3 de junho de 2017

Capítulo 45 - Genealogia

No quarto dia após deixar Farthen Dûr, Eragon e Saphira chegaram a Ellesméra.
A luz do sol brilhava no céu quando a primeira das construções da cidade – uma estreita torre retorcida com janelas brilhantes situada entre três pinheiros altos e que crescia em meio ao emaranhado de galhos – pôde ser vista. Além da torre revestida de casca de árvore, Eragon avistou a aparentemente casual coleção de clareiras que marcava a localização da cidade espalhada. À medida que Saphira voava por sobre a incerta superfície da floresta, Eragon lutava com sua mente em busca da consciência de Gilderien o Sábio, que, na posição de portador da Chama Branca de Vándil, protegera Ellesméra dos inimigos dos elfos por mais de dois mil e quinhentos anos.
Projetando seus pensamentos em direção à cidade, Eragon disse na língua antiga: Gilderien-elda, podemos passar?
Uma voz profunda e calma soou na mente de Eragon. Vocês podem passar, Eragon Matador de Espectros e Saphira Escamas Brilhantes. Contanto que mantenham a paz, vocês são bem-vindos a ficar em Ellesméra.
Obrigado, Gilderien-elda, disse Saphira. Suas garras arranhavam as coroas das árvores de folhas escuras e pontudas, que chegavam a noventa metros de altura à medida que ela planava sobre a cidade de pinheiros e seguia na direção do declive de terra do outro lado de Ellesméra.
Em meio ao entrelaçamento de galhos abaixo, Eragon identificava de relance as formas graciosas das construções de madeira viva, leitos coloridos de flores, córregos sinuosos, o brilho avermelhado de uma lanterna sem chama e, uma ou duas vezes, o tênue lampejo do rosto de um elfo olhando para cima.
Inclinando as asas, Saphira sobrevoou esse declive até alcançar os rochedos de Tel’naeír, que mergulhavam trezentos metros até as florestas na base do penhasco branco e se estendia por quase cinco quilômetros em cada direção. Então, virou à direita e voou para o norte ao longo da crista de pedra, adejando duas vezes para manter a velocidade e a altitude. Uma clareira coberta de relva apareceu na borda do penhasco. Contrastando com a paisagem das árvores circunvizinhas ficava uma modesta casa de um andar que brotava de quatro diferentes pinheiros. Um gorgolejante e borbulhante córrego percorria a floresta musgosa e passava abaixo das raízes de uma das árvores antes de desaparecer em Du Weldenvarden novamente. E, enroscado perto da casa, estava o dragão dourado Glaedr, gigantesco, cintilante. Seus dentes de marfim tão espessos quanto o tórax de Eragon, suas garras como foices, suas asas dobradas macias como camurça, seu rabo musculoso quase tão longo quanto todo o comprimento de Saphira e as estrias de seu olho visível resplandecentes como os raios dentro de uma estrela de safira. O coto de sua perna dianteira estava oculta do outro lado de seu corpo.
Uma pequena mesa redonda e duas cadeiras haviam sido colocadas na frente de Glaedr. Oromis estava sentado na cadeira mais próxima do dragão, os cabelos cor de prata do elfo brilhando como metal à luz do sol.
Eragon inclinou-se na sela quando Saphira começou a se preparar para descer, diminuindo a velocidade. Ela aterrissou com um solavanco por sobre um relvado e correu por vários metros, revolvendo as asas até conseguir parar definitivamente.
Os dedos de Eragon estavam ineptos devido à exaustão. Ele afrouxou os nós que amarravam as correias em volta de suas pernas e então tentou descer pela perna dianteira de Saphira. Assim que se abaixou, seus joelhos dobraram e ele caiu. Levantou as mãos para proteger o rosto e aterrissou no chão de quatro, arranhando a tíbia numa pedra oculta na grama. Gemeu de dor e, sentindo-se rígido como um velho, começou a se levantar.
Uma mão apareceu em seu campo de visão. Eragon olhou para cima e viu Oromis em pé diante ele, um leve sorriso sobre o rosto atemporal. Na língua antiga, Oromis os cumprimentou:
— Bem-vindo a Ellesméra, Eragon-finiarel. E você também, Saphira Escamas Brilhantes, bem-vinda. Bem-vindos ambos.
