3 de junho de 2017

Capítulo 46 - A sina de dois amantes

[Em revisão]

E
ragon ficou boquiaberto com o dragão dourado.
— Mas como? — exclamou. Antes que Glaedr e Oromis pudessem responder, ele rodopiou na direção de Saphira e, com a mente e com a voz, perguntou: — Você sabia? Você sabia e ainda assim me deixou acreditar esse tempo todo que Morzan era meu pai, mesmo que... mesmo que eu... eu... — Com o peito pulsando, Eragon gaguejou e baixou o tom de voz, incapaz de falar com coerência. Involuntariamente, lembranças de Brom o inundavam, arrebatando seus outros pensamentos. Ponderou novamente o significado de cada palavra e expressão de Brom e, nesse instante, uma sensação de verdade tomou conta de Eragon. Ele ainda queria explicações, mas não precisava delas para determinar a veracidade das afirmações de Glaedr, pois em seu âmago Eragon sentiu a verdade do que o dragão havia dito. Sobressaltou-se quando Oromis o tocou no ombro. — Eragon, você precisa se acalmar — disse o elfo com uma voz suave. — Lembre-se das técnicas de meditação que lhe ensinei. Controle sua respiração e concentre-se em deixar a tensão escapar de seus membros em direção ao chão... Sim, assim mesmo. Agora mais uma vez, respire profundamente. As mãos de Eragon aquietaram-se e as batidas de seu coração ficaram mais lentas à medida que ele seguia as instruções de Oromis. Uma vez clareados seus pensamentos, olhou novamente para Saphira e perguntou cora uma voz suave: — Você sabia? Saphira ergueu a cabeça do chão. Oh, Eragon, eu quis contar para você. Era muito doloroso ver como as palavras de Murtagh o atormentavam e ainda assim ser incapaz de ajudá-lo. Eu tentei — eu tentei muitas vezes —, mas, assim como Oromis e Glaedr, também jurei na língua antiga que ocultaria de você a identidade secreta de Brom, e eu não podia quebrar meu juramento.
— Qua... quando ele contou para você? — perguntou Eragon, tão
agitado que continuava talando em voz alta. Um dia após os Urgals nos atacarem nas cercanias de Teirm, enquanto você ainda estava inconsciente. — Também foi nessa ocasião que ele contou para você como contatar os Varden em Gil’ead? Foi. Antes de eu saber o que Brom desejava dizer, ele me fez jurar jamais falar sobre isso com você, a menos que você descobrisse por conta própria. Infelizmente, eu aceitei. — E ele disse mais alguma coisa? — demandou Eragon, sua raiva surgindo novamente. — Existe algum outro segredo que eu devesse saber, tal como Murtagh não ser meu único irmão, ou talvez a maneira de derrotar Galbatorix? Durante os dois dias que Brom e eu passamos caçando os Urgals, ele repassou para mim os detalhes de sua vida para que — caso ele morresse, ou algum dia você descobrisse sua relação com ele — você pudesse saber o tipo de homem que ele havia sido e o motivo pelo qual agira da forma que agiu. Brom também mandou um presente para você. Um presente? Uma lembrança de ele falando a você como seu pai e não como Brom, o contador de histórias. — Contudo, antes de Saphira compartilhar essa lembrança com você — disse Oromis, e Eragon percebeu que ela permitira que o elfo ouvisse suas palavras —, seria melhor, acho eu, se você soubesse como isso veio a acontecer. Você pode me ouvir, Eragon? Ele hesitou, sem saber ao certo o que queria, então assentiu. Erguendo seu copo de cristal, Oromis bebeu o vinho e então recolocou o copo sobre a mesa. — Como você sabe, tanto Brom quanto Morzan foram meus aprendizes. Brom, que era três anos mais novo, tinha tanta estima por Morzan que permitia a ele subjugá-lo, lhe dar ordens e tratá-lo de maneira vergonhosa. Com uma voz rascante, Eragon contentou:
— É difícil imaginar Brom permitindo alguém lhe dando ordens. Oromis inclinou a cabeça com um movimento rápido, semelhante ao de um pássaro.
