24 de junho de 2017

Capítulo 47 - Uma coroa de gelo e de neve

Quando os primeiros raios de luz pálida se projetaram sobre o
mar encrespado, iluminando a crista das ondas translúcidas —
cintilantes como cristal —, Eragon despertou das suas
divagações e olhou para Noroeste, curioso por saber o que a luz
revelava acerca das nuvens que se acumulavam à distância.
O que viu foi desconcertante: as nuvens abarcavam quase
metade do horizonte e a maior das densas colunas brancas parecia
mais alta que os picos das Montanhas Beor, demasiado alta para
Saphira sobrevoar. A única porção de céu limpo ficara para trás e
mesmo essa iria acabar por desaparecer, à medida que os braços
da tempestade se aproximavam.
Teremos de voar através dela, disse Glaedr, e Eragon sentiu a
inquietude de Saphira.
Porque não tentar contorná-la?, perguntou ela.
Eragon percebeu, através de Saphira, que Glaedr estava a
examinar a estrutura das nuvens. Por fim, o dragão dourado disse:
Não quero que te desvies muito do caminho. Temos ainda
muitas léguas a percorrer e se te faltarem as forças...
Nesse caso, poderás emprestar-me as tuas para continuarmos a
voar.
Hum. Ainda assim, é melhor sermos cautelosos, já que
decidimos ser imprudentes. Eu já vi tempestades semelhantes. É
maior do que pensam. Para escapares, terias de voar a uma
distância tal para Oeste que acabarias para lá de Vroengard e irias,
provavelmente, demorar mais um dia a alcançar terra.
Vroengard não fica assim tão longe, disse ela.
Não, mas o vento vai atrasar-nos. Além disso, os meus instintos
dizem-me que a tempestade se estende até à ilha. De uma maneira
ou de outra, teremos de voar através dela. Contudo, não será
necessário atravessar o olho da tempestade. Vês aquela abertura
entre as duas pequenas colunas, a Oeste?
Sim.
Vai para lá e talvez consigamos descobrir um caminho seguro
através das nuvens.
Eragon agarrou-se à parte da frente da sela, ao sentir Saphira
baixar o flanco direito e virar para Oeste, em direção à abertura
que Glaedr indicara, bocejando e esfregando os olhos quando ela
se voltou a endireitar. Depois virou-se para trás e tirou uma maçã e
algumas tiras de carne seca dos alforges, presos atrás de si. Era um
magro pequeno-almoço, mas ele tinha pouca fome e era frequente
ficar enjoado quando comia grandes refeições, montado no dorso
de Saphira.
Enquanto comia, observava alternadamente as nuvens e o mar
cintilante. Era inquietante pensar que tinham apenas água por baixo
e que a extensão de terra firme mais próxima — o continente —,
segundo os seus cálculos, ficava a mais de oitenta quilômetros de
distância. Estremeceu ao imaginar-se a afundar nas profundezas
geladas e sufocantes do oceano. Perguntou a si mesmo o que
haveria no fundo do mar e ocorreu-lhe que a sua magia talvez lhe
permitisse explorá-lo para descobrir, mas a ideia não era apelativa.
O abismo de água era demasiado escuro e perigoso para seu
gosto. Não era um sítio para a sua espécie visitar. Talvez fosse
preferível deixá-lo para as estranhas criaturas que já o habitavam.
À medida que a manhã avançava, tornou-se evidente que as
nuvens estavam mais longe do que parecia, no início, e que a
tempestade era maior do que Eragon e Saphira tinham imaginado —
tal como Glaedr dissera.
Levantou-se uma leve brisa frontal e o voo de Saphira tornou-se
mais difícil, mas ela continuava a avançar bem.
Quando ainda estavam a algumas léguas da frente da
tempestade, Saphira surpreendeu Eragon e Glaedr, mergulhando
ligeiramente no ar e voando próximo da superfície da água.
Enquanto descia, Glaedr perguntou:
Qual é a tua ideia?
Estou curiosa, respondeu ela, e gostava de descansar as asas
antes de entrar nas nuvens.
Saphira voou rente às ondas, com o reflexo do corpo por baixo
e a sombra à frente a reproduzirem todos os seus movimentos, tal
como dois companheiros espetrais, um escuro e outro luminoso.
