3 de junho de 2017

Capítulo 44 - Marradas

O ataque ao comboio de suprimentos transcorreu quase exatamente como Roran tinha planejado: três dias depois de deixarem o contingente principal dos Varden, ele e os outros cavaleiros desceram pela beira de uma ravina e atingiram de lado a fileira de carroções. Enquanto isso, os Urgals saltaram de onde estavam escondidos, atrás de rochas espalhadas no leito da ravina, para atacar o comboio pela frenteforçando-o a parar. Os soldados e carroceiros lutaram com bravura, mas a emboscada os tinha apanhado enquanto estavam sonolentos e desorganizados; e a força de Roran logo os dominou. Nenhum dos humanos ou dos Urgals morreu no ataque, e somente três sofreram ferimentos: dois humanos e um Urgal. Roran matou alguns soldados por si mesmo, mas, na maior parte do tempo, manteve-se recuado, concentrando-se em dirigir o ataque, como agora era sua responsabilidade. Ainda estava se sentindo pouco ágil e dolorido pelo açoitamento que tinha suportado, e não queria se esforçar mais do que o necessário, para não romper a teia de cascas de ferida que cobria suas costas.
Até aquele ponto, Roran não tivera dificuldade para manter a disciplina entre os vinte humanos e vinte Urgals. Apesar de ser óbvio que nenhum dos dois grupos se gostava nem confiava um no outro – atitude compartilhada por Roran, pois encarava os Urgals com a mesma suspeita e repulsa que teria qualquer homem que tivesse crescido nas proximidades da Espinha – haviam conseguido trabalhar juntos durante os três últimos dias praticamente sem que uma voz se levantasse.
Roran sabia que o fato de os dois grupos terem conseguido cooperar tão bem tinha muito pouco a ver com sua capacidade de comandante. Nasuada e Nar Garzhvog tiveram extremo cuidado ao escolher os guerreiros que deveriam seguir com ele, selecionando apenas aqueles com reputação de agilidade com a espada, bom discernimento e, acima de tudo, de índole calma e constante.
Contudo, depois de encerrado o ataque ao comboio de suprimentos, quando seus homens estavam ocupados arrastando os corpos dos soldados e dos carroceiros para formar uma pilha, e Roran cavalgava para cima e para baixo pela linha de carroções, supervisionando o trabalho, ele ouviu um grito de agonia de algum ponto perto da outra extremidade do comboio. Pensando que talvez outro contingente de soldados tivesse por acaso chegado ali, Roran gritou para Carn e alguns outros virem se juntar a ele, e tocou os flancos de Fogo na Neve com as esporas para galopar até a retaguarda dos carroções.
Quatro Urgals haviam amarrado um soldado inimigo ao tronco encarquilhado de um salgueiro e estavam se divertindo, com espetadas e cutucões das suas espadas. Praguejando, Roran desmontou de Fogo na Neve e, com um único golpe do martelo, encerrou a agonia do homem.
Um turbilhão de poeira envolveu o grupo quando Carn e mais quatro guerreiros chegaram a galope ao salgueiro. Puxaram as rédeas das montarias e entraram em forma de cada lado de Roran, mantendo as armas preparadas.
O Urgal maior, um guerreiro chamado Yarbog, deu um passo à frente.
— Martelo Forte, por que você interrompeu nossa diversão? Ele ainda teria dançado para nós por muitos minutos.
— Enquanto estiverem sob meu comando — disse Roran, com a voz contida —, vocês não torturarão cativos sem motivo. Entenderam? Muitos desses soldados foram forçados a servir Galbatorix a contragosto. Muitos deles são nossos amigos, parentes ou vizinhos. E, embora devamos lutar contra eles, não quero que sejam tratados com crueldade. Se não fosse pelos caprichos do destino, qualquer um de nós, humanos, poderia estar aí no lugar desses homens. Nossos inimigos não são eles. Galbatorix, sim, da mesma forma que é o inimigo de vocês.
