3 de junho de 2017

Capítulo 48 - Almas de pedra

Eragon estava empurrando para o lado sua tigela vazia quando Oromis perguntou:
— Você gostaria de ver uma fairth de sua mãe, Eragon?
— Sim, por favor.
De dentro das dobras de sua túnica branca, Oromis retirou um fino pedaço de ardósia, que entregou a Eragon. Ele sentiu a pedra fria e lisa entre seus dedos. Do outro lado dela, sabia que encontraria uma cópia perfeita de sua mãe pintada com magia, com pigmentos que um elfo havia colocado na ardósia muitos anos atrás. Uma onda de inquietude percorreu-o. Sempre tivera vontade de ver a mãe, mas agora que a oportunidade estava diante dele, temia que a realidade pudesse desapontá-lo. Com um esforço, virou a ardósia e apreendeu uma imagem – nítida como se estivesse sendo vista através de uma janela – de um jardim de rosas vermelhas e brancas iluminado pelos tênues raios da alvorada. Uma trilha de cascalho atravessava o leito das flores. E, ali no meio, estava uma mulher, ajoelhada, segurando uma rosa branca entre as mãos e cheirando a flor, seus olhos se fechando com um leve sorriso nos lábios. Ela era muito bonita, pensou Eragon. Sua fisionomia era suave e delicada, ainda que estivesse usando roupas revestidas de couro, com braçais sobre os antebraços, grevas sobre as canelas, uma espada e uma adaga penduradas na cintura. No formato de seu rosto, Eragon podia detectar um indício de suas próprias feições, bem como uma razoável semelhança com Garrow, o irmão dela. A imagem fascinou Eragon. Pressionou as mãos contra a superfície da fairth, desejando poder adentrá-la e tocar o braço de sua mãe. Mãe.
Oromis comentou:
— Brom me deu a fairth para eu guardar em segurança antes de deixar Carvahall, e agora ela pertence a você.
Eragon não levantou os olhos.
— Mestre, poderia guardá-la para mim lambem? Ela poderia se quebrar durante nossas viagens e batalhas.
A pausa que se seguiu chamou a atenção de Eragon. Retirou abruptamente os olhos de sua mãe para ver que Oromis parecia estar melancólico e preocupado.
— Não, Eragon, não posso. Você terá de encontrar outra maneira de preservar a fairth.
Por quê?. Eragon quis perguntar, mas a tristeza nos olhos de Oromis o dissuadiu. Então, Oromis disse:
— Seu tempo aqui é limitado, e nós ainda temos muitas coisas a discutir. Devo adivinhar qual será o próximo assunto que você abordará ou você mesmo me dirá?
Com grande relutância, Eragon colocou a fairth sobre a mesa e girou-a de modo que a imagem ficasse de cabeça para baixo.
— As duas vezes que nós combatemos Murtagh e Thorn, Murtagh estava mais poderoso do que qualquer homem poderia ser. Na Campina Ardente, derrotou a mim e a Saphira porque nós não percebemos o quanto estava forte. Se não fosse por sua mudança de opinião, nós estaríamos presos em Urû’baen neste exato momento. Uma vez o mestre mencionou que sabia como Galbatorix havia ficado tão poderoso. Poderia nos contar agora? Para nossa própria segurança, precisamos saber.
— Não é meu papel contar isso para vocês — informou Oromis.
— Então de quem é? — demandou Eragon. — Se o mestre não pode...
Atrás de Oromis, Glaedr abriu um de seus olhos flamejantes, tão grandes quanto um escudo redondo, e disse: É meu... A fonte do poder de Galbatorix reside nos corações dos dragões. De nós, ele rouba seu poder. Sem nossa ajuda, Galbatorix teria sido derrotado pelos elfos e pelos Varden há muito tempo.
Eragon franziu o cenho.
— Não entendo. Por que vocês ajudariam Galbatorix? E como poderiam ajudá-lo? Só restam quatro dragões e um ovo na Alagaësia... Não é?
Muitos dos dragões cujos corpos Galbatorix e os Renegados assassinaram ainda estão vivos hoje.
— Ainda estão vivos...? — Embasbacado, Eragon olhou de relance para Oromis, mas o elfo permaneceu calado, seu rosto inescrutável. Ainda mais desconcertante era o fato de Saphira não parecer compartilhar a confusão de Eragon.
O dragão dourado virou a cabeça na direção das garras para ter uma visão melhor de Eragon, suas escamas raspando umas nas outras.