Depois enfunou as asas, batendo-as rapidamente três vezes,
abrandou e aterrou sobre a água. Um leque de salpicos irrompeu
de cada lado do seu pescoço, ao varrer a água com o peito,
salpicando Eragon com centenas de gotas.
A água estava fria mas depois de tanto tempo a voar, o ar
parecia agradavelmente morno — tão morno, que Eragon
desapertou o manto e tirou as luvas.
Saphira dobrou as asas e flutuou tranquilamente na água,
boiando para cima e para baixo, ao sabor das ondas. À direita,
Eragon viu vários amontoados de algas castanhas. As plantas
tinham ramos, como os arbustos, e ampolas do tamanho de bagas
nas ramificações, ao longo dos caules.
Por cima das suas cabeças, mais ou menos à mesma altitude a
que Saphira voava anteriormente, Eragon viu dois albatrozes, com
asas de pontas negras, a afastarem-se da gigantesca parede de
nuvens, o que apenas contribuiu para aumentar o seu
constrangimento. As aves marinhas recordaram-lhe o dia em que
vira uma alcateia de lobos correr ao lado de uma manada de
veados, fugindo de um incêndio numa floresta, na Espinha.
Se tivéssemos algum juízo, disse a Saphira, voltávamos para
trás. Se tivéssemos algum juízo, abandonávamos Alagaësia e nunca
mais voltávamos, respondeu ela.
Depois arqueou o pescoço e mergulhou o focinho na água do
mar, sacudindo a cabeça e passando várias vezes a língua vermelha
por dentro e por fora da boca, como se tivesse provado algo
desagradável.
Depois Eragon detetou pânico em Glaedr e o velho dragão rugiu
mentalmente:
Levanta voo! Agora, agora! Levanta voo!
Saphira não perdeu tempo com perguntas, abrindo as asas com
um ruído semelhante a um trovão, batendo-as e empinando-se para
sair da água.
Ao inclinar-se para a frente, Eragon agarrou-se à borda da sela,
para não ser projetado para trás. O bater de asas de Saphira
levantou uma cortina de névoa que o deixou parcialmente cego, por
isso usou a mente para descobrir o que assustara Glaedr.
Sentiu algo frio, gigantesco... voraz e insaciável a subir das
profundezas do oceano em direção ao ventre de Saphira, com uma
velocidade que não julgava possível. Tentou afugentar e fazer voltar
para trás, mas a criatura era estranha e implacável, e pareceu não
reparar nos seus esforços. Memórias de incontáveis anos passados
em solidão, no mar gelado, a caçar e a ser caçado, surgiram nas
cavernas sombrias da sua consciência.
Quando sentiu o pânico a crescer dentro si, Eragon tateou à
procura do punho de Brisingr e nesse mesmo instante Saphira
libertou-se da água, elevando-se no ar.
Depressa, Saphira!, gritou ele em silêncio.
Ela foi ganhando lentamente velocidade e altitude e, depois, uma
fonte de água branca explodiu atrás e Eragon viu um par de
mandíbulas brilhantes e cinzentas a emergir da coluna de água. As
mandíbulas eram tão grandes que um cavalo e um cavaleiro
poderiam passar entre elas incólumes, e estavam cobertas de
centenas de dentes brancos, cintilantes.
Saphira estava consciente do que ele vira e torceu-se
violentamente para o lado, na tentativa de escapar à boca
escancarada, roçando com a ponta da asa na água. Instantes
depois, Eragon ouviu e sentiu as mandíbulas da criatura fecharemse.
A cauda de Saphira escapou por escassos centímetros aos
dentes aguçados como agulhas.
Ao voltar a cair dentro de água, o corpo tornou-se mais visível.
A cabeça era comprida e angular. Tinha uma crista óssea, saliente,
por cima dos olhos, e do lado de fora da crista via-se um filamento
viscoso que Eragon calculou ter mais de um metro e meio de
comprimento. O pescoço da criatura lembrava-lhe o de uma
gigantesca serpente ondulante. A parte visível do torso era macia e
robusta, e parecia incrivelmente densa. Duas barbatanas, em forma
de remo, agitavam-se inutilmente no ar, de ambos os lados do
peito.
A criatura aterrou de lado e uma segunda explosão de espuma,
ainda maior, ergueu-se em direção ao céu.