Eragon tomou sua mão, e Oromis o puxou sem nenhum esforço aparente. A princípio, Eragon não foi capaz de encontrar sua língua, pois quase não falara em voz alta desde que haviam deixado Farthen Dûr e porque a fadiga embaçara sua mente. Tocou os dois primeiros dedos da mão direita nos lábios e, também na língua antiga, disse:
— Que a boa sorte reine sobre você, Oromis-elda. — E contorceu a mão sobre o esterno fazendo o gesto de cortesia e respeito comum aos elfos.
— Que as estrelas zelem por você, Eragon — respondeu Oromis.
Então, Eragon repetiu a cerimônia com Glaedr. Como sempre, o toque da consciência sanguínea do dragão maravilhou e humilhou o Cavaleiro.
Saphira não saudou nem Oromis nem Glaedr; permaneceu onde estava, seu pescoço inclinado para baixo até o nariz tocar o solo. Seus ombros e ancas estavam tremendo, como se estivesse com frio. Uma espuma seca e amarelada estava incrustada nos cantos de sua boca aberta. Sua língua farpada pendia mole do meio das presas.
A título de explicação, Eragon começou a dizer:
— Nós tivemos de encarar um vento de proa no dia seguinte à nossa partida de Farthen Dûr, e... — Ele ficou em silêncio quando Glaedr ergueu sua gigantesca cabeça e a balançou cruzando a clareira até ficar de frente para Saphira, que não fez nenhuma tentativa de reconhecer sua presença. Então, Glaedr respirou na frente dela, dedos de chama queimando por entre as cavidades das narinas. Uma sensação de alívio tomou conta de Eragon quando ele percebeu a energia sendo absorvida por Saphira, acalmando seus tremores e fortalecendo seus membros. As chamas nas narinas de Glaedr desapareceram com uma nuvenzinha de fumaça.
Eu fui à caça hoje de manhã, ele disse, sua voz mental ressonando através do organismo de Eragon. Você encontrará o que sobrou de minha caça perto das árvores com o galho branco no final do campo. Coma o que quiser.
Gratidão emanou de Saphira. Arrastando seu rabo enfraquecido pela grama, ela rastejou até a árvore que Glaedr havia indicado e então se sentou e começou a despedaçar a carcaça de um cervo.
— Venha — disse Oromis, e fez um gesto na direção da mesa e das cadeiras.
Sobre a mesa estava uma bandeja com uma tigela de frutas e nozes, metade de um queijo, um pedaço de pão, uma garrafa de vinho e dois copos de cristal. Assim que Eragon se sentou, o mestre indicou a garrafa:
—  Gostaria de uma bebida para lavar a poeira de sua garganta?
— Sim, por favor — respondeu Eragon.
Com um movimento elegante, Oromis destampou a garrafa e encheu os dois copos. Deu um para Eragon e depois se recostou em sua cadeira, arrumando sua túnica branca com os longos e lisos dedos.
Eragon bebericou o vinho. Era suave e tinha gosto de cerejas e ameixas.
— Mestre, eu...
Um dedo levantado de Oromis o interrompeu.
— A menos que seja insuportavelmente urgente, eu esperaria Saphira se juntar a nós para discutirmos o assunto que os trouxe até aqui. Está de acordo?
Após um instante de hesitação, Eragon assentiu e se concentrou em comer, saboreando as frutas frescas. Oromis parecia contente de estar sentado ao seu lado em silêncio, bebendo seu vinho e olhando ao longe os rochedos de Tel’naeír. Atrás dele, Glaedr observava os acontecimentos como se fosse uma estátua de ouro viva.
Quase uma hora se passou até que Saphira tivesse terminado sua refeição, rastejado para o córrego e bebido água por mais uns dez minutos. Gotas ainda estavam em suas mandíbulas quando ela deu as costas para o córrego e, com um suspiro, se espreguiçou ao lado de Eragon com as pálpebras pesadas. Bocejou, seus dentes brilhando, então trocou saudações com Oromis e Glaedr.
Falem o quanto quiserem, disse ela. Todavia, não esperem que eu diga muita coisa. Eu cairei no sono a qualquer momento.
Se você dormir, nós esperaremos que você acorde, para continuar, disse Glaedr.
Isso é muito... gentil, respondeu Saphira, e suas pálpebras ficaram mais baixas ainda.
