24 de junho de 2017

Capítulo 46 - Pequenas rebeliões

Enquanto permanecia deitada na laje a suar e a tremer, com
dores no corpo todo, Nasuada deu consigo a desejar que
Murtagh voltasse, nem que fosse para a aliviar do sofrimento.
Quando a porta da câmara octogonal se abriu, ela mal conseguiu
conter o alívio, mas este deu lugar a um profundo desapontamento
ao ouvir os passos arrastados do carcereiro descerem as escadas
que conduziam à sala.
Tal como fizera uma vez, o homem corpulento e de ombros
estreitos lavou-lhe as feridas com um pano húmido, ligando-as
depois com tiras de linho. Quando a libertou das grilhetas para que
fosse à latrina, ela percebeu que estava demasiado fraca para tentar
tirar a faca da bandeja da comida, contentando-se em agradecer a
ajuda e elogiando-lhe as unhas pela segunda vez. Estas estavam
ainda mais brilhantes e era mais do que óbvio que ele pretendia que
ela as visse, pois passou a vida a levantar as mãos, e não pôde
deixar de olhar para elas.
Depois de ele lhe dar de comer e sair, Nasuada tentou dormir,
mas a dor constante nas feridas permitia-lhe apenas dormitar.
Os seus olhos abriram-se, de repente, ao ouvir abrirem a tranca
da porta para a câmara.
“Outra vez não!”, pensou, sentindo o pânico crescer dentro de
si. “Tão pouco tempo depois, não!... Não consigo suportar... Não
sou suficientemente forte.” Entretanto refreou o medo e disse para
si: “Não. Não digas essas coisas senão vais começar a acreditar
nisso.” Ainda assim, embora conseguisse dominar as suas reações
conscientes, ela não conseguia evitar que o coração lhe martelasse
no peito ao dobro da velocidade normal.
Um único par de passos ecoaram na sala e, depois, Murtagh
apareceu a um canto do seu campo de visão. Não usava máscara e
tinha uma expressão sombria.
Curou-a primeiro, sem demoras. O alívio que sentiu quando a
dor abrandou foi de tal forma intenso que julgou estar à beira do
êxtase. Nunca sentira nada tão agradável como a agonia a diluir-se.
Arquejou ligeiramente.
— Obrigada.
Murtagh acenou com a cabeça e depois aproximou-se da
parede, voltando a sentar-se no mesmo sítio.
Nasuada estudou-o durante alguns instantes. A pele dos nós dos
dedos estava de novo lisa e intacta, e ele parecia sóbrio, embora
sombrio e calado. As roupas, outrora elegantes, estavam rasgadas,
puídas e remendadas, e ela viu o que pareciam ser vários cortes,
debaixo das mangas. Perguntou-se se ele teria andado a lutar.
— Galbatorix sabe que você está aqui? — perguntou ela, finalmente.
— É possível, mas duvido. Está entretido a brincar com as suas
concubinas favoritas. Ou então está a dormir. Estamos a meio da
noite. Além disso, eu lancei um feitiço para que ninguém nos
ouvisse. Ele pode quebrá-lo, se quiser, mas eu apercebo-me disso.
— E se ele descobre?
Murtagh encolheu os ombros.
— Se ele me esgotar as defesas, vai acabar por descobrir, sabes?
— Então não deixes. você és mais forte do que eu; não tens
ninguém que ele possa ameaçar. você podes resistir-lhe, ao contrário
de mim... Os Varden aproximam-se rapidamente, tal como os
Elfos do Norte. Se aguentares alguns dias, há uma hipótese...
talvez haja uma hipótese de te libertarem.
«Tu não acreditas que eles consigam, pois não?»
Ele voltou a encolher os ombros.
— ... Então ajuda-me a fugir.
Uma gargalhada sonora explodiu-lhe na garganta.
— Como? Se pouco mais posso fazer do que calçar as botas sem
a permissão de Galbatorix?
— Podias soltar-me as grilhetas e, quando saísses, talvez
pudesses esquecer-te de fechar a porta.
