24 de junho de 2017

Capítulo 45 - O som da voz dele, o toque da mão dele

—Agghhh!
...—
Juras-me fidelidade na língua antiga?
— Nunca!
A pergunta dele e a resposta dela estavam a tornar-se um ritual,
uma espécie de desafio, como as crianças faziam nos jogos, só que
neste ela perdia, mesmo quando ganhava.
Só os rituais permitiam a Nasuada manter a sanidade, pois era
através deles que regulava o seu mundo — permitiam-lhe suportar
cada momento e passar ao momento seguinte, dando-lhe algo a
que se agarrar quando tudo o resto lhe tinha sido subtraído. Rituais
de pensamento, rituais de ação, rituais de dor e de alívio — era deles
que dependia a sua vida. Sem eles estaria perdida, como uma
ovelha sem pastor, um devoto privado da fé... um Cavaleiro
separado do dragão.
Infelizmente, aquele ritual em particular acabava sempre da
mesma forma: mais um toque do ferro.
Ela gritou, mordeu a língua, e a boca encheu-se de sangue.
Tossiu, tentando desobstruir a garganta, mas havia demasiado
sangue e começou a sufocar. Os pulmões ardiam-lhe com falta de
ar e as linhas no teto começaram a ficar desfocadas e a
desaparecer. Depois tudo desapareceu, até mesmo a escuridão.
Mais tarde Galbatorix falou-lhe, enquanto os ferros aqueciam.
Também isso se tornara um dos rituais.
Fora ele que lhe curara a língua — estava convencida de que fora
ele e não Murtagh, porque lhe disse:
— Seria péssimo que não pudesses falar, não é verdade? Como
iria eu saber quando estivesses pronta para me servir?
Tal como anteriormente, o rei estava sentado à direita, nos
limites do seu campo de visão. Tudo o que via era uma silhueta de
contornos dourados, com o corpo parcialmente escondido sob o
longo e pesado manto que usava.
— Eu conheci o teu pai quando ele era capataz da maior
propriedade de Enduriel, sabias? — disse Galbatorix. — Ele não te
falou nisso?
Nasuada estremeceu e cerrou as pálpebras, sentindo as lágrimas
escaparem-se pelos cantos dos olhos. Detestava ouvi-lo. A voz era
demasiado poderosa, demasiado sedutora e compelia-a a fazer
tudo o que ele quisesse só para o ouvir tecer-lhe um pequeno
elogio.
— Sim — murmurou ela.
— Não lhe dei grande importância na altura. Porque haveria de
dar? Ele era um criado, ninguém digno de atenção. Enduriel davalhe
bastante liberdade, para melhor gerir os negócios da
propriedade — demasiada liberdade como se veio a concluir. — O
rei fez um gesto displicente e a luz iluminou-lhe a mão semelhante a
uma garra. — Enduriel sempre foi demasiado permissivo. O
engenhoso era o dragão; Enduriel limitava-se a cumprir ordens...
Mas que estranha sequência de acontecimentos que o destino nos
reservou. Pensar que o homem que cuidava para que as minhas
botas estivessem sempre bem engraxadas acabou por se tornar o
meu principal inimigo, depois de Brom, e que a sua filha voltou a
Urû’baen e está prestes a entrar ao meu serviço, tal como o pai. É
bastante irónico, não te parece?
— O meu pai fugiu e quase matou Durza, na altura — disse ela. —
Nem com todos os teus feitiços e juramentos, conseguiste prendêlo,
tal como não me conseguirás prender.
Pareceu-lhe vê-lo franzir a sobrancelha.
— Sim, isso foi lamentável. Durza ficou bastante irritado na altura.
Dentro de uma família parece ser mais fácil as pessoas mudarem e,
consequentemente, alterarem os seus verdadeiros nomes, motivo
pelo qual agora apenas escolho para meus criados gente estéril e
solteira. Porém, você está redondamente enganada se pensas que vais
conseguir escapar. A única forma de abandonar o Salão da
Profetisa é jurando-me lealdade ou morrendo.
— Então morrerei.
— Mas que falta de visão. — A silhueta de contornos dourados
inclinou-se para ela. — Nunca pensaste que o mundo poderia ser
pior se eu não tivesse derrotado os Cavaleiros, Nasuada?
— Os Cavaleiros mantinham a paz — respondeu ela. — Protegiam
toda a Alagaësia da guerra, da peste... da ameaça dos Espetros e,
em épocas de fome, levavam comida aos famintos. Como poderá
esta terra ser melhor sem eles?