— Mais vinho? — perguntou Oromis, e ergueu o decantador alguns centímetros sobre a mesa. Quando Eragon balançou a cabeça, Oromis baixou o decantador e então juntou as pontas dos dedos, suas unhas arredondadas tão polidas quanto opalinas. — Não precisa me dizer o que aconteceu com você nessas últimas semanas, Eragon. Desde que Islanzadí saiu da floresta, Arya a tem deixado informada a respeito das notícias da região, e a cada três dias, a rainha envia um corredor de nosso exército de volta a Du Weldenvarden. Assim, estou sabendo de seu duelo com Murtagh e Thorn na Campina Ardente. Estou sabendo de sua viagem à Helgrind e de como puniu o açougueiro da aldeia. E estou sabendo que participou do conselho de clãs dos anões em Farthen Dûr e do resultado da eleição. Seja lá o que queira dizer, pode fazê-lo sem ter medo de precisar me informar a respeito de seus feitos recentes.
Eragon rolou uma ameixa gorda na palma da mão.
— Você sabe de Elva e do que aconteceu quando eu tentei libertá-la de minha maldição?
— Sim, até isso. Você pode não ter removido a totalidade do encantamento, mas pagou sua dívida com a criança, e é isso o que um Cavaleiro de Dragão deve fazer: cumprir suas obrigações, não importa o quão pequenas ou difíceis possam ser.
— Ela ainda sente a dor dos que estão ao seu redor.
— Mas agora é por opção dela — disse Oromis. — Sua magia não mais a força a proceder assim... Você não veio até aqui atrás de minha opinião a respeito de Elva. O que está pesando em seu coração, Eragon? Pergunte o que quiser, e prometo que responderei a todas as suas perguntas utilizando o máximo de meus conhecimentos.
— E se — retrucou Eragon — eu não souber as perguntas certas a fazer?
Um brilho apareceu nos olhos cinzentos de Oromis.
— Ah, você está começando a pensar como um elfo. Você deve confiar em nós como os mentores que ensinarão a você e a Saphira as coisas sobre as quais são ignorantes. E deve igualmente confiar em nós para decidir quando será apropriado lidar com esses assuntos, pois existem muitos elementos de seu treinamento que não deveriam ser mencionados antes do momento certo.
Eragon colocou o mirtilo precisamente no centro da bandeja e com uma voz tranquila, porém firme, disse:
— Parece que há muitas coisas sobre as quais não falou.
Por um momento, os únicos sons audíveis eram o farfalhar dos galhos, o borbulhar do córrego e a tagarelice distante dos esquilos.
Se tem algo a reclamar conosco, Eragon, então dê voz às questões e não fique mastigando sua raiva como se ela fosse um osso velho, propôs Glaedr.
Saphira mudou de posição, e Eragon imaginou ter ouvido um rosnado de sua parte. Olhou na sua direção e, então, lutando para controlar as emoções em seu ser, perguntou:
— Na última vez em que estive aqui, vocês sabiam quem era meu pai?
Oromis assentiu.
— Sabíamos.
— E vocês sabiam que Murtagh era meu irmão?
Oromis assentiu novamente.
— Sabíamos, mas...
— Então por que não me disseram? — exclamou Eragon, e ficou de pé, derrubando a cadeira. Deu um soco nos quadris, distanciou-se um pouco a passos largos e mirou as sombras no emaranhado de árvores da floresta. Girando de volta, sua raiva ficou maior ainda ao ver que Oromis parecia tão calmo quanto antes. — Vocês nunca me contariam? Mantiveram em segredo a verdade sobre minha família porque tinham medo que isso pudesse me distrair do treinamento? Ou foi porque tinham medo de que eu ficasse igual ao meu pai? — Um pensamento pior ainda ocorreu a Eragon. — Ou será que nem mesmo consideravam isso suficientemente importante para me contar? E quanto a Brom? Ele sabia? Ele escolheu se esconder em Carvahall por minha causa, porque eu era o filho do seu inimigo? Vocês não podem esperar que eu acredite que tenha sido coincidência eu e ele vivermos a apenas alguns quilômetros um do outro e que Arya simplesmente tenha enviado o ovo de Saphira para mim na Espinha por puro acaso.
— O que Arya fez foi um acidente — asseverou Oromis. — Ela não sabia nada sobre você naquela época.
Eragon segurou com firmeza o cabo de sua espada anã, cada músculo em seu corpo rígido como ferro.
— Quando Brom viu Saphira pela primeira vez, me lembro de que ele disse alguma coisa para si mesmo a respeito de não ter certeza se “isso” era uma farsa ou uma tragédia. Naquele momento, pensei que ele estivesse se referindo ao fato de um fazendeiro comum como eu ter se tornado o primeiro novo Cavaleiro em mais de cem anos. Mas não foi isso o que quis dizer, foi? Ele estava imaginando se era uma farsa ou uma tragédia o filho mais jovem de Morzan tomar o manto dos Cavaleiros!
