha casa. Se estiver com fome, há comida na despensa. Eragon hesitou, relutante em sair, mas assentiu e saiu aos trambolhões da bancada, seus pés se arrastando sobre a terra. Assim que passou por Saphira, passou a mão pela sua asa e desejou boa noite, exausto demais para dizer qualquer outra coisa. Em resposta, ela despenteou seus cabelos com um cálido sopro de ar e disse: Eu vou assistir a tudo e lembrar para você, pequenino.
Eragon parou na soleira da casa de Rhunön e olhou para o átrio sombreado onde Maud e as duas crianças elfas ainda estavam em pé. Ergueu uma das mãos em saudação, e Maud sorriu para ele, mostrando seus dentes pontudos e afiados. Urna pontada percorreu o pescoço de Eragon quando as crianças elfas fitaram-no; seus grandes olhos puxados eram levemente luminosos na penumbra. Como não fizeram mais nenhum movimento, ele inclinou a cabeça e apressou-se para dentro, ansioso para se deitar sobre um colchão macio.

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