— Porque o seu serviço tinha um preço. você mais do que ninguém
deverias saber que tudo neste mundo tem um preço, seja ele pago
em ouro, em tempo, ou com sangue. Nada é gratuito, nem mesmo
os Cavaleiros. Especialmente os Cavaleiros.
«Sim, eles mantinham a paz, mas também sufocaram as raças
desta terra. Elfos, Anões, tal como os humanos. O que se ouve
dizer em louvor dos Cavaleiros sempre que os bardos entoam
trovas lamentosas à sua morte? Que o seu reinado se prolongou
durante milhares de anos e que durante essa “era dourada” tão
exaltada, pouco mudou para além dos nomes de reis e rainhas
presunçosos, tranquilamente sentados nos seus tronos. Ah, mas
havia pequenos incidentes alarmantes: um Espetro aqui, uma
incursão de Urgals ali, ou uma escaramuça entre dois clãs de Anões
por causa de uma mina a que só eles davam importância. Mas, de
uma forma geral, a ordem das coisas continuou a ser exatamente a
mesma que era na altura em que os Cavaleiros começaram a
ganhar importância.»
Murtagh mexeu os carvões na braseira e ela ouviu um tinido
metálico. Desejava poder ver-lhe o rosto para avaliar a sua reação
às palavras de Galbatorix, mas como de costume, ficou de costas
para ela, de olhos postos nos carvões. Só a olhava quando tinha de
lhe encostar o metal incandescente à pele. Esse era o seu ritual
privado e Nasuada tinha a impressão que ele precisava tanto dele
como ela dos seus.
E Galbatorix continuava a falar:
— Isso não te parece a maior das crueldades, Nasuada? A vida é
mudança, porém, os Cavaleiros suprimiram-na para que o reino
permanecesse numa letargia constrangedora, incapaz de se libertar
dos seus tronos, incapaz de avançar ou de recuar, como seria
natural... incapaz de se renovar. Vi com os meus próprios olhos
em Vroengard e aqui, nos cofres de Ilirea, pergaminhos com
detalhes sobre descobertas — descobertas mágicas, mecânicas,
descobertas relacionadas com todas as áreas da filosofia natural —
que os Cavaleiros mantiveram escondidas por recearem o que
poderia acontecer se passassem a ser do conhecimento comum. Os
Cavaleiros eram cobardes vinculados a um velho estilo de vida e a
uma velha forma de pensar, que estavam determinados a defender
até ao último fôlego. A sua tirania era delicada, mas não deixava de
ser tirania.
— Mas seria o assassínio e a traição realmente a solução? —
perguntou Nasuada, sem se importar que ele a castigasse.
Ele deu uma gargalhada, parecendo verdadeiramente divertido.
— Que hipocrisia! Condenas-me exatamente por aquilo que tu
própria tencionas fazer. Matar-me-ias aqui mesmo, se pudesses,
sem qualquer hesitação, como se eu não passasse de um cão
raivoso.
— você és um traidor, eu não.
— Eu sou um vencedor. Ao fim e ao cabo, nada mais importa.
Não somos tão diferentes como pensas, Nasuada. você queres
matar-me porque achas que a minha morte iria beneficiar Alagaësia
e porque acreditas que podes governar melhor o Império do que eu
— embora sejas praticamente uma criança. Os outros iriam
desprezar-te pela tua arrogância, mas não eu, porque te entendo.
Eu entrei em guerra com os Cavaleiros pelas mesmas razões e
estava certo ao fazê-lo.
— Não teria sido por uma questão de vingança?
Pareceu-lhe vê-lo a sorrir.
— Talvez isso me tivesse inspirado no início, mas a minha
motivação principal não era o ódio nem a vingança. Eu estava
preocupado com aquilo em que os Cavaleiros se tinham
transformado e estava convencido, como de resto ainda estou, de
que só quando eles desaparecessem poderíamos florescer
enquanto raça.
Por instantes a dor dos ferimentos impediu-a de falar, mas
conseguiu sussurrar:
— Se o que dizes for verdade — e eu não tenho motivos para
acreditar em ti — não és melhor do que os Cavaleiros. Pilhaste as
bibliotecas e reuniste os repositórios de conhecimento e, até agora,
não partilhaste esse saber com ninguém.
Galbatorix aproximou-se e ela sentiu o seu hálito sobre o ouvido.