Mesmo antes das ondas se fecharem sobre o corpo do monstro,
Eragon olhou para o único olho virado para cima. Era mais negro
que uma gota de alcatrão. A malevolência nele contida — o ódio, a
fúria e a frustração absoluta que Eragon sentiu no olhar fixo da
criatura — foi o suficiente para o fazer tremer e desejar estar em
pleno Deserto de Hadarac, sentindo que só aí estaria a salvo da
fome ancestral daquela criatura.
Ainda com o coração a martelar-lhe no peito, descontraiu a mão
no punho de Brisingr e ele deixou-se cair sobre a parte da frente da
sela.
— O que era aquilo?
Um Nïdhwal, disse Glaedr.
Eragon franziu a sobrancelha, não se recordando de ter lido nada
acerca disso em Ellesméra.
E o que é um Nïdhwal?
São raros e não é frequente falar-se deles. Estão para o mar
como os Fanghur para os céus. São ambos aparentados com os
dragões. Embora as diferenças entre nós sejam maiores, os
Nïdhwal estão mais próximos de nós que os ruidosos Fanghur. São
inteligentes e possuem uma estrutura semelhante ao Eldunarí dentro
do seu peito, que julgamos permitir-lhes manterem-se submersos a
grandes profundidades, durante longos períodos de tempo.
Conseguem exalar fogo?
Não, mas tal como os Fanghur, usam frequentemente o poder
da mente para incapacitar as presas, o que vários dragões já
descobriram, para sua infelicidade.
Devorariam a sua própria espécie?, perguntou Saphira.
Nós somos totalmente diferentes, para eles, respondeu Glaedr.
Mas devoram de fato a própria espécie, razão pela qual há tão
poucos. Não têm interesse em nada que aconteça fora dos seus
domínios e todas as tentativas para os chamar à razão fracassaram.
É estranho encontrar um tão perto da terra. Em tempos, só era
possível encontrá-los após vários dias de voo, onde o mar era mais
profundo. Dá ideia que se tornaram ousados ou desesperaram
depois da queda dos Cavaleiros.
Eragon voltou e estremecer ao lembrar-se da sensação que a
mente do Nïdhwal lhe proporcionara.
Porque é que nem você nem Oromis nos falaram deles?
Há muita coisa que não te ensinámos, Eragon. Não tínhamos
muito tempo e achámos melhor aproveitá-lo a tentar ensinar-te a
defenderes-te de Galbatorix e não de todas as criaturas sombrias
que assombram as zonas inexploradas de Alagaësia.
Então há outras coisas, como os Nïdhwal, que desconhecemos?
Algumas.
Vais falar-nos delas, Ebrithil?, perguntou Saphira.
Farei um pacto com ambos. Vamos esperar uma semana e, se
estivermos vivos e formos ainda donos da nossa liberdade, terei o
maior prazer em passar os próximos dez anos a ensinar-vos tudo
acerca de todas as raças que conheço, incluindo todas as
variedades de escaravelhos, pois há milhentas delas. Mas até lá,
vamos concentrar-nos na tarefa que temos diante de nós.
Combinado?
Eragon e Saphira concordaram relutantemente e não falaram
mais no assunto.
À medida que se aproximavam da frente da tempestade, o vento
frontal deu lugar a um vento tempestuoso, atrasando Saphira a
ponto de esta conseguir apenas voar a metade da sua velocidade.
De vez em quando, poderosas rajadas baloiçavam-na, chegando
mesmo a imobilizá-la por instantes. Sabiam sempre quando
estavam prestes a ser atingidos por uma rajada, pois conseguiam
ver um padrão prateado, semelhante a escamas, varrer velozmente
a superfície da água, na direção deles.
Desde o nascer do sol que as nuvens aumentavam de tamanho e,
vistas de perto, eram ainda mais assustadoras. Perto da base eram
escuras e arroxeadas, com cortinas de chuva batidas pelo vento a
ligarem a tempestade ao mar, como um cordão umbilical
transparente. Mais acima, as nuvens eram cor de prata oxidada e,
mesmo no topo, eram de um branco puro e ofuscante e pareciam
tão sólidas como as encostas de Tronjheim. Mais a Norte, perto do
olho da tempestade, as nuvens tinham formado uma gigantesca
bigorna plana, em cima, que se agigantava sobre tudo o resto,
como se os próprios deuses quisessem forjar um estranho e terrível
instrumento.