Diferentemente do que ocorre com a maioria das criaturas, ele explicou, a consciência de um dragão não reside unicamente em nosso crânio. Existe em nosso peito um objeto duro com a forma de uma gema, similar a nossas escamas na composição, chamado Eldunarí, que significa “o coração dos corações”. Quando um dragão é reproduzido, seu Eldunarí é claro e sem brilho. Normalmente, assim permanece por toda a vida do dragão e se dissolve junto com o corpo quando ele morre. Entretanto, se desejarmos, nós podemos transferir nossa consciência para o Eldunarí. Ele então adquirirá a mesma cor de nossas escamas e começará a brilhar como brasa. Se um dragão fizer isso, o Eldunarí sobreviverá à decrepitude da carne e a essência do dragão poderá viver indefinidamente. Igualmente, um dragão pode expelir pela garganta seu Eldunarí enquanto ainda está vivo. Assim, seu corpo e sua consciência podem existir separadamente e ainda assim estar ligados, o que pode ser bastante útil em determinadas circunstâncias. Mas fazer isso nos expõe a um grande perigo, pois quem quer que se apodere de nosso Eldunarí se apodera de nossas almas. Assim, nós ficamos presos aos seus desígnios, não importa o quão maléficos possam ser.
As implicações do que Glaedr dissera aturdiram Eragon. Olhando para Saphira, ele perguntou: Você já sabia disso?
As escamas em seu pescoço se ondularam quando ela fez um estranho movimento serpentino com a cabeça. Eu sempre estive ciente de meu coração dos corações. Sempre fui capaz de senti-lo dentro de mim, mas nunca pensei em falar sobre isso com você.
Por que você não me disse nada, sendo esse assunto tão importante?
Você acharia importante mencionar que possui um estômago, Eragon? Ou um coração ou um fígado ou qualquer outro órgão? Meu Eldunarí é parte integrante de quem eu sou. Eu jamais considerei sua existência digna de nota... Pelo menos não até nossa última visita a Ellesméra.
Então você sabia!
Só um pouco. Glaedr deu indícios de que meu coração dos corações era mais importante do que eu inicialmente acreditava, e ele me aconselhou a protegê-lo para que eu não me entregasse, inadvertidamente, nas mãos de nossos inimigos. Mais do que isso ele não explicou, mas desde então inferi muitas das coisas que ele acabou de dizer.
E mesmo assim você não achou importante mencionar isso para mim?, indagou Eragon.
Eu quis, rosnou ela, mas assim como Brom, dei minha palavra para Glaedr que jamais falaria sobre isso com ninguém, nem mesmo com você.
E você concordou?
Confio em Glaedr e confio em Oromis. Você não?
Eragon resmungou e se voltou para o elfo e o dragão dourado.
— Mestre, por que não nos contou isso antes?
Destampando o decantador, Oromis encheu seu copo com vinho.
— Para proteger Saphira.
— Protegê-la? Do quê?
De você, Glaedr respondeu.
Eragon ficou tão surpreso e ultrajado que mal conseguiu se recompor para protestar antes de Glaedr continuar falando.
Na natureza, um dragão aprende sobre seu Eldunarí com algum dragão mais velho quando está suficientemente maduro para entender seu uso. Dessa forma, um dragão não transfere a si próprio para o coração dos corações sem saber toda a importância de seu ato. Entre os Cavaleiros, um costume diferente surgiu. Os primeiros anos de parceria entre um dragão e um Cavaleiro são cruciais para estabelecer um relacionamento saudável entre os dois, e os Cavaleiros descobriram que era melhor esperar até que os Cavaleiros recém-incorporados e os dragões ficassem familiarizados uns com os outros para informá-los a respeito do Eldunarí. Do contrário, na descuidada agitação da juventude, um dragão poderia decidir expelir seu coração dos corações simplesmente para apascentar ou impressionar o seu Cavaleiro. Quando descartamos nosso Eldunarí, descartamos uma incorporação material de todo o nosso ser. E não podemos recolocá-lo aposição original uma vez que ele se foi. Um dragão não deveria provocar a separação de sua consciência por nada, pois isso mudaria para o resto de sua vida a forma como vive, mesmo que dure mais mil anos.
— Você ainda tem seu coração dos corações? — quis saber Eragon.
A grama em volta da mesa cedeu sob a rajada de ar quente que irrompeu das narinas de Glaedr. Essa é uma pergunta que você não pode fazer a nenhum outro dragão além de Saphira. Nem pense em dirigi-la novamente a mim, fedelho.
