24 de junho de 2017

Capítulo 44 - Nas asas de um dragão

Eragon levantou a cabeça e respirou fundo, sentindo parte das
suas preocupações perderem-se à distância.
Montar um dragão estava longe de ser repousante, mas estar
perto de Saphira era tão tranquilizante para ele como para ela.
Poucas coisas no mundo os poderiam consolar tanto como o
simples prazer de estarem em contato. Além disso, o ruído e o
movimento do voo ajudavam-no a abstrair-se dos pensamentos
sombrios que o atormentavam.
Apesar da urgência da viagem e das circunstâncias precárias em
que se encontravam, Eragon sentia-se feliz por estar longe dos
Varden. O recente derramamento de sangue deixara-o com a
sensação de não estar bem.
Desde que se voltara a reunir aos Varden, em Feinster, passara
a maior parte do tempo a lutar ou à espera de combater, e essa
tensão começava a desgastá-lo, especialmente depois da violência
e do horror de Dras-Leona. Matara centenas de soldados em
nome dos Varden — alguns nem tiveram a mínima hipótese de o
molestar — e, embora as suas ações fossem justificadas, a memória
delas perturbava-o. Não queria que os combates fossem sempre
desesperados nem que os seus adversários fossem sempre iguais
ou melhores do que ele — longe disso — mas, ao mesmo tempo, a
chacina de tantos homens fazia com que ele se sentisse mais um
carniceiro do que um guerreiro. Encarava a morte como algo de
corrosivo e quanto mais convivia com ela mais esta o distanciava de
si.
Contudo, estar a sós com Saphira... e Glaedr — embora o
dragão dourado se tivesse fechado em si mesmo desde a partida —
ajudava-o a recuperar a sensação de normalidade. Sentia-se
bastante confortável sozinho ou em pequenos grupos, e preferia
não passar muito tempo em vilas, cidades ou mesmo em
acampamentos como o dos Varden. Ao contrário da maioria das
pessoas, não odiava nem temia o ambiente selvagem. Por muito
agrestes e desertos que fossem os campos, possuíam uma graça e
uma beleza que nenhum artifício poderia igualar e Eragon
considerava isso tonificante.
Por isso deixou-se distrair pelo voo de Saphira e, durante
grande parte do dia, pouco mais fez de importante do que
contemplar o desfile da paisagem.
Depois de partir do acampamento dos Varden, nas margens do
Lago Leona, Saphira atravessou a ampla extensão de água, virando
para Nordeste e subindo tão alto que Eragon teve de usar um
feitiço para se proteger do frio.
O lago parecia desigual: cintilante em áreas onde o ângulo da
ondulação refletia o sol, na direção de Saphira, e sombrio e
cinzento, noutras. Eragon não se cansava de olhar para os padrões
de luz em constante mutação. Nada no mundo se lhe comparava.
Era frequente verem falcões pescadores, grous, gansos, patos,
estorninhos e outras aves voarem por baixo deles. A maior parte
ignorava Saphira, mas alguns falcões subiam em espiral e
acompanhavam-na durante breves momentos, mostrando-se mais
curiosos do que assustados. Dois tiveram até a ousadia de
descrever uma curva diante dela, a menos de um metro dos seus
dentes longos e aguçados.
As ferozes aves de rapina, de garras recurvas e bico amarelo,
lembravam-lhe Saphira em diversos aspectos, uma constatação que
ela apreciou, pois também admirava os falcões, não tanto pelo
aspecto mas pelo talento na caça.
A margem atrás deles foi desvanecendo, gradualmente, numa
linha indistinta arroxeada, acabando por desaparecer por completo.
Durante mais de meia hora viram apenas aves, nuvens e uma vasta
extensão de água batida pelo vento, que cobria a superfície da
terra.
Depois lá a frente, à esquerda, os contornos acidentados da
Espinha começaram a aparecer no horizonte — uma visão que
Eragon acolheu de bom grado. Embora aquelas não fossem as
montanhas da sua infância, pertenciam à mesma cordilheira e ao vêlas
ele sentiu que não estava assim tão longe da sua antiga casa.