— Isso é porque encontrei pistas de uma verdade maior,
dispersas pelos repositórios de segredos, uma verdade que poderá
dar resposta a uma das perguntas mais desconcertantes da história.
Nasuada sentiu um calafrio na espinha.
— Que... pergunta?
Ele voltou a recostar-se na cadeira, puxando pela ponta da
capa.
— A forma como um rei ou uma rainha podem impor o
cumprimento das leis que promulgam, quando há quem pratique
magia entre os seus súbditos. Quando me apercebi a que se
referiam essas pistas, pus tudo o resto de lado, e prometi a mim
mesmo descobrir essa verdade, essa resposta, sabendo que era da
maior importância. Foi por isso que guardei para mim os segredos
dos Cavaleiros. Tenho estado ocupado com a minha busca. Essa
questão terá de estar esclarecida, antes de eu dar a conhecer
qualquer descoberta. O mundo já é um local intranquilo. É
preferível aquietar as águas antes de as voltar a agitar... Demorei
quase cem anos a encontrar a informação de que precisava e,
agora que a tenho, irei utilizá-la para reformar toda a Alagaësia.
«A magia é a grande injustiça do mundo. Não seria tão injusta se
essa aptidão se revelasse apenas entre os fracos, pois compensaria
tudo aquilo de que fossem privados por força da sorte ou das
circunstâncias. Mas não é isso que se passa. Os fortes estão
igualmente aptos a praticar magia e têm mais a ganhar com isso.
Basta olharmos para os Elfos para percebermos que é verdade. O
problema não está confinado aos indivíduos, perturba também as
relações entre as raças. Os Elfos têm mais facilidade do que nós em
manter a ordem na sociedade, pois quase todos conseguem usar
magia, e portanto raros são os casos em que ficam à mercê uns dos
outros. Nesse aspecto são uns afortunados. Mas nós não somos
assim tão afortunados. Nem nós, nem os Anões, nem mesmo os
abomináveis Urgals. Só conseguimos viver aqui em Alagaësia
porque os Elfos o permitiram. Se quisessem, ter-nos-iam varrido da
face da terra, tão facilmente como um dilúvio arrasaria um
formigueiro. Mas isso acabou, pelo menos enquanto eu aqui estiver
para me opor ao seu poder.»
— Os Cavaleiros jamais permitiriam que eles nos matassem ou
nos expulsassem.
— Não, mas enquanto os Cavaleiros existiam, estávamos
dependentes da sua boa vontade e não é justo que tenhamos de
recorrer a outros para nos protegermos. Os Cavaleiros começaram
por ser um meio de manter a paz entre os Elfos e os dragões, mas
o seu principal propósito acabou por residir em fazer respeitar a lei
em todo o reino. Contudo, eram insuficientes para o desempenho
dessa missão, tal como os meus feiticeiros, os Mão Negra. O
problema é demasiado abrangente para qualquer grupo o
combater. A minha própria vida o demonstra. Mesmo que
houvesse um grupo de feiticeiros de confiança, suficientemente
experientes para vigiar todos os outros feiticeiros de Alagaësia —
prontos a intervir ao mínimo sinal de malfeitoria — continuaríamos a
confiar exatamente naqueles cujos poderes procurámos restringir, e
o reino acabaria por não ser mais seguro do que é agora. Não.
Para resolver este problema, teremos de o abordar de uma forma
mais profunda, a um nível mais básico. Os antigos sabiam como
isso se fazia e, agora, eu também sei.
Galbatorix mudou de posição na cadeira e Nasuada distinguiu
um brilho intenso no olhar, como uma lanterna nas profundezas de
uma caverna.
— Tomarei providências para que nenhum feiticeiro possa
molestar outro ser, seja ele humano, anão ou elfo. Nenhum poderá
lançar feitiços, a menos que esteja autorizado. Só os magos
benignos e bem intencionados terão permissão para o fazer.
Mesmo os Elfos estarão sujeitos a essa regra. Terão de aprender a
medir as suas palavras, ou então a calarem-se.
— E quem dará essa autorização? — perguntou ela. — Quem
decidirá quem tem autorização e quem não tem? Tu?
— Alguém terá de decidir. Fui eu que reconheci o que era
necessário, fui eu que descobri os meios e serei eu que os
implementarei. Desprezas a ideia? Nesse caso, pergunta a ti
mesma, Nasuada: tenho sido um mau rei? Sê honesta. Segundo os
padrões dos meus antepassados, não me tenho revelado excessivo.
