24 de junho de 2017

Capítulo 43 - O salão da profetisa

Q

Quando o homem a visitou pela terceira vez, Nasuada estava a
dormir, acordando sobressaltada com o ruído da porta a bater.
Segundos depois, lembrou-se onde estava. Franziu o
sobrancelha e piscou os olhos, tentando clarear a visão. “Quem lhe
dera poder esfregá-los.”
Franziu a testa ao olhar para o corpo e ver que ainda tinha uma
pequena nódoa húmida na camisa de dormir, no sítio onde lhe tinha
caído uma gota de vinho diluído durante a refeição.
“Porque voltou ele tão depressa?”
E sentiu o coração afundar-se ao ver o homem passar por ela
com uma grande braseira de cobre, cheia de carvão, que poisou
sobre as pernas, a pouco mais de um metro da laje. Em cima do
carvão havia três ferros compridos.
O momento que ela mais temia tinha finalmente chegado.
Nasuada tentou estabelecer contato visual com o homem, mas
este recusou-se a olhar para ela, tirou um pedaço de sílex e de aço
de uma bolsa presa ao cinto, e pegou fogo a um novelo
esfarrapado de mecha, ao centro do braseiro. Quando as fagulhas
começaram a fumegar e a propagar-se, a mecha brilhou como uma
bola de arame incandescente. O homem curvou-se e soprou
suavemente sobre o fogo incipiente, como uma mãe a beijar o filho,
e as fagulhas converteram-se em chamas suaves.
Manteve o fogo durante alguns minutos, construindo uma cama
de carvões com vários centímetros de espessura e a fumaça subiu em
direção a uma grade, lá em cima no teto. Nasuada observava com
um fascínio mórbido, incapaz de desviar o olhar, apesar de saber o
que a esperava. Nem ele nem ela falaram. Era como se ambos se
sentissem demasiado constrangidos com o que estava prestes a
acontecer, para o reconhecer.
Ele voltou a soprar no carvão e, depois, virou-se como se fosse
aproximar-se.
“Não te deixes ir abaixo”, disse para si, retesando o corpo.
Cerrou os punhos e susteve a respiração, enquanto o homem
caminhava na sua direção, aproximando-se cada vez mais.
Uma brisa semelhante ao toque de uma pena roçou-lhe no rosto,
quando ele passou, ouvindo o som dos passos diminuir à medida
que o carcereiro subia as escadas e saía da sala.
Um débil suspiro escapou-se-lhe dos lábios, e ela descontraiu
ligeiramente. Os carvões em brasa voltaram a atrair o seu olhar
como um íman. Um brilho mortiço, cor de ferrugem, subia pelos
ferros que saíam do braseiro.
Nasuada humedeceu os lábios e pensou como seria bom beber
um gole de água.
Um dos pedaços de carvão saltou e partiu-se em dois, mas
tirando isso, a sala mantinha-se silenciosa.
Esforçou-se para não pensar, enquanto esperava, ali deitada,
incapaz de lutar ou fugir. Pensar iria apenas enfraquecer a sua
determinação. O que quer que estivesse para acontecer, iria
acontecer e não havia medo nem ansiedade que pudessem alterar
isso.
Ouviram-se de novo passos no corredor, no exterior da câmara:
desta vez era um grupo de homens, alguns andavam ao mesmo
ritmo, outros não. Juntos produziram uma série de ecos ásperos
que não deixavam perceber quantas pessoas se estavam a
aproximar. A procissão deteve-se à entrada. Ela ouviu murmúrios e
depois identificou dois conjuntos de passos ruidosos no interior da
sala — “são botas de montar, de sola rija”, pensou.
A porta fechou-se com um estrondo sepulcral.
Ouviu passos firmes e determinados a descer a escada, e, nos
limites do seu campo de visão, viu alguém poisar uma cadeira
trabalhada de madeira.
Um homem sentou-se na cadeira.
Era corpulento, mas não era gordo e tinha os ombros largos.
Estava envolto numa longa capa negra. A capa parecia pesada,
como se fosse forrada de cota de malha. A luz dos carvões e das
lanternas sem chamas douravam-lhe os contornos do corpo, mas as
suas feições continuavam demasiado obscurecidas para se
distinguirem. Ainda assim, as sombras não escondiam os contornos
da coroa de pontas aguçadas que repousava sobre a sua testa.
O coração de Nasuada pareceu parar por instantes, retomando
a custo o ritmo acelerado.
Um segundo homem, de jaqueta púrpura e perneiras —
debruadas com fio dourado —, encaminhou-se para a braseira e
parou de costas viradas, enquanto mexia no carvão com os ferros.
O homem sentado na cadeira puxou os dedos das luvas um por
um e tirou-as. As mãos eram cor de bronze oxidado.
A voz era grave, intensa e autoritária. Qualquer bardo com um
instrumento vocal tão harmonioso seria louvado por todo o reino
como mestre dos mestres. Nasuada sentiu um formigueiro ao ouvila.
As palavras pareciam inundá-la como ondas quentes,
acariciando-a, seduzindo-a e prendendo-a. “Ouvi-lo era tão
perigoso como ouvir Elva”, concluiu ela.
— Bem-vinda a Urû’baen, Nasuada, filha de Ajihad — disse o
homem que estava sentado na cadeira. — Bem-vinda a minha casa,
por baixo destes penhascos ancestrais. Há muito que um convidado
tão distinto não nos brindava com a sua presença. Tenho estado
ocupado com outras coisas, mas asseguro-te que daqui em diante