As montanhas foram crescendo e, finalmente, os picos rochosos
cobertos de neve surgiram diante deles, como as ameias destruídas
da muralha de um castelo. Ao longo das encostas escuras, cobertas
de vegetação, dúzias de ribeiros brancos corriam pela encosta
abaixo, abrindo caminho por entre as pregas da terra até se
reunirem ao grande lago, no sopé da montanha. Meia dúzia de
aldeias erguiam-se sobre a margem ou perto desta mas, graças à
magia de Eragon, as pessoas lá em baixo continuavam alheias à
presença de Saphira, enquanto sobrevoavam as aldeias.
Ao olhar para as aldeias, Eragon apercebeu-se do quão
pequenas e isoladas eram e, em retrospetiva, do quão pequena e
isolada era Carvahall. Comparadas com as grandes cidades que ele
visitara, aquelas aldeias pouco mais eram do que aglomerados de
cabanas, que mal serviam para alojar o mais miserável dos aldeões.
Eragon sabia que muitos dos homens e mulheres que as habitavam
nunca tinham viajado mais do que alguns quilômetros desde o seu
local de nascimento e que viveriam toda a vida circunscritos aos
limites da própria visão.
“Mas que existência mais limitada”, pensou ele.
Mesmo assim, interrogou-se se não seria preferível permanecer
num local e aprender tudo o que fosse possível sobre ele em vez de
andar constantemente a deambular pelo reino. Seria uma educação
abrangente mas superficial superior a uma educação limitada e
profunda?
Não tinha a certeza. Lembrava-se de Oromis lhe dizer, um dia,
que se poderia adivinhar o mundo inteiro no mais pequeno grão de
areia, se o estudássemos com a devida atenção.
A Espinha tinha apenas uma fração da altura das Montanhas
Beor e, mesmo assim, os picos escarpados erguiam-se a cerca de
trezentos metros de altitude ou mais, acima de Saphira, que abria
caminho por entre eles, seguindo os desfiladeiros inundados de
sombra e os vales que dividiam a cordilheira. De vez em quando,
ela tinha de subir de altitude para ultrapassar uma passagem
estreita, coberta de neve, e, sempre que o fazia, o campo de visão
de Eragon aumentava e as montanhas pareciam-lhe molares a
irromperem das gengivas castanhas da terra.
Saphira planou sobre um vale particularmente profundo e ele viu
uma clareira com um ribeiro serpenteante, que ondulava pelo
campo de erva, e junto da clareira, Eragon teve um vislumbre de
algo semelhante a casas — ou tendas, era difícil perceber —
escondidas sob os pesados ramos dos abetos vermelhos que
povoavam as encostas das montanhas vizinhas. Um único ponto
luminoso, de fogo, brilhava através de um intervalo nos ramos,
como uma minúscula lasca de ouro embutida nas camadas de
agulhas negras, e ele julgou distinguir também uma figura solitária a
afastar-se pesadamente do ribeiro. A figura parecia estranhamente
corpulenta e a cabeça era desproporcional para o corpo.
Acho que aquilo era um Urgal.
Onde? perguntou Saphira, e Eragon sentiu a sua curiosidade.
Na clareira, atrás de nós. E partilhou a memória com ela. Quem
me dera ter tempo para voltar para trás e descobrir. Gostaria de
ver como vivem.
Ela roncou e expeliu fumaça pelas narinas, baixando depois o
pescoço e torcendo-o na direção de Eragon. Talvez não fiquem
muito satisfeitos se um dragão e um Cavaleiro aterrarem
inesperadamente entre eles.
Ele tossiu e piscou os olhos lacrimejantes. Não te importas?
Saphira não respondeu, mas o fio de fumaça que lhe saía pelas
narinas desapareceu e depressa se dissipou no ar.
Pouco depois, Eragon começou a reconhecer a forma das
montanhas e, por fim, uma enorme fenda abriu-se diante de Saphira
pelo que ele percebeu que estavam a sobrevoar a passagem que
conduzia a Teirm — a mesma passagem que ele e Brom tinham
percorrido duas vezes a cavalo. Estava exatamente como se
lembrava dela: as correntes rápidas e fortes do afluente oeste do rio
Toark fluíam em direção ao mar distante, e a superfície da água
estava listada de cirros brancos nos locais onde os pedregulhos
interrompiam o seu curso. A estrada acidentada que Brom e ele
tinham feito, ao lado do rio, era ainda uma linha clara e poeirenta,
pouco mais larga que um trilho de veados. Julgou até distinguir o
aglomerado de árvores onde os dois tinham parado para comer.