Ao planar entre duas colunas brancas e volumosas de nuvens —
junto das quais mais parecia um ponto —, o vento frontal abrandou
e o ar tornou-se áspero e revolto, redemoinhando em torno deles
sem uma direção definida. Eragon cerrou os dentes, para não bater
com eles uns nos outros, e o seu estômago deu um salto ao sentir
Saphira descer subitamente cerca de dois metros e, depois outros
seis de uma só vez, com igual rapidez.
Glaedr disse:
Tens alguma experiência de voo em tempestades, tirando o dia
em que foste apanhada numa tempestade de trovoada, entre o Vale
de Palancar e Yazuac?
Não, disse Saphira, brevemente, num tom sombrio.
Glaedr parecia esperar a sua resposta, pois começou
imediatamente a instruí-la sobre a complexidade da navegação em
fantásticas paisagens de nuvens:
Procura padrões de movimento e presta atenção às formações
em teu redor, disse ele. Através delas poderás perceber onde é que
o vento está mais forte e em que direção sopra.
Saphira já tinha conhecimento de grande parte do que ele estava
a dizer mas, à medida que Glaedr falava, o comportamento calmo
do velho dragão serenava-a a ela e a Eragon. Se sentissem alguma
apreensão ou medo na mente do velho dragão, acabariam por
duvidar de si mesmos. Talvez Glaedr estivesse consciente disso.
Um fragmento perdido de uma nuvem esfarrapada pelo vento
surgiu no caminho de Saphira, mas ela em vez de o contornar,
atravessou-o, perfurando a nuvem como uma lança cintilante, azul.
Quando a névoa cinzenta os envolveu, o vento emudeceu e Eragon
ergueu a mão diante do rosto para manter a visão clara.
Quando irromperam da nuvem, Saphira tinha milhares de gotas
de água minúsculas agarradas ao corpo, cintilando como se lhe
tivessem embutido diamantes nas escamas normalmente
deslumbrantes.
O seu voo continuava instável: se num momento voava a direito,
logo a seguir poderia ser projetada pela turbulência do ar, ou girar
na direção oposta se uma súbita corrente de ar ascendente lhe
atingisse uma asa. Estar sentado no seu dorso enquanto ela lutava
contra a turbulência, era cansativo, mas para Saphira tratava-se de
uma luta miserável e frustrante, agravada pela evidência de que
estava longe de terminar, pelo que ela não tinha outro remédio
senão prosseguir.
Uma ou duas horas depois, ainda não tinham conseguido
distinguir o lado oposto da tempestade. A seguir, Glaedr disse:
Temos de virar. Não é prudente afastares-te mais para Oeste.
Se tivermos de arriscar enfrentar a fúria da tempestade, o melhor
será fazê-lo agora antes que fiques mais cansada.
Sem dizer uma palavra, Saphira virou para Norte, em direção ao
vasto penhasco de nuvens iluminadas pelo sol, no olho da
gigantesca tempestade. Ao aproximarem-se da face saliente do
penhasco — o maior que Eragon vira em toda a sua vida, maior
ainda que Farthen Dûr — clarões azuis iluminaram-na por dentro,
projetando relâmpagos em direção à cabeça da bigorna.
Momentos depois o céu estremeceu com um trovão e Eragon
tapou os ouvidos com as mãos. Ele sabia que as suas defesas os
iriam proteger dos relâmpagos, mas continuava apreensivo com a
ideia de se aproximarem dos raios de energia crepitante.
Se Saphira estava assustada ele não o sentia. Tudo o que sentia
nela era determinação. Bateu as asas mais depressa e, minutos
depois, alcançaram a face do penhasco, mergulhando através dele,
em direção ao olho da tempestade.
Estavam envoltos num crepúsculo cinzento e indefinido.
Era como se o resto do mundo tivesse deixado de existir. As
nuvens não permitiam avaliar qualquer distância para além da ponta
do nariz, das asas ou da cauda de Saphira. Estavam positivamente
cegos. Apenas o peso da gravidade lhes permitia perceber o que
era para cima e o que era para baixo.
Eragon abriu a mente, permitindo que a sua consciência se
expandisse tão longe quanto possível, mas não sentiu qualquer ser
vivo a não ser Saphira e Glaedr, nem mesmo um pássaro perdido.
Felizmente Saphira manteve o seu sentido de orientação. Não iriam
afastar-se do caminho e se ele continuasse à procura de outros
seres, fossem eles plantas ou animais, seria possível evitar que
fossem direitos à encosta de uma montanha.