A fronte pesada do Urgal se enfarruscou, quase escondendo seus olhos amarelos, fundos.
— Mas você ainda os mata, não mata? Por que não podemos nos divertir enquanto pulam e dançam primeiro?
Roran se perguntou se o crânio do Urgal seria espesso demais para quebrar com o martelo.
— Porque isso é errado, no fim de tudo! — Ele lutou para reprimir a raiva. E então apontou para o soldado morto. — E se ele fosse alguém da sua própria raça que tivesse sido dominado pelo espectro Durza? Você também o teria atormentado?
— Claro que sim — respondeu Yarbog. — Iam querer que nós lhes fizéssemos cócegas com nossas espadas, para terem a oportunidade de provar sua bravura antes de morrer. Não é assim com os humanos sem chifres? Ou vocês não conseguem aguentar dor?
Roran não sabia ao certo qual era a gravidade entre os Urgals do insulto de chamar alguém de sem chifres; mas, mesmo assim, não tinha a menor dúvida de que questionar a coragem de alguém era uma ofensa tão forte entre os Urgals quanto entre os humanos, se não era maior.
— Qualquer um de nós poderia suportar mais dor sem gritar do que você, Yarbog — respondeu ele, segurando melhor o martelo e o escudo. — Agora, a menos que você queira experimentar uma agonia tamanha que nem possa imaginar, entregue-me sua espada; então, desamarre o pobre desgraçado e o carregue até onde estão os outros corpos. Depois, vá cuidar dos cavalos de carga. Ficarão sob sua responsabilidade até chegarmos de volta aos Varden.
Sem esperar que o Urgal obedecesse, Roran se virou e segurou as rédeas de Fogo na Neve, preparando-se para montar de novo no garanhão.
— Não — rosnou Yarbog.
Com um pé no estribo, Roran ficou paralisado e praguejou consigo mesmo, em silêncio. Tivera a esperança de que uma situação exatamente como essa não surgisse durante a incursão.
— Não? — perguntou ele, dando meia-volta. — Você está se recusando a obedecer às minhas ordens?
— Não — respondeu Yarbog, arreganhando os lábios para mostrar as presas curtas. — Eu o estou desafiando pela liderança desta tribo, Martelo Forte. — E o Urgal jogou para trás a cabeça enorme, dando um berro tão forte que os outros humanos e Urgals pararam o que estavam fazendo e correram em direção ao salgueiro, até que todos os quarenta estavam reunidos em torno de Yarbog e Roran.
— Quer que cuidemos da criatura para você? — perguntou Carn, com a voz vibrante.
Desejando que não houvesse tantos espectadores, Roran abanou a cabeça.
— Não, vou lidar com ele sozinho. — Apesar das suas palavras, estava feliz por ter seus homens ao lado, diante da fileira de Urgals volumosos, de pele cinzenta. Os humanos eram menores que os Urgals, mas todos com exceção de Roran estavam a cavalo, o que lhes daria uma ligeira vantagem se houvesse uma luta entre os dois grupos. Se isso viesse a ocorrer, a magia de Carn seria de pouca utilidade, pois os Urgals tinham seu próprio feiticeiro, um xamã cujo nome era Dazhgra; e, pelo que Roran vira, Dazhgra era dos dois o mágico mais poderoso, embora não fosse tão conhecedor dos matizes da sua arte secreta. — Não é costume dos Varden conferir a liderança baseados em lutas por combate. Se você quiser lutar, lutarei, mas com isso você não ganhará nada. Se eu perder, Carn assumirá o comando, e você responderá a ele em vez de a mim.
— Ora! — retrucou Yarbog. — Não o estou desafiando pelo direito de liderar sua própria raça. Eu o desafio pelo direito de liderar a nós, os guerreiros da tribo de Bolvek! Você não se provou para nós, Martelo Forte. Portanto, não pode reivindicar a posição de chefe. Se você perder, eu me tornarei o chefe aqui, e nós não ergueremos o queixo para você, Carn, nem para nenhuma outra criatura fraca demais para conquistar nosso respeito!
