24 de junho de 2017

Capítulo 50 - Snalglí para dois

E
ra já fim da tarde quando Eragon despertou. O manto de
nuvens abrira-se em vários pontos e raios de luz dourada
cobriam o vale, iluminando o topo dos edifícios em ruínas.
Embora o vale parecesse ainda frio, húmido e inóspito, a luz
conferia-lhe uma outra majestade e Eragon percebeu, pela primeira
vez, o motivo por que os Cavaleiros tinham decidido instalar-se na
ilha. Bocejou e olhou para Saphira, tocando-lhe levemente na mente.
Ela estava ainda mergulhada num sono sem sonhos. A sua
consciência era como uma chama que enfraquecera até ficar
reduzida a um carvão em brasa, que tanto poderia apagar-se como
reacender.
A sensação inquietou-o, lembrando-lhe demasiado a morte. Por
isso recolheu-se na sua própria mente e reduziu o contato a um fio
de pensamentos: apenas o suficiente para ter a certeza de que ela
estava em segurança.
Na floresta, atrás de si, dois esquilos começaram a resmungar
um com o outro, produzindo uma série de guinchos estridentes, e
ele franziu a sobrancelha ao ouvi-los. Os sons pareciam-lhe demasiado
agudos, demasiado acelerados e chilreantes. Era como se uma
outra criatura estivesse a imitar os gritos dos esquilos.
Sentiu um formigueiro no couro cabeludo ao pensar no assunto.
Durante mais de uma hora, ele manteve-se deitado a ouvir os
guinchos e a algaraviada que vinha dos bosques, observando os
padrões de luz, enquanto estes se projetavam nas colinas, campos
e montanhas do vale semelhante a uma taça. Depois os intervalos
nas nuvens fecharam-se, o céu escureceu e a neve começou a cair
na parte superior das encostas das montanhas, pintando-as de
branco.
Eragon levantou-se e disse a Glaedr:
Vou buscar lenha, volto dentro de alguns minutos.
O dragão anuiu e Eragon percorreu cautelosamente o prado até
à floresta, fazendo os possíveis para não fazer barulho e não
perturbar Saphira. Assim que alcançou as árvores, acelerou o
passo. Embora houvesse inúmeros ramos mortos, caídos na
periferia da floresta, ele queria esticar as pernas e, se possível,
descobrir de onde vinha a aquela algazarra.
As sombras debaixo das árvores eram cerradas. O ar estava
fresco e parado, como numa caverna subterrânea, e cheirava a
fungos, madeira apodrecida e a seiva derramada. O musgo e os
líquens suspensos nos ramos eram como pedaços de renda
esfarrapada, manchada e ensopada, mas conservavam uma beleza
delicada e dividiam o interior da floresta em células de diversos
tamanhos, tornando difícil ver a mais de quinze metros de distância,
em qualquer direção.
Eragon usou o borbulhar do riacho para se orientar,
embrenhando-se mais na floresta. Agora que estava mais perto das
árvores de verdura perene, apercebia-se de que estas não eram
iguais às da Espinha, nem às de Du Weldenvarden; tinham cachos
de sete agulhas em vez de três e, mesmo que se tratasse de um
efeito da luz do poente, a escuridão parecia agarrada às árvores,
como se o tronco e os ramos estivessem envoltos num manto. Além
disso, tudo nas árvores — desde as gretas na casca até às raízes
salientes e aos cones em escada — parecia ter contornos
particularmente angulosos e arrojados, como se elas estivessem
prestes a libertar-se da terra e a descer até à cidade, lá em baixo.
Eragon estremeceu e desembainhou parcialmente Brisingr.
Nunca estivera numa floresta que lhe parecesse tão ameaçadora.
Era como se as árvores estivessem zangadas, como se quisessem
apanhá-lo e separar-lhe a carne dos ossos — à semelhança das
árvores no pomar.