Lançou também um feitiço que Oromis lhe ensinara e que lhe
permitiria — a ele e a Saphira — saber a que distância estavam da
água — ou do solo —, a qualquer momento.
Assim que entraram na nuvem, a humidade começou a
acumular-se sobre a pele de Eragon e a ensopar-lhe as roupas de
lã, tornando-as pesadas. Uma contrariedade que teria ignorado se
a combinação da água com o vento não o gelasse a ponto de lhe
drenar todo o calor dos membros, prestes a matá-lo. Por isso,
lançou um outro feitiço, que filtrou todas as gotículas de água
visíveis do ar em seu redor e, também, em redor dos olhos de
Saphira — a seu pedido — pois a humidade estava sempre a
acumular-se, obrigando-a a pestanejar frequentemente.
O vento, no interior da cabeça da bigorna, era
surpreendentemente suave. Eragon fez um comentário a Glaedr a
esse respeito, mas o velho dragão continuou carrancudo como era
costume.
O pior ainda está para vir.
A verdade das suas palavras em breve se tornou evidente,
quando uma feroz corrente de ar ascendente embateu contra o
ventre de Saphira, projetando-a a centenas de metros de altitude.
Aí, o ar era demasiado rarefeito para Eragon respirar
convenientemente e a névoa congelou numa imensidão de cristais
minúsculos, que o picavam no nariz, nas faces e nas membranas das
asas de Saphira, como facas afiadas.
Recolhendo as asas contra os flancos, Saphira mergulhou para a
frente, na tentativa de escapar à corrente de ar ascendente.
Segundos depois, a pressão debaixo dela desapareceu, dando
lugar a uma corrente de ar descendente, igualmente poderosa, que
a projetou na direção das ondas a uma velocidade assustadora.
Ao caírem, os cristais de gelo derreteram-se, formando enormes
gotas de chuva esféricas, que pareciam flutuar sem peso, ao lado
de Saphira. Um relâmpago brilhou ali perto — um sinistro brilho
azul, através do véu de nuvens — e Eragon gritou de dor ao ouvir o
trovão ribombar em torno deles. Ainda com os ouvidos a zunir, ele
rasgou dois pedaços de tecido da ponta do manto, enrolou-os, e
colocou-os nos ouvidos, empurrando-os tanto quanto possível.
Só perto da base das nuvens é que Saphira conseguiu libertar-se
da rápida corrente de ar. Logo que o conseguiu, foi apanhada por
uma segunda corrente de ar ascendente, que a empurrou em
direção ao céu.
Depois disso e durante algum tempo, Eragon perdeu a noção do
tempo. O vento furioso era demasiado forte para Saphira lhe
resistir e ela continuou a subir e a descer nas correntes de ar
cíclicas, como um destroço flutuante apanhado num redemoinho.
Conseguiu avançar um pouco — escassas milhas, conquistadas a
custo e mantidas com grande esforço —, mas sempre que se
desembaraçava de uma corrente de ar circular, dava consigo
aprisionada noutra.
Era humilhante para Eragon concluir que os três estavam à
mercê da tempestade, e que por muito poder que tivessem, jamais
conseguiriam enfrentar a força dos elementos.
Por duas vezes, o vento quase lançou Saphira para as ondas
revoltas. Em ambas as ocasiões, as correntes de ar descendente
expulsaram-na da base da tempestade em direção à chuva batida
pelo vento que fustigava o mar, em baixo. A segunda vez que isso
aconteceu, Eragon olhou por cima do flanco de Saphira e, por
instantes, julgou distinguir a forma longa e escura do Nïdhwal
repousando sobre a água ondulante. Contudo, quando se deu a
segunda explosão de relâmpagos, a forma já tinha desaparecido e
ele interrogou-se se as sombras não lhe teriam pregado uma
partida.
À medida que Saphira perdia as forças, lutando menos contra o
vento, deixava que este a levasse para onde queria. Só quando se
aproximava demasiado da água, fazia um esforço para desafiar a
tempestade. Tirando isso, imobilizava as asas, esforçando-se o
menos possível. Eragon sentiu quando Glaedr lhe começou a
transmitir um fio de energia para a ajudar a aguentar-se no ar,
mesmo assim tudo o que ela conseguia era manter a sua posição.
Por fim, a pouca luz que havia começou a desaparecer e o
desespero tomou conta de Eragon. Durante a maior parte do dia, a
tempestade sacudira-os de um lado para o outro e continuava a
não dar sinais de abrandamento, nem Saphira parecia estar perto
do seu perímetro.
