3 de junho de 2017

Capítulo 49 - Mãos de guerreiro

Eragon mordia um doce e suculento morango enquanto mirava as incomensuráveis profundezas do céu. Quando terminou de comer a fruta, jogou o caule na bandeja à sua frente, empurrando-o para o local exato com a pontinha do dedo, e então fez menção de dizer algo. Antes que pudesse, porém, Oromis adiantou-se:
— E agora, Eragon?
— E agora o quê?
— Nós conversamos bastante a respeito daqueles assuntos sobre os quais você tinha curiosidade. O que você e Saphira desejam saber daqui em diante? Não podem permanecer muito tempo em Ellesméra, então imagino o que mais desejam alcançar com sua visita, ou é sua intenção partir amanhã de manhã?
— Esperávamos — começou Eragon — que, quando retornássemos, seríamos capazes de continuar nosso treinamento como antes. Obviamente, não temos tempo para isso agora, mas há outra coisa que eu gostaria de fazer.
— E o que seria isso?
— ... Mestre, não lhe contei tudo que aconteceu comigo quando Brom e eu estávamos em Teirm. — E, então, Eragon recontou como a curiosidade o havia conduzido até a loja de Angela, como ela havia lido sua sorte, e o conselho que Solembum havia lhe dado em seguida.
Oromis colocou um dos dedos sobre o lábio superior, sua fisionomia contemplativa.
— Tenho ouvido essa feiticeira ser mencionada no último ano com crescente frequência, não só por você como também por Arya, nos relatos que fez sobre os Varden. Essa Angela parece ser especialista em aparecer quando e onde quaisquer eventos relevantes estejam para ocorrer.
Isso é verdade, confirmou Saphira.
Oromis continuou:
— Seu comportamento me lembra bastante o de uma feiticeira humana que uma vez visitou Ellesméra, embora não tivesse o nome de Angela. Angela tem estatura baixa, cabelos castanhos espessos e encaracolados, olhos vibrantes e uma esperteza tão afiada quanto esquisita?
— O senhor a descreveu com perfeição — observou Eragon. — É a mesma pessoa?
Oromis fez um pequeno e rápido movimento com a mão esquerda.
— Se for, é uma pessoa extraordinária... E quanto às profecias, eu não daria muito crédito a elas. Podem ser verdadeiras ou não, mas, sem mais conhecimentos, nenhum de nós pode influenciar o resultado.
“O que o menino-gato disse, entretanto, é digno de mais consideração. Infelizmente, não posso elucidar nenhuma de suas colocações, jamais ouvi falar de um lugar chamado cofre das Almas, e apesar da pedra de Kuthian me soar familiar, não consigo me lembrar de onde ouvi esse nome. Vou pesquisar em meus pergaminhos, mas meu instinto me diz que não vou encontrar nenhuma menção a isso em escritos élficos.”
— E quanto à arma embaixo da árvore Menoa?
— Nada sei sobre essa arma, Eragon, e estou bem informado acerca dos tesouros desta floresta. Em toda Du Weldenvarden, talvez exista apenas dois elfos cujos conhecimentos excedam os meus no que concerne à floresta. Investigarei, mas suspeito que este será um empreendimento fútil. — Quando Eragon expressou seu desapontamento, Oromis comentou: — Compreendo que solicite uma substituição à altura de Zar’roc, Eragon, e nisso posso ajudar. Além da minha própria lâmina, Naegling, nós, elfos, preservamos duas outras espadas de Cavaleiros de Dragão. São elas Arvindr e Támerlein. Arvindr atualmente está guardada na cidade de Nädindel, que você não teve tempo para visitar. Mas Támerlein está aqui. É um tesouro da Casa Valtharos, e apesar de lorde Fiolr, senhor da casa, não estar disposto a se separar dela tão facilmente, acho que lhe daria a arma se você pedisse com respeito. Marcarei um encontro entre vocês para amanhã de manhã.
— E se a espada não servir a mim? — perguntou Eragon.
— Esperemos que sirva. Contudo, também mandarei uma mensagem para a ferreira Rhunön dizendo que ela deve esperá-lo no final do dia.
— Mas ela jurou que jamais forjaria outra espada.
Oromis suspirou.