Afastou uma franja de líquens amarelos, com as costas da mão,
e avançou cautelosamente.
Até então, não vira sinais de caça, nem encontrara qualquer
indício de lobos ou ursos, o que o intrigou. A tão curta distância do
riacho deveria haver trilhos até à água.
Talvez os animais evitem esta parte da floresta, pensou. Mas
porquê?
Havia um tronco caído no caminho. Passou por cima dele e
enterrou a bota num tapete de musgo até ao tornozelo. Instantes
depois, começou a sentir comichão na gedwëy ignasia, na palma da
mão, e ouviu um coro minúsculo de cri-cris e cri-cras, vendo meia
dúzia de larvas semelhantes a lesmas — cada uma do tamanho do
seu polegar — que irrompiam do musgo, saltando para longe dele.
Um instinto ancestral compeliu-o a parar, exatamente como faria
ao confrontar-se com uma serpente. Ficou imóvel, sem pestanejar,
sem respirar, enquanto as grotescas larvas fugiam, tentando ao
mesmo tempo lembrar-se de qualquer referência a elas durante o
seu treino em Ellesméra. Mas não se lembrava de ouvir falar em tais
criaturas.
Glaedr! O que é aquilo?, perguntou ele mostrando as larvas ao
dragão. Como se chamam na língua antiga?
Para sua consternação, Glaedr respondeu:
Não as reconheço, nunca vi nem ouvi falar em nada semelhante.
São inéditas em Vroengard e em Alagaësia. Não deixes que elas te
toquem, podem ser mais perigosas do que parecem.
Assim que Eragon se distanciou alguns metros delas, as larvas
sem nome saltaram mais alto do que seria normal, voltando a
mergulhar no musgo com um sonoro cri-cro. Ao aterrarem,
dividiram-se numa infinidade de centípedes verdes, que
desapareceram rapidamente no emaranhado de musgo.
Só então Eragon voltou a respirar.
Não deviam existir, comentou Glaedr, num tom preocupado.
Eragon levantou lentamente a bota do musgo e recuou para trás
do tronco. Ao examinar o musgo mais atentamente percebeu que o
que antes julgara serem as pontas de ramos velhos a irromper do
manto de vegetação eram, na verdade, pedaços de costelas e
armações partidas — os restos mortais de um ou mais veados.
Após um momento de reflexão, ele deu meia-volta e regressou
pelo mesmo caminho, desta vez, fazendo os possíveis para evitar
todos os pedaços de musgo, o que não se revelava tarefa fácil.
Não valia a pena arriscar a vida para encontrar o que quer que
fosse que estivesse a fazer aquela algazarra na floresta — muito
menos desconfiando que havia coisas bem piores do que larvas
entre as árvores. Continuava a sentir comichão na palma da mão e
sabia, por experiência, que isso significava que havia algo de
perigoso por perto.
Quando avistou o prado e as escamas azuis de Saphira por entre
os troncos das árvores, virou e encaminhou-se para o riacho. A
margem do ribeiro estava coberta de musgo, por isso caminhou
sobre os troncos e as pedras até chegar a uma rocha plana no meio
da água.
Aí agachou-se, tirou as luvas e lavou as mãos, o rosto e o
pescoço. A água gelada era revigorante. Momentos depois,
começou a sentir calor nas orelhas e todo o seu corpo começou a
ficar quente.
Ao limpar as últimas gotas de água do pescoço, ouviu uma
algazarra sobre o riacho.
Mexendo-se o menos possível, olhou para o topo das árvores
na margem oposta.
Quatro espetros estavam sentados num ramo, a nove metros de
altura. Tinham grandes plumas pontiagudas que se estendiam em
todas as direções, em torno da cabeça negra, oval. Uns olhos
brancos, oblíquos, em forma de fenda, brilhavam no meio de cada
oval e o olhar era tão vazio que não era possível perceber para
onde estavam a olhar. Mas o mais desconcertante era que os
espetros — como todos os do seu género — não tinham
profundidade. Quando se viravam de lado, simplesmente
desapareciam.
