3 de junho de 2017

Capítulo 50 - A árvore da vida

Dos rochedos de Tel’naeír, Saphira voou rasante sobre a imponente floresta até chegar à clareira onde ficava a árvore Menoa. Mais espessa do que uma centena de pinheiros gigantescos que a circundavam, a árvore erguia-se na direção do céu como um poderoso pedestal, sua copa arqueada estendendo-se ao longo de mais de trezentos metros. Sua intricada rede de raízes se irradiava do maciço tronco revestido de musgo, cobrindo mais de quatro hectares do solo da floresta até mergulharem profundamente rio suave terreno e desaparecerem abaixo das árvores menores. Perto da Menoa, o ar era úmido e frio, e uma leve, porém constante, bruma descaía lentamente do emaranhado de folhas acima, umedecendo as amplas samambaias amontoadas na base do tronco. Esquilos vermelhos corriam pelos galhos da antiga árvore, e os vividos chilreios e trinados das centenas de pássaros explodiam das profundezas da folhagem. Em toda a clareira, prevalecia a sensação de uma presença vigilante, pois a árvore continha os restos da elfa uma vez conhecida como Linnëa, cuja consciência agora guiava o crescimento da árvore e de toda a floresta.
Eragon procurou o desnivelado terreno de raízes em busca de algum sinal de arma, mas, assim como antes, não encontrou nenhum objeto que pudesse levar para uma batalha. Examinou um pedaço de casca solta no musgo aos seus pés e entregou a Saphira.
O que você acha?, perguntou ele. Se a recheasse de encantos, você acha que eu conseguiria matar um soldado com isso?
Você poderia matar um soldado com uma folhinha, se quisesse, ela respondeu. Entretanto, contra Murtagh e Thorn, ou contra o rei e seu dragão negro, você vai ter de juntar uma corda de lã úmida a essa casca para atacá-los.
Você tem razão, ele reconheceu, e jogou a casca fora.
A mim parece, disse ela, que você não deveria fazer papel de idiota só para provar que o conselho de Solembum é verdadeiro.
Eu sei, mas talvez eu devesse encarar o problema de modo diferente se eu quiser mesmo achar essa arma. Como você apontou antes, poderia facilmente ser uma pedra ou um livro em vez de algum tipo de lâmina. Um cajado feito de um galho da árvore Menoa poderia se transformar em uma arma valiosa, imagino eu. Mas dificilmente se igualaria a uma espada. Não... E eu não ousaria cortar um galho sem permissão da própria árvore, e não faço a menor ideia de como conseguiria convencê-la a atender meu pedido.
Saphira arqueou seu pescoço sinuoso e ergueu os olhos para a árvore. Então, balançou a cabeça e os ombros para se livrar das gotículas que haviam se acumulado nas bordas de suas escamas facetadas. Quando os respingos de água gelada o atingiram, Eragon gritou e saltou para trás, protegendo o rosto com o braço.
Se alguma criatura tentasse fazer mal à árvore Menoa, ela disse, duvido que continuasse viva tempo suficiente para lamentar o erro.
Por várias horas os dois se debruçaram sobre a clareira. Eragon continuava com esperança de que acabariam se deparando com algum esconderijo entre as raízes entrelaçadas onde encontrariam a ponta visível de um baú enterrado, que conteria uma espada.
Já que Murtagh está com Zar’roc, que é a espada de seu pai, pensou Eragon, tenho todo o direito de ter a espada que Rhunön fez para Brom.
Seria a cor certa, também, acrescentou Saphira. Seu dragão, minha homônima, também era azul.
Finalmente, em desespero, Eragon alcançou a árvore Menoa com sua mente e tentou atrair a atenção de sua lenta consciência para explicar sua busca e pedir ajuda. Mas talvez também precisasse tentar se comunicar com o vento ou com a chuva, porque a árvore não dedicou mais atenção a ele do que ele teria dedicado a uma formiga escalando suas botas.
Desapontados, Cavaleiro e dragão deixaram a Menoa assim que a borda do sol beijou o horizonte. Da clareira. Saphira voou para o centro de Ellesméra, onde planou até aterrissar no quarto da casa da árvore que os elfos haviam emprestado a eles. O lugar era um conjunto de diversas salas globulares que ficavam na copa de uma árvore compacta, dezenas de metros acima do chão. Uma refeição de frutas, vegetais, feijões cozidos e pão estava esperando por Eragon na sala de jantar. Depois de comer um pouco, ele se aconchegou perto de Saphira na bacia forrada com um cobertor colocado no chão, ignorando a cama para dar preferência à companhia de seu dragão. Permaneceu deitado, alerta e ciente do que estava à sua volta, enquanto Saphira mergulhou num sono profundo.