Ele revirou o lábio superior, sorrindo desdenhosamente.
— Estão dois homens de guarda, lá fora, e há proteções nesta
sala para avisar Galbatorix se um prisioneiro escapar. Além disso,
há centenas de guardas daqui ao portão mais próximo. Seria uma
sorte conseguires chegar ao fundo do corredor.
— Talvez, mas gostava de tentar.
— Vais apenas conseguir que te matem.
— Então ajuda-me. você podias descobrir uma forma de iludir as
proteções, se quisesses.
— Não posso. Os meus juramentos não me deixam usar magia
contra ele.
— E contra os guardas? Se os aguentares o tempo suficiente para
eu alcançar o portão, poderia esconder-me na cidade e já não teria
importância se ele descobrisse...
— Ele tem a cidade na mão. Além disso, fosses para onde fosses,
ele poderia encontrar-te com um feitiço. A única forma de ficares a
salvo seria afastando-te daqui antes de o alarme soar, e isso nem
no dorso de um dragão conseguirias.
— Tem de haver uma forma!
— Se houvesse... — Sorriu amargamente e baixou os olhos. —
Não vale a pena pensar nisso.
Frustrada, Nasuada desviou o olhar para o teto, durante alguns
instantes, dizendo depois:
— Pelo menos tira-me estas grilhetas.
Ele suspirou, com um ar exasperado.
— Só para que eu me possa levantar — insistiu ela. — Detesto
estar deitada nesta pedra. Além disso, faz-me doer os olhos ter de
te olhar, daqui.
Ele hesitou. Depois levantou-se, com um único movimento
gracioso, aproximou-se da laje e começou a abrir as grilhetas
acolchoadas em torno dos pulsos e dos tornozelos de Nasuada.
— Não penses que me podes matar — disse ele, em voz baixa —,
porque não podes.
Logo que a libertou, recuou para a posição anterior e voltou a
sentar-se no chão, onde ficou a olhar para longe. Era a sua forma
de lhe dar alguma privacidade enquanto ela se sentava e baloiçava
as pernas sobre a beira da laje. A camisa de dormir estava em
farrapos — queimada em inúmeros sítios —, pelo que mal lhe
escondia as formas. Não que alguma vez as cobrisse muito.
Sentiu o chão de mármore frio debaixo dos pés, ao encaminharse
para junto de Murtagh e ao sentar-se a seu lado, abraçando o
corpo com os braços para preservar um pouco a sua intimidade.
— Tornac foi mesmo o teu único amigo de infância? — perguntou
ela.
Murtagh continuou a não a olhar diretamente.
— Não, mas foi o que de mais parecido com um pai que eu tive
em toda a minha vida. Ensinava-me, consolava-me... ralhava-me
quando era demasiado arrogante e impediu-me de fazer figura de
parvo, vezes sem conta. Se ainda fosse vivo, ter-me-ia dado uma
surra por me ter embebedado daquela maneira no outro dia.
— você disseste que ele morreu, durante a tua fuga de Urû’baen.
— Julgava que estava a ser esperto. Subornei uma das sentinelas
para nos deixar um portão aberto. Íamos fugir da cidade pela
calada da noite e Galbatorix só deveria descobrir o que acontecera
quando já fosse tarde demais para nos apanhar. Mas ele sabia-o
desde o início. Como não faço ideia, mas creio que usou a vidência
e espiou-me o tempo todo. Quando Tornac e eu saímos pelo
portão, encontrámos soldados à nossa espera, do outro lado...
Eles tinham ordens para nos trazerem de volta ilesos, mas nós
lutámos e um deles matou Tornac. O melhor espadachim do
Império morto com uma faca nas costas.
— Mas Galbatorix deixou-te fugir.
— Não creio que esperasse que lutássemos. Além disso, ele
estava atento a outra coisa naquela noite.
Nasuada franziu a sobrancelha, ao ver um meio sorriso
estranhíssimo desenhar-se no rosto de Murtagh.
