3 de junho de 2017

Capítulo 47 - Herança



E
ragon permaneceu sentado à mesa redonda por vários minutos, então se levantou e caminhou até a beira dos rochedos de Tel’naeír, onde olhou por cima da floresta trezentos metros abaixo. Com a ponta da bota esquerda, empurrou uma pedrinha penhasco abaixo e ficou observando-a se chocar contra a face oblíqua da formação rochosa até desaparecer nas profundezas do baldaquino. Um galho se quebrou quando Saphira se aproximou por trás. Ela se agachou ao lado de Eragon — suas escamas pintando-o com centenas de pontinhos azulados — e mirou na mesma direção que ele. Você está zangado comigo?, ela perguntou. Não, é claro que não. Entendo que você não podia quebrar seu juramento na língua antiga... Só gostaria que Brom pudesse ter me contado ele próprio e que não tivesse tido necessidade de esconder a verdade de mim. Ela balançou a cabeça na direção dele. E como você está se sentindo, Eragon? Você sabe tanto quanto eu. Alguns minutos atrás, eu sabia, mas não agora. Você ficou quieto demais, e olhar dentro de sua mente é como olhar um lago tão profundo que não consigo enxergar o fundo. O que há com você, pequenino? E raiva? E felicidade? Ou você não tem nenhuma emoção a dar? O que há em mim é aceitação, ele respondeu, e se virou para encará-la. Não posso mudar quem são meus pais; me reconciliei com isso depois da Campina Ardente. O que tem de ser é, e nenhuma quantidade de fúria de minha parte mudará isso. Estou... feliz, acho, por considerar Brom meu pai. Mas não tenho certeza... E muito em que pensar de uma vez só. Talvez o que eu tenha para lhe dar, ajude. Gostaria de ver a lembrança que Brom deixou para você, ou prefere esperar? Não, nada mais de espera, ele respondeu. Se adiarmos, talvez você nunca tenha outra oportunidade.
Então, feche os olhos e deixe-me lhe mostrar o que aconteceu no passado. Eragon seguiu suas orientações, e de Saphira fluiu uma corrente de sensações: visões, sons, cheiros e mais, tudo o que ela vinha experimentando no momento da lembrança. Diante de si, Eragon avistou uma clareira na floresta em algum lugar aos pés das montanhas que ficavam a oeste da Espinha. A grama era densa e abundante, e véus de liquens verde-amarelados pendiam das imensas árvores inclinadas cobertas de musgo. Devido às chuvas, que invadiam o continente, provenientes do oceano, as árvores dali eram muito mais verdes e úmidas do que as do vale Palancar. Vistas pelos olhos de Saphira, os tons de verde e vermelho eram mais vividos do que teriam sido se vistos por Eragon, enquanto cada tom de azul brilhava com uma intensidade extra. O cheiro de solo musgoso e de madeira apodrecida preenchia o ar. E no centro da clareira estava uma árvore caída. E sobre esta árvore estava sentado Brom. O capuz da veste do homem idoso estava puxado para trás, expondo sua cabeça nua. Em seu colo estava sua espada. Seu cajado torto entalhado com runas estava encostado no tronco. O anel Aren brilhava em sua mão direita. Por um bom tempo, Brom não se moveu. Então, forçou os olhos para olhar para o céu, seu nariz em forma de gancho lançando uma longa sombra sobre seu rosto, e Eragon vacilou, sentindo-se desconectado com o tempo. — Sempre o sol traça seu caminho de horizonte a horizonte — disse Brom —, e sempre a lua segue, e sempre os dias se sucedem sem se importar com as vidas que trituram, uma a uma. — Abaixando seus olhos, olhou diretamente para Saphira e, através dela, para Eragon. — Por mais que tentem, nenhum ser escapa da morte para sempre, nem mesmo os elfos ou os espíritos. Para todos há um fim. Se você está me vendo, Eragon, então meu fim chegou e estou morto, e você sabe que sou seu pai. Da bolsinha de couro a seu lado, Brom retirou seu cachimbo, encheu com cardo, e então o acendeu com um suave murmúrio: — Brisingr. Tragou várias vezes para manter o fogo antes de recomeçar.