— Jurou sim, mas ainda assim vale a pena buscar sua consultoria. Se existe alguém que pode recomendar a arma adequada a você, esse alguém é ela. Além do mais, mesmo que goste de Támerlein, tenho certeza de que Rhunön ia querer examinar a espada antes de você ir embora com ela. Mais de cem anos se passaram desde a última vez que Támerlein foi usada em batalha, e talvez precise de uma leve reforma.
— Será que outro elfo poderia forjar uma espada para mim? — quis saber Eragon.
— Não — respondeu Oromis. — Não que pudesse se comparar com a excelência do artesanato de Zar’roc ou com qualquer espada roubada que Galbatorix tenha escolhido usar. Rhunön é uma das mais idosas de nossa raça, e foi ela sozinha quem fez as espadas de nossa ordem.
— É tão idosa quanto os Cavaleiros? — indagou Eragon, impressionado.
— Mais idosa ainda.
Eragon fez uma pausa.
— O que nós devemos fazer entre hoje e amanhã, mestre?
Oromis olhou para Eragon.
— Vá visitar a árvore Menoa; sei que não sossegará até fazer isso. Veja se consegue encontrar a arma que o menino-gato instigou em você. Assim que tiver satisfeito sua curiosidade, retire-se para os aposentos de sua casa da árvore, os criados de Islanzadí os deixaram prontos para você e Saphira. Amanhã faremos o que pudermos.
— Mas, mestre, temos tão pouco tempo...
— E vocês dois estão cansados demais para outros entusiasmos por hoje. Confie em mim, Eragon, fará melhor descansando. Creio que essas horas de descanso o ajudarão a digerir tudo aquilo sobre o que conversamos.
Mesmo pelas medidas de reis, rainhas e dragões, aquela conversa de horas não foi nem um pouco leve. Apesar das garantias de Oromis, Eragon se sentia inquieto por passar o restante do dia em lazer. Seu senso de urgência era tão grande que continuaria trabalhando mesmo quando sabia que deveria estar se recuperando. Eragon mudou de posição na cadeira e, com o movimento, deve ter revelado algo de sua ambivalência, pois Oromis sorriu e comentou:
— Se ajuda a relaxar, Eragon, prometo o seguinte: antes que você e Saphira voltem para os Varden, pode escolher qualquer tipo de magia que lhe ensinarei tudo o que sei sobre ela, por menos tempo que tenhamos.
Com o polegar, Eragon empurrou o anel em volta do indicador direito e ponderou a oferta de Oromis, tentando decidir qual, dentre todas as áreas da magia, ele mais gostaria de aprender. Finalmente, revelou:
— Gostaria de aprender como convocar espíritos.
Uma sombra atravessou o rosto de Oromis.
— Vou manter minha palavra, Eragon, mas feitiçaria é uma arte obscura e inapropriada. Você não deveria tentar controlar outros seres em proveito próprio. Mesmo que ignore a imoralidade da feitiçaria, é uma disciplina excepcionalmente perigosa e hediondamente complicada. Um mago necessita de pelo menos três anos de estudo intensivo antes de poder esperar convocar espíritos sem que eles o possuam.
“Feitiçaria não é como outras magias, Eragon; com ela, você tenta forçar seres incrivelmente poderosos e hostis a obedecer a seus comandos, seres que devotam cada momento de seu cativeiro para encontrar uma falha em suas amarras de modo que possam se virar contra você e subjugá-lo vingativamente. Ao longo da história, jamais houve um Espectro que também fosse Cavaleiro, e de todos os horrores que acometeram essa bela terra, uma tal abominação seria facilmente a pior, pior ainda do que Galbatorix. Por favor escolha outro assunto, Eragon: um menos perigoso para você e para nossa causa.”
— Então, o senhor poderia me ensinar meu verdadeiro nome?
— Suas solicitações estão num crescendo de dificuldades, Eragon-finiarel — notou Oromis. — Talvez eu pudesse adivinhar seu verdadeiro nome se assim eu desejasse. — O elfo de cabelos prateados estudou Eragon com cada vez mais intensidade, seus olhos pesados sobre ele. — Sim, acredito que talvez pudesse. Mas não vou. Um nome verdadeiro pode ser de grande importância em termos de magia, mas não é um encantamento em si e para si, de modo que não está incluído em minha promessa. Se seu desejo é conhecer melhor a si próprio, Eragon, então procure descobrir seu nome verdadeiro por conta própria. Se eu dissesse a você, talvez lucrasse com isso, mas seria um lucro desprovido da sabedoria que conquistaria empreendendo sua própria jornada em busca de seu nome verdadeiro. Uma pessoa deve adquirir os conhecimentos, Eragon. Eles não devem lhe ser introjetados por outros, independentemente de quão importantes essas pessoas possam ser para você.
