24 de junho de 2017

Capítulo 48 - Vermes cavadores

A

panharam-na na interceção de dois corredores idênticos,
ladeados de pilares, tochas e estandartes vermelhos com a
insígnia de Galbatorix: a chama ondulante, dourada.
Nasuada não esperava conseguir fugir, não propriamente, mas
não pôde deixar de se sentir desiludida com o fracasso. No
mínimo, esperava conseguir cobrir uma maior distância antes de a
voltarem a capturar.
Lutou durante todo o caminho, enquanto os soldados a
arrastavam de regresso à câmara que lhe servia de prisão. Os
homens usavam peito de armas e braçais, mas ainda assim ela
conseguiu arranhar-lhes a cara e morder-lhes as mãos, ferindo dois
com alguma gravidade.
Os soldados deixaram escapar exclamações de consternação ao
entrarem no Salão da Profetisa e vendo o que ela fizera ao
carcereiro. Caminhando com cautela para não pisarem a poça de
sangue cada vez maior, levaram-na para a laje de pedra,
prenderam-na e saíram apressadamente, deixando-a sozinha com o
cadáver.
Ela gritou para o teto e deu puxões nas grilhetas, furiosa consigo
mesma, por não ter conseguido fazer melhor. Ainda a ferver de
raiva, olhou de relance para o corpo no chão, mas desviou logo o
olhar. A expressão do homem, depois de morto, parecia
acusatória, pelo que não suportava olhá-lo.
Depois de roubar a colher, passara horas a limar a ponta do
cabo na laje de pedra. A colher era de ferro macio, por isso tinha
sido fácil de moldar.
Julgara que Galbatorix e Murtagh seriam os próximos a visitá-la,
mas foi o carcereiro que apareceu, para lhe trazer uma espécie de
ceia. Ele começara a soltar-lhe as grilhetas para a guiar até à latrina.
No momento em que lhe soltou a mão esquerda, ela esfaqueou-o
por baixo do queixo, com o cabo aguçado da colher, enterrandolhe
o utensílio nas pregas do pescoço. O homem deu um guincho
horrivelmente estridente, lembrando-lhe um porco no matadouro,
deu três voltas sobre si, a esbracejar, caindo depois no chão onde
ficou a espernear, a espumar e a bater com os calcanhares no chão,
tempo demais, a seu ver.
Matá-lo perturbara-a, pois não achava que o homem fosse mau
— não sabia ao certo o que ele era —, mas havia nele uma
simplicidade que a fazia sentir que poderia tirar proveito dele.
Ainda assim, ela tinha feito o que era necessário e, embora agora
fosse desagradável pensar no assunto, continuava convencida de
que as suas ações se tinham justificado.
Enquanto o homem estremecia com convulsões, nos seus últimos
momentos de agonia, ela desapertara o resto das grilhetas e saltara
da laje. Depois, reuniu coragem e arrancou a colher do pescoço do
homem, que — à semelhança da tampa de um barril — libertou um
jato de sangue que lhe salpicou as pernas, fazendo-a saltar para
trás e contendo uma praga.
Não fora difícil lidar com os dois guardas que estavam no
exterior do Salão da Profetisa, pois apanhara-os de surpresa e
matara o guarda do lado direito, de uma forma bastante semelhante
ao carcereiro. Depois, tirara a adaga do cinto do guarda e atacara
o outro homem, enquanto este lutava para lhe apontar o pique.
Assim tão perto, um pique nunca poderia fazer frente a uma adaga
e ela esventrou-o, antes que o guarda tivesse tempo de fugir ou dar
o alarme.
Mas não conseguira ir muito longe depois disso. Fosse devido
aos feitiços de Galbatorix ou por simples falta de sorte, ela
esbarrou de caras com cinco soldados que a dominaram de
imediato, para não dizer facilmente.
Não devia ter passado mais de meia hora, quando ouviu um
grande grupo de homens, de botas ferradas, marcharem até à porta
da câmara. Depois, Galbatorix irrompeu pela sala, seguido de
vários guardas.