Depois do sol se pôr, Eragon não conseguia sequer ver a ponta
do nariz e tudo lhe parecia igual de olhos fechados ou abertos. Era
como se ele e Saphira estivessem envoltos numa grande pilha de lã
negra. A escuridão parecia ter peso, como se fosse uma substância
palpável que os comprimia de todas as direções.
Com segundos de intervalo, os relâmpagos rasgavam a
escuridão, por vezes escondidos dentro das nuvens, outras vezes,
riscando o céu dentro do seu campo de visão, brilhando com a
radiância de um dúzia de sóis e deixando um sabor a ferro no ar.
Após o brilho ofuscante das descargas mais próximas, a noite
apresentava-se duas vezes mais escura, e Eragon e Saphira eram
sucessivamente ofuscados pela luz e pela subsequente escuridão.
Por muito perto que os raios caíssem, nunca atingiram Saphira, mas
o constante ribombar dos trovões estava a deixar ambos doentes
com o ruído.
Eragon não fazia ideia quanto tempo iriam continuar assim.
A dada altura, durante a noite, Saphira entrou numa corrente de
ar ascendente, muito maior e mais poderosa que qualquer uma das
anteriores. Logo que os atingiu, Saphira começou a combatê-la,
tentando escapar-lhe, mas a força do vento era tanta, que ela mal
conseguia manter as asas niveladas.
Por fim, rugiu de frustração e projetou um jato de chamas,
iluminando uma pequena área em torno dos cristais de gelo que
cintilaram como jóias.
Ajudem-me, disse ela a Eragon e Glaedr, eu não consigo fazer
isto sozinha.
A seguir, os três uniram as mentes e, enquanto Glaedr lhe
fornecia a energia necessária, Eragon gritou:
— Gánga fram!
O feitiço projetou Saphira para a frente, mas muito lentamente,
pois moverem-se nos ângulos certos com aquele vento era como
atravessar o Rio Anora, no pico do degelo da primavera. Enquanto
Saphira avançava na horizontal, a corrente de ar continuou a
empurrá-la para cima a uma velocidade estonteante. Eragon
depressa começou a sentir que estava com dificuldade em respirar,
mas eles continuavam presos na torrente de ar.
Isto está a demorar muito e está a fazer-nos despender
demasiada energia, disse Glaedr. Quebra o feitiço.
Mas...
Quebra o feitiço. Não conseguiremos libertar-nos antes de
vocês desmaiarem. Teremos de nos deixar levar pelo vento até que
este enfraqueça o suficiente para Saphira se libertar dele.
Como?, perguntou ela enquanto Eragon fazia o que Glaedr
dissera. A preocupação assaltou-o, ao sentir a exaustão e o
sentimento de derrota que ensombravam a mente de Saphira.
Eragon, tens de corrigir o feitiço que você está a usar para te
aqueceres a ti, a Saphira e a mim. Vai ficar frio, mais frio do que no
pior inverno da Espinha. Sem magia, morreremos enregelados.
Mesmo tu?
Eu estalarei como um pedaço de vidro quente atirado para a
neve. A seguir terás de lançar um feitiço para reunir ar em torno de
ti e de Saphira e mantê-lo, para que possam continuar a respirar.
Mas terá também de permitir escoar o ar, de contrário sufocarão.
O fraseado do feitiço é complicado e você não podes cometer
qualquer erro, por isso escuta com atenção. É assim...
Logo que Glaedr recitou as frases na língua antiga, Eragon
repetiu-lhas e, mal o dragão se deu por satisfeito com a sua
pronunciação, Eragon lançou o feitiço. Depois corrigiu o outro
feitiço, tal como Glaedr lhe dissera que fizesse, para que ficassem
protegidos do frio.
A seguir esperaram, enquanto o vento os elevava cada vez mais.
Passaram alguns minutos e Eragon começou a interrogar-se se iriam
parar, ou se continuariam a subir até ficarem ao mesmo nível da lua
e das estrelas.
Ocorreu-lhe que talvez fosse assim que se criassem as estrelas
cadentes: um pássaro, um dragão, ou uma outra criatura terrena
arrancada da terra, pelo vento implacável, e projetada no céu a
uma velocidade tal que arderia como uma flecha de cerco. Se assim
fosse, ele, Saphira e Glaedr seriam a estrela cadente mais
espetacular de que haveria memória, se alguém estivesse
suficientemente perto para assistir à sua morte tão longe.