Sem desviar o olhar deles, Eragon esticou a mão e agarrou no
punho de Brisingr.
A sombra mais à esquerda agitou as plumas e emitiu o mesmo
ruído estridente que ele confundira com o som de um esquilo. Dois
outros espetros fizeram o mesmo e a floresta ecoou com o clamor
estridente dos guinchos.
Eragon pensou em alcançar-lhes as mentes, mas ao recordar os
Fanghur no caminho para Ellesméra, afastou a ideia, achando-a
imprudente.
Depois ele disse em voz baixa:
— Eka aí fricai un Shur’tugal — eu sou um Cavaleiro e um amigo.
Os espetros pareceram fixar os olhos brilhantes nele e, por
instantes, tudo o que se ouvia era apenas o murmúrio suave do
riacho. Logo recomeçaram a tagarelar e o brilho dos seus olhos
aumentou até estes se assemelharem a pedaços de ferro
incandescente.
Ao fim de alguns minutos, vendo que os espetros não o tinham
atacado, nem pareciam fazer tenções de partir, Eragon levantou-se
e esticou cuidadosamente o pé até à pedra atrás de si.
O movimento pareceu alarmar os espetros, que guincharam em
uníssono. A seguir, encolheram os ombros, sacudiram-se e
apareceram quatro grandes corujas no seu lugar, com as mesmas
plumas aguçadas em torno do rosto mosqueado. As corujas
abriram os bicos amarelos e começaram a tagarelar, repreendendoo
tal como os esquilos fariam. Finalmente levantaram voo e voaram
silenciosamente para o meio das árvores, desaparecendo de
imediato por trás de uma parede de pesados galhos.
— Barzûl — disse Eragon, saltando para trás, e regressou ao
prado pelo mesmo caminho, parando apenas para apanhar um feixe
de ramos caídos.
Assim que chegou junto de Saphira, poisou a lenha no chão,
ajoelhou-se e lançou todos os feitiços que lhe vieram à cabeça.
Glaedr recomendou-lhe um de que ele se esquecera e depois disselhe:
Nenhuma destas criaturas estava aqui quando Oromis e eu
regressámos, depois da batalha, e elas não são como deveriam ser.
A magia que foi utilizada distorceu o local e todos os que aqui
vivem. Este local agora é maligno.
Que criaturas?, perguntou Saphira, abrindo os olhos e
bocejando — uma visão intimidante. Eragon partilhou as suas
memórias com ela e Saphira disse:
Devias ter-me levado contigo. Eu poderia ter comido as larvas e
os pássaros espetro, assim você já não terias nada a recear.
Saphira!
Ela revirou-lhe o olho.
Tenho fome. Há algum motivo para que não pudesse comer
essas estranhas criaturas, fossem elas mágicas ou não?
Poderiam ser elas a comer-te a ti, Saphira Bjartskular, disse
Glaedr. você conheces a primeira lei da caça tão bem como eu: não
persigas a tua presa até teres a certeza de que é presa, de contrário
é bem provável que acabes por servir de refeição a outra coisa
qualquer.
— Se fosse a ti também não me daria ao trabalho de procurar
veados — disse Eragon. — Duvido que restem muitos, além disso é
quase noite e, mesmo que não fosse, não creio que fosse seguro
caçar.
Ela resmungou baixinho:
Muito bem, vou continuar a dormir, mas amanhã de manhã vou
caçar, por muito perigoso que seja. Tenho o estômago vazio e
tenho de comer antes de voltar a atravessar o mar.
Fiel à sua palavra, Saphira fechou os olhos e voltou a adormecer
de imediato.