Saphira virou para Oeste, seguindo ao longo do rio até as
montanhas darem lugar a campos luxuriantes, ensopados pela água
da chuva. Entretanto reajustou o seu percurso mais para Norte.
Eragon não questionou a decisão, pois ela parecia nunca se perder,
nem numa noite sem estrelas, nem mesmo em Farthen Dûr, muitos
metros abaixo do chão.
Quando se afastaram da Espinha, o sol estava perto do
horizonte. Enquanto o crepúsculo se instalava, Eragon entreteve-se
a inventar formas de encurralar, matar ou enganar Galbatorix.
Algum tempo depois, Glaedr emergiu do seu isolamento autoimposto
e reuniu-se aos esforços. Passaram cerca de uma hora a
discutir várias estratégias e a praticaram, a atacarem-se e a
defenderem-se mentalmente um do outro. Saphira também
participou no exercício, embora com um sucesso relativo, na
medida em que o voo impedia-a de se concentrar noutras coisas.
Mais tarde, Eragon contemplou as estrelas geladas e brancas,
perguntando depois a Glaedr:
Poderá o Cofre das Almas conter Eldunarís que os Cavaleiros
tenham escondido de Galbatorix?
Não, disse Glaedr sem qualquer hesitação. É impossível. Se
Vrael tivesse aprovado um plano desses, Oromis e eu teríamos
sabido. E se tivesse ficado algum Eldunarí em Vroengard, nós têlo-
íamos encontrado quando regressámos para passar revista à ilha.
Esconder uma criatura viva não é tão fácil como pensas.
Porque não?
O fato de um porco-espinho se enrolar numa bola, não significa
que fique invisível, pois não? O mesmo se passa com as mentes.
Podes proteger os teus pensamentos dos outros, mas a tua
existência continua a ser visível para alguém que sonde a área.
Com um feitiço certamente que poderias...
Se um feitiço nos tivesse adulterado os sentidos, teríamos dado
por isso, pois tínhamos proteções para evitar que tal acontecesse.
Então, não há Eldunarís, concluiu Eragon, com tristeza.
Infelizmente não.
Voaram em silêncio enquanto o quarto crescente se erguia sobre
os picos aguçados da Espinha. À luz da lua, a terra parecia feita de
peltre e Eragon entreteve-se a imaginar que esta seria uma imensa
escultura que os Anões tinham esculpido e guardado numa caverna
maior do que Alagaësia.
Ele conseguia sentir o prazer que Glaedr estava a tirar do voo.
Tal como Eragon e Saphira, a oportunidade de deixar as
preocupações em terra, nem que fosse por um curto espaço de
tempo, e voar livremente pelos céus, era bem-vinda para o velho
dragão.
Foi Saphira que falou, dirigindo-se a Glaedr, entre lentos e
pesados batimentos das asas:
Conta-nos uma história, Ebrithil.
Que tipo de história gostarias de ouvir?
A história de como você e Oromis foram capturados pelos
Renegados e como conseguiram depois escapar.
O interesse de Eragon aumentou, ao ouvi-la. Sempre sentira
curiosidade, mas nunca tivera coragem de perguntar a Oromis.
Glaedr ficou calado durante algum tempo e depois disse:
Quando Galbatorix e Morzan regressaram das regiões selvagens
e iniciaram a sua campanha contra a nossa ordem, não nos
apercebemos logo até que ponto a ameaça era grave. É claro que
ficámos preocupados, mas não mais do que ficaríamos se
descobríssemos que um Espetro andava a assombrar o reino.
Galbatorix não era o primeiro Cavaleiro a enlouquecer, embora
fosse o primeiro a conseguir um discípulo como Morzan. Só isso
deveria ter-nos advertido para o perigo que enfrentávamos, mas a
verdade só se tornou óbvio tarde de mais.
Na altura, não contemplámos a hipótese de que Galbatorix
tivesse reunido outros seguidores ou que tentasse sequer fazer isso,
pois parecia-nos absurdo que qualquer um dos nossos parentes se
revelasse susceptível aos sussurros venenosos de Galbatorix.
Morzan era ainda um noviço e a sua fraqueza era compreensível.