— No entanto, era assim que acontecia. Brom amava Morzan como um irmão, apesar de seu comportamento. Somente quando Morzan entregou os Cavaleiros para Galbatorix e os Renegados mataram Saphira, o dragão de Brom, ele percebeu a verdadeira natureza da personalidade de Morzan. Por mais forte que fosse a afeição de Brom por Morzan, foi como uma vela acesa diante do fogo de um inferno em comparação com o ódio que a substituiu. Brom jurou lutar contra Morzan sempre e em quaisquer oportunidades, desfazer suas conquistas e reduzir suas ambições a meros lamentos amargos. Chamei sua atenção para o perigo de um caminho tão cheio de ódio e violência, mas ele estava enlouquecido pela mágoa da morte de Saphira e não me dava ouvidos. “Nas décadas que se seguiram, seu ódio jamais enfraqueceu, nem ele arrefeceu seus esforços para derrotar Galbatorix, matar os Renegados e, acima de tudo, fazer com que Morzan pagasse a dor que ele sofrerá. Brom tinha uma consistência persistente, seu nome era um pesadelo para os Renegados e um baluarte de esperança para aqueles que ainda possuíam, o espírito para resistir ao Império.” Oromis olhou na direção da linha branca do horizonte e deu outro gole no vinho. “Tenho bastante orgulho do que ele conseguiu por conta própria e sem a ajuda de seu dragão. E sempre estimulante para um professor ver um de seus alunos obtendo êxito, seja lá como for... Mas estou fazendo uma digressão. Então, mais ou menos há uns vinte anos, os Varden começaram a receber relatórios de seus espiões no Império acerca das atividades de uma misteriosa mulher conhecida apenas como Mão Negra.” — Minha mãe — apontou Eragon. — Sua mãe e também de Murtagh — continuou Oromis. — A princípio, os Varden não sabiam nada a respeito dela, salvo que era extremamente perigosa e leal ao Império. Com o passar do tempo, e depois de muito sangue derramado, ficou claro que servia a Morzan, e somente a Morzan, e que ele passara a depender dela para dar prosseguimento a seus interesses no Império. Ao saber disso, Brom fez um plano para matar a Mão Negra e assim golpear Morzan. Como os Varden não tinham como prever onde sua mãe poderia aparecer novamente, Brom viajou para o castelo de Morzan e espionou-o até ser capaz de vislumbrar um meio de se infiltrar na fortaleza. — Onde ficava o castelo de Morzan?
— Fica, não ficava; o castelo ainda está de pé. Galbatorix o utiliza
agora. Fica situado na base das colinas da Espinha, perto do litoral noroeste do lago Leona, bem escondido do resto da região. — Jeod me disse que Brom penetrou no castelo fingindo ser um dos criados — comentou Eragon. — Ele fez isso sim, e não foi uma tarefa das mais fáceis. Morzan havia impregnado sua fortaleza com centenas de encantamentos designados para protegê-lo de seus inimigos. Também forçara todos os que o serviam a fazer juramentos de lealdade e, frequentemente, com seus verdadeiros nomes. Entretanto, depois de muitas tentativas, Brom conseguiu achar uma falha nas proteções de Morzan que o permitiu assumir a posição de um jardineiro da propriedade, e foi com esse disfarce que ele encontrou sua mãe pela primeira vez. Olhando de relance para suas mãos, Eragon observou: — E então ele a seduziu para ferir Morzan, suponho. — De forma alguma — retrucou Oromis. — Isso talvez tenha sido a sua intenção inicialmente, mas aconteceu algo que nenhum dos dois previra: apaixonaram-se um pelo outro. Qualquer afeição que sua mãe pudesse ter tido por Morzan já havia desaparecido naquele momento, expulsa pelo cruel tratamento que ele impunha a ela e à criança recém-nascida, Murtagh. Eu não sei a exata sequência dos eventos, em algum momento, no entanto, Brom revelou sua verdadeira identidade à sua mãe. Em vez de traí-lo, ela começou a alimentar os Varden com informações a respeito de Galbatorix, Morzan e o resto do Império. — Mas Morzan não a havia obrigado a fazer os juramentos de lealdade a ele na língua antiga? Como ela pôde se voltar contra ele? — questionou Eragon. Um sorriso apareceu nos lábios finos de Oromis.