— Tens sido cruel.
— Isso não é a mesma coisa... você comandavas os Varden e
conheces o fardo do comando. Certamente que te apercebeste da
ameaça que a magia representa para estabilidade de qualquer reino.
Só para te dar um exemplo: tenho passado mais tempo a trabalhar
nos encantamentos que impedem a falsificação da moeda do reino
do que a tratar de qualquer outro aspecto das minhas obrigações.
No entanto, tenho a certeza de que há um feiticeiro astuto por aí
algures, que descobriu uma forma de contornar as minhas
proteções e anda atarefado a fazer sacos de moedas de chumbo
com as quais poderá enganar nobres e plebeus. Porque pensas que
tenho tido o cuidado de restringir o uso de magia em todo Império?
— Porque representa uma ameaça para ti.
— Não! Você está totalmente enganada. Não representa qualquer
ameaça. Nada representa uma ameaça para mim. Porém, os
feiticeiros são uma ameaça para o funcionamento do reino, e isso
eu não vou tolerar. Imagina a paz e a prosperidade que reinarão,
quando eu submeter todos os feiticeiros do mundo às leis do reino.
Nunca mais nenhum homem ou anão terá de recear os Elfos.
Nunca mais os Cavaleiros poderão impor a sua vontade aos
outros. Nunca mais os que não praticam magia serão vítimas dos
que a praticam... Alagaësia transformar-se-á e nós poderemos
construir um futuro prodigioso num ambiente de renovada
segurança. Um futuro em que poderás participar.
«Reúne-te a mim, Nasuada, e terás a oportunidade de
coordenar a criação de um mundo como nunca se viu — um mundo
onde um homem se manterá de pé ou tombará consoante a força
das suas pernas e a agudeza da sua mente, e não pelo fato de a
sorte lhe ter concedido aptidões para a magia. O homem pode
fortalecer as pernas e melhorar a mente, mas jamais poderá
aprender a usar magia se nasceu sem aptidões para tal. Como
disse, a magia é a maior das injustiças e eu vou impor limites aos
feiticeiros, para o bem de todos.
Nasuada olhou para as linhas no teto e tentou ignorá-lo. Muito
do que Galbatorix dissera era semelhante ao que ela pensara. Ele
tinha razão: a magia era a força mais destrutiva no mundo e, se
pudesse ser regulada, Alagaësia seria um sítio melhor. Ela detestava
pensar que nada pudera impedir Eragon de...
Azul, vermelho. Motivos de cores entrelaçadas. A dor latejante
das queimaduras. A luta desesperada para se concentrar em tudo
menos... em tudo menos nada. Aquilo em que estava a pensar, não
era nada... não existia.
— Chamas-me cruel. Amaldiçoas o meu nome e tentas derrotarme,
mas lembra-te, Nasuada: não fui eu que comecei esta guerra e
não sou responsável por aqueles que perderam a vida em
consequência disso. Não fui eu que procurei isto, foste tu. Eu terme-
ia contentado em dedicar-me aos estudos, mas os Varden
insistiram em roubar o ovo de Saphira do meu tesouro. você e a tua
espécie são os responsáveis por todo o sangue derramado e por
toda a mágoa que se seguiu. Afinal de contas, são vocês que têm
andado a armar alvoroço pelos campos, queimando e pilhando
como muito bem entendem, e não eu. Ainda assim, têm a audácia
de afirmar que o culpado sou eu! Se fosses a casa dos
camponeses, eles dir-te-iam que são os Varden que mais temem.
Dir-te-iam que esperam proteção dos meus soldados e que
esperam que o Império derrote os Varden, para que tudo fique
como antes.
Nasuada humedeceu os lábios e, embora soubesse que a
ousadia poderia sair-lhe cara, disse:
— Parece-me que protestas demais... Se o bem-estar dos teus
súbditos fosse a tua principal preocupação, terias voado ao
encontro dos Varden, há semanas atrás, em vez de deixares um
exército à solta dentro das tuas fronteiras. A menos que não estejas
tão seguro do teu poder como fazes querer. Ou será que temes que
os Elfos tomem Urû’baen na tua ausência? — Como se tornara seu
costume, ela falou dos Varden como se não soubesse mais do que
qualquer outra pessoa no Império.
Galbatorix mudou de posição, pelo que Nasuada percebeu que
ele se estava a preparar para responder, de qualquer forma ainda
não tinha terminado.
