3 de junho de 2017

Capítulo 5 - Cavaleiro e Ra’zac

Eragon estava sentado, banhado pela luminosidade fria da sua luz-viva vermelha no salão revestido de celas perto do centro de Helgrind. Seu cajado estava atravessado no colo.
A rocha repercutia sua voz enquanto ele repetia inúmeras vezes uma frase na língua antiga. Não era magia, mas uma mensagem para o Ra’zac que restava. O que ele dizia significava isto:
— Vem, ó devorador de carne humana, terminemos essa nossa luta. Estás ferido, e estou exausto. Teus companheiros morreram, e eu estou sozinho. Somos adversários à altura um do outro. Prometo não usar ciência oculta contra ti, nem te ferir, nem te prender com encantos que eu já tenha lançado. Vem, ó devorador de carne humana, terminemos essa nossa luta...
O tempo durante o qual ele falou pareceu interminável: um nunca-sem-fim numa câmara de tons medonhos, que permaneceu inalterada por toda uma eternidade de palavras repetidas, cuja ordem e importância deixaram de fazer diferença para ele.
Momentos mais tarde, seus pensamentos clamorosos emudeceram, e uma estranha calma começou a dominá-lo. Calou-se com a boca aberta e então a fechou, atento. Uns dez metros de distância à sua frente, estava parado o Ra’zac. Sangue gotejava da bainha dos trajes esfarrapados da criatura.
— Meu sssenhor não quer que eu mate vocccê — disse ele, chiando.
— Mas agora, para você, isso não faz diferença.
— Não. Ssse eu cair diante do ssseu cajado, Galbatorix que lide com vocccê como quiser. Ele tem mais coraçççõesss que vocccê.
— Corações? — Eragon deu uma risada. — Eu sou o defensor do povo, não ele.
— Garoto bobo. — O Ra’zac inclinou um pouco a cabeça de lado, olhando para além de Eragon, para o corpo do outro Ra’zac mais adiante no túnel. — Ela era da minha ninhada. Vocccê ficou maisss forte desssde que nosss conhecemosss, Matador de Espectrosss.
— Era isso ou morrer.
— Quer fazer um pacto comigo, Matador de Espectrosss?
— Que tipo de pacto?
— Sssou o último da minha raççça, Matador de Essspectrosss. Sssomosss antigosss, e eu não queria que fôssemosss esssquecidos. Nasss sssuasss cançççõesss e nasss sssuasss históriasss, vocccê lembraria aos ssseresss humanosss o terror que inssspirávamosss na sssua essspécie?... Lembre-ssse de nósss como o medo!
— Por que eu faria isso por você?
Abaixando o bico contra o tórax estreito, o Ra’zac cacarejou e trinou consigo mesmo por alguns instantes.
— Porque — respondeu ele — vou lhe contar um sssegredo, vou sssim.
— Então conte.
— Sssua palavra primeiro, para vocccê não me enganar.
— Não. Você me conta o segredo, e eu decido se concordo ou não.
Mais de um minuto se passou, e nenhum dos dois se mexeu, embora Eragon mantivesse os músculos retesados e prontos, na expectativa de um ataque surpresa.
Depois de outra rajada de estalidos agudos, o Ra’zac falou.
— Ele quase dessscobriu o nome.
— Quem?
— Galbatorix.
— O nome de quê?
— Não posso lhe dizer! — respondeu o Ra’zac, chiando de frustração. — O nome! O verdadeiro nome!
— Você precisa me dar mais informações.
— Não tenho como!
— Então, nada de pacto.
— Maldito ssseja, Cavaleiro! Eu o amaldiçççoo! Que vocccê não encontre teto, nem toca, nem paz de essspírito nesssta sssua terra. Que vocccê vá embora da Alagaësia para nunca voltar!
A nuca de Eragon formigou de pavor. Na sua mente, ele ouviu mais uma vez as palavras de Angela, a herbolária, quando tinha lançado seus ossos de dragão para ele, lido sua sorte e previsto exatamente o mesmo destino.
Um caminho de sangue separava Eragon do seu inimigo quando o Ra’zac abriu a capa empapada, revelando um arco que ele segurava com uma flecha pronta para ser encaixada na corda. Erguendo e preparando a arma, o Ra’zac desfechou a seta na direção do peito de Eragon. Com o cajado, Eragon desviou a flecha. Como se essa tentativa não fosse mais do que um gesto preliminar que os costumes determinavam que observassem antes de passar ao confronto de fato, o Ra’zac se abaixou, pôs o arco no chão, endireitou o capuz e devagar e deliberadamente sacou sua espada de lâmina em forma de folha que estava por baixo de suas vestes. Enquanto fazia isso, Eragon ficou em pé e assumiu uma postura de combate, segurando firme o cajado.