— Ela pôde porque Morzan lhe permitiu um pouco mais de liberdade do que aos outros criados, de modo que pudesse usar a própria genialidade e iniciativa enquanto realizava as tarefas para ele. Em sua arrogância, Morzan acreditava que seu amor por ele garantiria sua lealdade mais do que qualquer juramento. E ela também não era mais a mesma mulher que se unira a Morzan; tornar-se mãe e conhecer Brom alteraram sua personalidade de tal forma que seu verdadeiro nome foi modificado, o que a liberou dos
compromissos anteriores. Se Morzan tivesse sido mais cuidadoso, se, por exemplo, tivesse lançado um encantamento para alertá-lo quando ela falhasse em cumprir suas promessas, perceberia o momento em que perdeu o controle sobre ela. Mas essa sempre foi a fraqueza de Morzan; inventava um encantamento sagaz, mas então este falhava porque, com sua impaciência, ele deixava escapar algum detalhe crucial. Eragon franziu o cenho. — Por que minha mãe não abandonou Morzan assim que teve a chance? — Depois de tudo o que havia feito em nome de Morzan, ela sentiu que era sua obrigação ajudar os Varden. Porém, mais importante do que isso, ela não podia deixar Murtagh com o pai. — Ela não podia levá-lo com ela? — Se estivesse dentro de suas possibilidades, tenho certeza de que teria leito isso. Morzan percebeu que a criança proporcionava grande controle sobre sua mãe. Ele a forçou a entregar Murtagh a uma ama-de-leite e só permitia que ela o visitasse em intervalos irregulares. O que Morzan não sabia era que, durante esses intervalos, ela também visitava Brom. Oromis virou-se para observar um par de andorinhas dando pinotes no céu azul. De perfil, sua fisionomia oblíqua e delicada lembrava a Eragon um falcão ou um gato. Ainda mirando as andorinhas, Oromis recomeçou: Nem mesmo sua mãe poderia prever para onde Morzan a mandaria, nem quando poderia retornar ao castelo. Portanto, Brom tinha de permanecer na propriedade de Morzan durante grandes espaços de tempo se desejasse vê-la. Por quase três anos, Brom trabalhou como ura dos jardineiros de Morzan. Vez por outra, conseguia escapar para enviar uma mensagem aos Varden ou para se comunicar com seus espiões espalhados pelo Império, mas, além disso, ele não saía dos limites do castelo. — Três anos! Ele não ficava com medo de Morzan reconhecê-lo? Oromis baixou os olhos do céu, retornando-os para Eragon. — Brom era extremamente habilidoso em se disfarçar, e já haviam se passado muitos anos desde que ele e Morzan ficaram frente a frente.
— Ah. — Eragon girou o copo entre os dedos, estudando como a luz
se refratava através do cristal. — Então, o que aconteceu? — Então, um dos agentes de Brom em Teirm fez contato com um jovem acadêmico chamado Jeod, que desejava se juntar aos Varden e que afirmava ter descoberto evidências de um túnel, secreto até aquele momento, que levava à porção do castelo de Urû’baen construída pelos elfos. Brom, acertadamente, sentiu que a descoberta de Jeod era importante demais para ser ignorada, assim, fez as malas, desculpou-se com seus companheiros de serviço e partiu para Teirm com toda a pressa do mundo. — E minha mãe? — Havia partido um mês antes em uma das missões de Morzan. Eragon lutava para montar uma história coerente a partir dos relatos fragmentados que ouvira de várias pessoas. — Quer dizer então que... Brom se encontrou com Jeod e, assim que ficou convencido de que o túnel era real, fez um plano para um dos Varden tentar roubar os três ovos de dragão que estavam em posse de Galbatorix em Urû’baen. O rosto de Oromis ficou nebuloso. — infelizmente, por motivos que jamais foram totalmente esclarecidos, o homem que selecionaram para a tarefa, um tal de Hefring de Furnost, conseguiu surrupiar apenas um ovo, o de Saphira, do tesouro de Galbatorix e, assim que ficou de posse dele, fugiu não só dos Varden como também dos criados de Galbatorix. Por causa dessa traição, Brom precisou passar os sete meses seguintes caçando Hefring em várias direções e em toda a região numa desesperada tentativa de recapturar Saphira. — E durante essa época, minha mãe viajou em segredo para Carvahall, onde eu nasci cinco meses depois? Oromis concordou.