“Foi para isso que você e Brom me treinaram, para não ser nada além de uma arma contra Galbatorix, para que eu pudesse expiar a vilania perpetrada por meu pai? Isso é tudo o que represento para vocês, um equilíbrio na correlação de forças?” Antes que Oromis pudesse responder, Eragon praguejou e continuou: “Toda a minha vida tem sido uma mentira! Desde o momento em que nasci, ninguém além de Saphira desejou minha existência; nem minha mãe, nem Garrow, nem tia Marian, nem mesmo Brom. Brom demonstrou interesse em mim apenas por causa de Morzan e Saphira. Sempre fui um inconveniente. O que quer que pensem de mim, saibam, eu não sou meu pai nem meu irmão, e me recuso a seguir as pegadas dos dois.” Colocando as mãos na beira da mesa, Eragon se inclinou para a frente. “Não vou trair os elfos ou os anões ou os Varden para Galbatorix, se é isso que preocupa vocês. Farei o que devo fazer, mas, de agora em diante, vocês não têm nem minha lealdade nem minha confiança. Eu não vou...”
O chão e o ar tremeram quando Glaedr rosnou, seu lábio superior recuando para revelar toda a extensão de suas presas.
Você tem mais motivos para confiar em nós do que qualquer outra pessoa, fedelho, advertiu ele, sua voz trovejando na mente de Eragon. Se não fosse por nossos esforços, você já estaria morto há muito tempo.
Então, para surpresa de Eragon, Saphira disse para Oromis e Glaedr: Contem para ele, e ele ficou alarmado ao sentir a preocupação nos pensamentos dela.
Saphira?, ele perguntou, confuso. Contar o quê?
Ela o ignorou. Essa discussão não tem propósito. Não prolonguem mais ainda o desconforto de Eragon.
Uma das sobrancelhas puxadas de Oromis se ergueu.
— Você sabe?
Sei.
Você sabe o quê? — berrou Eragon, a ponto de arrancar a espada da bainha e ameaçar a todos até que se explicassem.
Com um dedo magro, Oromis apontou na direção da cadeira caída.
— Sente-se. — Como Eragon permaneceu em pé, enraivecido demais e excessivamente ressentido para obedecer, Oromis suspirou. — Compreendo que isso seja difícil para você, Eragon, mas se insiste em fazer perguntas e depois se recusa a ouvir as respostas, frustração será sua única recompensa. Agora, sente-se, por favor, de modo que possamos conversar a respeito disso de uma maneira civilizada.
Com o olhar de ódio, Eragon endireitou a cadeira e se jogou sobre ela.
— Por quê? — quis saber ele. — Por que vocês não me disseram que meu pai era Morzan, o primeiro Renegado?
— Em primeiro lugar, seremos afortunados se você tiver qualquer semelhança com seu pai, o que realmente acredito que tenha. E, como eu estava começando a dizer antes que me interrompesse, Murtagh não é seu irmão, mas sim meio-irmão.
O mundo pareceu rodopiar em volta de Eragon; a sensação de vertigem era tão intensa que ele teve de agarrar a beira da mesa para se equilibrar.
— Meu meio-irmão... Mas então, quem...?
Oromis pegou uma amora da tigela, a contemplou por alguns instantes e então a comeu.
— Glaedr e eu não quisemos esconder isso de você, mas não tivemos outra escolha. Nós dois prometemos, com os mais fervorosos juramentos, que jamais lhe revelaríamos a identidade de seu pai ou a de seu meio-irmão, nem discutiríamos sua linhagem, a menos que você tivesse descoberto a verdade por conta própria, ou a menos que a identidade de seus parentes o colocasse em perigo. O que transcorreu entre você e Murtagh durante a batalha da Campina Ardente satisfaz tão suficientemente esses requisitos que agora podemos falar francamente sobre esse assunto.
Eragon tremia e mal conseguia conter a emoção.
— Oromis-elda, se Murtagh é meu meio-irmão, então quem é meu pai?
Olhe em seu coração, Eragon, Glaedr sugeriu. Você já sabe quem ele é, e já sabe há muito tempo.
Eragon balançou a cabeça.
— Eu não sei! Eu não sei! Por favor...
Uma nuvenzinha de fumaça e chama escapou das narinas de Glaedr quando ele resfolegou. Não é óbvio? Seu pai é Brom.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)