Como sempre, parou no limite do seu campo de visão e aí ficou
— uma figura alta e escura, de rosto anguloso, da qual se distinguiam
apenas os contornos. Ela viu-o virar a cabeça para observar a
cena. Depois disse num tom frio:
— Como aconteceu isto?
Um soldado com uma pluma no elmo correu para diante de
Galbatorix e ajoelhou-se, erguendo a colher aguçada.
— Encontrámos isto num dos homens, lá fora, Senhor.
O rei pegou na colher e virou-a nas mãos.
— Compreendo. — Voltou a cabeça na direção dela, agarrou na
extremidade da colher e dobrou-a até esta se partir ao meio,
aparentemente sem qualquer esforço. — Sabias que não podias
escapar e, mesmo assim, insististe em tentar. Não vou permitir que
mates os meus homens apenas para me faltares ao respeito. Não
tens o direito de lhes roubar a vida. Não tens o direito de fazer
nada a não ser que eu o autorize. — Atirou com os pedaços de
metal para o chão. Depois virou-se e abandonou o Salão da
Profetisa, com a pesada capa a ondular atrás de si.
Dois soldados removeram o corpo do carcereiro e limparam o
sangue do chão, amaldiçoando-a enquanto o esfregavam.
Logo que saíram e ela voltou a ficar sozinha, permitiu-se
suspirar, e parte da tensão nos seus membros desapareceu.
Quem lhe dera ter tido oportunidade de comer. Agora que a
excitação passara, estava a sentir fome. Pior do que isso,
desconfiava que teria de esperar horas até que tivesse a próxima
refeição. Isto, partindo do princípio que Galbatorix não decidisse
castigá-la, negando-lhe comida.
As suas divagações acerca de pão, assados e copos altos de
vinho não duraram muito, pois voltou a ouvir o som de várias botas
no corredor, fora da cela. Assustada, tentou preparar-se
mentalmente para tudo o que de desagradável estivesse para
acontecer, pois assim o seria com toda a certeza.
A porta da câmara abriu-se, de repente, e dois conjuntos de
passos ecoaram na sala octogonal, enquanto Murtagh e Galbatorix
se aproximavam dela. Murtagh foi para o local onde normalmente
ficava, sem a braseira para se entreter. Cruzou os braços,
encostou-se à parede e olhou para o chão com um semblante
carregado. O que ela viu na sua expressão debaixo da máscara de
prata, até meio do rosto, não a consolou. As linhas do rosto
pareciam ainda mais duras do que o habitual e havia algo na
posição da boca que lhe arrepiou os ossos de pavor.
Em vez de se sentar como era seu hábito, Galbatorix ficou
algures atrás, ao lado da sua cabeça, onde ela pudesse sentir a sua
presença sem propriamente vê-lo.
Depois, estendeu as mãos semelhantes a garras por cima dela.
Segurava numa pequena caixa, decorada com linhas entalhadas em
osso, que em tempos talvez fossem hieróglifos da língua antiga. Mas
o mais desconcertante é que, dentro da caixa, se ouvia o um débil
cri-cri, um ruído suave como um rato a arranhar, mas não menos
distinto.
Galbatorix abriu a tampa deslizante da caixa com a ponta do
polegar. Depois meteu os dedos lá dentro e tirou algo semelhante a
uma enorme larva cor de marfim. A criatura tinha quase oito
centímetros de comprimento e exibia uma pequena boca de lado,
com a qual produzia o cri-cri, que ela ouvira antes, anunciando o
seu desagrado ao mundo. Era gorda e pregueada como uma
lagarta, mas se tinha patas eram tão pequenas que mal se viam.
Enquanto a criatura se contorcia, numa tentativa vã de se libertar
dos dedos de Galbatorix, o rei disse:
— Isto é uma larva carnívora e não o que parece. Poucas coisas
o são, mas no caso das larvas carnívoras é ainda mais evidente. Só
existem num local em Alagaësia e são mais difíceis de apanhar do
que imaginas. Encara pois o fato de me dignar a usar uma em ti
como um sinal de respeito, Nasuada, filha de Ajihad. — Depois,
baixou a voz, falando num tom ainda mais íntimo. — Contudo, não
gostaria de estar no teu lugar.