— Você foi concebido pouco antes de sua mãe seguir para sua última missão. Em decorrência disso, Brom não sabia nada a respeito da condição de Selena enquanto procurava Hefring e o ovo de Saphira... Quando Brom e Morzan finalmente se enfrentaram em Gil’ead, Morzan perguntou a Brom se ele havia sido responsável pelo desaparecimento de sua Mão Negra. É compreensível que Morzan suspeitasse do envolvimento de Brom, já que ele
havia sido o mentor das mortes de vários Renegados. Brom, é claro, imediatamente concluiu que alguma coisa terrível havia acontecido com sua mãe. Mais tarde, ele me contou que foi essa conclusão que lhe deu a força e a coragem de que necessitava para matar Morzan e seu dragão. Assim que morreram, Brom pegou o ovo de Saphira do cadáver de Morzan, pois Morzan já havia localizado Hefring e lhe tomado o ovo, e saiu da cidade, detendo-se o suficiente para esconder o ovo onde sabia que os Varden acabariam por encontrá-lo. — Então foi por isso que Jeod achava que Brom havia morrido em Gil’ead — concluiu Eragon. Novamente, Oromis concordou. — Afligido pelo medo, Brom não ousou esperar por seus companheiros. Mesmo sua mãe estando viva e bem, Brom preocupava-se com a possibilidade de Galbatorix decidir fazer de Selena sua própria Mão Negra, e com o fato de ela nunca mais ter a chance de escapar de seu trabalho para o Império. Eragon sentiu algumas lágrimas lhe escorrendo pelos olhos. Como Brom deve tê-la amado, a ponto de deixar todos para trás assim que soube que ela estava em perigo. De Gil’ead, Brom cavalgou direto para a propriedade de Morzan, parando apenas para dormir. Entretanto, apesar de tudo, sua velocidade não foi suficiente. Quando alcançou o castelo, descobriu que sua mãe havia retornado duas semanas antes, doente e exausta devido à misteriosa viagem que empreendera. Os curandeiros de Morzan tentaram salvais, mas apesar dos esforços, ela ingressou no vazio poucas horas antes de Brom chegar ao castelo. — Ele nunca mais a viu? — perguntou Eragon, com a garganta apertada.
— Nunca mais. — Oromis fez uma pausa, e sua expressão ficou mais suave. — Na minha opinião, perdê-la foi quase tão difícil para Brom quanto a morte de seu dragão, e apagou muito do fogo que tinha na alma. Contudo, ele não desistiu, nem enlouqueceu como ocorrera durante o período cm que os Renegados assassinaram a homônima de Saphira. Ao contrário, ele decidiu descobrir a razão da morte de sua mãe e punir os responsáveis, se pudesse.