Embora a reprimenda de Glaedr tivesse deixado Eragon com as bochechas em fogo, ainda teve os recursos para responder como deveria, com uma mesura e dizendo as seguintes palavras:
— Sim, mestre. — Então, perguntou: — O que... O que acontece se o Eldunarí se quebra?
Se um dragão já transferiu sua consciência para o coração dos corações, então morrerá uma morte verdadeira. Glaedr piscou de forma audível e suas pálpebras internas e externas brilharam ao longo da esfera raiada de sua íris. Antes de firmarmos nosso pacto com os elfos, mantínhamos nossos corações em Du Fells Nángoröth, as montanhas no centro do deserto Hadarac. Mais tarde, depois que os Cavaleiros se estabeleceram na ilha de Vroengard e lá construíram um depósito para os Eldunarí, não só os dragões selvagens como também os aculturados confiaram seus corações à guarda dos Cavaleiros.
— Quer dizer que então Galbatorix capturou os Eldunarí? — Eragon tentou concluir.
Ao contrário das expectativas de Eragon, quem respondeu foi Oromis.
— Capturou sim, mas não todos de uma vez. Fazia muito tempo desde a última vez que alguém verdadeiramente ameaçara os Cavaleiros. Muitos de nossa ordem foram descuidando-se da proteção dos Eldunarí. Na época que Galbatorix se voltou contra nós, não era incomum o dragão de um Cavaleiro expelir seu Eldunarí apenas pela conveniência.
— Conveniência?
Qualquer um que detém um de nossos corações, Glaedr retomou a palavra, pode se comunicar com o dragão de quem o órgão pertenceu independentemente da distância. Um Cavaleiro e um dragão podem estar cada um em uma extremidade da Alagaësia e ainda assim, se o Cavaleiro estiver com o Eldunarí de seu dragão, vão poder compartilhar pensamentos tão facilmente quanto você e Saphira fazem atualmente.
— Além disso — completou Oromis —, um mago que possui um Eldunarí pode se utilizar do poder de um dragão para fortalecer seus encantamentos, também sem depender de onde o dragão esteja. Quando...
Um beija-flor colorido e brilhante interrompeu a conversa ao dar um voo rasante sobre a mesa. Com asas como um borrão pulsante, o pássaro adejou sobre as tigelas de fruta e bebericou o líquido que escapava de uma amora esmagada. Então, voou para longe, desaparecendo entre os troncos da floresta.
Oromis continuou:
— Quando Galbatorix matou seu primeiro Cavaleiro, também roubou o coração de seu dragão. Durante os anos em que passou escondido na natureza, em seguida a esse evento, invadiu a mente do dragão e moldou-a para seus desejos, provavelmente com a ajuda de Durza. E na época em que iniciou seriamente sua insurreição, com Morzan ao seu lado, já estava mais forte do que a maioria dos outros Cavaleiros. Sua força não era meramente mágica, mas mental, pois o poder da consciência dos Eldunarí aumentava o seu próprio.
“Galbatorix não tentava apenas matar os Cavaleiros e os dragões. Sua meta era adquirir quantos Eldunarí conseguisse, ou tomando dos Cavaleiros ou torturando um Cavaleiro até que seu dragão expelisse seu coração dos corações. Quando percebemos o que ele estava fazendo, já estava poderoso demais para ser detido. Galbatorix foi ajudado pelo fato de que muitos Cavaleiros viajavam não apenas com os Eldunarí de seus próprios dragões, mas também com Eldunarí dos dragões cujos corpos não existiam mais, pois tais dragões ficavam frequentemente entediados de ficar sentados em uma alcova e ansiavam por aventuras. E, é claro, uma vez que Galbatorix e os Renegados saquearam a cidade de Dorú Areaba na ilha de Vroengard, ele ganhou acesso a toda a coleção de Eldunarí estocada lá.
“Galbatorix atingiu seu êxito utilizando o poder e a sabedoria dos dragões contra toda a Alagaësia. A princípio, não era capaz de controlar mais do que um punhado de Eldunarí capturado. Não é uma tarefa fácil forçar um dragão a se submeter a você, não importa quanto poder você possa ter. Assim que Galbatorix esmagou os Cavaleiros e entronizou-se em Urû’baen, passou a se dedicar a subjugar o restante dos corações, um a um.