O cri-cri da larva carnívora aumentou quando Galbatorix a
largou sobre a pele nua do seu braço direito, mesmo abaixo do
cotovelo. Ela retraiu-se ao sentir a criatura aterrar em cima de si,
pois era mais pesada do que parecia e agarrou-se à pele como se
tivesse centenas de pequenos ganchos debaixo do corpo.
A larva fez um pouco mais de ruído, encolhendo depois o corpo
e saltando vários centímetros ao longo do braço.
Ela puxou as grilhetas, esperando desalojar a larva, mas esta
continuou agarrada.
Depois, saltou mais uma vez.
E outra ainda, alcançando-lhe o ombro e enterrando-lhe os
ganchos na carne como uma tira minúscula de figos bravos. Pelo
canto do olho, viu a larva carnívora erguer a cabeça sem olhos,
virando-a para o seu rosto como se provasse o ar. A pequena
boca abriu-se e ela viu que a larva tinha umas mandíbulas aguçadas
e cortantes por trás do lábio superior e inferior.
— Cri-cri? — fez a larva. — Cri-cra?
— Aí não — disse Galbatorix, proferindo uma palavra na língua
antiga.
Ao ouvi-la, a larva carnívora afastou-se da cabeça dela — o que
lhe deu algum alívio —, voltando depois a descer-lhe pelo braço.
Poucas coisas a assustavam. O toque do ferro em brasa
assustava-a. A ideia de que Galbatorix pudesse reinar para sempre
também. A morte assustava-a, é óbvio, não tanto por recear o fim
da sua existência, mas porque temia deixar por fazer tudo aquilo
que ainda esperava conseguir concretizar.
Mas, por qualquer razão, nada a enervara tanto como ver e
sentir aquela larva. Sentia um ardor e um formigueiro em todos os
músculos do corpo. A sua vontade era correr e fugir, afastar-se
tanto quanto possível da criatura, pois algo de muito errado se
passava com a larva carnívora. Não se movia como devia, a sua
pequena boca obscena lembrava-lhe a boca de uma criança e o
ruído que fazia, aquele ruído horrível, despertava-lhe um sentimento
de repulsa primário.
A larva parou no cotovelo.
Cri-cri!
Depois o seu corpo gordo, sem membros, contraiu-se e ela
saltou uns dez ou doze centímetros no ar, mergulhando de cabeça
na parte interior do cotovelo.
Ao aterrar, a larva dividiu-se numa dúzia de pequenos
centípedes, verdes-claros, que se espalharam pelo braço, antes de
escolherem um local onde enterrar as mandíbulas na carne e
perfurar-lhe a pele.
A dor era insuportável. Ela debateu-se nas grilhetas e gritou para
o teto, mas não conseguiu escapar ao tormento, nem nessa altura,
nem por um período aparentemente interminável, depois disso. O
ferro doera-lhe mais, mas ela teria preferido o seu toque, pois o
metal quente era impessoal, inanimado e previsível, tudo aquilo a
que a larva não correspondia. Era especialmente horrível pensar
que a causa da sua dor era uma criatura que a mastigava e, pior
ainda, pensar que ela estava dentro de si.
Por fim, ela perdeu o orgulho e o autocontrolo e implorou
misericórdia à deusa Gokukara. Depois começou a balbuciar como
uma criança, incapaz de conter o fluxo de palavras aleatórias que
lhe saíam da boca.
Ouviu Galbatorix rir, atrás de si, e a satisfação que ele revelou
com o seu sofrimento fez com que o odiasse ainda mais.
Nasuada piscou os olhos, recuperando lentamente os sentidos.
Momentos depois, apercebeu-se de que Murtagh e Galbatorix
tinham saído. Não se lembrava de os ver abandonar a sala, pois
devia ter perdido a consciência.