Os dois investiram um contra o outro. O Ra’zac tentou fender Eragon da clavícula ao quadril, mas o Cavaleiro se contorceu e se desviou do golpe. Empurrando de baixo para cima a ponta do cajado, ele fincou a ponteira metálica por baixo do bico do Ra’zac e através das placas que protegiam o pescoço da criatura. O Ra’zac estremeceu uma vez e desmoronou. Eragon ficou olhando para seu inimigo mais odiado, para seus olhos pretos sem pálpebras e de repente sentiu uma fraqueza nos joelhos e vomitou na parede do corredor. Limpando a boca, ele arrancou o cajado do pescoço do Ra’zac e sussurrou:
— Por nosso pai. Por nossa casa. Por Carvahall. Por Brom... Já me saciei com essa vingança. Que você apodreça aqui para sempre, Ra’zac.
Dirigindo-se à cela correta, Eragon recolheu Sloan, que ainda estava imerso no sono encantado, jogou o açougueiro por cima do ombro e então começou a refazer seu caminho, até a caverna principal de Helgrind.
No caminho, muitas vezes abaixou Sloan deixando-o no chão para ir explorar uma câmara ou desvio que não tinha visitado antes. Nesses lugares, descobriu muitos instrumentos maléficos, entre eles quatro frascos metálicos de óleo de Seithr, que destruiu imediatamente para que ninguém mais usasse o ácido que corroía a carne em planos nefastos. O sol quente picou o rosto de Eragon quando ele saiu cambaleando da rede de túneis. Prendendo a respiração, passou às pressas pelo Lethrblaka morto e foi até a borda da enorme caverna, de onde olhou pelo precipício que era a encosta de Helgrind para os morros lá embaixo. A oeste, viu uma coluna de poeira laranja que crescia acima do caminho que ligava o lugar a Dras-Leona, indicando a aproximação de um grupo montado a cavalo.
Seu lado direito estava ardendo por sustentar o peso de Sloan. Por isso, Eragon passou o açougueiro para o outro ombro. Ele piscou para se livrar das gotas de suor grudadas nos cílios enquanto se esforçava para solucionar o problema de como transportar a si mesmo e a Sloan até o chão a mais de cinco mil pés abaixo dali.
— É uma descida de mais de um quilômetro e meio de altura — murmurou. — Se houvesse uma trilha, eu poderia transpor essa distância com facilidade, mesmo carregando Sloan. Preciso ter forças para nos levar para baixo com magia... Sim, mas o que se pode fazer ao longo de um determinado tempo pode exigir demais para ser realizado de uma única vez sem a pessoa se matar. Como Oromis disse, o corpo não tem como converter em energia sua reserva de combustível com a rapidez suficiente para sustentar a maioria dos encantos por mais do que alguns segundos. Para cada momento, disponho somente de uma determinada quantidade de força, e uma vez esgotada, preciso esperar até me recuperar... E falar sozinho não vai me levar a lugar nenhum.
Certificando-se de que Sloan estava seguro, Eragon fixou os olhos num pequeno ressalto a cerca de trinta metros dali. Isso vai doer, pensou ele, preparando-se para tentar. Depois, disse com a voz rouca:
— Audr!
Eragon sentiu que se elevava a alguns centímetros do piso da caverna.
— Fram — disse ele, e o encantamento o empurrou de Helgrind para o espaço aberto, onde ele pairou, como uma nuvem vagando pelo céu.
Como estava acostumado a voar com Saphira, a visão de nada a não ser ar rarefeito abaixo de seus pés ainda lhe causou inquietação. Manipulando o fluxo da magia, Eragon desceu rapidamente do covil dos Ra’zac – que a muralha de pedra insubstancial voltou a esconder – para o ressalto. Sua bota escorregou num pedaço solto de rocha quando ele pousou. Por segundos, ele agitou os braços procurando um ponto de apoio, mas sem conseguir olhar para baixo, já que uma inclinação da cabeça poderia fazê-lo despencar.
Ele deu um pequeno grito quando sua perna esquerda saiu do ressalto e ele começou a cair. Antes que pudesse recorrer à magia para se salvar, ele parou abruptamente quando seu pé esquerdo ficou preso numa fissura. As bordas da fenda machucavam sua panturrilha por baixo da greva, mas ele não se importava, pois era aquilo que o mantinha no lugar.