— E os Urgals? Não consegues convencer-me que a tua causa é
justa, quando te dispuseste a exterminar uma raça inteira para
aliviar a dor que sentiste com a morte do teu primeiro dragão. Não
tens resposta para isso, Traidor?... Fala-me dos dragões, então.
Explica-me porque mataste tantos dragões, condenando lenta e
inevitavelmente a sua espécie à extinção, e explica-me também
porque maltratastes os Eldunarís que capturaste — e deixou
escapar, com a fúria —, vergando-os e submetendo-os à tua
vontade. Não há retidão no que fazes, apenas egoísmo e uma sede
insaciável de poder.
Galbatorix olhou-a em silêncio durante um momento longo e
constrangedor. Depois ela viu a sua silhueta mover-se, ao cruzar os
braços.
— Acho que os ferros já devem estar suficientemente quentes.
Murtagh, se não te importas...
Cerrou os punhos, enterrando as unhas na carne, e os músculos
começaram a tremer, apesar dos seus esforços para os manter
imóveis. Um dos ferros arranhou o rebordo da braseira, quando
Murtagh o soltou. Ao virar-se para ela, Nasuada não pôde deixar
de olhar para a ponta de metal incandescente. Ao olhar nos olhos
de Murtagh, distinguindo neles culpa e auto-recriminação, ela foi
possuída por uma profunda sensação de mágoa.
“Que tontos somos”, pensou. “Que tontos miseráveis, somos.”
Depois, ficou sem energia para pensar e retomou os seus rituais
já consumidos, agarrando-se a eles para sobreviver, como um
homem prestes a afogar-se se agarraria a um pedaço de madeira.
Quando Murtagh e Galbatorix se retiraram, Nasuada sentia
demasiadas dores para fazer algo mais além de fixar apaticamente
os desenhos no teto, esforçando-se por não chorar. Estava a suar e
a tremer, como se estivesse febril, e era-lhe impossível concentrarse
fosse no que fosse por mais alguns segundos. A dor das
queimaduras não abrandou como teria acontecido se tivesse sofrido
cortes ou contusões. Na verdade, a dor latejante parecia agravarse
à medida que o tempo passava.
Fechou os olhos e tentou abrandar a respiração, e acalmar o
corpo.
A primeira vez que Galbatorix e Murtagh a tinham visitado, ela
fora bastante mais corajosa. Amaldiçoara-os e provocara-os,
fazendo o possível para os magoar com palavras. Porém,
Galbatorix fizera-a pagar pela insolência, através de Murtagh, pelo
que depressa perdeu o gosto pela rebelião aberta. O ferro tornou-a
tímida e mesmo a memória deste dava-lhe vontade de se enrolar
num novelo apertado e pequenino. Durante a segunda visita — a
mais recente — Nasuada falara o menos possível, acabando por
explodir imprudentemente no final.
Tentara testar a afirmação de Galbatorix de que nem ele nem
Murtagh lhe mentiriam, fazendo-lhes perguntas sobre os
mecanismos internos do Império, fatos sobre os quais fora
informada pelos seus espiões mas que Galbatorix não tinha motivos
para suspeitar que ela conhecia. Até então, tanto quanto lhe fora
dado entender, Galbatorix e Murtagh tinham-lhe dito a verdade. De
qualquer modo, não estava disposta a acreditar em tudo o que o rei
dissesse, caso não tivesse uma forma de verificar as suas
afirmações.
Quanto a Murtagh, ela não tinhas tantas certezas. Quando estava
com o rei não lhe dava crédito, mas quando ficava sozinho...
Várias horas depois da primeira audiência agonizante com o rei
Galbatorix — quando finalmente conseguira mergulhar num sono
superficial e agitado —, Murtagh apareceu sozinho no Salão da
Profetisa, de olhos congestionados e a cheirar a bebida. Parou
diante do monólito onde ela estava deitada e olhou-a com uma
expressão tão estranha e atormentada, que Nasuada ficara sem
perceber bem o que ele iria fazer.
Finalmente ele virou-se e encaminhou-se para a parede mais
próxima, deixando-se escorregar até ao chão, e aí ficara sentado,
com os joelhos encostados ao peito, os longos cabelos
desgrenhados a encobrirem-lhe grande parte do rosto e os nós dos
dedos da mão direita esfolados e ensanguentados. Minutos depois
levou a mão à jaqueta vermelha —usava as mesma roupas — e tirou
uma pequena garrafa de pedra, da qual bebeu várias vezes antes de
começar a falar.