Os uivos do vento abrandaram gradualmente. Mesmo os
perturbantes trovões pareciam ter serenado e, quando Eragon tirou
os pedaços de tecido dos ouvidos, ficou impressionado com o
silêncio que os rodeava. Ouvia ainda uns sussurros indistintos, ao
longe, como o ruído de um pequeno riacho na floresta. Mas, para
além disso, tudo estava silencioso, maravilhosamente silencioso.
À medida que o clamor da tempestade furiosa se diluía, ele
reparou também que os feitiços lhe estavam a exigir mais esforço —
não tanto o feitiço que impedia que o seu calor físico se dissipasse
demasiado depressa, mas o encantamento que recolhia e
comprimia a atmosfera diante de si e de Saphira, para que
pudessem encher os pulmões, como normalmente fariam. Por
qualquer razão, a energia necessária para manter o segundo feitiço
multiplicou-se desproporcionalmente em relação ao primeiro e
Eragon depressa começou a detetar os sintomas que indicavam que
o feitiço estava prestes a roubar-lhe o pouco que lhe restava de
força vital: frio nas mãos, batimentos cardíacos irregulares e uma
terrível sensação de letargia, talvez este fosse o sinal mais
alarmante.
Depois Glaedr ajudou-o. Aliviado, Eragon sentiu a tensão
diminuir à medida que a força do dragão fluía para dentro de si,
como uma torrente de calor febril que lhe varreu a letargia e lhe
devolveu o vigor aos membros.
E assim continuaram.
Ao fim de bastante tempo, Saphira detetou um abrandamento no
vento — ligeiro, mas percetível —, e começou a preparar-se para
voar para fora da corrente de ar.
Antes que o pudesse fazer, as nuvens por cima deles começaram
a dissipar-se e Eragon vislumbrou alguns pontos cintilantes: estrelas
brancas e prateadas, brilhantes como nunca.
Olhem, disse ele. Depois as nuvens abriram-se em torno deles e
Saphira saiu da tempestade, flutuando sobre ela, precariamente
equilibrada sobre a coluna de vento forte.
Por baixo, Eragon avistou toda a tempestade. Estendia-se por
uns cento e cinquenta quilômetros em todas as direções. O olho
parecia uma cúpula em forma de cogumelo, esbatida pelos terríveis
ventos laterais que sopravam de Oeste para Este e ameaçavam
derrubar Saphira do seu poleiro instável. Tanto as nuvens mais
próximas como as mais distantes eram esbranquiçadas e pareciam
brilhantes, como se estivessem iluminadas por dentro.
Apresentavam-se belas e benignas — formações tranquilas e
imutáveis que não deixavam transparecer nada de violento no seu
interior.
Depois Eragon reparou no céu e arquejou, ao reparar que
continha mais estrelas do que as que julgava existir. Estrelas
vermelhas, azuis, brancas, douradas salpicavam o firmamento como
mãos cheias de purpurina.
As constelações que ele conhecia continuavam presentes, mas
estavam agora rodeadas de milhares de outras estrelas menos
brilhantes, que Eragon contemplava pela primeira vez. E não eram
apenas as estrelas que pareciam mais brilhantes. O vazio entre elas
parecia mais escuro. Era como se sempre que ele olhasse para o
céu tivesse uma névoa diante dos seus olhos, que o impedia de
admirar a verdadeira glória das estrelas.
Eragon contemplou aquele maravilhoso espetáculo durante uns
momentos, pasmado com a essência gloriosa e misteriosamente
aleatória das luzes cintilantes. Só quando baixou os olhos lhe
ocorreu que havia algo de invulgar nas matizes púrpura do
horizonte. Em vez do céu e o mar se encontrarem numa linha reta —
como era suposto e sempre acontecera —, a linha de junção era
curva, como o extremo de um círculo incrivelmente grande.
Era uma visão tão estranha que só alguns segundos depois
percebeu o que estava a ver, e quando o percebeu, sentiu um
formigueiro no couro cabeludo, como se lhe tivessem roubado o ar
dos pulmões.
— O mundo é redondo — sussurrou ele. — O céu é oco e o
mundo é redondo.
É o que parece, disse Glaedr, mas parecia igualmente
impressionado. Um dragão selvagem falou-me disso, mas eu nunca
pensei vê-lo com os meus próprios olhos.