De seu lugar ao lado dela, Eragon observava as estrelas subindo e descendo acima da floresta iluminada pela lua e pensou em Brom e no mistério de sua mãe. Tarde da noite, deslizou para o estado de transe de seu sonhar acordado, e lá falou com seus pais. Eragon não conseguia ouvir o que diziam, pois sua voz e as deles estavam abafadas e indistintas, mas de alguma forma percebeu o amor e o orgulho que seus pais sentiam por ele, e, embora soubesse que não passavam de fantasmas de sua mente inquieta, cada vez mais valorizava a lembrança da afeição dos dois.


Na madrugada, um elfo esguio conduziu Eragon e Saphira pela trilha de Ellesméra até a propriedade da família Valtharos. Ao passarem entre os troncos escuros dos soturnos pinheiros, Eragon percebeu como a cidade estava vazia e tranquila comparada à última vez em que haviam estado lá; notou apenas três elfos entre as árvores: figuras altas e graciosas que deslizavam em passos silenciosos.
Quando os elfos marcham para a guerra, Saphira observou, poucos ficam para trás.
Verdade.
Lorde Fiolr estava esperando por eles dentro de um salão abobadado iluminado por diversas luzes-vivas flutuantes. Seu rosto era longo e severo e com uma angulação mais incisiva do que a da maioria dos elfos, de modo que sua fisionomia lembrava a Eragon uma lança de lâmina estreita. Vestia uma túnica verde e dourada cujo colarinho se projetava atrás de sua cabeça, como as penas de pescoço de algum pássaro exótico. Em sua mão esquerda, segurava um bastão de madeira branca entalhada com símbolos de Liduen Kvaedhí. Sobre a extremidade estava fincada uma lustrosa pérola. Inclinando-se até a cintura, lorde Fiolr fez uma saudação, assim como Eragon. Então, trocaram os tradicionais cumprimentos élficos, e Eragon agradeceu ao lorde pela generosidade de lhe permitir inspecionar a espada Támerlein. E lorde Fiolr comentou:
— Há muito tempo Támerlein é um tesouro de minha família, e especialmente cara ao meu coração. Você conhece a história de Támerlein, Matador de Espectros?
— Não — respondeu Eragon.
— Minha companheira era a muito sábia e justa Naudra, e seu irmão, Arva, era Cavaleiro de Dragão à época da Queda. Naudra o estava visitando em Ilirea quando Galbatorix e os Renegados devastaram a cidade como uma tempestade do norte. Arva lutou junto com os outros Cavaleiros para defender Ilirea, mas o Renegado Kialandí deu-lhe um golpe mortal. Enquanto estava à morte no meio do combate de Ilirea, Arva deu sua espada, Támerlein, a Naudra para que ela pudesse se proteger. Com Támerlein, Naudra escapou dos Renegados e voltou para cá com outro dragão e outro Cavaleiro, embora ela morresse logo depois em decorrência de seus ferimentos.
Com um dedo, lorde Fiolr bateu no bastão, produzindo, como resultado, um brilho suave na pérola.
— Támerlein é tão preciosa para mim quanto o ar em meus pulmões; antes me separaria de minha vida do que dela. Infelizmente, nem eu nem meus parentes somos dignos de usá-la. Támerlein foi forjada para um Cavaleiro, e Cavaleiros nós não somos. Estou disposto a emprestá-la a você, Matador de Espectros, para ajudá-lo em sua luta contra Galbatorix. Entretanto, Támerlein continuará sendo propriedade da Casa Valtharos. Você deve prometer, então, que devolverá a espada se eu ou algum herdeiro meu pedirmos.
Eragon deu sua palavra e assim lorde Fiolr o conduziu e a Saphira até uma longa e polida mesa que brotava da madeira viva do chão. Em uma das extremidades da mesa estava um estrado adornado, e sobre ele estava a espada Támerlein e sua bainha. A lâmina tinha uma coloração verde-escura, assim como a bainha. Uma grande esmeralda enfeitava o cabo. Os ornamentos da espada eram trabalhados em aço azulado. Uma linha de símbolos adornava a proteção do punho. Em élfico estava escrito: Eu sou Támerlein, agente do sono final. No comprimento, a espada era igual a Zar’roc, mas a lâmina era mais larga, a ponta mais arredondada e o cabo mais pesado. Era uma bela e mortífera arma, mas, só em olhá-la, Eragon podia ver que Rhunön forjara Támerlein para uma pessoa com um estilo de combate diferente do seu, um estilo que se baseava mais em cortar e despedaçar do que nas técnicas mais elegantes que Brom lhe havia ensinado.