Questionou os curandeiros de Morzan e forçou-os a descrever as enfermidades de sua mãe. Pelo que disseram, e também pelos rumores que ouviu entre os criados da propriedade, Brom chegou à verdade sobre a gravidez de sua mãe. De posse dessa esperança, ele cavalgou para o único local que lhe veio à cabeça: a casa de Selena em Carvahall. E lá descobriu você aos cuidados de sua tia e de seu tio. “Mas Brom não ficou em Carvahall. Assim que se certificou de que lá ninguém sabia que sua mãe havia sido a Mão Negra e que você não estava sob perigo iminente, Brom retornou em segredo para Farthen Dûr, onde se revelou para Deynor, o líder dos Varden na época. Deynor ficou muito surpreso em vê-lo, pois ate aquele momento todos acreditavam que Brom havia perecido em Gil’ead. Brom convenceu Deynor a manter sua presença um segredo para todos, exceto para um seleto grupo, e então...” Eragon ergueu um dedo. — Mas por quê? Por que fingir estar morto? — Brom queria viver o suficiente para ajudar a instruir o novo Cavaleiro, e sabia que a única maneira de não ser assassinado em retaliação à morte de Morzan seria Galbatorix acreditar que ele já estava morto e enterrado. E Brom também esperava evitar atrair atenções indesejadas a Carvahall. Pretendia se estabelecer lá para ficar perto de você, o que, aliás, conseguiu, mas estava determinado a impedir que o Império descobrisse sua existência em decorrência disso. “Enquanto estava em Farthen Dûr, ajudou os Varden a negociar o acordo com a rainha Islanzadí acerca de como os elfos e os humanos compartilhariam a custódia do ovo e de como o novo Cavaleiro seria treinado, se e quando o ovo gerasse um dragão. Então, Brom acompanhou Arya quando ela levou o ovo de Farthen Dûr até Ellesméra. Quando chegou, contou a mim e a Glaedr o que eu acabei de contar a você, de modo que a verdade sobre seus pais não fosse esquecida caso ele morresse. Essa foi a última vez que eu o vi. Daqui, Brom retornou a Carvahall, onde se apresentou como bardo e contador de histórias. O que aconteceu daí em diante, você sabe melhor do que eu.” Oromis ficou em silêncio e, por um instante, ninguém disse nada.
Mirando o chão, Eragon revisava tudo o que Oromis havia lhe contado
e tentava organizar seus sentimentos. Por fim, comentou: — Então Brom é realmente meu pai, e não Morzan? Quero dizer, se minha mãe era a companheira de Morzan, então... — Ele diminuiu o tom de voz, constrangido demais para continuar. — Você é filho de seu pai — afirmou Oromis —, e seu pai é Brom. Não há nenhuma dúvida sobre isso. — Nenhuma dúvida mesmo? Oromis balançou a cabeça. — Nenhuma. Uma sensação de vertigem tomou conta de Eragon, e ele percebeu que estava prendendo a respiração. Expirou. — Acho que entendo por que... — fez uma pausa para encher os pulmões — por que Brom não falou nada sobre isso antes de eu achar o ovo de Saphira, mas por que não me contou depois? E por que obrigou você e Saphira a jurarem segredo? Ele não queria me reconhecer como seu filho? — Não posso fingir que sei os motivos de todos os atos de Brom, Eragon. Entretanto, estou certo disso: Brom não desejava outra coisa além de chamá-lo de filho e criá-lo e educá-lo, mas não ousava revelar seu parentesco para evitar que o Império descobrisse e tentasse causar algum mal a ele através de você. Sua prudência também foi assegurada. Olhe como Galbatorix lutou para capturar seu primo de modo que pudesse usar Roran para forçar você a se render. — Brom poderia ter contado a meu tio — protestou Eragon. — Garrow não teria entregado Brom ao Império. — Pense. Eragon. Se você estivesse vivendo com Brom, e se notícias de que ele estava vivo tivessem chegado aos ouvidos dos espiões de Galbatorix, vocês dois teriam que fugir de Carvahall para salvar suas vidas. Mantendo a verdade oculta de você, Brom esperava protegê-lo desses perigos. — Ele não obteve sucesso. De um jeito ou de outro, nós fomos obrigados a fugir de Carvahall.