“Acreditamos que a tarefa deixou-o ocupado grande parte dos quarenta anos seguintes, durante os quais prestou pouca atenção aos assuntos da Alagaësia, o que tornou possível ao povo de Surda se rebelar contra o Império. Quando terminou, Galbatorix emergiu de seu retiro e começou a reconquistar o controle sobre o Império e as terras além dele. Por alguma razão, depois de dois anos e meio de mais carnificina e tristeza, retirou-se novamente para Urû’baen, e lá reside desde então, não tão solitário como antes, mas obviamente focado em algum projeto que só ele sabe. Suas maldades são muitas, mas não se entregou à devassidão; fato constatado pelos espiões dos Varden. Mais do que isso, contudo, não foi possível descobrirmos.”
Profundamente perdido em seus pensamentos, Eragon mirava ao longe. Pela primeira vez, todas as histórias que ouvira a respeito dos poderes sobrenaturais de Galbatorix faziam sentido. Uma leve sensação de otimismo se formou em seu âmago quando disse para si mesmo: Não tenho certeza de como fazer isso, mas se nós pudéssemos tirar os Eldunarí do controle de Galbatorix, ele não seria mais poderoso do que um Cavaleiro de Dragão como outro qualquer.
Por mais improvável que a perspectiva parecesse, era estimulante para Eragon saber que o rei possuía uma vulnerabilidade, por menor que fosse. Enquanto ruminava o assunto, outra questão lhe ocorreu.
— Por que será que nunca ouvi alguém mencionar os corações dos dragões nas histórias antigas? Certamente, se são tão importantes, os bardos e sábios falariam a respeito.
Oromis pousou uma das mãos sobre a mesa.
— Dentre todos os segredos da Alagaësia, o dos Eldunarí é o mais cuidadosamente guardado, mesmo entre meu povo. Ao longo da história, dragões têm lutado para ocultar seus corações do resto do mundo. Revelaram sua existência para nós somente após o pacto mágico entre nossas raças ser estabelecido, e mesmo assim somente para alguns poucos indivíduos.
— Mas por quê?
Ah, respondeu Glaedr, frequentemente desprezávamos a necessidade de segredo, mas se os Eldunarí tivessem se tornado de conhecimento público, todo ordinário mal-intencionado da região teria tentado roubar um deles, e por fim algum acabaria conseguindo seu objetivo. Foi algo que tentamos impedir de todas as formas.
— Não existe uma maneira de um dragão se defender através de seu Eldunarí? — quis saber Eragon.
O olho de Glaedr pareceu cintilar mais do que nunca. Uma pergunta apropriada. Um dragão que expeliu seu Eldunarí, mas que ainda goza do uso de seu corpo, pode, é claro, defender seu coração com suas garras, presas e com seu rabo, e ainda com suas asas. Um dragão cujo corpo está morto, entretanto, não possui nenhuma dessas vantagens. Sua única arma é sua mente e, talvez, se for o momento certo, a magia, que não podemos comandar de livre e espontânea vontade. Esse é um dos motivos pelos quais muitos dragões não escolhem prolongar sua existência além do fim de seu corpo. Ser incapaz de se mover de acordo com sua vontade, ser incapaz de sentir o mundo à sua volta, exceto através das mentes de outros, e ser capaz de influenciar o curso dos eventos somente com seu pensamento e com raros e imprevisíveis lampejos de magia; é uma existência difícil de ser abraçada por quase todas as criaturas, mas especialmente pelos dragões, que são os seres mais livres que existem.
— Então, por que fariam isso? — Eragon continuou indagando.
Às vezes, acontece por acidente. À medida que seu corpo começa a falhar, um dragão pode entrar em pânico e fugir para seu Eldunarí. Ou se um dragão expeliu seu coração antes de seu corpo morrer, não tem escolha a não ser continuar vivo. Mas, na maioria das vezes, os dragões que escolhem continuar vivendo em seus Eldunarí são aqueles que estão velhos demais, mais velhos do que eu e Oromis hoje. Estão tão velhos que as preocupações com a carne já deixaram de ser um problema, e eles se aposentam, desejando passar o resto da eternidade especulando a respeito de questões que os mais jovens não compreenderiam. Reverenciamos e guardamos com carinho os corações desses dragões por causa da vasta sabedoria e inteligência contida neles. É comum tanto para os dragões selvagens quanto para os aculturados, assim como para os Cavaleiros, se aconselhar com eles a respeito de assuntos importantes. O fato de Galbatorix tê-los escravizado é um crime de inimaginável crueldade e vilania.