Porém, nunca questionámos a lealdade dos que eram Cavaleiros
assumidos. Após terem sido tentados, revelaram até que ponto o
seu despeito e as suas fraquezas os tinham corrompido. Alguns
queriam vingar-se de velhas afrontas; outros acreditavam que os
dragões e os Cavaleiros mereciam governar Alagaësia, em virtude
do seu poder; e a outros — lamento dizê-lo — agradava-lhes
simplesmente a ideia de destruírem o que existia e abandonarem-se
a esse prazer como bem entendessem.
O velho dragão fez uma pausa e Eragon sentiu ódios e mágoas
ancestrais ensombrarem-lhe a mente. Depois Glaedr prosseguiu:
Nessa altura os acontecimentos eram... confusos. Pouco se
conseguia saber e todas as informações que recebíamos estavam
de tal forma rodeadas de rumores e especulações que eram inúteis.
Oromis e eu começámos a suspeitar que algo de muito pior do que
se imaginava estava em curso. Tentámos convencer vários dragões
e Cavaleiros mais velhos, mas eles não concordaram e rejeitaram
as nossas preocupações. Nenhum era parvo, mas séculos de paz
toldaram-lhes a visão e eles eram incapazes de ver que o mundo à
nossa volta estava a mudar.
Frustrados com a falta de informação, Oromis e eu
abandonámos Ilirea para tentar descobrir sozinhos o que
pudéssemos. Levámos dois Cavaleiros mais jovens connosco,
ambos elfos, guerreiros talentosos, que tinham regressado
recentemente de uma visita de reconhecimento à parte Norte da
Espinha. Foi, em parte, graças à sua insistência que nos
aventurámos a avançar mais na expedição. Talvez reconheçam os
seus nomes: Kialandí e Formora.
— Ah — disse Eragon, percebendo de repente.
Sim. Depois de um dia e meio de viagem, parámos em Edur
Naroch, uma torre de vigia há muito construída para vigilância da
Floresta de Silverwood. Sem que o soubéssemos, Kialandí e
Formora tinham já visitado a torre e assassinaram os três elfos que
lá tinham sido colocados como guardas florestais, montando depois
uma armadilha sobre as pedras que cercavam a torre, que nos
apanhou no mesmo instante em que as minhas garras tocaram na
erva, sobre a colina. Era um feitiço inteligente e tinha sido
Galbatorix quem lho ensinara. Não tínhamos defesas contra ele, até
porque não nos causou qualquer dano, limitando-se a prender-nos
e a empatar-nos, como mel derramado sobre o corpo e a mente.
Enquanto estávamos encurralados, foi como se os minutos
passassem em segundos. Kialandí, Formora e os seus dragões
esvoaçavam à nossa volta, mais depressa que beija-flores, como
manchas escuras na nossa visão periférica.
Depois de fazerem o que queriam, libertaram-nos. Tinham-nos
lançado dúzias de feitiços — para nos imobilizarem, para nos
cegarem e para impedirem Oromis de falar, dificultando-lhe a tarefa
de lançar os seus próprios feitiços. Mais uma vez, a sua magia não
nos molestou e, por isso, não tínhamos qualquer defesa...
Assim que pudemos, atacámos Kialandí, Formora e os seus
dragões com as nossas mentes, e eles atacaram-nos também.
Lutámos contra eles durante horas e a experiência não foi nada...
agradável. Eles eram mais fracos e menos experientes que Oromis
e eu, mas eram dois contra cada um e tinham com eles o coração
dos corações de um dragão chamado Agaravel — cujo Cavaleiro
tinham assassinado —, que reuniu a sua força à deles.
Consequentemente, fomos forçados a defender-nos. O seu
interesse, como viemos a descobrir, era forçar-nos a ajudar
Galbatorix e os Renegados a entrarem em Ilirea sem que ninguém
desse por isso, a fim de apanharem os Cavaleiros de surpresa e
capturarem os Eldunarís que viviam na cidade.
— Como conseguiram escapar? — perguntou Eragon.
A seu tempo tornou-se claro que não conseguiríamos derrotálos,
por isso Oromis decidiu correr o risco de usar magia para
tentar libertar-nos, embora soubesse que iria compelir Kialandí e
Formora a atacar-nos com magia. Não passava de um estratagema
desesperado, mas era a nossa única hipótese.
