23 de junho de 2017

Capítulo 5 - Em seguida

Eragon gemeu e encostou-se em Saphira, escorregando pelas escamas rugosas até ficar sentado no chão, as mãos apoiadas nos joelhos, esticando as pernas à frente do corpo.
— Tenho fome! — exclamou.
Estava com Saphira no pátio do castelo, afastados dos homens que trabalhavam para desobstruí-lo – empilhando pedras e corpos em carroças – e das pessoas que saíam e entravam no edifício danificado, muitas das quais tinham assistido à audiência de Nasuada com o Rei Meia-pata e retiravam-se agora para cuidar de outras tarefas. Blödhgarm e quatro elfos mantinham-se ali por perto, atentos a qualquer perigo.
— Ei! — gritou alguém.
Eragon levantou os olhos e viu Roran caminhar na sua direção, vindo da fortaleza. Angela seguia-o a alguns passos de distância. Com a lã a esvoaçar, quase tinha de correr para acompanhar a sua passada mais larga.
— Para onde você vai agora? — perguntou Eragon, quando Roran parou diante de si.
— Vou ajudar a guardar a cidade e a organizar os prisioneiros.
— Ah... — Os olhos de Eragon vaguearam pelo pátio movimentado antes de voltar a olhar para o rosto contundido de Roran. — Você lutou bem.
— Você também.
Eragon desviou a sua atenção para Angela, que estava de novo a tricotar, movendo os dedos tão depressa que ele não conseguia acompanhar o que ela fazia.
— Piu, piu? — perguntou.
Uma expressão travessa invadiu-lhe o rosto e ela abanou a cabeça, agitando os caracóis volumosos.
— É uma história para outra hora.
Eragon aceitou a evasiva sem reclamar; não esperava que ela se explicasse, pois raramente o fazia.
— E você? — interpelou Roran. — Para onde vai?
Vamos comer alguma coisa, disse Saphira, batendo de leve com o focinho em Eragon e exalando ar morno sobre ele.
Roran acenou com a cabeça.
— Parece-me uma boa ideia. Então nos vemos no acampamento esta noite. — Ao virar-se para se afastar, acrescentou: — Mande meu amor a Katrina.
Angela guardou o tricô numa bolsa acolchoada que tinha presa à cintura.
— Acho que também vou embora. Estou preparando uma poção na minha tenda e tenho de ir cuidar dela. Além disso, quero localizar um certo menino-gato.
— Grimrr?
— Não, não... uma velha amiga minha: a mãe de Solembum. Isto se ela ainda estiver viva. Espero que sim. — Levou a mão à testa, formando um círculo com o indicador e o polegar, e disse num tom de voz demasiado alegre: — Nos vemos por aí. — Dito isto, foi-se embora.
Salte para o meu dorso, disse Saphira, levantando-se e deixando Eragon sem apoio. Ele subiu para a sela na base do pescoço e Saphira abriu as enormes asas com um ruído seco de pele roçando em pele. O movimento gerou uma rajada de vento quase silenciosa que se espalhou como ondas num lago. No pátio, as pessoas pararam para olhar para ela.
Ao erguer as asas por cima da sua cabeça, Eragon viu a teia de veias avermelhadas que pulsavam dentro delas transformarem-se em trilhos vazios cada vez que o fluxo de sangue abrandava entre as batidas do seu poderoso coração. Depois, com um arranque repentino e um solavanco, o mundo girou descontroladamente em torno de Eragon enquanto Saphira saltava do pátio para o topo da muralha do castelo, onde por instantes se equilibrou nos merlões, com as pedras a estalarem entre as pontas das suas garras. Eragon agarrou-se ao espinho do pescoço à sua frente para se amparar. O mundo voltou a girar quando Saphira se lançou da muralha. Um cheiro e um sabor acre assaltaram Eragon, fazendo-lhe arder os olhos, enquanto Saphira atravessava a espessa camada de fumaça que pairava sobre Belatona, como um manto de dor, raiva e mágoa.
Saphira bateu as asas duas vezes com força, e os dois emergiram da fumaça para a luz do sol, voando sobre as ruas da cidade salpicadas de fogo. Imobilizando as asas, Saphira planou em círculos, deixando que o ar quente a levasse mais para cima.
Mesmo cansado, Eragon apreciou o esplendor da paisagem: a frente da ruidosa tempestade prestes a engolir Belatona cintilava num branco resplandecente. Enquanto isso, à distância, as nuvens escuras alastravam-se em sombras negras que não revelavam nada do que continham, a não ser quando os relâmpagos irrompiam através deles. De resto, o lago cintilante e as centenas de pequenas fazendas verdejantes dispersas pela paisagem também chamaram a sua atenção, mas nada era tão impressionante como aquela montanha de nuvens.
Como sempre, Eragon sentiu-se privilegiado por poder olhar o mundo de tão alto, pois sabia que pouca gente tivera a chance de voar no dorso de um dragão.
Mudando ligeiramente a posição das asas, Saphira começou a planar em direção às tendas cinzentas que compunham o acampamento dos Varden.
Um vento forte fustigou-os subitamente, vindo de oeste, anunciando a tempestade iminente. Eragon curvou-se para a frente e agarrou-se mais firmemente ao espinho do pescoço de Saphira.
Viu ondulações brilhantes varrerem os campos, lá embaixo, à medida que os caules se vergavam sob a força do vendaval crescente. O matagal em movimento lembrava-lhe o pelo de um gigantesco animal verde.
Um cavalo relinchou quando Saphira sobrevoou as filas de tendas até a clareira reservada a ela. Eragon ergueu-se parcialmente na sela logo que Saphira enfunou as asas, abrandando quase até parar sobre a terra revolvida. Eragon caiu para a frente com o impacto da aterrissagem.
Desculpe, disse ela. Tentei pousar o mais suavemente possível.
Eu sei.
No instante em que desmontou, Eragon viu Katrina caminhar apressadamente ao seu encontro. Os seus longos cabelos arruivados redemoinhavam-lhe em torno do rosto ao atravessar a clareira, e a força do vento revelava o volume cada vez maior do seu ventre através das camadas de tecido do vestido.
— Quais são as novidades? — gritou ela, com a preocupação estampada em todas as linhas do rosto.
— Soubeste dos meninos-gatos...?
Ela acenou afirmativamente.
— Não há grandes notícias para além disso. Roran está bem. Te mandou o seu amor.
A expressão dela suavizou-se, mas a sua preocupação não desapareceu por completo.
— Então ele está bem? — apontou para o anel que usava no terceiro dedo da mão esquerda, um dos dois que Eragon encantara para ela e para Roran, para que ambos soubessem se o outro estava em perigo. — Pensei ter sentido algo há cerca de uma hora atrás e estava com receio que...
Eragon abanou a cabeça.
— Roran te contará. Ficou com uns arranhões e alguns hematomas, mas além disso, está bem. Quase morri de susto, apesar de tudo.
A expressão de preocupação de Katrina agravou-se. Depois sorriu, ainda que com um esforço visível.
— Pelo menos ambos estão a salvo.
Separaram-se e Eragon e Saphira se encaminharam para uma das tendas próximas das fogueiras que serviam como refeitório dos Varden. Lá, empanturraram-se de carne e hidromel enquanto o vento uivava em torno deles e a chuva fustigava a lateral da tenda batida pelo vento.
Ao ver Eragon morder uma fatia de porco assado, Saphira disse:
Está bom? Está suculento?
— Humm — respondeu Eragon, com fios de molho escorrendo-lhe pelo queixo.

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