Assim que seus dedos se fecharam em torno do cabo da espada, percebeu que era largo demais para sua mão, e nesse instante entendeu que Támerlein não era para ele, Ela não parecia uma extensão de seu braço, como Zar’roc. Mas, apesar da percepção, Eragon hesitou, pois onde mais ele poderia esperar encontrar uma espada com tanta qualidade? Arvindr, a outra lâmina que Oromis havia mencionado, estava em uma cidade centenas de quilômetros distante.
Então, Saphira orientou-o: Não a leve. Se você tem de levar uma espada para a batalha, se sua vida e a minha dependem dela, então a espada deve ser perfeita. Nada menos será suficiente. Além disso, não gosto das condições que lorde Fiolr impôs ao presente.
E assim Eragon recolocou Támerlein em seu estrado e se desculpou com lorde Fiolr, explicando por que não podia aceitar a espada. O elfo de rosto estreito não pareceu muito desapontado. Ao contrário, Eragon imaginou ter visto um lampejo de satisfação surgir em seus olhos impetuosos.


Da casa da família Valtharos, Eragon e Saphira passaram pelas cavernas mal-iluminadas da floresta e atravessaram o túnel de cornisos que levava ao átrio no centro da casa de Rhunön. Quando emergiram do túnel, Eragon ouviu o barulho de um martelo sobre um cinzel, e avistou a elfa sentada num banquinho perto da forja sem parede no centro do lugar. Estava ocupada entalhando um bloco de aço reluzente diante dela. O que estava esculpindo, Eragon não conseguia adivinhar, pois o pedaço de metal ainda parecia tosco e indistinto.
— Quer dizer que você ainda está vivo, Matador de Espectros — comentou Rhunön, sem tirar os olhos de seu trabalho. Sua voz parecia o ruído de arenito sendo esmigalhado. — Oromis me disse que você perdeu Zar’roc para o filho de Morzan.
Eragon estremeceu e assentiu, apesar de ela não estar olhando para ele.
— Sim, Rhunön-elda. Ele tomou-a de mim na Campina Ardente.
— Humph. — Rhunön concentrava-se no martelo, batendo nas costas do cinzel com velocidade sobre-humana. Então, fez uma pausa. — E a espada encontrou seu dono de direito. Não gosto do uso que... qual é mesmo o nome dele? Ah, sim, Murtagh está dando a Zar’roc, mas todo Cavaleiro merece uma espada apropriada, e não posso imaginar uma espada melhor para o filho de Morzan do que a própria lâmina do pai. — A elfa levantou os olhos para Eragon. — Compreenda-me, Matador de Espectros, teria preferido que você tivesse ficado com a posse de Zar’roc, mas ficaria muito mais satisfeita se você tivesse uma espada feita para você. Zar’roc pode ter-lhe servido muito bem, mas não tinha o formato ideal para o seu corpo. E não venha me falar de Támerlein. Seria um idiota se pensasse que poderia manuseá-la.
— Como pode ver — observou Eragon —, não a peguei emprestada de lorde Fiolr.
Rhunön assentiu e voltou ao trabalho com o cinzel.
— Então está bem.
— Se Zar’roc é a espada adequada para Murtagh, será que a espada de Brom não seria a arma certa para mim?
Rhunön franziu fortemente o cenho.
— Undbitr? Por que você estaria pensando na espada de Brom?
— Porque Brom era meu pai — informou Eragon, e sentiu um arrepio por ter sido capaz de dizer a frase.
— É assim agora? — Baixando o martelo e o cinzel, Rhunön saiu da forja e ficou de frente para Eragon. Sua postura era levemente inclinada devido aos séculos que passara debruçada sobre o trabalho. E por causa disso, parecia ser alguns centímetros mais baixa do que ele. — Mmm, sim, posso ver a similaridade. Ele era um tipo rude, Brom, era sim, dizia o que queria sem medir palavras. Eu gostava muito disso. Não consigo suportar o que minha raça se tornou. São educados demais, refinados demais, pomposos demais. Rá! Lembro quando os elfos costumavam rir e lutar como criaturas normais. Agora ficaram tão contidos que alguns parecem não ter mais emoção do que uma estátua de mármore!
Saphira quis saber: Você está se referindo a como os elfos eram antes de nossas raças se juntarem uma com a outra?
Rhunön virou-se para Saphira com uma expressão mal-humorada.
— Escamas Brilhantes. Bem-vinda. Sim, estava falando de uma época anterior aos laços entre os elfos e os dragões serem selados. As mudanças que vi em nossas raças, desde então, você dificilmente acreditaria, mas foi assim que aconteceu, e aqui estou, uma das poucas ainda vivas que ainda consegue se lembrar de como éramos antes.