A dor era menos aguda, mas ainda sentia imensas dores. Olhou
de relance para o corpo e desviou o olhar, sentindo o pulso
acelerar. No local onde os centípedes estavam — não sabia se
poderiam ser considerados larvas carnívoras, individualmente —
tinha a pele inchada e os sulcos que elas tinham deixado, debaixo
da superfície da pele, estavam cheios de sangue e ardiam-lhe. Era
como se lhe tivessem açoitado a parte da frente do corpo com um
chicote de metal.
Perguntou a si mesma se as larvas ainda estariam dentro do seu
corpo, em estado de dormência, enquanto digeriam a refeição. Ou
talvez estivessem a metamorfosear-se, como larvas de moscas, e se
transformassem em algo ainda pior. Ou então — e essa parecia-lhe a
hipótese mais terrível — talvez estivessem a pôr ovos que, em breve,
dariam origem a outras larvas que iriam banquetear-se com o seu
corpo.
Estremeceu, gritando de pavor e frustração.
Era-lhe difícil manter-se lúcida devido aos ferimentos. Tão
depressa via como deixava de ver e deu consigo a chorar, o que a
irritou, mas não conseguia parar, por muito que tentasse. Para se
distrair, começou a falar sozinha — dizendo coisas sem sentido —,
algo que reforçasse a sua determinação, ou a levasse a concentrarse
noutros assuntos. Ajudou, ainda que muito pouco.
Ela sabia que Galbatorix não a queria matar, mas temia que a
sua fúria o levasse mais longe do que pretendia. Tremia e sentia
todo o corpo inflamado, como se tivesse sido mordida por
centenas de abelhas. A força de vontade poderia ajudá-la a resistir
algum tempo, mas por muito determinada que estivesse, a
resistência do corpo tinha limites e ela sentia que os ultrapassara há
muito. Algo no seu íntimo parecia ter-se quebrado e ela já não tinha
a certeza se conseguiria recuperar dos ferimentos.
A porta da câmara arranhou o chão ao abrir-se.
Ela esforçou-se para focar a visão, tentando ver quem se
aproximava.
Era Murtagh.
Olhou-a de lábios crispados, dilatou as narinas e franziu o
sobrancelha. A princípio pensou que ele estivesse furioso, mas depois
percebeu que estava preocupado e apavorado, mortalmente
apavorado. A intensidade da sua preocupação surpreendeu-a;
sabia que ele sentia uma certa afeição por ela — de outro modo não
teria convencido Galbatorix a mantê-la viva —, mas não suspeitava
que se preocupasse tanto com ela.
Tentou tranquilizá-lo com um sorriso, mas este não devia ter sido
convincente, pois ao sorrir, Murtagh contraiu os maxilares, como se
fizesse um esforço para se conter.
— Tenta não te mexer — disse ele, erguendo as mãos sobre ela e
começando a murmurar algo na língua antiga.
Como se eu pudesse, pensou.
A magia depressa produziu efeito e a dor foi abrandando em
cada ferimento, embora não desaparecesse por completo.
Ela franziu-lhe a sobrancelha, intrigada e ele disse:
— Lamento não poder fazer mais. Galbatorix saberia, mas eu não
tenho poder para isso.
— E... e os teus Eldunarís? — perguntou ela. — Certamente que
poderão ajudar.
Ele abanou a cabeça.
— São todos dragões jovens, ou eram, quando os seus corpos
morreram. Pouco sabiam de magia nessa altura e Galbatorix não
lhes ensinou quase nada desde que... Desculpa.
— Aquelas coisas ainda estão dentro de mim?
— Não, já não estão. Galbatorix tirou-as assim que desmaiaste.
Ela sentiu um profundo alívio.
— O teu feitiço não me tirou a dor. — Tentou não parecer
acusatória, mas não conseguiu conter uma nota de raiva na voz.
Ele fez um esgar.
— Não sei bem porquê. Deveria ter tirado. Seja o que for aquela
criatura, não se enquadra nos padrões normais do mundo.
— Sabes de onde é?
— Não. Só soube da sua existência hoje, quando Galbatorix a foi
buscar aos seus aposentos privados.