— Eu contei os dias — disse ele. — Nessa altura os Ra’zac
estavam no vale de Palancar, à procura do ovo de Saphira. Como
vês, Eragon perdeu o seu pai adotivo quase ao mesmo tempo que
eu perdi o meu. O destino tem um sentido de humor cruel, não
achas?
— Pois tem... Mas se Galbatorix conseguia espiar-te por
vidência, porque não te localizou e não te levou de novo para
Urû’baen, mais tarde?
— Creio que estava a jogar comigo. Fui para a propriedade de
um homem em quem julgava poder confiar, mas, como de costume,
estava enganado, embora só tivesse percebido isso mais tarde,
quando os Gémeos me trouxeram de novo para aqui. Galbatorix
sabia onde eu estava e sabia que eu ainda estava furioso por causa
da morte de Tornac, por isso, não se importou de me deixar na
propriedade enquanto perseguia Eragon e Brom... Porém, eu
surpreendi-o, pois parti e quando ele soube do meu
desaparecimento já eu ia a caminho de Dras-Leona. Foi por isso
que Galbatorix foi a Dras-Leona, sabes? Não para castigar Lorde
Tábor pelo seu comportamento — embora o castigasse, com toda a
certeza — mas para me encontrar. No entanto foi tarde demais.
Quando chegou à cidade, já eu me tinha encontrado com Eragon e
Saphira, e tínhamos seguido para Gil’ead.
— Porque te foste embora? — perguntou ela.
— Eragon não te contou? Porque...
— Não. Não de Dras-Leona. Porque saíste da propriedade? Lá
estavas em segurança ou pelo menos era o que pensavas. Porque
partiste?
Murtagh ficou em silêncio durante algum tempo.
— Eu queria atacar Galbatorix e queria construir o meu próprio
nome, independente do meu pai. Toda a minha vida, as pessoas
olharam para mim de uma forma diferente por ser o filho de
Morzan e eu queria que elas me respeitassem pelo meu mérito e
não pelos feitos dele. — Finalmente olhou-a. Um breve olhar pelo
canto do olho. — Suponho que consegui o que queria, mas volto a
dizer, o destino tem um sentido de humor cruel.
Ela perguntou a si mesma se teria havido mais alguém na corte
de Galbatorix de quem ele gostasse, mas concluiu que seria
perigoso abordar o tema; por isso optou por lhe perguntar:
— O que é que Galbatorix sabe realmente acerca dos Varden?
— Tanto quanto sei, tudo. Ele tem mais espiões do que tu
imaginas.
Ela colocou os braços à volta da barriga, sentindo um nó no
estômago.
— Sabes de alguma forma de o matar?
— Com uma faca, uma espada, uma flecha, veneno e magia, o
habitual. O problema é que tem demasiados feitiços em torno dele
para que alguém ou alguma coisa possa molestá-lo. Eragon tem
mais sorte do que a maioria, pois Galbatorix não o quer matar, por
isso ele pode atacar o rei mais do que uma vez. Mas, mesmo que
Eragon conseguisse atacá-lo centenas de vezes, não iria penetrar
nas proteções de Galbatorix.
— Todos os enigmas têm uma solução e todos os homens têm
uma fraqueza — insistiu Nasuada. — Ele ama alguma das suas
concubinas?
A expressão de Murtagh foi bastante esclarecedora. Depois
disse:
— Seria assim tão mau que Galbatorix continuasse a ser rei? O
mundo que ele imagina é bom. Se ele derrotar os Varden, toda a
Alagaësia ficará em paz. Ele porá fim ao uso abusivo da magia e os
Elfos, os Anões e os humanos deixarão de ter motivos para se
odiarem uns aos outros. Além disso, se os Varden perderem,
Eragon e eu poderemos ficar juntos tal como os irmãos deveriam
estar. Mas se eles ganharem, Thorn morrerá e eu também. Só
pode.