Então, Rhunön atacou Eragon com seu olhar novamente.
— Undbitr não é a resposta de que precisa. Brom perdeu sua espada durante a queda dos Cavaleiros. Se não está na coleção de Galbatorix, então pode ter sido destruída ou pode ter sido enterrada em algum lugar, embaixo dos ossos destroçados em algum campo de batalha há muito tempo esquecido. Mesmo que pudesse ser encontrada, você não poderia reavê-la antes de encarar novamente seus inimigos.
— O que eu deveria fazer, então, Rhunön-elda? — perguntou Eragon.
E ele contou para ela a respeito da cimitarra que escolhera quando estava com os Varden e dos encantamentos com os quais a reforçara e como ela o havia deixado desamparado nos túneis embaixo de Farthen Dûr.
Rhunön resfolegou.
— Não, isso jamais funcionaria. Uma vez que uma lâmina foi forjada e temperada, pode-se protegê-la com uma interminável fileira de encantamentos, mas o metal em si permanece fraco como sempre. Um Cavaleiro precisa de algo mais: uma lâmina que possa sobreviver ao mais violento dos impactos e que não seja afetada pela maioria dos encantos. Não, o que você deve fazer é lançar os encantamentos sobre o metal fervente enquanto o está extraindo do minério e também enquanto o está forjando, de modo a alterar e melhorar sua estrutura.
— Mas como posso conseguir uma espada assim? — quis saber Eragon. — Você faria uma para mim, Rhunön-elda?
As tênues rugas no rosto de Rhunön se acentuaram. Aproximou-se e esfregou o cotovelo esquerdo, os grossos músculos de seu antebraço desnudado estavam visíveis.
— Você sabe que jurei nunca mais criar outra arma enquanto estivesse viva.
— Sei.
— Meu juramento me amarra. Não posso quebrá-lo, não importa o quanto eu deseje. — Ainda segurando o cotovelo, a elfa voltou para o banquinho e se sentou diante de sua escultura. — E por que eu deveria fazer isso, Matador de Espectros? Diga-me. Por que eu deveria liberar no mundo outra destruidora de almas?
Eragon escolheu suas palavras com cuidado.
— Porque se o fizesse, poderia ajudar a pôr um fim no reinado de Galbatorix. Não concorda que seria apropriado se eu o matasse com uma lâmina forjada por você, já que foi com suas espadas que ele e os Renegados chacinaram tantos dragões e Cavaleiros? Você odeia o modo como usaram suas armas. Não existiria melhor maneira de equilibrar a situação do que forjar o instrumento da destruição de Galbatorix. Não concorda?
Rhunön cruzou os braços e levantou os olhos para o céu.
— Uma espada... uma nova espada. Depois de tanto tempo, exercer novamente meu oficio... — Baixando o olhar, trincou os dentes para Eragon: — É possível, apenas possível, que haja uma maneira de eu ajudá-lo, mas é fútil especular, pois não posso tentar.
Por que não?, Saphira indagou.
— Porque eu não tenho o metal de que necessito! — rosnou Rhunön. — Você não pensa que forjei as espadas dos Cavaleiros com aço ordinário, pensa? Não! Muito tempo atrás, enquanto vagava por Du Weldenvarden, deparei com fragmentos de uma estrela cadente que havia caído na terra. Os pedaços continham um minério diferente de todos que eu já manuseara, e então voltei com eles para minha forja, os refinei, e descobri que a mistura de aço que resultou era mais forte, mais dura e muito mais flexível do que qualquer um de origem terrena. Chamei o metal de aço de luz, devido ao brilho incomum, e quando a rainha Tarmunora me pediu para forjar a primeira das espadas dos Cavaleiros, foi aço de luz que eu usei. Mais tarde, sempre que tinha oportunidade, ia até a floresta procurar mais fragmentos do metal estelar. Não costumava encontrar sempre, mas, quando encontrava, eu os guardava para os Cavaleiros.
“Ao longo dos séculos, os fragmentos se tornaram cada vez mais raros, até que finalmente comecei a achar que não sobrara mais nenhum. Levei vinte e quatro anos para encontrar o último depósito. A partir dele, forjei sete espadas, entre as quais Undbitr e Zar’roc. Desde a queda dos Cavaleiros, só procurei pelo aço de luz apenas mais uma vez, e foi ontem à noite, depois que Oromis me falou de você. — Rhunön inclinou a cabeça, e seus olhos aguados se fixaram em Eragon. — Caminhei quilômetros e quilômetros para todos os lados, lancei muitos encantamentos para achar e amarrar, mas não me deparei com um milímetro que fosse de aço de luz. Se um pouco dele pudesse ser encontrado, então poderíamos começar a considerar a possibilidade de uma espada para você, Matador de Espectros. Do contrário, essa discussão não passa de perda de tempo sem nenhum sentido.”