Ele fechou os olhos por momentos.
— Deixa-me levantar.
— Você está a falar a s...
— Deixa-me levantar.
Ele abriu-lhe as grilhetas, sem dizer uma palavra. Depois ela
levantou-se e ficou cambaleante junto da laje, à espera que o
ataque de tonturas passasse.
— Toma — disse Murtagh, dando-lhe a sua capa. Ela enrolou-a à
volta do corpo, cobrindo-se por recato e para se aquecer, mas
também para não ter de olhar para as queimaduras, crostas, bolhas
e sulcos cheios de sangue que lhe desfiguravam o corpo.
Coxeando — além de outros locais, a larva visitara-lhe as solas
dos pés —, encaminhou-se para o extremo da sala e encostou-se à
parede, deixando-se escorregar lentamente para o chão.
Murtagh juntou-se a ela e ficaram ambos a olhar para a parede
oposta.
Ela começou a chorar, sem querer.
Momentos depois, sentiu-o tocar-lhe no ombro, afastando-se
bruscamente. Foi mais forte do que ela. Ele magoara-a mais do que
qualquer outra pessoa, nos últimos dias e, embora soubesse que o
fizera contrariado, não conseguia esquecer que fora ele que
empunhara o ferro em brasa.
Ainda assim, ao ver que a sua reação o magoara, cedeu um
pouco e pegou-lhe na mão. Ele apertou-lhe suavemente os dedos,
colocando-lhe o braço por cima do ombro e puxando-a para si.
Ela resistiu, por instantes, mas depois descontraiu nos seus braços,
encostando a cabeça ao seu peito, continuando a chorar, e os seus
soluços baixos ecoaram pela sala nua, de pedra.
Alguns minutos depois, sentiu-o mexer-se debaixo dela, dizendo:
— Eu vou descobrir uma forma de te libertar, prometo. É
demasiado tarde para Thorn e para mim, mas não é para ti. Desde
que não jures lealdade a Galbatorix, há uma hipótese de eu
conseguir levar-te de Urû’baen, em segredo.
Ela olhou-o e concluiu que ele estava a falar a sério.
— Como? — sussurrou.
— Não faço a mínima ideia — confessou ele com um sorriso
malandro. — Mas vou fazê-lo, custe o que custar. Contudo, terás de
me prometer que não desistes — pelo menos, até eu tentar —
combinado?
— Não creio que consiga aguentar aquela... coisa, outra vez. Se
ele a voltar a pôr em cima de mim, faço tudo o que ele quiser.
— Não é preciso, ele não tenciona voltar a usar a larva carnívora.
— ... Então, o que tenciona ele fazer?
Murtagh ficou mais um minuto em silêncio.
— Decidiu começar a manipular o que vês, ouves, sentes e
saboreias. Se isso não resultar atacará diretamente a tua mente, e tu
não conseguirás resistir-lhe se ele o fizer, pois nunca ninguém
conseguiu. Mas acho que poderei salvar-te antes de ele chegar a
esse ponto. Tudo o que tens de fazer é continuar a lutar mais uns
dias. Só isso — só mais uns dias.
— Como poderei lutar se não posso confiar nos meus sentidos?
— Há um sentido que ele não pode imitar. — Murtagh torceu-se
para a olhar de frente. — Deixas-me tocar na tua mente? Não
tentarei ler os teus pensamentos. Quero apenas que sintas o toque
da minha mente, para que o possas reconhecer — para que me
possas reconhecer — de futuro.
Ela hesitou. Sabia que aquilo era um ponto de viragem. Ou
decidia confiar nele, ou recusava e talvez perdesse a única
oportunidade que tinha de impedir que Galbatorix a escravizasse.
Ainda assim, permitir que alguém acedesse à sua mente era motivo
de cautela. Murtagh poderia estar a persuadi-la a baixar as defesas,
para que pudesse instalar-se mais facilmente na sua consciência. Ou
talvez ele quisesse recolher qualquer informação, espiando os seus
pensamentos.