A Este, um ligeiro brilho amarelo tingia parte do horizonte,
prenunciando o regresso do sol. Eragon calculou que, se Saphira
mantivesse a sua posição mais quatro ou cinco minutos, vê-lo-iam
nascer, embora faltassem ainda algumas horas até que os raios
quentes e revitalizantes alcançassem a água, lá em baixo.
Saphira manteve-se no mesmo sítio durante uns instantes.
Estavam os três suspensos entre as estrelas e a terra, flutuando no
crepúsculo silencioso como espíritos desencarnados. Não estavam
em lado algum, nem faziam parte dos céus, nem do mundo, lá em
baixo — um grão de pó a passar na fronteira entre duas imensidões.
Depois Saphira inclinou-se para a frente e impeliu-se em direção
a norte quase a voar, quase a cair, pois o ar estava tão rarefeito
que as suas asas não conseguiam suportar totalmente o seu peso,
ao abandonar a corrente de ar.
Ao descer velozmente, Eragon disse:
Se tivéssemos jóias suficientes e armazenássemos a energia
necessária nelas, achas que conseguiríamos voar até à Lua?
Quem sabe o que é possível, disse Glaedr.
Quando Eragon era criança, Carvahall e o Vale de Palancar
eram tudo o que ele conhecia. É claro que tinha ouvido falar no
Império, mas nunca lhe parecera muito real até começar a viajar.
Mais tarde, o seu retrato mental do mundo expandira-se, passando
a incluir o resto de Alagaësia e, vagamente, as outras terras sobre
as quais já tinha lido. Mas agora concluíra que, o que julgara ser
tão grande, era na verdade uma pequena parte de um todo muito
maior. Era como se o seu ponto de vista tivesse passado da
perspetiva da formiga à perspetiva da águia, numa questão de
segundos.
Porque o céu era oco e o mundo redondo.
Isso fê-lo reavaliar e reclassificar... tudo. A guerra entre os
Varden e o Império parecia irrelevante, quando comparada com a
verdadeira dimensão do mundo. Pensou também como eram
mesquinhas as mágoas e as preocupações que atormentavam as
pessoas, quando analisadas de tão alto.
Dirigindo-se a Saphira, disse:
Se toda a gente visse o que nós vimos, talvez houvesse menos
guerras no mundo.
Não podes esperar que os lobos se transformem em ovelhas.
Não, mas os lobos também não precisam de ser cruéis para com
as ovelhas.
Saphira depressa regressou à escuridão das nuvens, mas
conseguiu evitar ser apanhada por um novo ciclo de correntes de ar
ascendentes e descendentes. Planou ao longo de muitos
quilômetros, escapando dos topos de outras correntes de ar
ascendentes, dentro da tempestade, e usando-as para conservar a
energia.
Uma ou duas horas depois, o nevoeiro dissipou-se e eles
afastaram-se da enorme massa de nuvens que formavam o olho da
tempestade. Desceram e voaram sobre contrafortes insignificantes,
amontoados em torno da base da tempestade, que se foi
gradualmente achatando num manto acolchoado que cobria tudo
em redor, à exceção da cabeça da bigorna.
Quando o sol apareceu no horizonte, nem Eragon nem Saphira
tinham energia para dar grande atenção ao que os rodeava, além de
que não parecia haver nada digno de nota na monótona imensidão
por baixo deles.
Foi Glaedr que disse:
Saphira, ali, à tua direita. Você está a ver?
Eragon ergueu a cabeça dos braços dobrados e franziu os olhos,
à medida que eles se adaptavam à claridade.
Alguns quilômetros a norte, um anel de montanhas erguia-se das
nuvens. Os picos estavam cobertos de neve e de gelo, e juntos
pareciam uma velha coroa pontiaguda poisada sobre camadas de
névoa. As escarpas viradas para Este brilhavam intensamente à luz
do sol da manhã, e as encostas a Oeste estavam cobertas por
longas sombras azuis e estendiam-se a perder de vista, como
adagas tenebrosas sobre a planície ondulante cor de neve.
Eragon endireitou-se. Mal acreditava que a sua viagem poderia
estar prestes a terminar.
Contemplem, disse Glaedr, Aras Thelduin, os vulcões que
guardam o coração de Vroengard. Voa depressa, Saphira, já só

temos um curto caminho a percorrer.

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