A dada altura, sem saber dos planos de Oromis, voltei a atacar
os nossos adversários, com o intuito de os ferir, e era disso mesmo
que Oromis estava à espera. Há muito tempo que ele conhecia o
Cavaleiro que instruíra Kialandí e Formora em artes mágicas, pelo
que estava bastante familiarizado com o raciocínio distorcido de
Galbatorix. Partindo desse conhecimento, conseguiu adivinhar as
palavras que Kialandí e Formora tinham utilizado nos seus feitiços,
e onde era mais provável que tivessem cometido erros.
Oromis teve apenas alguns segundos para agir, pois assim que
começou a usar magia, Kialandí e Formora aperceberam-se dos
seus planos, entraram em pânico e começaram a lançar os seus
próprios feitiços. Oromis só conseguiu libertar-nos à terceira
tentativa. Como o fez exatamente, não sei. Duvido que ele próprio
o entendesse. Limitou-se a afastar-nos um dedo do sítio onde
estávamos.
Tal como Arya enviou o meu ovo de Du Weldenvarden para a
Espinha?, perguntou Saphira.
Sim e não, respondeu Glaedr. Sim, transportou-nos de um local
para o outro sem nos deslocar pelo espaço intermédio; mas não se
limitou a mudar a nossa posição, modificou também a nossa carne,
reformulando-a de tal forma que já não éramos quem antes
tínhamos sido. Muitas das partes mais pequenas do nosso corpo
podem ser trocadas sem quaisquer efeitos nefastos, e foi
exatamente isso que ele fez com todos os nossos músculos, ossos e
órgãos.
Eragon franziu a sobrancelha. Esse feitiço era uma proeza de alto
gabarito, um prodígio de destreza mágica que poucos poderiam
concretizar. Ainda assim, por muito impressionado que ele tenha
ficado, não pôde deixar de perguntar:
— Mas como poderia isso ter resultado, se continuavas a ser a
mesma pessoa?
Continuava a ser e, ao mesmo tempo, não. A diferença entre
aquilo que éramos antes e o que passámos a ser era ligeira, mas foi
o suficiente para neutralizar os encantamentos que Kialandí e
Formora tinham tecido à nossa volta.
E os feitiços que lançaram quando perceberam o que Oromis
estava a fazer?, perguntou Saphira.
Eragon julgou ver uma imagem de Glaedr a agitar as asas, como
se estivesse saturado de permanecer na mesma posição tanto
tempo.
O primeiro feitiço de Formora supostamente deveria matar-nos,
mas as nossas palavras neutralizaram-no. O segundo foi de
Kialandí...mas esse foi outra história. Era um feitiço que Kialandí
aprendera com Galbatorix e, por sua vez, este aprendera-o com os
espíritos que tinham possuído Durza. Sei isso porque estava em
contato com a mente de Kialandí quando ele construiu o
encantamento. Era um feitiço hábil e diabólico, com o propósito de
impedir Oromis de tocar e manipular o fluxo de energia em seu
redor, impedindo-o dessa forma de usar magia.
— Kialandí fez-te o mesmo a ti?
Teria feito, mas receou que este me matasse ou cortasse a
ligação com o meu coração dos corações, criando duas versões
independentes de mim que depois teriam de dominar. Mais ainda
do que os Elfos, nós, os dragões dependemos da magia para
existir. Sem ela depressa morremos.
Eragon sentia que aquilo despertara a curiosidade de Saphira.
Isso já aconteceu alguma vez? Alguma vez se cortou a ligação
entre um dragão e o seu Eldunarí, enquanto o corpo do dragão
estava ainda vivo?, perguntou ela.
Sim, mas isso é uma história para outra altura.
Saphira acalmou, mas Eragon percebeu que ela voltaria a
levantar essa questão, assim que pudesse.
— Mas o feitiço de Kialandí não impediu Oromis de fazer magia,
pois não?
Não totalmente. Deveria tê-lo impedido, mas Kialandí lançou o
feitiço ao mesmo tempo que Oromis nos deslocava de um lado
para o outro, por isso o seu efeito foi de alguma forma atenuado.
Ainda assim permitiu-lhe apenas usar formas rudimentares de magia
e, como sabes, o feitiço permaneceu com ele durante o resto da
sua vida, apesar dos esforços dos nossos melhores curandeiros.
— Porque é que as suas defesas não o protegeram?
Glaedr pareceu suspirar.