— Sim — disse Oromis. — O erro de Brom, de fato, embora eu ache que tenha trazido mais bem do que mal, foi não conseguir suportar ficar totalmente separado de você. Se tivesse tido a força de cancelar a volta a
Carvahall, você jamais teria encontrado o ovo de Saphira, os Ra’zac não teriam matado seu tio e muitas coisas que não aconteceram teriam acontecido; e muitas coisas que estão acontecendo não estariam. Mas ele não pôde arrancar você do coração. Eragon trincou os dentes quando um tremor percorreu seu corpo. — E depois que ele soube que Saphira nascera para mim? Oromis hesitou, e sua expressão calma ficou um pouco perturbada. — Não tenho certeza, Eragon. Pode ter sido pelo fato de Brom ainda estar tentando protegê-lo dos seus inimigos, e ele não lhe contou nada pelos mesmos motivos pelos quais não o levou diretamente para os Varden: porque você não estaria suficientemente preparado para isso. Talvez ele estivesse planejando contar pouco antes de você partir para os Varden. Se eu tivesse de adivinhar, contudo, diria que Brom segurou a língua não porque estivesse envergonhado de você, mas porque se acostumara a viver com seus segredos e execrava a possibilidade de abandoná-los. E porque, e isso não passa de especulação, não tinha certeza de como você reagiria à revelação. Por sua vez, você não estava assim tão informado a respeito de Brom antes de sair de Carvahall com ele. É bem possível que ele tivesse medo de você o odiar caso contasse para você que era seu pai. — Odiá-lo! — exclamou Eragon. — Eu não o teria odiado. Embora... talvez eu não tivesse acreditado nele. — E você teria confiado nele depois de tal revelação? Eragon mordeu a parte de dentro da bochecha. Não, eu não teria. Oromis continuou: — Brom fez o melhor que pôde em meio a circunstâncias incrivelmente difíceis. Antes de tudo, era sua responsabilidade mantê-los vivos e ensinar e aconselhar você, Eragon, para que não usasse seu poder de modo egoísta, como Galbatorix o fizera. Isso, Brom conseguiu com distinção. Ele pode não ter sido o pai que você desejava, mas deixou para você uma herança que qualquer filho invejaria. — Não foi nada mais do que ele teria feito por quem quer que viesse a ser o novo Cavaleiro.
— Isso não diminui em nada a importância — apontou Oromis. —
Mas você está enganado; Brom fez mais por você do que teria feito por qualquer outra pessoa. Basta pensar em como ele se sacrificou para salvar sua vida e verá a verdade do que estou afirmando. Com a unha do indicador direito, Eragon cutucava a borda da mesa, seguindo um tênue sulco formado por um dos anéis na madeira. — E foi realmente um acidente Arya ter enviado Saphira para mim? — Sim — confirmou Oromis. — Mas não foi completamente coincidência. Em vez de transportar o ovo para o pai, Arya fez com que ele aparecesse diante do filho. — Como isso foi possível se ela não tinha nenhum conhecimento a meu respeito? Os ombros finos de Oromis subiram e desceram. — Apesar de milhares de anos de estudo, nós ainda não conseguimos prever ou explicar todos os efeitos da magia. Eragon continuou passando o dedo pelo pequeno sulco na mesa. Eu lenho um pai, pensou. Eu o vi morrendo, e não fazia a menor ideia do que ele representava para mim... — Meus pais — disse ele — tiveram a oportunidade de se casar? — Eu sei por que você está perguntando isso, Eragon, e não sei se minha resposta o deixará satisfeito. Casamento não é um costume élfico, e as sutilezas do processo frequentemente me escapam. Ninguém uniu as mãos de Selena e Brom em casamento, mas sei que se consideravam marido e mulher. Se for inteligente, você não se preocupará com o fato de outras pessoas de sua raça o chamarem de bastardo. Ficará, sim, contente de saber que é filho de seus pais e que ambos deram suas vidas para que você pudesse viver.