Eragon encostou-se em Helgrind, usando a rocha para ajudar a sustentar o corpo inerte de Sloan.
— Não foi tão ruim assim — comentou ele. O esforço teve seu preço, mas não tanto que o deixasse incapacitado para continuar. — Isso eu posso fazer — disse ele. Puxou ar fresco para dentro dos pulmões, esperando que seu coração disparado se acalmasse. Sua sensação era a de que tinha corrido uns vinte metros carregando Sloan. — Isso eu posso fazer...
Seu olhar foi mais uma vez atraído pelos cavaleiros que se aproximavam. Dava para perceber que estavam mais perto do que antes e atravessavam a galope a terra seca a uma velocidade que o preocupou. É uma competição entre mim e eles, concluiu Eragon. Preciso escapar antes que eles cheguem a Helgrind. Com certeza há mágicos entre eles, e eu não estou em condições adequadas para enfrentar os feiticeiros de Galbatorix.
— Talvez você possa me ajudar um pouco, hein? — disse ele, olhando de relance para o rosto de Sloan. — É o mínimo que pode fazer, levando-se em conta que estou me expondo à morte ou coisa pior por você.
O açougueiro adormecido rolou a cabeça, perdido no mundo dos sonhos. Com um resmungo, Eragon pulou de Helgrind. Mais uma vez disse “Audr” e mais uma vez flutuou no ar. Agora, contou com a força de Sloan, por pequena que fosse, assim como a sua própria. Juntos eles foram caindo como duas aves estranhas ao longo do flanco irregular de Helgrind na direção de mais um ressalto, cuja largura prometia um abrigo seguro.
Dessa maneira, Eragon orquestrou sua descida. Não seguiu em linha reta, mas preferiu sair de viés para a direita, de modo que acompanharam a curva de Helgrind, e a massa de pedra sólida escondeu os dois dos cavaleiros.
Iam mais devagar, quanto mais perto do chão chegavam. Uma fadiga esmagadora dominou Eragon, reduzindo a distância que ele conseguia percorrer de cada vez, e dificultando cada vez mais sua recuperação durante as pausas entre os grandes esforços. Até mesmo levantar um dedo se tornou uma tarefa excessiva, além de ser quase insuportavelmente trabalhosa. A sonolência o isolava em suas dobras aquecidas e embotava seus pensamentos e sensações até as mais duras rochas parecerem macias como travesseiros aos seus músculos doloridos.
Quando por fim caiu no solo crestado pelo sol, fraco demais para impedir que Sloan e ele batessem com violência na terra – Eragon ficou deitado com os braços cruzados em ângulos estranhos por baixo do peito, olhando com os olhos semicerrados para as partículas amarelas de citrino engastadas na pequena rocha a cerca de cinco centímetros do seu nariz.
Sloan pesava nas suas costas como uma pilha de lingotes de ferro. O ar vazava aos poucos dos pulmões de Eragon, mas não parecia voltar. Sua visão escureceu como se uma nuvem tivesse coberto o sol. Uma calmaria mortal separava cada batimento do seu coração; e o palpitar, quando vinha, não era mais do que uma leve oscilação.
Eragon já não era capaz de ser coerente, mas, em algum ponto no fundo do seu cérebro, tinha consciência de que estava prestes a morrer. Isso não o assustava. Pelo contrário, a perspectiva o consolava, pois estava mais cansado do que seria possível acreditar, e a morte o libertaria do invólucro contundido da carne, permitindo que ele descansasse por toda a eternidade.
Do alto e por trás da sua cabeça, surgiu um besouro-mangangá do tamanho do seu polegar. Ele deu uma volta perto da sua orelha e depois pairou junto da rocha, sondando os pontos de citrino, que eram do mesmo amarelo vivo das estrelas-de-ouro que floriam entre os montes. A crina do mangangá brilhava à luz da manhã – cada pelo nítido e distinto aos olhos de Eragon – e suas asas meio desfocadas geravam uma leve vibração, como um tamborilar delicado. As cerdas nas suas pernas estavam cobertas de pólen. O mangangá era tão vibrante, tão cheio de vida e tão belo que sua presença renovou a vontade de sobreviver de Eragon. Um mundo que continha uma criatura tão espantosa quanto aquele mangangá era um mundo no qual ele queria viver. Por pura força de vontade, conseguiu soltar a mão esquerda do peso do peito e agarrou a haste lenhosa de um arbusto próximo. Como uma sanguessuga, um carrapato ou algum outro parasita, ele extraiu a vida da planta, deixando-a esgotada e marrom.