— Ah sim? E eu? — perguntou ela. — Se Galbatorix ganhar devo
tornar-me sua escrava, para andar às suas ordens? — Murtagh
recusou-se a responder, mas ela viu os tendões nas costas das
mãos contraírem-se. — Não podes desistir, Murtagh.
— Que alternativa tenho? — gritou ele, enchendo a sala de ecos.
Nasuada levantou-se e olhou para ele.
— Podes lutar! Olha para mim... Olha para mim!
Ele levantou os olhos com relutância.
— Podes descobrir formas de o combateres, é isso que podes
fazer! Mesmo que os teus juramentos te permitam apenas uma
pequena rebelião, essa rebelião poderá ser a sua desgraça. — E
repetiu a pergunta dele para enfatizar. — Que alternativa tens?
Podes andar por aí desesperado e miserável durante o resto da tua
vida, podes permitir que Galbatorix te transforme num monstro, ou
podes lutar! — Abriu os braços para que ele visse todas as marcas
de queimaduras. — Gostas de me fazer mal?
— Não! — exclamou ele.
— Então luta, raios! Tens de lutar se não perdes tudo aquilo que
és, tal como Thorn.
Ele levantou-se de repente com a agilidade de um gato, e
aproximou-se até ficarem a escassos centímetros um do outro, mas
ela manteve-se onde estava. Os músculos dos maxilares dilatavamse
e contraíam-se, ao olhá-la furioso, e respirava pesadamente
pelas narinas. Ela reconheceu aquela expressão, pois já a vira
muitas vezes. Era a expressão de um homem cujo orgulho fora
ferido e que queria atacar a pessoa que o tinha insultado. Era
perigoso continuar a provocá-lo, mas sabia que tinha de o fazer,
pois talvez não voltasse a ter essa hipótese.
— Se eu posso continuar a lutar — disse ela —, você também podes.
— Volta para a pedra — disse ele num tom áspero.
— Eu sei que você não és um cobarde, Murtagh. Mais vale morrer
do que viver como escravo de alguém como Galbatorix. Pelo
menos, nessa altura, poderás realizar algo de bom e o teu nome
será recordado com uma certa ternura depois de desapareceres.
— Volta para a pedra! — rosnou ele, agarrando-a pelo braço e
arrastando-a para a laje.
Nasuada deixou que ele a empurrasse até à laje cor de cinza,
que lhe fechasse as grilhetas em torno dos pulsos e dos tornozelos e
lhe apertasse a correia em torno da cabeça. Quando terminou,
ficou a olhá-la, com uma expressão sombria e selvagem, com as
linhas do corpo tensas como cordas esticadas.
— Tens de decidir se você está disposto a arriscar a tua vida para te
salvares — disse ela. — A ti e a Thorn. E tens de decidir agora,
enquanto há tempo. Pergunta a ti mesmo o que Tornac gostaria que
fizesses.
Sem dizer uma palavra, Murtagh esticou o braço e colocou a
mão sobre a parte de cima do peito dela, poisando-lhe a palma da
mão sobre a pele nua. Ela conteve a respiração com o choque do
contato.
Depois, quase num sussurro, começou a falar na língua antiga. O
seu medo aumentava à medida que as palavras se sucediam.
Pareceu falar durante alguns minutos. Quando parou, ela não
sentiu qualquer diferença, mas em magia isso poderia não significar
nada de bom nem de mau.
Quando Murtagh ergueu a mão, uma brisa fresca varreu-lhe essa
zona do peito, arrefecendo-o. Ele recuou e começou a andar em
direção à entrada da câmara. Ela estava prestes a chamá-lo — para
lhe perguntar o que lhe tinha feito —, quando ele parou e disse:
— Isso deve proteger-te da dor de qualquer ferimento, mas terás
de fingir o contrário, senão Galbatorix descobrirá o que eu fiz.
Depois saiu.
— Obrigada — sussurrou ela na sala deserta.
Passou bastante tempo a pensar na conversa que tinham tido.