Isso é um mistério. Nunca ninguém fizera algo semelhante,
Eragon, e Galbatorix é o único ser ainda vivo que conhece o
segredo. O feitiço ficou ligado à mente de Oromis, mas pode não o
ter afetado diretamente, atuando em vez disso na energia em torno
dele ou na sua ligação com ela. Há muito que os Elfos estudam
magia, mas nem mesmo eles compreendem de que forma o
universo material e o imaterial interagem. É provável que nunca se
resolva esse enigma. Parece, contudo, razoável presumir que os
espíritos sabem mais do que nós acerca do material e do imaterial,
uma vez que são a personalização do último e que possuem o
primeiro na forma de Espetro.
Seja qual for a verdade, o resultado foi o seguinte: Oromis
lançou o feitiço e libertou-nos, mas o esforço foi extremo e ele
sofreu um ataque, o primeiro de muitos. Nunca mais foi capaz de
voltar a lançar um feitiço tão poderoso e, daí em diante, começou a
padecer de uma debilidade física que o teria matado se não fosse a
sua aptidão para a magia. Essa debilidade estava já presente
quando Kialandí e Formora nos capturaram, mas quando nos
deslocou e reformulou os nossos corpos, ela veio ao de cima, de
contrário a sua enfermidade teria ficado latente durante muitos
anos.
No instante em que Formora e o seu dragão — uma coisa
horrorosa, castanha — correram na nossa direção, seguidos de
perto pelos outros, Oromis caiu no chão, tão indefeso como uma
cria. Saltei por cima dele e ataquei, pois se eles tivessem percebido
que ele estava incapacitado, teriam aproveitado para invadir a sua
mente, dominando-a. Tive de os distrair até Oromis recuperar...
Nunca lutei tão ferozmente como naquele dia. Eram quatro contra
mim, cinco ao todo, se contássemos com Agaravel. O dragão
castanho e o vermelho de Kialandí eram mais pequenos do que eu,
mas tinham dentes mais aguçados e garras mais rápidas. Ainda
assim, a minha fúria deu-me mais força do que era habitual e eu
infligi ferimentos graves em ambos. Kialandí cometeu a imprudência
de se aproximar demais e eu agarrei-o com as garras e atirei-o
contra o seu dragão. Glaedr soltou um ronco divertido. A magia
dele não o protegeu contra isso. Um dos espigões do dragão
vermelho empalou-o e ele teria morrido ali mesmo se o dragão
castanho não me obrigasse a recuar.
Devíamos estar a lutar há cinco minutos, quando ouvi Oromis
gritar que tínhamos de fugir. Atirei com pó ao rosto dos meus
inimigos e voltei para junto de Oromis. Agarrei-o com a pata
dianteira, direita, e levantei voo de Edur Naroch. Kialandí e o seu
dragão não nos podiam seguir, mas Formora e o dragão castanho
fizeram-no.
Apanharam-nos a menos de um quilômetro e meio da torre de
vigia. Ficámos próximos diversas vezes e, depois, o dragão
castanho voou por baixo de mim e eu vi Formora prestes a atingirme
com a espada na pata direita. Creio que estava a tentar forçarme
a largar Oromis, ou talvez quisesse matá-lo. Torci-me para me
esquivar do golpe e, em vez de me acertar na pata direita, atingiume
na esquerda decepando-a.
A memória que perpassou a mente de Glaedr era uma sensação
intensa, gelada e cortante, como se a espada de Formora tivesse
sido forjada em gelo e não em aço. Eragon sentiu-se nauseado.
Engoliu em seco e apertou o espinho em frente da sela,
congratulando-se pelo fato de Saphira estar a salvo.
Doeu menos do que possas imaginar. Mas eu sabia que não
podia continuar a lutar, por isso virei e voei o mais depressa que
pude em direção a Ilirea. De certa forma, a vitória de Formora
virou-se contra ela, pois sem o peso da pata, consegui distanciarme
do dragão castanho, escapando.
Oromis conseguiu estancar a hemorragia, mas nada mais do que
isso. Ele estava demasiado fraco para contactar Vrael ou os outros
Cavaleiros mais velhos, avisando-os dos planos de Galbatorix. Nós
sabíamos que assim Kialandí e Formora o informassem, Galbatorix
iria atacar Ilirea. Se esperássemos, teríamos apenas tempo para
fortificar a cidade. Apesar de ser muito poderoso, a surpresa
continuava a ser a maior arma de Galbatorix, naquela época.