Eragon fez uma mesura para a elfa e agradeceu pela atenção que lhe dispensara, então ele e Saphira deixaram o átrio pelo túnel verde de folhas de corniso.
Enquanto caminhavam lado a lado na direção de uma clareira de onde Saphira pudesse decolar, Eragon comentou: Aço de luz, isso deve ter alguma coisa a ver com o que Solembum disse. Deve haver aço de luz embaixo da árvore Menoa.
Como ele poderia saber?
Talvez a própria árvore tenha lhe contado. Isso importa?
Aço de luz ou não, ela ponderou, como poderemos pegar alguma coisa coberta pelas raízes da árvore Menoa? Nós não podemos cortá-las. Nós nem mesmo sabemos onde cortar.
Preciso pensar a respeito disso.


Da clareira próxima à casa de Rhunön, Saphira e Eragon voaram sobre Ellesméra até os rochedos de Tel’naeír, onde Oromis e Glaedr estavam esperando. Assim que Saphira aterrissou e Eragon desmontou, ela e Glaedr saltaram do penhasco e desceram em espiral, sem ramo exato, apenas gozando o prazer da presença um do outro. Enquanto os dois dragões dançavam entre as nuvens, Oromis ensinou a Eragon como um mago podia transportar um objeto de um lugar para o outro sem que o objeto atravessasse a distância que os separava.
— A maioria das formas de magia — explicou Oromis — requer uma quantidade de energia proporcional à distância entre você e seu alvo. Entretanto, isso não ocorre nesse exemplo em particular. Seria necessária a mesma quantidade de energia para enviar a pedra em minha mão para o outro lado daquele córrego e para as Ilhas do Sul. Por esse motivo, o encanto é muito útil quando se precisa transportar por meio de magia um item para um local tão distante que você morreria se fosse movê-lo normalmente através do espaço. Mesmo assim, é um encanto difícil, e só se deve recorrer a ele se todos os outros falharam. Mudar de local algo tão grande como o ovo de Saphira, por exemplo, deixaria você tão exausto que nem conseguiria se mexer depois.
Então, Oromis ensinou a Eragon as palavras do encanto e diversas variações. Assim que ele memorizou os encantamentos, para a satisfação de Oromis, o elfo o mandou tentar transportar a pequena pedra que estava segurando. Assim que Eragon proferiu o encanto na sua totalidade, a pedra desapareceu da palma da mão de Oromis e, um instante depois, reapareceu no meio da clareira com um raio de luz azul, uma explosão barulhenta e a eclosão de ar quente.
Eragon estremeceu com o barulho e agarrou o galho de uma árvore próxima para se equilibrar quando seus joelhos se dobraram e ele sentiu um suor frio percorrendo-lhe o corpo. Seu couro cabeludo ardeu quando mirou a pedra, que estava no meio de um círculo de grama calcinada, e lembrou o momento em que segurou o ovo de Saphira pela primeira vez.
— Muito bem-feito — elogiou Oromis. — Agora, você pode me dizer por que a pedra fez aquele barulho quando se materializou na grama?
Eragon prestava bastante atenção a tudo o que Oromis dizia, mas, ao longo da lição, continuou ruminando a questão da árvore Menoa, mesmo sabendo que Saphira estava fazendo o mesmo enquanto voava bem alto. Quanto mais ruminava, mais se desesperava pela perspectiva de jamais encontrar uma solução.
Quando Oromis terminou de ensiná-lo como transportar objetos, o elfo perguntou:
— Já que declinou a oferta do lorde Fiolr para ficar com Támerlein, você e Saphira ficarão mais tempo em Ellesméra?
— Não sei, mestre — respondeu Eragon. — Há mais uma coisa que gostaria de tentar com a árvore Menoa, mas, se não der certo, então suponho que nós não teremos escolha a não ser retornar de mãos vazias para os Varden.
Oromis assentiu.
— Antes de ir embora, volte aqui com Saphira uma última vez.
— Sim, mestre.


Enquanto balançava suas asas na direção da Menoa com Eragon em suas costas, Saphira comentou: Não deu certo antes. Por que deveria dar certo agora?
Dará certo porque tem de dar certo. Além disso, você tem uma ideia melhor?
Não, mas não gosto disso. Não sabemos como ela pode reagir. Lembre-se, antes de Linnëa cantar e se transformar na árvore, ela matou o jovem que a traiu. Ela pode se utilizar de violência novamente.