Depois pensou: “Porque iria Murtagh recorrer a esses truques,
se poderia fazer ambas as coisas. Ele tem razão; eu não conseguiria
resistir-lhe... Se eu aceitar a oferta de Murtagh, pode ser o meu
fim, mas se recusar, o meu fim é inevitável. De uma maneira ou de
outra, Galbatorix acabará por me vergar. É apenas uma questão de
tempo.”
— Faz como entenderes — disse ela.
Murtagh acenou com a cabeça e semicerrou os olhos.
No silêncio da sua mente, ela começou a recitar um fragmento
de um poema que costumava recitar sempre que queria esconder
os pensamentos ou defender a consciência de um intruso.
Concentrou-se nele com todas as suas forças, determinada a repelir
Murtagh, se fosse necessário, evitando todos os segredos que era
seu dever esconder:
Em El-harim vivia um homem, um homem de olhos amarelos
Que me disse: cautela com os sussurros, porque sussurram
mentiras.
Não lutes com demónios das trevas,
Pois eles marcarão a tua mente.
Não oiças as sombras das profundezas,
Pois elas irão assombrar-te mesmo enquanto dormes.
Quando a consciência de Murtagh tentou penetrar na sua, ela
contraiu-se e começou a recitar as linhas do poema mais depressa,
mas para seu espanto, a mente dele parecia-lhe familiar. As
semelhanças entre a sua consciência e a de... não, não podia dizer
de quem, mas as semelhanças eram surpreendentes, tal como as
diferenças, a mais importante das quais era a raiva no âmago do
seu ser, como um coração negro e frio, crispado e imóvel, com
veias de ódio ondulantes, a enredarem-se no resto da mente. Mas a
sua preocupação com ela ofuscava a raiva. Vê-la convenceu-a de
que a sua solicitude era genuína, pois dissimular o eu interior era
incrivelmente difícil e ela não acreditava que Murtagh conseguisse
enganá-la de forma tão convincente.
Ele cumpriu a palavra e não tentou penetrar mais profundamente
na sua mente. Alguns segundos depois, retirou-se e ela voltou a
sentir-se a sós com os seus pensamentos.
Murtagh abriu os olhos e disse:
— Pronto. Conseguirás reconhecer-me se eu voltar a tentar
comunicar contigo?
Ela acenou afirmativamente.
— Ótimo. Galbatorix consegue fazer muita coisa, mas nem
mesmo ele consegue imitar o toque da mente de outra pessoa. Eu
tentarei avisar-te antes de ele começar a alterar os teus sentidos e
contactar-te-ei quando ele parar. Assim, ele não conseguirá
confundir-te em relação ao que é real e ao que não é.
— Obrigada — agradeceu ela, incapaz de lhe transmitir a
dimensão da sua gratidão, numa palavra tão simples.
— Felizmente temos algum tempo. Os Varden estão apenas a três
dias daqui e os Elfos aproximam-se rapidamente, vindos do Norte.
Galbatorix foi supervisionar o posicionamento final das defesas de
Urû’baen e discutir estratégia com Lorde Barst, que é o comandante
do exército aquartelado aqui na cidade.
Ela franziu a sobrancelha. Aquilo não prenunciava nada de bom.
Ouvira falar de Lorde Barst e sabia que ele tinha uma reputação
temível entre os nobres da corte de Galbatorix. Constava que era
inteligente e sanguinário e, quem cometesse a imprudência de o
enfrentar, seria impiedosamente esmagado.
— E você não? — perguntou ela.
— Galbatorix tem outros planos para mim, embora ainda não me
tenha dito quais são.
— Quanto tempo vai andar ocupado com os preparativos?
— O resto do dia de hoje e amanhã, durante todo o dia.
— Achas que me consegues libertar antes de ele regressar?
— Não sei. Provavelmente não. — Houve uma pausa e depois ele
disse. — Agora tenho uma pergunta para te fazer: porque mataste
aqueles homens. Sabias que não conseguirias sair da cidadela.
Seria apenas para faltares ao respeito a Galbatorix, como ele disse?