Quando chegámos a Ilirea, ficámos desanimados ao ver que
havia poucos membros da nossa ordem; na nossa ausência, outros
tinham partido à procura de Galbatorix, ou para se aconselharem
pessoalmente com Vrael, em Vroengard. Alertámos do perigo os
que restavam e conseguimos que eles avisassem Vrae, os outros
dragões e os Cavaleiros mais velhos. Eles pareciam não acreditar
que Galbatorix tivesse tropas suficientes para atacar Ilirea — ou que
se atrevesse a fazê-lo — mas acabámos por conseguir convencê-los
da verdade. Em consequência, eles decidiram que todos os
Eldunarís de Alagaësia deveriam ser levados para Vroengard, a fim
de ficarem em segurança.
Parecia uma medida prudente, mas devíamos tê-los mandado
para Ellesméra. No mínimo, deveríamos ter deixado os Eldunarís
que já estavam em Du Weldenvarden no mesmo sítio. Assim, pelo
menos alguns não teriam ido parar às mãos de Galbatorix.
Infelizmente, nenhum de nós pensou que estariam mais seguros
entre os Elfos do que em Vroengard, no coração da nossa ordem.
Vrael ordenou a todos os dragões e Cavaleiros, que estavam a
alguns dias de viagem de Ilrea, que se apressassem a regressar para
ajudar a defender a cidade. Mas Oromis e eu receámos que fosse
tarde demais, além de que não estávamos em condições de ajudar
a defender Ilirea. Por isso agarrámos nas provisões necessárias e
abandonámos a cidade nessa mesma noite, com os dois estudantes
que nos restavam — Brom e a tua homónima, Saphira. Creio que
viram a imagem que Oromis criou quando partimos.
Eragon acenou com a cabeça, com um ar alheado, recordando a
imagem da bela cidade salpicada de torres, na base de uma
escarpa, iluminada pela lua cheia do equinócio de outono.
Por isso, que não estávamos em Ilirea quando Galbatorix e os
Renegados a atacaram, algumas horas depois, e por isso também
não estávamos em Vroengard quando os traidores derrotaram o
poder combinado de todas as nossas tropas e saquearam Doru
Araeba. De Ilirea, viajámos para Du Weldenvarden, na esperança
de que os onze curandeiros conseguissem sarar o padecimento de
Oromis, e devolver-lhe a aptidão de praticar magia. Ao vermos que
não era possível, decidimos ficar, pois parecia mais seguro do que
voar até Vroengard, estando ambos debilitados pelos ferimentos e
suscetíveis de sofrer uma emboscada a qualquer momento, durante
a viagem.
Contudo, Brom e Saphira não ficaram connosco. Apesar das
nossas advertências, reuniram-se à batalha e foi nesse combate que
a tua homónima morreu, Saphira... Agora já sabem como os
Renegados nos capturaram e como escapámos.
Momentos depois Saphira disse:
Obrigada pela história, Ebrithil.
Não tens de agradecer, Bjartskular, mas não voltes a pedir para
a contar.
Quando a lua estava quase no seu zénite, Eragon viu um ninho
de luzes indistintas, alaranjadas, a flutuar na escuridão. Só algum
tempo depois percebeu que eram tochas e lanternas de Teirm, a
muitos quilômetros de distância. Muito acima das luzes, surgiu, por
instantes, um ponto amarelo vivo, como um grande olho, a fitá-lo.
Depois desapareceu e reapareceu, piscando num ciclo imutável,
como se o olho se estivesse a abrir e a fechar.
O farol de Teirm está ligado, disse, dirigindo-se a Saphira e a
Glaedr.
Então é porque vem aí uma tempestade, disse Glaedr.
Saphira parou de bater as asas e Eragon sentiu-a inclinar-se para
a frente, começando a planar longa e lentamente em direção ao
solo. Meia hora depois aterrou. Nessa altura, Teirm resumia-se a uma
vaga radiância, a Sul, e o feixe de luz do farol não passava de uma
estrela. À luz da lua, o solo rijo e plano da praia parecia quase
branco. As ondas que rebentavam eram cinzentas e negras, e
pareciam furiosas, como se o oceano quisesse devorar a terra a
cada vaga.