— Se está vendo isso, Eragon, espero que esteja são e salvo, e feliz, e que Galbatorix esteja morto. Entretanto, percebo que isso é improvável, pelo simples motivo de você ser um Cavaleiro de Dragão, e um Cavaleiro de Dragão nunca pode descansar enquanto há injustiça na região. Um riso escapou de Brom e ele balançou a cabeça, sua barba ondulando como água. — Ah, não tenho tempo de dizer nem metade do que gostaria, teria duas vezes a minha idade atual antes de terminar. Na busca da brevidade devo assumir que Saphira já lhe contou como sua mãe e eu nos encontramos, como Selena morreu, e como cheguei a Carvahall. Gostaria que você e eu tivéssemos essa conversa frente a frente, Eragon, e talvez possamos ter, e Saphira não precisará compartilhar essa lembrança, mas duvido muito. As mágoas de meus anos me empurram, Eragon, e sinto um calafrio gélido em meus membros do tipo que jamais me perturbou antes. Acredito que seja porque sei que agora você assumirá meu lugar nesta luta. Há muitas coisas que ainda anseio conseguir, mas nenhuma delas para proveito próprio, somente para você, e você deverá eclipsar todas as coisas que fiz. Disso tenho certeza. Antes que meu túmulo se feche sobre mim, contudo, gostaria de ser capaz, pelo menos essa vez, de chamá-lo de meu filho... Meu filho... Por toda a sua vida, Eragon, esperei revelar a você quem eu era. Foi para mim um prazer inigualável acompanhar seu crescimento, mas também uma inigualável tortura por causa do segredo que mantinha em meu coração. Então, Brom riu, um som rouco e áspero. — Bem, eu não consegui exatamente mantê-lo a salvo do Império consegui? Se você ainda está imaginando quem foi o responsável pela morte de Garrow, não precisa procurar mais, porque aqui está ele. Foi minha própria idiotice. Jamais deveria ter voltado a Carvahall. E olhe só agora: Garrow morto, e você um Cavaleiro de Dragão. Deixe-me avisá-lo, Eragon, cuidado com a pessoa por quem se apaixonar, pois o destino parece ter um interesse mórbido em nossa família. Encaixando os lábios em torno da haste do cachimbo, Brom aspirou cardo incinerado diversas vezes, soprando a fumaça branca para um dos lados. O aroma pungente era pesado nas narinas de Saphira.
— Tenho minha cota de lamentações, mas você não é uma delas, Eragon. Você pode, ocasionalmente, se comportar como um tolo confuso
quando, por exemplo, deixou escapar aqueles malditos Urgals, mas não é mais idiota do que eu na sua idade. — Ele balançou a cabeça — Menos que um idiota, na verdade. Tenho orgulho de tê-lo como filho, Eragon, mais orgulho do que você jamais imaginaria. Nunca pensei que você fosse se tornar um Cavaleiro como eu fui, nem desejei esse futuro para você, mas vendo-o com Saphira, ah, me faz sentir vontade de cantar para o sol como um galo. Brom tragou mais uma vez. — Percebo que deve estar zangado comigo por ter escondido isso de você. Não posso dizer que ficaria feliz em descobrir o nome de meu próprio pai dessa maneira. Mas, gostando disso ou não, nós somos da mesma família, você e eu. Como não pude lhe dedicar os cuidados que lhe devia como pai, vou lhe dar a única coisa que posso dar. E é um conselho. Pode me odiar, se assim desejar, Eragon, mas preste atenção no que tenho para lhe dizer, pois sei do que estou falando. Com sua mão livre, Brom segurou a bainha de sua espada, as veias proeminentes nas costas de sua mão. Prendeu o cachimbo em um dos cantos da boca.