Eragon fez uma pequena fogueira, comeu uma magra ceia e viu a
escuridão abater-se sobre o vale. Ele e Glaedr discutiram os planos
para o dia seguinte e Glaedr contou-lhe mais um pouco da história
da ilha, antes de os Elfos chegarem a Alagaësia, quando Vroengard
era apenas uma província de dragões.
Antes da luz desaparecer por completo do céu, o velho dragão
disse:
Gostarias de ver como era Vroengard durante a era dos
Cavaleiros?
Sim, respondeu Eragon.
Então, olha, disse Glaedr e Eragon sentiu o dragão apossar-se
da sua mente, derramando nela uma torrente de imagens e
sensações. A visão de Eragon mudou e ele viu uma réplica
fantasmagórica do vale, ao cimo da paisagem. A memória era do
vale ao crepúsculo, tal como naquele momento, mas o céu não
tinha nuvens e uma imensidão de estrelas cintilantes brilhava sobre
Aras Thelduin, o grande anel de montanhas. As árvores desse
passado remoto pareciam mais altas, mais direitas e menos
agoirentas, e os edifícios dos Cavaleiros, ao longo do vale, estavam
intactos, brilhando ao lusco-fusco como pálidos faróis, com a luz
suave das lanternas sem chama dos Elfos. Nessa altura, as paredes
ocre não se apresentavam tão cobertas de eras e de musgo, e os
palácios e as torres tinham uma nobreza que as ruínas não
possuíam. Ao longo dos caminhos pavimentados e a grande
altitude, Eragon distinguiu as formas cintilantes de inúmeros
dragões: graciosos gigantes com os tesouros de milhares de reis
reunidos na pele.
A aparição prolongou-se durante mais alguns momentos. Depois
Glaedr libertou a mente de Eragon e o vale voltou a parecer
exatamente o que era naquele momento.
Era lindo, reagiu Eragon.
Lá isso era, mas já não é.
Eragon continuou a estudar o vale, comparando-o com o que
Glaedr lhe mostrara, e franziu a sobrancelha ao distinguir uma linha de
luzes flutuantes — lanternas, deduziu ele — no interior da cidade
abandonada. Sussurrou um feitiço para melhorar a visão e
conseguiu identificar uma fila de figuras encapuçadas, de túnicas
escuras, a caminharem lentamente por entre as ruínas. Pareciam
solenes e sinistras, e havia qualquer coisa de ritualista no ritmo
calculado dos passos e no balanço padronizado das lanternas.
Quem são eles?, perguntou a Glaedr, sentindo estar a
testemunhar algo que mais ninguém deveria ver.
Não sei. Talvez os descendentes dos que se esconderam
durante a batalha. Talvez sejam homens da tua raça que decidiram
instalar-se aqui, depois da queda dos Cavaleiros, ou então aqueles
que adoram dragões e Cavaleiros como deuses.
Há mesmo quem o faça?
Antes havia. Nós desencorajávamos essa prática mas, mesmo
assim, era habitual em muitas das regiões isoladas de Alagaësia...
Creio que foi bom teres erguido as proteções.
Eragon viu as figuras encapuçadas percorrerem a cidade,
durante quase uma hora. Logo que chegaram ao lado oposto da
cidade, as lanternas apagaram-se, uma por uma, e Eragon não
conseguiu ver para onde tinham ido as figuras que seguravam nelas,
nem mesmo com a ajuda de magia.
Depois, apagou o fogo com alguns punhados de terra e meteuse
debaixo do cobertor para descansar.
Eragon! Saphira! Acordem!
Eragon abriu os olhos de repente, sentando-se direito e
agarrando em Brisingr.
Tudo estava escuro à exceção do brilho vermelho e mortiço das
brasas, à sua direita, e de uma faixa esfarrapada de céu a Este.
Embora houvesse pouca luz, Eragon conseguia distinguir os
contornos da floresta, do prado... e do gigantesco caracol que
deslizava pela erva, na sua direção.