Ela não ousará, não com você por perto para me proteger.
Mmm.
Com um leve sopro, Saphira acendeu uma raiz dezenas de metros distante da base da árvore Menoa. Os esquilos no enorme pinheiro berraram avisos para seus pares ao repararem na chegada do dragão. Deslizando na direção da raiz, Eragon esfregou as palmas das mãos nas coxas, e murmurou:
— Certo, não vamos perder tempo.
Pisando levemente, subiu pela raiz até o tronco da árvore, deixando os braços esticados de cada lado para manter o equilíbrio. Saphira o seguia num ritmo mais lento, suas garras quebrando e partindo as cascas sobre as quais pisava. Eragon se agachou em um pedaço escorregadio de madeira e enganchou o dedo em uma greta no tronco da árvore para não tropeçar. Esperou até que Saphira estivesse em pé acima dele e então fechou os olhos, respirou fundo o ar frio e úmido e impulsionou seus pensamentos na direção da árvore.
A Menoa não fez nenhuma tentativa de impedi-lo de tocar sua mente, pois sua consciência era tão grande e distante, e tão emaranhada na consciência das outras plantas da floresta, que ela não tinha necessidade de se defender. Quem quer que tentasse controlar a árvore também teria de estabelecer um domínio mental sobre uma boa parcela de Du Weldenvarden, um feito que nenhuma pessoa poderia esperar alcançar sozinha.
Vindos da árvore, Eragon sentiu calor e luminosidade, e a pressão da terra nas raízes por centenas de metros em todas as direções. Sentiu a agitação da brisa através dos galhos intricados da árvore e o fluxo de seiva pegajosa vazando de um pequeno corte na casca. E recebeu uma série de impressões familiares das outras plantas que a Menoa vigiava.
Em comparação com a atenção que demonstrara por ocasião da Celebração de Juramento ao Sangue, a árvore parecia estar quase adormecida. O único pensamento consciente que Eragon conseguiu detectar foi tão longo e se movia de forma tão lenta que era impossível de decifrar.
Reunindo todos os seus recursos, Eragon dirigiu um grito mental à árvore.
Por favor, ouça-me, ó grande árvore! Preciso de sua ajuda! Toda a região está em guerra, os elfos abandonaram a segurança de Du Weldenvarden e não tenho uma espada para lutar! O menino-gato Solemhum me disse para olhar embaixo da árvore Menoa se eu precisasse de uma arma. Bem, o momento chegou! Por favor, ouça-me, ó mãe da floresta! Ajude-me em minha busca!
Enquanto falava, Eragon imprimia na consciência da árvore imagens de Thorn e Murtagh e das tropas do Império. Acrescentando várias outras lembranças à mistura, Saphira galvanizava o esforço dele com a força de sua própria mente. Eragon não contava apenas com palavras e imagens. De dentro de si e de Saphira, ele canalizava uma corrente estável de energia para o interior da árvore: uma dádiva de boa-fé que esperava também poder ajudar a despertar a curiosidade da Menoa. Vários minutos se passaram, e a árvore continuava sem reconhecer sua presença. Mas Eragon se recusava a abandonar suas tentativas. A árvore, ele ponderava, se movia numa velocidade inferior à dos homens e elfos. Era bastante aceitável que não respondesse imediatamente à solicitação deles.
Não podemos gastar muito mais de nossa força, disse Saphira, não se quisermos voltar para os Varden em tempo hábil.
Eragon concordou e, relutante, represou o fluxo de energia. Enquanto continuavam suplicando à Menoa, o sol alcançou seu zênite e então começou a descair. Nuvens se avolumavam, se desintegravam e se moviam apressadamente na cúpula do céu. Pássaros voavam pelas copas das árvores, esquilos nervosos tagarelavam, borboletas pulavam de um ponto a outro e uma fileira de formigas vermelhas marchava atrás da bota de Eragon, carregando pequenas larvas brancas em suas pinças.
Então, Saphira rosnou, e todos os pássaros voaram para longe, aterrorizados. Chega dessa humilhação!, declarou ela. Sou um dragão e não serei ignorada, Nem mesmo por uma árvore!
— Não, espere! — gritou Eragon, sentindo as intenções dela, mas ela o ignorou. Afastando-se do tronco da Menoa, Saphira se agachou, enterrou as garras na raiz e, com um puxão poderoso, arrancou três enormes tiras de madeira.
Venha falar conosco, árvore-elfa!, rosnou ela. Recuou a cabeça como uma cobra se preparando para dar o bote, e uma torre de chama irrompeu de sua boca, banhando o tronco em uma tempestade de fogo azul e branco.