— Certo. Agora, meu conselho tem duas partes. O que quer que faça, proteja aqueles de que gosta. Sem eles, a vida é mais triste do que você pode imaginar. Uma frase óbvia, sei, mas não menos verdadeira por isso. Essa é a primeira parte do conselho. Quanto ao restante... Se você tiver sido tão afortunado a ponto de já ter conseguido matar Galbatorix, ou se alguém tiver conseguido cortar a garganta daquele traidor, então minhas congratulações. Se não, então você deve entender que Galbatorix é seu maior e mais poderoso inimigo. Até que esteja morto, nem você nem Saphira jamais terão paz. Vocês poderão correr para os mais distantes cantos da terra, mas, a menos que se juntem ao Império, um dia terão de enfrentar Galbatorix. Sinto muito, Eragon, mas essa é a verdade. Lutei com muitos magos e com diversos Renegados e, até agora, sempre derrotei meus oponentes. — As linhas na testa de Brom se acentuaram. — Bem, todos menos um, porque ainda não estava completamente preparado, no entanto. De qualquer modo, o motivo de eu sempre ter triunfado é o fato de eu usar o cérebro, ao contrário da maioria. Não sou um feiticeiro dos mais fortes, nem você, comparado a Galbatorix, entretanto no que diz respeito a duelos de magos, a inteligência é ainda mais importante do que a força. A forma de derrotar outro mago não é golpear sua mente sem critérios. Não! Para garantir a vitória, você precisa descobrir como
seu inimigo interpreta as informações e reage ao mundo. Então conhecerá suas fraquezas, e aí você ataca. O truque não é investir em um encantamento que ninguém jamais pensou antes, o truque é encontrar um que passou despercebido ao seu inimigo e usá-lo contra ele. O truque não é sair destruindo as barreiras da mente do oponente, é deslizar por baixo ou em volta das barreiras. Ninguém é onisciente, Eragon. Lembre-se disso. Galbatorix pode ter um poder imenso, mas não pode prever todos os acontecimentos. Sempre que conseguir prever, deverá permanecer ágil em seu pensamento. Não fique ligado demais à crença de alguém a ponto de não poder vislumbrar outra possibilidade de saída. Galbatorix é louco e, portanto, imprevisível, mas também possui lacunas em seu pensamento que uma pessoa comum talvez não tivesse. Se conseguir encontrar essas falhas, então quem sabe você e Saphira possam derrotá-lo. Brom abaixou o cachimbo, seu rosto grave. — Espero que possam. Eragon, meu maior desejo é que você e Saphira tenham uma vida longa e frutífera, sem medo de Galbatorix e do Império. Gostaria de poder tê-lo protegido de todos os perigos que o ameaçam, mas, infelizmente, isso não está entre as minhas habilidades. Tudo o que posso fazer é lhe aconselhar e lhe ensinar o que sei agora, enquanto ainda estou aqui... Meu filho. O quer que venha a acontecer a você, saiba que eu o amo, e também sua mãe o amava. Que as estrelas o protejam, Eragon, filho de Brom. À medida que as últimas palavras de Brom ecoavam na mente de Eragon, sua lembrança começou a desaparecer aos poucos, deixando para trás uma escuridão vazia. Ele abriu os olhos e ficou constrangido de encontrar lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto. Gargalhou abafado e esfregou os olhos com a túnica. Brom realmente temia que eu o odiasse, disse, e fungou. Você vai ficar bem?, Saphira perguntou. Sim, disse Eragon, e ergueu a cabeça. Creio que sim. Não gosto de algumas coisas que Brom fez, mas estou orgulhoso de poder chamá-lo de pai e de levar seu nome. Ele foi um grande homem... Mas me perturba o fato de eu jamais ter tido a oportunidade de conversar com algum dos meus pais. Pelo menos você foi capaz de passar algum tempo com Brom. Não tive tanta sorte; meu pai e minha mãe morreram bem antes de eu incubar. O mais perto que posso estar deles são algumas lembranças nebulosas de Glaedr.
Eragon colocou uma das mãos sobre o pescoço de Saphira, e ambos confortaram um ao outro da melhor forma possível na beira dos rochedos de Tel’naeír, mirando a floresta dos elfos.
Não muito tempo depois, Oromis surgiu de sua cabana trazendo duas tigelas de sopa, e Eragon e Saphira deram as costas aos rochedos e lentamente caminharam de volta à pequena mesa em frente ao gigantesco volume de Glaedr.


Um comentário:

  1. Um erro "Não, nada mais de espera, ele respondeu. Se adiarmos, talvez você nunca lenha(tenha) outra oportunidade."

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Boa leitura :)