Roran avaliou a situação antes de aceitar o inevitável. Mesmo que lhe custasse a vida, ele precisava manter sua autoridade sobre os Urgals, para que os Varden não os perdessem como aliados.
— Na minha raça — disse Roran, depois de respirar fundo —, o costume é que a pessoa desafiada escolha a hora e o lugar para a luta, além das armas que os dois adversários irão usar.
— A hora é agora, Martelo Forte — afirmou Yarbog, com um risinho no fundo da garganta. — O lugar é aqui. E na minha raça nós lutamos de tanga e sem armas.
— Não se pode dizer que isso seja justo, tendo em vista que eu não tenho chifres — salientou Roran. — Você permite que eu use meu martelo para compensar essa falta?
Yarbog pensou um pouco antes de responder.
— Você pode ficar com o elmo e o escudo, mas sem martelo. Não se permitem armas na luta para decidir quem será o chefe.
— Entendo... Bem, se não posso usar meu martelo, desisto do elmo e do escudo também. Quais são as regras do combate, e como decidiremos quem é o vencedor?
— Existe apenas uma regra, Martelo Forte: quem foge, abandona a disputa e é banido da tribo. Vence quem forçar o adversário a se submeter; mas, como eu nunca me submeterei, lutaremos até a morte.
Roran assentiu. Pode ser que seja essa a intenção dele; mas, se eu tiver alguma condição, não o matarei.
— Podemos começar — bradou, batendo com o martelo no escudo.
Seguindo suas instruções, os homens e Urgals abriram um espaço no meio da ravina e ali demarcaram um quadrado de doze passos de lado. Roran e Yarbog então se despiram. Dois Urgals besuntaram o corpo de Yarbog com gordura de urso enquanto Carn e Loften, outro humano, faziam o mesmo com Roran.
— Passem o máximo que puderem nas minhas costas — sussurrou Roran. Ele queria que as feridas estivessem tão úmidas quanto fosse possível para reduzir a um mínimo as possíveis rachaduras.
— Por que você recusou o escudo e o elmo? — quis saber Carn, inclinando-se bem perto dele.
— Só iriam me atrapalhar. Preciso ser veloz como uma lebre assustada se quiser evitar ser esmagado por ele.
Enquanto Carn e Loften aplicavam a gordura nos seus braços e pernas, Roran examinava o adversário, procurando qualquer vulnerabilidade que o ajudasse a derrotar o Urgal. Yarbog tinha bem mais de um metro e oitenta de altura. Tinha as costas largas, o tórax vigoroso, os braços e pernas de músculos bem definidos. O pescoço era grosso como o de um touro, para suportar o peso da cabeça e dos chifres recurvos. Três cicatrizes inclinadas marcavam o lado esquerdo da sua cintura, onde algum animal havia lhe fincado as garras. Cerdas negras cresciam espalhadas por todo o seu couro.
Pelo menos não é um Kull, pensou Roran. Tinha confiança na própria força; mas, mesmo assim, não acreditava que conseguisse dominar Yarbog pela mera força. Era raro o homem que poderia ter esperança de se equiparar ao poderio físico de um Urgal macho saudável. Além disso, Roran sabia que as grandes unhas pretas de Yarbog, suas presas, seus chifres e sua pele coriácea davam ao Urgal vantagens consideráveis no combate desarmado que estavam prestes a travar.