Parecia-lhe pouco provável que Galbatorix tivesse mandado
Murtagh falar com ela, mas, mesmo sendo improvável, não deixava
de ser uma possibilidade. Além disso sentia-se dividida, pois não
conseguia perceber se Murtagh era — em essência — boa pessoa ou
não. Recordou o rei Hrothgar — que fora como um tio para ela, na
infância — e na forma como Murtagh o matara nas Planícies
Flamejantes. Depois pensou na infância de Murtagh, nas muitas
adversidades que enfrentara, e de como deixara Eragon e Saphira
partirem em liberdade quando poderia facilmente tê-los trazido
para Urû’baen.
Porém, mesmo que Murtagh tivesse sido honrado e digno de
confiança, ela sabia que a servidão que lhe fora imposta, poderia
tê-lo corrompido.
Acabou por decidir ignorar o passado de Murtagh e julgá-lo
unicamente pelas suas ações no presente. Fosse ele bom, mau ou
algo intermédio, era um potencial aliado e ela precisava da sua
ajuda, se ele lha pudesse dar. Caso viesse a revelar-se uma
mentira, Nasuada não ficaria em pior situação do que já estava.
Mas se viesse a demonstrar que estava a ser verdadeiro, talvez
conseguisse fugir de Urû’baen, e só por isso valia a pena correr o
risco.
Como não sentia dor, mergulhou num sono longo e profundo,
pela primeira vez, desde que chegara à capital. Acordou com mais
esperança do que anteriormente e voltou a abandonar-se à
contemplação das linhas pintadas no teto. A fina linha azul que
estava a seguir levou-a a reparar numa pequena forma branca ao
canto de um azulejo, na qual não tinha reparado. Só algum tempo
depois percebeu que a descoloração era de uma lasca que se
soltara.
A imagem divertiu-a, pois achou cómico — e de alguma forma
reconfortante — perceber que a câmara perfeita de Galbatorix,
afinal, não era assim tão perfeita e que, apesar das suas pretensões,
ele não era omnisciente nem infalível.
A porta da câmara abriu-se e o carcereiro entrou com o que ela
supôs ser a refeição do meio-dia. Perguntou-lhe se podia comer
antes de ele a deixar levantar, dizendo-lhe que estava esfomeada, o
que não era inteiramente mentira.
Para sua satisfação, ele concordou, embora não dissesse uma
palavra. Limitou-se a sorrir, com aqueles dentes hediondos,
semelhantes a grampos, sentando-se depois junto da laje. Enquanto
ele lhe dava colheradas de papa de aveia quente, ela pensava
incessantemente em todas as contingências possíveis, pois sabia
que teria apenas uma hipótese de ser bem-sucedida.
A expectativa dificultava-lhe a ingestão daquela comida sem
sabor, mas ainda assim conseguiu digeri-la e, depois de esvaziar a
tigela e saciar convenientemente a sede, preparou-se.
Como de costume, o homem colora a bandeja de comida junto
da parede oposta, perto do local onde Murtagh estivera sentado, a
cerca de três metros da latrina.
Assim que se desembaraçou das grilhetas, deslizou do bloco de
pedra. O homem com cabeça de cabaça alcançou-a para lhe
agarrar no braço esquerdo, mas ela levantou uma mão e disse-lhe
tão docemente quanto possível:
— Eu posso levantar-me sozinha, obrigada.
O carcereiro hesitou, mas depois sorriu, batendo duas vezes
com os dentes uns nos outros, como quem diz: “Bom, fico feliz por
isso.”
Caminharam em direção à latrina — ela à frente e ele ligeiramente
atrás. Ao subir o terceiro degrau, ela torceu intencionalmente o
tornozelo direito, cambaleando na diagonal ao longo da sala. O
homem gritou e tentou ampará-la — pois sentiu os seus dedos
grossos perto do pescoço — mas foi demasiado lento e ela
esquivou-se.
Caiu ao comprido sobre a bandeja e partiu o cântaro — que
continha ainda bastante vinho diluído em água —, atirando com a
tigela de madeira ao chão e colocando propositadamente a mão
por baixo do corpo. Logo que sentiu a bandeja começou a tatear à
procura da colher de metal.