Agora tenho uma questão, disse Saphira, o rico zumbido de seus pensamentos correndo pela mente de Eragon. Uma vez que um de nós fica confinado em seu Eldunarí, deve continuar existindo ou é possível que, não suportando mais sua condição, abandone o mundo e se transfira para a escuridão?
— Não por conta própria — respondeu Oromis. — Não, a menos que a inspiração para utilizar a magia tome conta do dragão e permita que quebre seu Eldunarí por dentro, o que aconteceu raríssimas vezes, até onde sei. A única outra opção seria o dragão convencer alguém a destruir o Eldunarí em seu lugar. Essa falta de controle é outra razão pela qual os dragões são extremamente cautelosos em se transferir para seus corações dos corações. Temem ficar presos em uma armadilha da qual não há escapatória.
Eragon podia sentir Saphira execrando a perspectiva daquela ideia. Mas ela não falou sobre isso, apenas perguntou: Quantos Eldunarí estão escravizados por Galbatorix?
— Nós não sabemos o número exato — respondeu Oromis novamente —, mas estimamos que sua coleção contenha muitas centenas.
Saphira contorceu levemente o corpo brilhante. Então nossa raça não está à beira da extinção, afinal?
Oromis hesitou, e foi Glaedr quem tornou a palavra.
Pequenina, ele disse, surpreendendo Eragon com o uso do epíteto, mesmo que o chão ficasse coberto de Eldunarí, nossa raça ainda estaria condenada. Um dragão preservado dentro de seu Eldunarí ainda é um dragão, mas não possui nem as necessidades da carne nem os órgãos com os quais suprir essas necessidades. Ele não pode se reproduzir.
A base do crânio de Eragon começou a latejar, e estava ficando cada vez mais ciente do cansaço decorrente dos quatro dias de viagem. Sua exaustão tornava difícil manter os pensamentos por mais de alguns instantes; à menor distração, escapavam de seu controle. A ponta do rabo de Saphira deu um puxão.
Eu não sou tão ignorante a ponto de acreditar que algum Eldunarí pudesse ter cria. Entretanto, fico reconfortada por saber que não estou tão sozinha quanto imaginava... Nossa raça pode estar condenada, mas pelo menos existe mais de quatro dragões vivos no mundo, dentro de seus mantos ou não.
— Isso é verdade — concordou Oromis — mas são tão cativos de Galbatorix quanto Murtagh e Thorn.
Contudo, libertá-los me dá algo por que lutar, assim como resgatar o último ovo, observou Saphira.
— É algo para nós dois lutarmos — completou Eragon. — Somos a única esperança que podem ter. — Ele esfregou a testa com o polegar direito. — Mas ainda tem algo que não entendo.
— Sim? — perguntou Oromis. — Onde está sua dúvida?
— Se Galbatorix conquistou seu poder a partir desses corações, como produzem a energia que ele usa? — Eragon fez uma pausa, em busca de uma maneira melhor de montar a frase para a pergunta. Fez um gesto para as andorinhas voando no céu. — Todas as criaturas vivas comem e bebem para se sustentar, até as plantas. A comida proporciona a energia de que nossos corpos necessitam para funcionar adequadamente. Também proporciona a energia de que necessitamos para fazer magia, quer dependamos de nossa própria força para lançar o encanto, quer utilizemos a força de outras criaturas. Mas como pode ser com esses Eldunarí? Não possuem ossos, músculos e pele, possuem? Não comem, comem? Então, como sobrevivem? De onde vem sua energia?
Oromis sorriu, seus longos dentes resplandecentes como porcelana esmaltada.
— Da magia.
— Magia?
— Se alguém define magia como a manipulação de energia, e na verdade é isso mesmo, então, por que não? Magia, sim. Onde exatamente os Eldunarí adquirem sua energia é um mistério tanto para nós quanto para os dragões; ninguém jamais identificou a fonte. Talvez absorvam a luz do sol, como as plantas, ou se alimentem das forças vitais das criaturas próximas a eles. Seja lá qual for a resposta, foi provado que quando um dragão experimenta a morte corporal e sua consciência passa a residir somente em seu coração dos corações, leva consigo toda a energia livre disponível em seu corpo no momento em que para de funcionar. A partir daí, o estoque de energia aumenta num ritmo regular durante cinco ou sete anos, até que atinge toda a capacidade de energia, que na verdade é imensa. A quantidade total de energia que um Eldunarí pode reter depende do tamanho do coração: quanto mais velho o dragão, maior o Eldunarí e mais energia pode absorver antes de ficar saturado.