Ela suspirou e afastou-se do peito de Murtagh, sentando-se
direita. Ele tirou relutantemente o braço de cima dos seus ombros.
Ela fungou e olhou-o nos olhos:
— Eu não podia ficar ali deitada e permitir que ele me fizesse tudo
o que quisesse. Tinha de ripostar, tinha de lhe mostrar que não me
vergara e também queria magoá-lo o mais possível.
— Então sempre foi por despeito!
— Em parte. E depois? — Esperava que ele demonstrasse
desagrado e condenasse as suas ações, mas em vez disso ele
lançou-lhe um olhar apreciador e os lábios curvaram-se num
pequeno sorriso sabedor.
— Então diz “bom trabalho” — disse ela.
Momentos depois retribuiu-lhe o sorriso.
— Além disso havia sempre a hipótese de eu conseguir escapar.
Ele roncou.
— E os dragões vão começar a comer erva.
— Ainda assim, tinha de tentar.
— Eu compreendo. Se pudesse, teria feito o mesmo quando os
Gémeos me trouxeram para aqui.
— E agora?
— Continuo a não poder e, mesmo que pudesse, de que me
valeria?
Ela não tinha resposta. Ficou em silêncio por instantes e depois
disse:
— Se não for possível libertares-me, quero que me prometas que
me ajudarás a fugir... por outros meios. Não to pediria... não te
colocaria esse fardo nas costas, mas a tua ajuda tornaria tudo mais
fácil, eu posso não ter hipótese de o fazer sozinha. — Ele cerrou os
lábios enquanto ela falava, mas não a interrompeu. — Aconteça o
que acontecer, não permitirei que Galbatorix faça de mim um
joguete, às suas ordens. Farei tudo — tudo — para fugir a esse
destino. Consegues entender?
Ele afundou o queixo, acenando brevemente com a cabeça.
— Então, dás-me a tua palavra?
Ele olhou para baixo e cerrou os punhos, respirando
asperamente.
— Dou.
Murtagh estava taciturno, mas acabou por conseguir puxar por
ele, pelo que os dois passaram o resto do tempo a conversar sobre
assuntos sem importância. Murtagh falou-lhe das alterações que
fizera à cela que Galbatorix lhe oferecera para Thorn — alterações
essas que justificavam perfeitamente o seu orgulho, pois permitiamlhe
montar e desmontar mais depressa e desembainhar a espada
com menos incómodo. Ela falou-lhe nas ruas do mercado em
Alberon, a capital de Surda, e de como era frequente fugir da ama
para as explorar, em criança. O seu mercador preferido era um
homem das tribos nómadas. O seu nome era Hadamanara-no
Dachu Taganna, mas insistira para que ela o tratasse pelo nome
pelo qual era mais conhecido, Taganna. Vendia facas e adagas, e
parecia sempre encantado em mostrar-lhe a mercadoria, embora
ela nunca lhe tivesse comprado nada.
À medida que conversavam, o discurso foi-se tornando mais
fácil e mais descontraído e, apesar das desagradáveis circunstâncias
em que se encontravam, Nasuada descobriu que gostava de falar
com ele. Murtagh era inteligente e bem-educado, e tinha um humor
mordaz que lhe agradava, especialmente considerando a difícil
situação em que se encontrava.
Murtagh pareceu apreciar a conversa tanto como ela. Ainda
assim, a certa altura, ambos reconheceram que seria imprudente
continuarem a falar, receando ser apanhados. Por isso regressou à
laje onde se deitou, permitindo que ele a voltasse a prender ao
impiedoso bloco de pedra.
Quando ele ia a sair, disse:
— Murtagh.
Ele parou e virou-se para a olhar.
Nasuada hesitou por instantes, mas depois ganhou coragem e
disse:
— Porquê? — Achou que ele percebera o que queria dizer:
Porquê ela? Porquê salvá-la, porquê tentar resgatá-la agora? Tinha
ideia da resposta, mas queria ouvi-la da sua boca.
Murtagh olhou-a longamente e depois disse-lhe num tom de voz
grave e duro:
— você sabes porquê.

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