Eragon soltou as correias que tinha em torno das pernas e
desmontou Saphira, grato pela oportunidade de esticar os
músculos. Sentiu o cheiro a maresia, ao correr pela praia em
direção de um enorme pedaço de madeira que tinha sido arrastado
pela água, com o manto a ondular atrás de si. Ao aproximar-se do
pedaço de madeira, deu meia volta e voltou para junto de Saphira.
Estava sentada onde ele a tinha deixado, a olhar para o mar. Ele
fez uma pausa, interrogando-se se iria falar, pois sentia uma grande
tensão dentro dela. Ao ver que ela continuava em silêncio, Eragon
virou-se e voltou a correr até ao pedaço de madeira. “Falaria
quando estivesse preparada”, pensou.
Eragon correu para trás e para diante até sentir todo o corpo
quente e as pernas trémulas.
Contudo, durante todo esse tempo, Saphira manteve o olhar fixo
num ponto qualquer, à distância.
Eragon atirou-se para uma extensão de junças, junto dela e
Glaedr disse:
Seria uma imprudência tentares.
Eragon inclinou a cabeça, sem perceber a quem o dragão se
dirigira.
Eu sei que consigo, disse Saphira.
Tu nunca foste a Vroengard, disse Glaedr. Se houver uma
tempestade, poderás ser arrastada para o mar alto, ou pior. Vários
dragões morreram por excesso de confiança. O vento não é teu
amigo, Saphira. Pode ajudar-te, mas também pode destruir-te.
Eu não sou nenhuma cria para me darem recados acerca do
vento!
Não, mas ainda és jovem e não me parece que estejas
preparada para isto.
Se formos pelo outro lado, demoraremos demasiado tempo.
Talvez, mas é preferível chegar em segurança, do que não
conseguir lá chegar.
— De que estão a falar? — perguntou Eragon.
A areia em frente das patas de Saphira restolhou asperamente,
quando ela fletiu as garras, enterrando-as na areia.
Temos de fazer uma escolha, disse Glaedr. Daqui, Saphira
poderá voar diretamente para Vroengard, ou seguir a linha da costa
rumo a Norte até alcançar o ponto mais próximo da ilha, em terra,
virando então — e só então — para Oeste e atravessando o mar.
Qual seria o caminho mais rápido?, perguntou Eragon, embora
já soubesse a resposta.
Voar diretamente para lá, respondeu Saphira.
Mas se o fizesse teria de sobrevoar sempre a água.
Saphira eriçou-se.
Não é mais longe do que dos Varden até aqui, ou será que estou
errada?
Você está mais cansada e se houver uma tempestade...
Voarei em torno dela!, disse ela, bufando e libertando um jato
de chamas azuis e amarelas pelas narinas.
A chama afetou a visão de Eragon, deixando-lhe uma imagem
residual cintilante.
— Ah, não consigo ver — disse ele, esfregando os olhos na
tentativa de eliminar a imagem residual. “Seria realmente assim tão
perigoso voar diretamente até lá?”, questionou-se Eragon.
Pode ser perigoso, resmungou Glaedr.
Quanto tempo demoraríamos, se seguíssemos ao longo da
costa?
Meio dia, talvez um pouco mais.
Eragon coçou a barba no queixo, fixando a ameaçadora massa
de água. Depois olhou para Saphira e disse-lhe em voz baixa:
— Tens a certeza de que consegues fazer isto?
Ela torceu o pescoço e fitou-o com um grande olho. A pupila
expandira-se até ficar quase circular, e estava tão grande e negra
que Eragon sentiu que podia saltar para dentro dela e desaparecer.
Não podia estar mais certa, respondeu ela.
Eragon acenou com a cabeça e passou as mãos pelo cabelo,
habituando-se à ideia.
Nesse caso, temos de arriscar... Glaedr, podes guiá-la, se for
necessário? Podes ajudá-la?
O velho dragão manteve-se em silêncio por uns instantes,
surpreendendo depois Eragon com um sussurro semelhante ao que
Saphira fazia quando estava satisfeita ou divertida.
Muito bem, já que temos de desafiar o destino, não sejamos
cobardes. Pelo mar será.
Uma vez resolvido o assunto, Eragon voltou a subir para o dorso
de Saphira e esta, com um único salto, abandonou a segurança da
terra firme levantando voo sobre as ondas ínvias.

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