— Ah! — exclamou ela, como se estivesse magoada, virando-se
depois para o homem e fazendo os possíveis para parecer
atormentada. — Afinal, talvez não estivesse preparada — disse, com
um sorriso apologético. O polegar tocou no cabo da colher e
agarrou-a no preciso momento em que o homem a ajudava a
levantar-se, puxando-a pelo outro braço.
Ele olhou-a e franziu o nariz, aparentemente enojado, ao ver a
camisa de dormir ensopada em vinho. Enquanto isso, ela levou a
mão às costas e enfiou o cabo da colher por um buraco junto da
costura da camisa, erguendo depois a mão, como que a mostrar
que não tirara nada.
O homem resmungou, agarrou-lhe no outro braço, e conduziu-a
à latrina. Quando entrou, ele afastou-se em direção à bandeja, a
resmungar entredentes.
No instante em que fechou a porta, ela tirou a colher da camisa
de dormir e colocou-a entre os lábios, segurando-a na boca
enquanto arrancava vários fios de cabelo da nuca, onde eram mais
longos. Mexendo-se o mais rapidamente possível, segurou a ponta
dos cabelos que arrancara na mão esquerda, e enrolou os fios de
cabelos soltos sobre as coxas, com a palma da mão direita,
torcendo-os até formarem um cordão. Sentiu a pele gelar ao
perceber que o cordão era demasiado curto. Atrapalhada com a
urgência da situação, resolveu atar as pontas e poisou o cordão no
chão.
Arrancou mais alguns cabelos e enrolou-os num segundo
cordão, que atou como o primeiro.
Sabendo que lhe restavam apenas alguns segundos, baixou-se
sobre o joelho e atou os cordões, um ao outro. Depois, tirou a
colher da boca e prendeu-a ao lado de fora da perna esquerda,
com o fio, de forma a ficar encoberta pela bainha da camisa de
dormir.
Tinha de ficar na perna esquerda, visto que Galbatorix sentavase
sempre à sua direita.
Levantou-se e certificou-se de que a colher ficava escondida,
dando depois alguns passos para ter a certeza de que esta não caía.
Não caiu.
Respirou fundo, aliviada. Agora o desafio era regressar para
junto da laje sem que o carcereiro desse conta do que fizera.
O homem estava à sua espera quando ela abriu a porta da
latrina. Ele franziu-lhe a sobrancelha e as sobrancelhas ralas uniram-se
numa linha reta.
— A colher — disse ele, mastigando as palavras com a língua
como se fossem pedaços de cherovia cozidos demais.
Nasuada ergueu o queixo, apontando para a parte de trás da
latrina.
Ele franziu a sobrancelha, entrando na sala e examinando
cuidadosamente as paredes, o chão, o teto e tudo o resto, antes de
voltar a sair pesadamente. Voltou a bater com os dentes uns nos
outros, coçando a cabeça bojuda com um ar infeliz e até um pouco
magoado — concluiu ela — pelo fato de Nasuada se ter dado ao
trabalho de deitar a colher fora. Como fora amável com ele, sabia
que aquele desafio mesquinho iria deixá-lo confuso e enfurecê-lo.
Resistiu à tentação de se afastar quando ele avançou e lhe
colocou as pesadas mãos sobre a cabeça, enfiando-lhe os dedos
nos cabelos. Ao ver que não encontrava a colher, ficou com uma
expressão pendurada.Agarrou-lhe no braço, voltou a levá-la para a
laje e colocou-lhe de novo as grilhetas.
Depois pegou na bandeja, com uma expressão triste, e saiu da
sala. Esperou até ter a certeza absoluta de que ele se fora embora,
levando depois a mão esquerda à bainha da camisa e puxando-a
lentamente para cima.
Um largo sorriso iluminou-lhe o rosto, ao tocar na colher com a
ponta do indicador.
Agora ela já tinha uma arma.

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