Eragon gritou e recuou atrapalhadamente. O caracol — cuja
casca tinha mais de um metro e meio de altura — hesitou,
continuando depois a lambuzar o chão e arrastando-se na direção
dele, com a velocidade de um homem a correr. Um silvo
semelhante ao de uma serpente emanou da fenda negra da boca do
animal. Os olhos ondulantes eram do tamanho dos punhos de
Eragon
Eragon percebeu que não teria tempo de se levantar, nem teria
espaço suficiente para desembainhar Brisingr, assim deitado de
costas. Preparou-se para lançar um feitiço, mas antes que o
conseguisse fazer, a cabeça de Saphira passou por cima dele como
uma flecha, abocanhando o caracol mais ou menos a meio do
corpo. O casca do caracol estalou entre os seus caninos, com um
ruído semelhante a ardósia a partir-se, e a criatura deixou escapar
um guincho débil e trémulo.
Saphira torceu o pescoço, atirou a criatura ao ar, abriu a boca
tanto quanto possível e engoliu-a inteira, sacudindo a cabeça duas
vezes como um pisco a comer uma minhoca.
Baixando os olhos, Eragon viu outros quatro caracóis gigantes,
um pouco mais longe, no declive. Uma das criaturas recolhera-se
dentro da casca e as outras afastavam-se, apressadamente, sobre
as barrigas ondulantes como saias.
— Ali! — gritou Eragon.
Saphira saltou para a frente e todo o seu corpo abandonou, por
instantes, o solo. Depois aterrou sobre as quatro patas e
abocanhou o primeiro, depois o segundo e, finalmente, o terceiro
caracol. Não comeu o quarto — que estava escondido na casca —
mas puxou a cabeça para trás e banhou-o com uma torrente de
chamas azuis e amarelas, que iluminou a terra a mais de cem
metros, em todas as direções.
Manteve as chamas apenas durante um segundo ou dois,
agarrando depois no caracol fumegante com as mandíbulas — tão
delicadamente como uma mãe gata seguraria numa cria — e levou-o
para junto de Eragon, largando-o a seus pés. Ele olhou-o
desconfiado, mas a criatura parecia morta e bem morta.
Agora já podes tomar um pequeno-almoço decente, disse
Saphira.
Ele olhou-a e desatou a rir — continuando a rir até ficar dobrado
sobre si, ofegante, com as mãos sobre os joelhos.
Qual é graça?, perguntou ela, cheirando a casca enegrecida pela
fuligem.
Sim, porque te você está a rir, Eragon?, interpelou Glaedr.
Ele abanou a cabeça e continuou a arquejar, conseguindo por
fim dizer:
— Porque... — Depois reverteu para a linguagem mental para que
Glaedr o pudesse também ouvir. Caracol com ovos! E desatou a rir
outra vez, sentindo-se totalmente idiota. Bifes de caracol!... Tens
fome? Come uma antena! Você está cansado? Come um olho! Quem
precisa de hidromel quando tem baba?! Poderia pôr as antenas
numa caneca, como um ramo de flores e estas acabariam por...
Ria tanto, que achou que seria impossível continuar a falar e
deixou-se cair sobre o joelho, tentando recuperar o fôlego, com
lágrimas de hilaridade a deslizarem-lhe no rosto.
Saphira entreabriu as mandíbulas e pareceu sorrir com os seus
dentes aguçados, produzindo um ruído abafado na garganta.
Às vezes és muito estranho, Eragon. Ele conseguia sentir a sua
hilaridade a contagiá-la. Saphira voltou a cheirar a casca. Um
pouco de hidromel seria agradável.
— Pelo menos comeste — disse ele, com a mente e através da
linguagem, em simultâneo.
Não o suficiente, mas o bastante para regressar aos Varden.
Quando parou de rir, Eragon tocou no caracol com a biqueira
da bota.
Há tanto tempo que não há dragões em Vroengard, que ele nem
deve ter percebido o que você eras e decidiu fazer de mim uma
refeição fácil...Teria sido de fato uma morte miserável, acabar
como o jantar de um caracol.