Se eu tiver como vencer, vencerei, decidiu Roran, pensando em todos os golpes baixos que poderia usar, porque lutar com Yarbog não seria como lutar com Eragon, Baldor ou qualquer outro homem de Carvahall. Pelo contrário, Roran tinha certeza de que seria como a briga feroz e incontrolável entre duas feras. Repetidamente, seus olhos voltaram aos chifres imensos de Yarbog, pois sabia que eram a característica mais perigosa de seu adversário. Com eles, o Urgal podia dar marradas e perfurar Roran livremente, e também protegeriam os lados da cabeça de Yarbog de quaisquer golpes que Roran pudesse dar com as mãos desarmadas, embora limitassem a visão periférica do Urgal. Ocorreu então a Roran que, exatamente como os chifres eram o maior dom natural de Yarbog, igualmente poderiam ser sua ruína. Roran girou os ombros e ficou saltando na ponta dos pés, ansioso para que a luta terminasse.
Quando tanto Yarbog como Roran estavam cobertos de gordura de urso, seus ajudantes se retiraram, e eles entraram nos limites da área no chão marcada com espeques.
Roran mantinha os joelhos parcialmente flexionados, pronto para saltar em qualquer direção à menor menção de movimento por parte de Yarbog. O solo rochoso estava frio, duro e áspero debaixo das solas dos seus pés descalços. Um leve sopro de vento agitou os galhos do salgueiro ali perto. Um dos bois atrelados aos carroções escarvou um tufo de capim, com os arreios rangendo.
Yarbog deu ura berro assustador e investiu contra Roran, cobrindo a distância entre eles em três passos retumbantes. Roran esperou até que Yarbog estivesse praticamente em cima dele para pular para a direita. No entanto, subestimou a velocidade de Yarbog. Com a cabeça baixa, o Urgal lhe deu uma chifrada no ombro esquerdo, atirando-o indefeso para o outro lado do quadrado.
Pedras pontudas feriram o lado do corpo de Roran quando ele bateu no chão. Latejos de dor percorreram suas costas, marcando o trajeto dos lanhos parcialmente curados. Ele deu um grunhido e rolou para ficar em pé, sentindo que algumas cascas se partiam e expunham a carne viva ao ar penetrante. Pequenos seixos e terra se grudaram à película de gordura no seu corpo. Andou na direção de Yarbog, sem levantar os pés do chão nem desviar os olhos do Urgal que rosnava. Mais uma vez, Yarbog investiu contra ele; e mais uma vez Roran tentou pular para escapar. Dessa vez, a manobra deu certo, e o Urgal não o pegou por uma questão de centímetros. Dando meia-volta, Yarbog investiu contra Roran pela terceira vez; e novamente Roran conseguiu escapar. Yarbog então mudou de tática. Avançando de lado, como um caranguejo, lançou as mãos enormes, em forma de gancho, para agarrar Roran e o puxar para seu abraço fatal. Roran se encolheu e recuou. Não importava o que acontecesse, precisava evitar cair nas garras de Yarbog. Com sua força colossal, o Urgal poderia acabar com ele de imediato.
Os homens e Urgals reunidos em torno do quadrado estavam calados, com a expressão impassível, enquanto observavam Roran e Yarbog se enfrentando de um lado para o outro na terra batida. Por alguns minutos, Roran e Yarbog trocaram golpes rápidos, de raspão. Sempre que possível, Roran evitava se aproximar demais do Urgal, tentando cansá-lo de longe. Mas, à medida que a luta se prolongava e Yarbog não parecia mais cansado do que no início, Roran concluiu que o passar do tempo não lhe era favorável. Se quisesse ganhar, precisaria terminar a luta sem demora.
Na tentativa de fazer com que Yarbog atacasse novamente – pois sua estratégia dependia disso – Roran se retirou para o canto do quadrado de onde seu opositor estava mais distante e começou a provocá-lo.
— Rá! Você é gordo e vagaroso como uma vaca leiteira! Será que não consegue me apanhar, Yarbog, ou suas pernas são feitas de banha? Você deveria era cortar fora esses seus chifres, de vergonha por deixar um humano o fazer de palhaço. O que vão pensar suas futuras parceiras quando souberem disso? Você vai lhes contar...