Cobrindo o rosto, Eragon deu um salto para escapar do calor.
— Saphira! Pare! — berrou ele, horrorizado.
Vou parar quando ela responder.
Uma densa nuvem de gotículas caiu no chão. Olhando para cima, Eragon viu os galhos do pinheiro tremendo e balançando numa agitação crescente. O ruído de madeira raspando em madeira encheu o ar. Ao mesmo tempo, uma brisa gelada atingiu a bochecha de Eragon, e ele imaginou ter sentido um leve troar embaixo dos pés.
Olhando ao redor, percebeu que as árvores que circundavam a clareira pareciam maiores e mais angulosas do que antes, e pareciam estar se inclinando para dentro, seus galhos contorcidos aproximando-se dele como se fossem garras. E Eragon ficou com medo.
Saphira..., ele chamou, e se agachou, pronto para correr ou lutar.
Fechando suas mandíbulas e assim encerrando a corrente de fogo, Saphira afastou o olhar da Menoa. Ao se dar conta do anel de árvores ameaçadoras, suas escamas ondularam e as pontas se ergueram do couro como o pelo de um gato acuado. Ela rosnou para a floresta, balançando a cabeça de lado a lado, e então abriu as asas e começou a se afastar da árvore.
Rápido, suba em mim.
Antes que Eragon pudesse dar um único passo, uma raiz tão grossa quanto seu braço brotou do chão e se enroscou em seu calcanhar esquerdo, imobilizando-o. Raízes ainda mais grossas apareceram dos dois lados de Saphira e a agarraram pelas pernas e pelo rabo, mantendo-a presa. Saphira grunhiu em fúria e arqueou seu pescoço para soltar outro dilúvio de fogo.
As chamas tremeluziam e escapavam de sua boca quando uma voz soou na sua mente e na de Eragon, uma voz lenta e sussurrante que lembrou a Eragon o farfalhar de folhas. li a voz disse:
Quem ousa perturbar minha paz? Quem ousa me morder e me queimar? Nomeiem-se, de modo que eu saiba quem matei.
Eragon fez uma careta de dor quando a raiz apertou com mais força seu tornozelo. Um pouco mais de pressão e quebraria o osso.
Eu sou Eragon Matador de Espectros, e esse é o dragão a quem estou ligado, Saphira Escamas Brilhantes.
Morram bem, Eragon Matador de Espectros e Saphira Escamas Brilhantes.
Espere! Não terminei de dizer os nomes.
Um longo silêncio se seguiu, e então a voz disse: Prossiga.
Sou o último Cavaleiro de Dragão livre da Alagaësia, e Saphira ê a última de sua espécie do sexo feminino que resta no mundo. Talvez sejamos os únicos que podem derrotar Galbatorix, o traidor que destruiu os Cavaleiros e conquistou metade da Alagaësia.
Por que você me feriu, dragão?, a voz suspirou.
Saphira mostrou os dentes enquanto respondia. Porque você não nos respondia, árvore-elfa, e porque Eragon perdeu sua espada e um menino-gato disse-lhe para procurar embaixo da árvore Menoa quando precisasse de uma arma. Nós procuramos e procuramos, mas não conseguimos encontrar nada.
Então morrerão em vão, dragão, pois não há nenhuma arma embaixo de minhas raízes.
Desesperado para manter a árvore falando, Eragon continuou explicando: Nós acreditamos que o menino-gato possa ter se referido ao aço de luz, o metal estelar que Rhunön utiliza para forjar as lâminas dos Cavaleiros. Sem ele, ela não pode substituir minha espada.
A superfície da terra ficou ondulada quando a rede de raízes que cobria a clareira mudou levemente de posição. O distúrbio retirou centenas de animais em pânico de suas tocas e covis: coelhos, ratos, ratazanas, musaranhos e outras pequenas criaturas fugiam precipitadamente pelas frestas do chão em direção à parte principal da floresta.
Com o canto dos olhos Eragon viu dezenas de elfos correndo na direção da clareira, seus cabelos soltos atrás deles parecendo flâmulas de seda. Silenciosos como fantasmas, os elfos pararam embaixo dos ramos das árvores circundantes e miravam-no e a Saphira, mas não faziam nenhum movimento no sentido de se aproximarem ou de ajudá-los. Eragon estava a ponto de chamar Oromis e Glaedr com sua mente quando a voz retornou.
O menino-gato sabia a respeito do local. Há um nódulo de aço de luz enterrado nas bordas de minhas raízes, mas não podem se apossar dele. Vocês me morderam e me queimaram, e não os perdoo.