Mas memorável, disse Saphira.
Mas memorável, anuiu ele, voltando a sentir vontade de rir.
O que disse eu que era a primeira lei da caça, jovens?,
interrompeu Glaedr.
Eragon e Saphira responderam ao mesmo tempo:
Não persigas a tua presa até teres a certeza de que é uma presa.
Muito bem, comentou Glaedr.
Depois, Eragon disse:
Larvas saltadoras, pássaros espetro e caracóis gigantes... Como
é possível que os feitiços lançados durante a batalha os tenham
criado?
Os Cavaleiros, os dragões e os Renegados libertaram uma
enorme quantidade de energia durante o conflito. Grande parte
dessa energia estava associada a feitiços, mas havia uma parte que
não estava. Os que sobreviveram para relatar a batalha disseram
que o mundo enlouqueceu durante um período de tempo e nada do
que viam ou sabiam era fiável. Alguma dessa energia deve ter-se
instalado nos antepassados das larvas e dos pássaros que viram
hoje, modificando-os. Contudo, estão enganados ao incluir os
caracóis nas suas hostes. Os snalglí, como são conhecidos, sempre
viveram aqui, em Vroengard. Eram um dos nossos alimentos
preferidos, por razões que tu, Saphira, certamente entendes.
Saphira gemeu e lambeu as mandíbulas.
Para além da pele ser suave e saborosa, a casca é ótima para a
digestão.
Se não passam de animais vulgares, porque é que as minhas
proteções não os detiveram?, perguntou Eragon. No mínimo,
deveriam ter-me prevenido do perigo iminente.
Isso pode ser uma consequência da batalha, respondeu Glaedr.
Não foi a magia que criou os snalglí, mas não significa que eles não
tivessem sido afetados pelas forças que devastaram este local. Não
deveríamos ficar aqui mais tempo do que o necessário. É preferível
irmos embora, antes que outras criaturas escondidas na ilha
decidam testar a nossa têmpera.
Com a ajuda de Saphira e de uma luz mágica, Eragon abriu a
casca do caracol queimado, retirando a carcaça invertebrada do
interior, uma tarefa nojenta e pegajosa que o deixou coberto de
carne ensanguentada até aos cotovelos. Depois ele ordenou a
Saphira que enterrasse a carne perto da cama de brasas.
A seguir, Saphira regressou ao local onde estivera deitada, na
erva, voltou a enroscar-se e a adormecer, mas, desta vez, Eragon
reuniu-se a ela. Pegando no cobertor e nos alforges que continham
o coração dos corações de Glaedr, ele gatinhou para baixo da sua
asa, instalando-se entre o pescoço e o corpo dela. E aí Eragon
passou a noite, a pensar e a sonhar.
O dia seguinte apresentava-se tão cinzento e sombrio quanto o
anterior. Uma leve camada de neve cobria a encosta da montanha e
o topo dos contrafortes, e o frio que se fazia sentir levou Eragon a
pensar que voltaria a nevar naquele dia.
Exausta, Saphira não se mexeu até o sol estar um palmo acima
das montanhas. Eragon mostrava-se impaciente mas deixou-a
dormir, pois era mais importante ela recuperar do voo até
Vroengard do que começarem de manhã cedo.
Logo que acordou, Saphira desenterrou a carcaça do caracol e
cozinhou um farto pequeno-almoço de caracol...
Eragon não sabia bem o que lhe chamar: bacon de caracol?
Fosse lá o que fosse, as tiras de carne estavam deliciosas e ele
comeu mais do que o habitual. Saphira devorou as sobras e, a
seguir, esperaram uma hora, pois não seria sensato envolverem-se
num combate de estômago cheio.
Finalmente, Eragon enrolou o cobertor, voltou a prender a sela a
Saphira e partiram os três para o Rochedo de Kuthian.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)