Yarbog abafou as palavras de Roran com um rugido. O Urgal saltou na sua direção, virando-se ligeiramente para jogar todo o seu peso sobre Roran. Saindo da frente, com um pulo, Roran estendeu as mãos para tentar pegar a ponta do chifre direito de Yarbog, mas errou o alvo e caiu aos tropeções no centro do quadrado, ralando os dois joelhos. Praguejou quando se pôs em pé de novo.
Freando sua investida desabalada exatamente antes que a inércia o levasse para fora dos limites do quadrado, Yarbog se voltou, procurando por Roran com seus pequenos olhos amarelos.
— Arrá! — gritou Roran, mostrando a língua e fazendo todos os gestos grosseiros que conseguiu imaginar. — Você não conseguiria acertar uma árvore nem que ela estivesse bem no seu nariz!
— Morra, inseto humano! — rugiu Yarbog, investindo contra Roran, com os braços estendidos.
Duas unhas de Yarbog escavaram sulcos sangrentos de um lado ao outro das suas costelas quando Roran deu uma guinada para a esquerda, mas ele ainda conseguiu segurar um dos chifres do Urgal e se pendurar nele. Roran agarrou também o outro chifre antes que Yarbog conseguisse atirá-lo longe. Usando os chifres como alças, Roran forçou a cabeça de Yarbog para um lado e, com o esforço de todos os músculos, jogou o Urgal ao chão. Esse movimento fez com que as costas de Roran irrompessem num protesto furioso. Assim que o tórax de Yarbog tocou na terra, Roran pôs um joelho no alto do seu ombro direito, imobilizando-o. Yarbog bufou e corcoveou, tentando se livrar do aperto de Roran, mas o homem se recusou a soltá-lo. Ele empurrou os pés contra uma rocha e torceu a cabeça do Urgal até onde conseguiu, puxando com tanta força que teria quebrado o pescoço de qualquer humano. A gordura nas palmas das mãos tornava mais difícil que se segurasse com firmeza aos chifres do adversário. Yarbog relaxou por um instante e depois se ergueu, sustentado apenas pelo braço esquerdo, levantando Roran junto e esgaravatando o chão com as pernas no esforço de conseguir uma posição a partir da qual pudesse ficar em pé. Roran amarrou a cara e se debruçou sobre o pescoço e ombros de Yarbog. Depois de alguns segundos, o braço esquerdo de Yarbog cedeu, e ele voltou a cair de barriga no chão. Tanto Roran como Yarbog arfavam como se tivessem apostado uma corrida. Onde os dois se tocavam, as cerdas no couro do Urgal picavam Roran como pedaços de arame duro. A poeira recobria seus corpos. Filetes de sangue escorriam dos arranhões nas costelas de Roran e das suas costas doloridas.
Yarbog voltou a escoicear e a se debater assim que recuperou o fôlego, saltando na terra como um peixe fisgado pelo anzol. Roran precisou recorrer a todas as suas forças, mas conseguiu mantê-lo preso, procurando não se importar com as pedras que cortavam seus pés e pernas. Sem conseguir se livrar, Yarbog relaxou os membros e começou a flexionar o pescoço sem parar, no esforço de levar os braços de Roran à exaustão. Ficaram ali, lutando, sem que nenhum dos dois conseguisse mover o outro mais do que alguns centímetros.
Uma mosca zumbiu acima deles e pousou no tornozelo de Roran. Bois mugiram. Depois de quase dez minutos, o suor encharcava o rosto de Roran. Ele parecia não conseguir ar suficiente para encher os pulmões. A dor nos seus braços era lancinante. As riscas nas suas costas davam a sensação de que estavam prestes a se rasgar. Suas costelas latejavam onde Yarbog tinha lhe fincado as garras. Roran sabia que não aguentaria muito mais.
Maldição!, pensou. Será que ele não vai desistir nunca?
Nesse exato momento, a cabeça de Yarbog estremeceu quando um músculo no seu pescoço se travou. Yarbog deu um grunhido, o primeiro som que emitia em mais de um minuto.