Eragon ficou surpreso ao perceber como estava calmo. Durante toda i sua vida especulara a respeito da identidade de seu pai. Quando Murtagh afirmara que era Morzan, a revelação o chocara tanto como a notícia da morte de Garrow. A contra-afírmação de Glaedr, dizendo que ele era filho de Brom, também o deixara perplexo, mas o choque parecia não ter durado. Talvez porque, dessa vez, a notícia não tivesse sido tão perturbadora. Calmo como estava, Eragon imaginou que ainda demoraria muitos anos até que tivesse certeza de seus sentimentos cm relação a seu pai e sua mãe. Meu pai era um
Cavaleiro e minha mãe era a companheira de Morzan e sua Mão Negra. — Será que eu poderia contar para Nasuada? — perguntou ele. Oromis abriu as mãos. — Conte para quem quiser; o segredo agora é seu. Faça o que quiser com ele. Duvido que os perigos que o cercam aumentem se o mundo todo souber que você é herdeiro de Brom. — Murtagh. Ele acredita que somos irmãos de pai e mãe. Me disse isso na língua antiga. — E eu tenho certeza de que Galbatorix pensa o mesmo. Foram os Gêmeos que descobriram que a mãe de Murtagh e a sua mãe eram a mesma pessoa, e transmitiram isso ao rei. Mas eles não poderiam ter informado o rei a respeito do envolvimento de Brom, pois não havia ninguém entre os Varden que fosse íntimo dessa informação. Eragon olhou de relance um par de andorinhas rodopiarem acima de sua cabeça, e se permitiu um meio sorriso mal-intencionado. — Por que você está sorrindo? — quis saber Oromis. — Não tenho certeza se seria possível entender, mestre. O elfo dobrou os braços sobre o colo. — Talvez não, é verdade. Mas, sendo assim, você não pode saber com certeza a menos que tente explicar. Eragon levou um bom tempo para achar as palavras de que necessitava. — Quando eu era mais jovem, antes... de tudo isso — ele gesticulou na direção de Saphira, Oromis, Glaedr e do mundo como um todo —, eu costumava me divertir imaginando que, devido à sua grande sabedoria e beleza, minha mãe havia sido aceita na corte dos nobres de Galbatorix. Imaginava que ela viajava de cidade em cidade, e jantava com os condes e damas nos salões e que... bem, que havia se apaixonado perdidamente por um homem rico e poderoso, mas, por algum motivo, fora obrigada a não revelar minha existência para ele. Então, ela me entregou a Garrow e Marian para que cuidassem de mim, e um dia voltaria e me contaria quem eu era e me diria que nunca havia desejado me abandonar. — Isso não é muito diferente do que aconteceu — notou Oromis.
— Não, não ê, mas... eu imaginava que minha mãe e meu pai fossem pessoas importantes e que eu também fosse alguém importante. O destino me deu o que eu queria, mas a verdade acerca disso não é tão grandiosa ou tão feliz quanto imaginava que seria... Eu estava sorrindo de minha própria ignorância, suponho, e também da improbabilidade de tudo o que aconteceu comigo. Uma leve brisa soprou pela clareira, ondulando a grama aos pés do grupo e agitando os galhos da floresta ao redor. Eragon observou o movimento da grama por alguns instantes, então perguntou lentamente: — Minha mãe era uma boa pessoa? — Eu não teria como dizer, Eragon. Os eventos de sua vida foram complicados. Seria tolo e arrogante da minha parte aspirar julgar alguém que conheci tão pouco. — Mas eu preciso saber! — Eragon juntou as mãos, pressionando os dedos entre os calos nas juntas. — Quando perguntei a Brom se a conhecera, ele disse que ela era orgulhosa e digna, que sempre ajudava os pobres e os menos afortunados. Mas como ela podia agir assim? Como podia ser essa pessoa e ao mesmo tempo ser a Mão Negra? Jeod me contou histórias sobre algumas das coisas, coisas horríveis, terríveis, que ela fez enquanto estava a serviço de Morzan... Então era ma? Não ligava se Galbatorix era um ditador ou não? Por que foi companheira de Morzan, para começar? Oromis interrompeu. — O amor pode ser uma terrível maldição, Eragon. Pode fazê-lo não notar até mesmo as piores falhas no comportamento de uma pessoa. Duvido que sua mãe estivesse inteiramente ciente da verdadeira natureza de Morzan quando saiu de Carvahall com ele. E quando ficou ciente, ele não permitia que ela desobedecesse a seus desejos. Tornou-se sua escrava até no nome. E foi somente mudando sua própria identidade que foi capaz de escapar ao controle exercido por ele. — Mas Jeod disse que ela gostava do que fazia como a Mão Negra. Uma expressão de leve desdém alterou a fisionomia de Oromis.