A subsequente onda de energia que percorreu Eragon aguçou sua percepção. Agora estava apavorado. Tendo recuperado o desejo de continuar a existir, não encontrava nada a não ser terror nas trevas mais além.
Arrastando-se em frente, pegou outro arbusto e transferiu a vitalidade da planta para seu corpo. Passou então para um terceiro, um quarto e assim por diante até mais uma vez possuir a plena capacidade de suas forças. Ergueu-se e olhou para o rastro de plantas secas que se estendia atrás dele. Um gosto amargo encheu sua boca quando viu o que tinha provocado.
Eragon soube que tinha sido descuidado com a magia e que seu comportamento inconsequente teria condenado os Varden à derrota certa caso morresse. Em retrospectiva, sua estupidez lhe causou repulsa.
Brom me arrancaria as orelhas por eu me meter nesta encrenca, pensou.
Voltando a Sloan, Eragon levantou do chão o açougueiro macilento. Depois, voltou-se para o leste e começou a se afastar de Helgrind a passos largos, aproveitando um barranco para se ocultar. Dez minutos mais tarde, quando parou para verificar se estava sendo perseguido, viu uma nuvem de poeira em turbilhão aos pés da montanha, o que supôs significar que os cavaleiros tinham chegado à torre escura de pedra.
Ele sorriu. Os lacaios de Galbatorix estavam longe demais para que qualquer mágico inferior em suas fileiras detectasse sua mente ou a de Sloan.
Quando chegarem a descobrir os corpos dos Ra’zac, pensou, eu já terei percorrido uma légua ou mais. Duvido que consigam me encontrar então. Além disso, sua procura será por um dragão e seu Cavaleiro, não por um homem viajando a pé.
Satisfeito por não ter de se preocupar com um ataque iminente, Eragon retomou seu ritmo anterior: passos largos, regulares e contidos, que ele poderia manter pelo dia inteiro. Acima dele, o sol refulgia branco e dourado. A sua frente, uma região erma sem trilhas se estendia por muitas léguas antes de bater na periferia de algum povoado. E no seu coração brilhavam uma nova alegria e esperança. Finalmente, os Ra’zac estavam mortos!
Ao final, sua busca por vingança estava encerrada. Por fim ele tinha cumprido seu dever para com Garrow e para com Brom. E ainda havia se livrado da nuvem de medo e raiva sob a qual se desdobrara desde o instante em que os Ra’zac apareceram em Carvahall pela primeira vez.
Matá-los tinha demorado muito mais do que imaginara, mas agora estava feito. E que feito admirável! Permitiu-se sentir a satisfação de ter realizado algo tão difícil, se bem que com o auxílio de Roran e Saphira. No entanto, para sua surpresa, o triunfo tinha um sabor amargo, contaminado por uma sensação inesperada de perda. Sua caçada aos Ra’zac tinha sido um dos últimos vínculos com sua vida no vale Palancar, e não lhe agradava abandonar esse vínculo, por mais medonho que fosse. Além do mais, a tarefa lhe dera um objetivo na vida numa época em que ele não tinha nenhum. Era a razão pela qual, para começar, tinha saído da sua terra natal. Sem a missão, abria-se nele um vazio no lugar em que tinha abrigado o ódio aos Ra’zac. Que pudesse lamentar o fim de uma missão tão terrível deixou Eragon perplexo, e ele jurou que evitaria cometer o mesmo erro duas vezes.
Eu me recuso a me apegar tanto à minha luta contra o Império, Murtagh e Galbatorix que eu acabe sem vontade de seguir adiante para outros objetivos se e quando chegar a hora – ou, pior, que eu tente prolongar o conflito em vez de me adaptar ao que acontecer depois. Decidiu então afastar seu lamento e se concentrar, sim, no alívio que sentia: alívio por estar livre das exigências sinistras da busca que tinha imposto a si mesmo e por saber que as únicas obrigações que lhe restavam eram as geradas por sua posição atual.
A exultação o deixou leve. Com a destruição dos Ra’zac, Eragon tinha a sensação de que podia finalmente levar uma vida baseada não em quem ele tinha sido, mas em quem tinha se tornado: um Cavaleiro de Dragão.
Sorriu para o horizonte recortado e riu enquanto corria, indiferente à possibilidade de que alguém o ouvisse. Sua voz ecoou para cima e para baixo do barranco, ao seu redor. Tudo parecia novo, bonito e promissor.

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