Uma sensação de alerta mitigou a excitação de Eragon ao ouvir sobre a existência do minério.
Mas Saphira é o último dragão do sexo feminino!, ele exclamou. Certamente você não a mataria!
Dragões sopram fogo, sussurrou a voz, e as árvores estremeceram no limite da clareira. Fogo deve ser apagado.
Saphira rosnou novamente.
Se nós não pudermos deter o homem que destruiu os Cavaleiros de Dragão, ele virá aqui e queimará a floresta ao seu redor, e então a destruirá também, árvore-elfa. Se você nos ajudar, contudo, talvez possamos detê-lo.
Um guincho ecoou entre as árvores quando um galho raspou no outro.
Se tentar matar minhas plantas, ele morrerá, disse a voz. Ninguém pode esperar derrotar a floresta, e falo pela floresta.
A energia que nós demos a você não é suficiente para curar seus ferimentos?, indagou Eragon. Isso não é uma compensação suficiente?
A Menoa não respondeu, mas penetrou a mente de Eragon, varrendo seus pensamentos como uma ventania.
O que você é, Cavaleiro?, quis saber a árvore. Eu conheço cada criatura que vive nessa floresta, mas jamais encontrei alguma como você.
Não sou nem elfo nem humano, respondeu Eragon. Sou algo entre um e outro. Os dragões mudaram minha forma durante a Celebração de Juramento ao Sangue.
Por que eles o mudaram, Cavaleiro?
Para que eu pudesse combater melhor Galbatorix e seu império.
Eu lembro de haver sentido uma deformação no mundo durante a celebração, mas não imaginei que fosse importante... Tão poucas coisas parecem importantes hoje em dia, exceto o sol e a chuva.
Nós curaremos sua raiz e seu tronco se isso a deixar satisfeita, mas, por favor, podemos levar o aço de luz?
As outras árvores chiaram e gemeram como almas abandonadas, e então, suave e tremulante, a voz reapareceu. Você me dará o que eu quero em troca, Cavaleiro de Dragão?
Darei, Eragon respondeu, sem hesitação. Qualquer que fosse o preço, ele pagaria de bom grado por uma espada de Cavaleiro.
A copa da Menoa ficou imóvel e, por vários minutos, tudo ficou quieto na clareira. Então, o chão começou a tremer e as raízes na frente de Eragon começaram a se contorcer e a se pulverizar, triturando pedaços de casca enquanto se espremiam para fazer surgir uma faixa de terra da qual emergiu o que parecia ser um bloco de ferro corroído com quase um metro de comprimento por meio metro de largura. À medida que o metal aparecia sobre a superfície do rico solo escuro, Eragon começou a sentir um leve prurido no baixo-ventre. Estremeceu e friccionou o local, mas a momentânea sensação de desconforto já havia passado. Então, a raiz em volta de seu tornozelo cedeu e voltou para o solo, assim como também as outras que seguravam Saphira.
Aqui está seu metal, sussurrou a árvore Menoa. Leve-o e vá...
Mas... Eragon começou a perguntar.
Vá... repetiu a árvore Menoa, sua voz desaparecendo. Vá...
E a consciência da árvore afastou-se dele e de Saphira, recuando cada vez mais profundamente para dentro de si até que Eragon quase não conseguia mais sentir sua presença. Em torno deles, imensos pinheiros relaxavam e voltavam às suas posições originais.
— Mas... — disse Eragon em voz alta, confuso pelo fato de a Menoa não ter dito o que queria. Ainda perplexo, foi até o metal, deslizou os dedos embaixo da beira da pedra revestida e pegou com as mãos a massa irregular, grunhindo devido ao peso. Abraçando-a contra o peito, deu as costas à árvore e iniciou a longa caminhada até a casa de Rhunön.
Saphira cheirou o aço de luz ao se juntar a ele.
Você tinha razão, ela concluiu. Eu não deveria tê-la atacado.
Pelo menos nós pegamos o aço de luz, observou Eragon, e a Menoa... Bem, não sei o que conseguiu, mas nós conseguimos o que viemos buscar, e ê isso o que importa.
Os elfos se uniram ao longo da trilha que Eragon escolhera e olharam para ele e para Saphira com tanta intensidade que o deixou com um arrepio na nuca, fazendo com que acelerasse o passo. Os elfos não falaram nem uma vez sequer, apenas miravam com seus olhos puxados, miravam como se observassem um animal perigoso ameaçando suas casas. Uma nuvenzinha de fumaça escapou das narinas de Saphira.
Se Galbatorix não nos matar antes, ela disse, tenho a impressão de que lamentaremos para sempre esse dia.

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Boa leitura :)