— Relatos de atrocidades passadas são frequentemente exagerados e distorcidos. Isso é algo que você deveria ter em mente. Ninguém além de sua mãe sabe exatamente o que ela fez. Nem por que, nem como se sentia a
respeito disso, e ela não está mais entre os vivos para se explicar. — Mas então em quem eu devo acreditar? — implorou Eragon. — Em Brom ou em Jeod? — Quando você perguntou a Brom a respeito de sua mãe, ele disse a você o que achava serem suas qualidades mais importantes. Meu conselho seria confiar no conhecimento que ele possuía acerca dela. Se isso não acaba com suas dúvidas, lembre-se de que, independentemente dos crimes que tenha cometido enquanto agia como a Mão de Morzan, sua mãe acabou se aliando aos Varden e fez o possível e o impossível para protegê-lo. Sabendo disso, você não deveria se atormentar mais a respeito do caráter dela. Propelida pela brisa, uma aranha pendurada por uma diáfana teia sedosa passou perto de Eragon, subindo e descendo nos invisíveis torvelinhos de ar. Quando a aranha saiu de vista, Eragon disse: — Na primeira vez que visitamos Tronjheim, a vidente Angela me disse que o wyrd de Brom era fracassar em tudo o que empreendia, exceto em matar Morzan. Oromis inclinou a cabeça. — Pode-se concluir isso, sim. É possível também concluir que Brom alcançou muitos objetivos grandiosos e difíceis. Depende de como se escolhe ver o mundo. As palavras dos videntes raramente são fáceis de ser decifradas. Minha experiência diz que suas predições nunca levam à paz de espírito. Se deseja ser feliz, Eragon, não pense no que está por vir nem naquilo sobre o qual você não tem controle. Pense no agora e naquilo que é capaz de mudar. Nesse momento, um pensamento ocorreu a Eragon. — Blagden — disse ele, referindo-se ao corvo branco que era o companheiro da rainha Islanzadí. — Ele também sabe algo sobre Brom, não sabe? Uma das sobrancelhas bem definidas de Oromis se ergueu. — Sabe? Eu nunca falei sobre isso com ele. É uma criatura inconstante e que não merece crédito.
— No dia em que eu e Saphira partimos para a Campina Ardente, ele recitou uma charada para mim... Não me lembro de todas as palavras, mas era
alguma coisa sobre um de dois serem um, enquanto um poderia ser dois. Penso que talvez ele estivesse querendo dizer que Murtagh e eu compartilhávamos somente um dos pais. — Não é impossível — disse Oromis. — Blagden estava aqui em Ellesméra quando Brom me contou sobre isso. Não ficaria surpreso se aquele ladrão de bico afiado estivesse empoleirado no galho de alguma árvore próxima durante nossa conversa. Ouvir conversas alheias é um hábito infeliz seu. Também pode ser que a charada seja o resultado de uni de seus ataques esporádicos de presciência. Um instante depois, Glaedr se agitou, e Oromis se virou e olhou de relance para o dragão dourado. O elfo se levantou da cadeira com um movimento gracioso. — Frutas, nozes e pão são bons alimentos, mas, depois de sua viagem, você deveria ter algo mais substancioso para encher a barriga. Eu tenho uma sopa em minha cabana que precisa ir para o fogo, mas, por favor, não se perturbe. Eu a trarei quando estiver pronta. — Com passos suaves sobre a grama, Oromis caminhou para sua casa coberta de cascas de árvores e desapareceu em seu interior. Quando a porta entalhada se fechou, Glaedr resmungou e fechou os olhos, parecendo adormecer. E tudo ficou em silêncio, salvo pelo farfalhar dos galhos levados pelo vento.

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