Voltando os pensamentos para o combate com Murtagh e Thorn, Eragon comentou:
— Galbatorix deve ter dado diversos Eldunarí para Murtagh. Essa é a única explicação para o aumento de seu poder.
Oromis assentiu.
— Vocês tiveram sorte por Galbatorix não ter emprestado a ele mais corações, pois seria mais fácil para Murtagh derrotar você, Arya e todos os outros feiticeiros com os Varden.
Eragon lembrou como, nas duas vezes que ele e Saphira se encontraram com Murtagh e Thorn, a mente de Murtagh parecia conter múltiplos seres. Eragon compartilhou suas lembranças com Saphira:
Devem ter sido os Eldunarí que eu senti naquele momento..Fico imaginando onde Murtagh os colocou. Thorn não estava carregando nenhum alforje, e eu não vi nenhum volume nas roupas de Murtagh.
Não sei, disse Saphira. Você entende que Murtagh devia estar se referindo aos Eldunarí quando disse que em vez de arrancar fora seu próprio coração, seria melhor arrancar fora os corações dele. Corações, não coração.
Você está certa! Talvez estivesse tentando me alertar. Eragon respirou fundo, aliviou o nó entre seus ombros e recostou-se na cadeira.
— Fora o coração dos corações de Saphira e o de Glaedr, existem muitos Eldunarí que Galbatorix não capturou?
Pequenas rugas apareceram em torno dos cantos da boca de Oro mis.
— Não que saibamos. Depois da queda dos Cavaleiros, Brom foi atrás de Eldunarí que poderiam ter passado despercebidos a Galbatorix, sem sucesso. E em todos os anos que passei rastreando a Alagaësia com minha mente, não detectei mais do que um sussurro de um pensamento oriundo de um Eldunarí. Galbatorix e Morgan sabiam da existência de todos os Eldunarí quando iniciaram seu ataque contra nós, e nenhum coração dos corações desapareceu sem explicação. É inconcebível que alguma quantidade significativa de Eldunarí possa estar escondida em algum lugar pronta para nos ajudar caso conseguíssemos localizá-la.
Embora Eragon não estivesse esperando nenhuma outra resposta, ainda assim achou decepcionante.
— Uma última pergunta. Quando um Cavaleiro ou o dragão de um Cavaleiro morre, o membro sobrevivente da dupla frequentemente desaparece ou comete suicídio logo depois. E aqueles que não fazem isso normalmente ficam loucos devido à perda. Estou certo?
Está, respondeu Glaedr.
— Mas o que aconteceria se um dragão transferisse sua consciência para o coração e depois o corpo morresse?
Pelas solas de suas botas, Eragon sentiu um leve tremor sacudir o chão à medida que Glaedr mudava de posição. Se um dragão experimenta a morte corporal e seu Cavaleiro continua vivo, juntos passam a ser conhecidos como Indlvarn. A transição dificilmente é prazerosa para o dragão, mas muitos Cavaleiros e dragões se adaptam com sucesso à mudança e os dragões continuam a servir os Cavaleiros com distinção. Se, contudo, e o Cavaleiro quem morre, então o dragão normalmente destrói seu Eldunarí ou pede para outro destruí-lo em seu lugar, já que seu corpo não existe mais. Assim, estará matando a si próprio e seguindo seu Cavaleiro em direção ao vazio. Mas não todos. Alguns dragões são capazes de superar suas perdas – assim como alguns Cavaleiros, tais como Brom – e continuam a servir nossa ordem ainda por muitos anos. Ou através de sua carne ou através de seu coração dos corações.
Você nos deu muita coisa para refletirmos, Oromis-elda, observou Saphira.
Eragon assentiu, mas ficou em silêncio, pois estava ocupado pensando em tudo o que havia sido dito.

4 comentários:

  1. Alguns erros "E, ali no meio, estava unia(uma) mulher, ajoelhada, segurando uma rosa branca entre as mãos e cheirando a flor, seus olhos se fechando com vim(um) leve sorriso nos lábios."

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  2. Outro erro :D " nós estaríamos presos em Urû’baen neste exalo(exato) momento"

    Karina, quando o capitulo tá em revisão é melhor deixar os erros para lá já que vão ser consertados ou fica mostrando aonde cada erro estar para ajudar quem for corrigir?

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    1. Sem problemas, esses erros poderiam passar batido na hora da revisão. Melhor agora do nunca

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  3. "Não é urna(uma) tarefa fácil forçar um dragão a se submeter a você"

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Boa leitura :)