— Pode me matar, Martelo Forte — murmurou ele para ninguém ouvir. — Não consigo sobrepujá-lo.
— Não — rosnou Roran, num tom igualmente baixo, ajeitando as mãos nos chifres de Yarbog. — Se você quer morrer, procure outra pessoa que o mate. Lutei pelas suas regras. Agora, você vai aceitar a derrota de acordo com as minhas. Diga a todos que você se submete a mim. Diga que foi um erro você me desafiar. Faça isso, e eu o solto. Se não fizer, eu o manterei aqui até que mude de ideia, por mais tempo que demore.
A cabeça de Yarbog se agitou debaixo das mãos de Roran, quando o Urgal tentou mais uma vez se libertar. Ele bufou, soprando uma pequena nuvem de poeira no ar.
— Eu não aguentaria tanta vergonha, Martelo Forte. Pode me matar — resmungou Yarbog.
— Não pertenço à sua raça e não vou obedecer aos seus costumes — retrucou Roran. — Se está tão preocupado com sua honra, diga a quem quiser saber que você foi derrotado pelo primo de Eragon, Matador de Espectros. Sem dúvida, não pode haver vergonha nisso. — Quando alguns minutos se passaram e Yarbog ainda não tinha respondido, Roran lhe deu mais um puxão nos chifres e rosnou: — E então?
Levantando a voz para que todos os homens e Urgals ouvissem, Yarbog disse:
— Gar! Que Svarvok me amaldiçoe! Eu me entrego! Não deveria ter proposto esse desafio a você, Martelo Forte. Você é digno de ser chefe; e eu, não.
Em uníssono, os homens deram vivas e gritaram, batendo nos escudos com o botão do punho das espadas. Os Urgals se mexeram sem sair do lugar e nada disseram.
Satisfeito, Roran soltou os chifres de Yarbog e se afastou do Urgal cinzento rolando pelo chão. Sentindo-se quase como se tivesse sofrido outro açoitamento, levantou-se devagar e saiu mancando do quadrado para o lugar onde Carn o aguardava.
Roran se encolheu quando Carn jogou um cobertor sobre seus ombros e o tecido roçou na pele machucada. Com um sorriso, o feiticeiro lhe passou um odre de vinho.
— Depois que ele o derrubou, tive certeza de que o mataria. A esta altura, eu já devia ter aprendido a nunca descartar sua força, não é, Roran? Ora! Essa foi simplesmente a melhor luta que vi em toda a minha vida. Você deve ser o único homem na história a ter lutado corpo a corpo com um Urgal.
— Pode ser que não — disse Roran, entre goles do vinho. — Mas eu talvez seja o único que sobreviveu. — Ele deu um sorriso, e Carn riu.
Roran olhou para o lado dos Urgals, que estavam reunidos em torno de Yarbog, conversando com ele em grunhidos baixos, enquanto dois limpavam a banha e a sujeira dos membros de Yarbog. Embora parecessem estar sob controle, os Urgals não davam a impressão de estar com raiva nem com ressentimento, até onde Roran fosse capaz de avaliar; e teve confiança de que não enfrentaria mais problemas com eles.
Apesar da dor dos ferimentos, Roran estava feliz com o resultado do  confronto. Não será a última luta entre nossas duas raças, pensou ele, mas, desde que voltemos em segurança para os Varden, os Urgals não romperão a aliança conosco, pelo menos não por minha causa.
Depois de tomar um último gole, Roran arrolhou o odre e o devolveu a Carn.
— Muito bem — gritou. — Agora vamos parar com essa choradeira e tratar de acabar a lista do que está nos carroções! Loften, reúna os cavalos dos soldados, se não tiverem fugido para muito longe daqui! Dazhgra, cuide dos bois. Rápido! Thorn e Murtagh podem passar voando por aqui agora mesmo. Vamos! Depressa!
“E, Carn, onde é que foi parar a minha roupa?”

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Boa leitura :)