Ele falou e ela ouviu-o. Não tinha alternativa, embora se
recusasse a acreditar no que ele dizia. Pelo menos, no início. Tanto
quanto sabia, tudo o que ele fazia ou dizia poderia ser uma
encenação destinada a conquistar a sua confiança.
Murtagh começou por lhe contar uma história bastante confusa
acerca de um homem chamado Tornac, que envolvia um incidente
com um cavalo e um conselho que Tornac lhe dera sobre a forma
como um homem honrado deveria viver. Ela não conseguiu
perceber se Tornac era um amigo, um criado, um parente distante,
ou algo intermédio, mas fosse quem fosse, era óbvio que ele
significara bastante para Murtagh.
Ao concluir a história, Murtagh disse:
— Galbatorix ia mandar matar-te... Ele sabia que Elva não te
estava a vigiar como era habitual, por isso decidiu que seria o
momento ideal para te assassinar. Eu só soube do plano por acaso,
pois estava ao seu lado quando ele deu as ordens aos Mão Negra.
— Murtagh abanou a cabeça. — A culpa é minha. Fui eu que o
convenci a trazer-te para cá e a ideia agradou-lhe, pois sabia que
irias atrair Eragon muito mais depressa... Foi a única forma de
impedir que ele te matasse... Desculpa... Desculpa. — E enterrou a
cabeça nos braços.
— Preferia ter morrido.
— Eu sei — disse ele, num tom de voz rouco. — Perdoas-me?
Ela não lhe respondeu, na medida em que a revelação deixara-a
ainda mais constrangida. “Porque haveria ele de querer salvar-lhe a
vida e o que esperaria em troca?”
Murtagh não dissera mais nada durante algum tempo, mas
depois — entre lágrimas e ataques de raiva — falou-lhe da sua
educação na corte de Galbatorix, das desconfianças e das invejas
que tivera de enfrentar, por parte dos nobres que procuravam usálo
para conquistar os favores do rei, por ser o filho de Morzan, e
das saudades que tinha da mãe de quem mal se lembrava. Falou de
Eragon por duas vezes, e amaldiçoou-o dizendo que era um tolo
bafejado pela sorte.
— Não se teria saído tão bem se estivéssemos na situação
inversa, mas a nossa mãe decidiu levá-lo a ele e não a mim para
Carvahall. — Cuspiu para o chão.
Nasuada achou todo o episódio lamechas e carregado de autocomiseração
e aquela fraqueza apenas lhe inspirou desprezo até
Murtagh lhe contar como os Gémeos o tinham raptado de Farthen
Dûr, maltratando-o no caminho para Urû’baen, e como Galbatorix
o subjugara assim que chegaram. Algumas das torturas que ele
descreveu eram piores do que as suas, o que a ser verdade, a fez
sentir uma ligeira empatia pela difícil situação que ele próprio tivera
de enfrentar.
— Thorn foi a minha desgraça — confessou Murtagh. — Quando
nasceu e nos ligámos... — Abanou a cabeça. — Eu amo-o. Como
poderia não o amar? Amo-o tanto como Eragon ama Saphira. No
momento em que lhe toquei, perdi-me. Galbatorix usou-o contra
mim. Thorn era mais forte do que eu, nunca desistia. Mas eu não
conseguia suportar vê-lo sofrer, por isso jurei lealdade ao rei e
depois disso... — Murtagh revirou os lábios, enojado. — Depois
disso, Galbatorix entrou na minha mente, ficou a saber tudo a meu
respeito e ensinou-me o meu verdadeiro nome. E agora aqui
estou... preso a ele para toda a eternidade.
Depois encostou a cabeça à parede, fechou os olhos e ela viu as
lágrimas a escorrerem-lhe pelas faces.
Por fim, levantou-se e ao encaminhar-se para a porta, parou
junto dela e tocou-lhe no ombro. Tinha as unhas limpas e aparadas,
mas não tão bem cuidadas como as do carcereiro. Murmurou
algumas palavras na língua antiga e, momentos depois, a dor diluiuse,
embora as feridas parecessem ter ficado na mesma.
Quando ele afastou a mão, Nasuada disse:
— Eu não posso perdoar... mas compreendo.
Murtagh acenou com a cabeça e afastou-se cambaleante,
deixando-a a pensar se não teria encontrado um novo aliado.

Um comentário:

  1. É por isso que eu acredito que o Murtagh ainda tem salvação.

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