Eragon mexeu com o anel por mais alguns instantes, e então resmungou e balançou a cabeça.
— Não sei... Minhas perguntas se esgotaram.
— Duvido muito disso — comentou Oromis.
Eragon considerava difícil se concentrar no assunto em questão; seus pensamentos continuavam retornando ao Eldunarí e a Brom. Novamente, ficou maravilhado com a estranha série de eventos que levara Brom a se estabelecer em Carvahall e, mais tarde, ele próprio a se tornar Cavaleiro de Dragão.
Se Arya não tivesse...
Eragon parou e sorriu quando um pensamento lhe ocorreu.
— Você me ensina como mover um objeto de um lugar a outro sem atraso, como Arya fez com o ovo de Saphira?
Oromis assentiu.
— Excelente escolha. O encantamento é custoso, mas tem muitos usos. Tenho certeza de que se provará mais útil a você em seu relacionamento com Galbatorix e com o Império. Arya, pelo menos, pode atestar sua efetividade.
Erguendo seu copo, Oromis segurou-o contra o sol, e a luz que vinha de cima tornou o vinho transparente. Estudou o líquido por um bom tempo e, então, abaixou o copo.
— Antes de se aventurar na cidade, deveria saber que aquele que você enviou para viver entre nós chegou aqui algum tempo atrás.
Um momento passou antes que Eragon pudesse entender a quem Oromis estava se referindo.
— Sloan está em Ellesméra? — perguntou Eragon, aturdido.
— Ele mora sozinho em uma pequena habitação perto do córrego na fronteira oeste de Ellesméra. A morte esteve bem próxima dele quando o retiramos da floresta, mas curamos os ferimentos de sua carne e agora está são. Os elfos na cidade levam-lhe comida e roupa e cuidam para que esteja bem. Levam-no aonde deseja ir e, às vezes, leem para ele; mas, na maior parte do tempo, ele prefere ficar sozinho, sem dizer uma palavra com os que se aproximam. Por duas vezes tentou escapar, mas seus encantamentos o impediram.
Estou surpreso por ele ter chegado aqui tão rapidamente, Eragon comentou com Saphira.
A compulsão que você lançou sobre ele deve ter sido mais forte do que imaginou inicialmente.
Sim.
Com uma voz tranquila, Eragon quis saber:
— Foi possível lhe restaurar a visão?
— Não.
O triste homem está quebrado por dentro, Glaedr disse. Não enxerga com clareza suficiente a ponto de seus olhos serem de algum uso.
— Será que eu deveria lhe fazer uma visita? — indagou Eragon, sem ter certeza do que Oromis e Glaedr esperavam.
— Isso você mesmo decide — respondeu Oromis. — Reencontrá-lo talvez somente o perturbe. Entretanto, você é o responsável por seu castigo, Eragon. Seria errado de sua parte esquecê-lo.
— Não, mestre, não esquecerei.
Com um movimento brusco da cabeça, Oromis colocou o copo sobre a mesa e moveu sua cadeira para perto de Eragon.
— O dia envelhece, e não poderia manter você aqui por mais tempo sem interferir em seu descanso, mas há mais uma coisa que gostaria de fazer antes de sua partida: suas mãos. Posso examiná-las? Gostaria de ver o que dizem sobre você agora. — E Oromis direcionou suas mãos a Eragon.
Estendendo seus braços, Eragon colocou as mãos com as palmas para baixo em cima das de Oromis, tremendo com o toque dos dedos magros do elfo em seus pulsos. Os calos em suas juntas lançavam longas sombras pelas costas de suas mãos à medida que Oromis as inclinava de um lado para o outro. Então, exercendo uma pressão leve, porém firme, Oromis girou as mãos de Eragon e inspecionou suas palmas e as partes internas dos dedos.
— O que está vendo?
Oromis torceu novamente as mãos de Eragon e gesticulou para os calos.
— Agora você possui as mãos de um guerreiro, Eragon. Cuidado para não se tornarem as mãos de um homem que se delicia com a carnificina da guerra.

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