não me descuidarei com os meus deveres de anfitrião. — Um tom
de ameaça surgiu-lhe na voz ao proferir as últimas palavras, como
uma garra que emergia da sua cobertura de pele.
Nasuada nunca tinha estado com Galbatorix pessoalmente,
apenas ouvira descrições e estudara desenhos dele, mas o efeito
que o seu discurso produziu nela foi de tal forma visceral e
poderoso, que não lhe restava qualquer dúvida que ele era de fato
o rei.
Havia vestígios de uma outra língua no sotaque e na dicção,
como se a língua em que estava a falar não fosse a mesma com que
fora educado. A diferença era subtil, mas impossível de ignorar
depois de se reparar nela. Talvez fosse pelo fato da língua ter
mudado depois do seu nascimento. Parecia-lhe a explicação mais
razoável pois aquela forma de falar lembrava-lhe... não, não lhe
lembrava coisa alguma.
Inclinou-se para a frente e sentiu um olhar penetrante fixo nela.
— És mais jovem do que eu esperava. Sabia que atingiste a
maioridade recentemente, mas mesmo assim não passas de uma
criança. Quase todos me parecem crianças, hoje em dia: crianças
estouvadas, vaidosas e imprudentes, incapazes de perceber o que é
melhor — crianças que precisam da orientação de alguém mais velho
e mais sensato.
— Gente como tu? — interpelou ela, com desdém.
Nasuada ouviu-o rir baixinho.
— Preferias que fossem os Elfos a governar-nos? Sou o único
membro da tua raça capaz de os manter à distância. Na perspetiva
deles, até os nossos anciãos de barba grisalha seriam considerados
jovens inexperientes e impreparados para assumir
responsabilidades de adultos.
— Na perspetiva deles, você também és. — Ela não fazia ideia de
onde lhe vinha aquela coragem, mas sentia-se forte e insolente.
Estava a determinada a dizer o que pensava, independentemente de
o rei a poder castigar por isso.
— Ah, mas não são apenas anos de vida que guardo dentro de
mim. Apossei-me das memórias de centenas. Um amontoado de
vidas: amores, ódios, batalhas, vitórias, derrotas, lições aprendidas,
erros cometidos — estão todas dentro da minha mente a
segredarem-me sabedoria. As minhas memórias abarcam eras.
Não há registo de ninguém como eu em toda a História, nem
mesmo entre os Elfos.
— Como é que isso é possível? — sussurrou ela.
Ele mudou de posição na cadeira.
— Nem penses em fingir diante de mim, Nasuada. Eu sei que
Glaedr deu o seu coração dos corações a Eragon e Saphira, e sei
que neste momento ele está com os Varden. você sabes do que estou
a falar.
Ela conteve um arrepio de pavor. O fato de Galbatorix querer
discutir essas coisas com ela — o fato de estar na disposição de
falar na fonte do seu poder, ainda que indiretamente — eliminou a
última réstia de esperança de que fosse sua intenção libertá-la.
Depois ele apontou para a sala com as luvas:
— Antes de prosseguirmos há algo que deverias saber acerca da
história deste lugar. A primeira vez que os Elfos se aventuraram a
vir a esta parte do mundo, descobriram uma fissura nas
profundezas da escarpa que se ergue sobre as planícies vizinhas.
Esse local era importante porque funcionava como defesa contra os
ataques de dragões, mas o seu interesse na fissura era outro,
totalmente diferente. Por mera casualidade, eles descobriram que
os vapores que se erguiam da fenda de pedra poderiam permitir
aos que dormissem perto dela ter vislumbres de acontecimentos
futuros, mesmo que um tanto confusos. Por isso, há mais de dois
mil e quinhentos anos atrás, os Elfos construíram esta sala no topo
da fissura e um oráculo veio para aqui viver durante largas centenas
de anos, mesmo depois dos Elfos abandonarem Ilirea. Ela sentavase
onde você está agora deitada e, durante séculos, entreteve-se a
sonhar com o passado e o futuro.
«Com o passar do tempo, o ar perdeu os seus efeitos e o
oráculo partiu com os seus criados. Ninguém sabe ao certo quem
ela era, nem para onde foi. O seu único nome ou epíteto era a
Profetisa e certas histórias levaram-me a concluir que não seria nem
um elfo nem um anão, mas algo totalmente diferente. Seja como
for, durante a sua estadia e, como seria de esperar, esta sala ficou
conhecida por o Salão da Profetisa e ainda hoje mantém esse nome
— só que agora a profetisa és tu, Nasuada, filha de Ajihad.»
Galbatorix abriu os braços.
— Este é um local onde se dizem... e ouvem as verdades. Não
tolerarei mentiras nesta sala, nem a mais pequena falsidade. Quem
quer que se deite nesse bloco de pedra dura converte-se no mais
recente profeta e, embora muitos tivessem considerado um papel
difícil de aceitar, no final ninguém o recusou, e você não serás
diferente.
As pernas da cadeira arranharam o chão e Nasuada sentiu o
hálito quente de Galbatorix junto do seu ouvido:
— Eu sei que será doloroso para ti, Nasuada, incrivelmente
doloroso. Terás de renunciar a ti mesma para que o teu orgulho te
permita a submissão. Não há nada mais difícil no mundo que alterar
o nosso próprio ego. Eu entendo isso porque me reformulei mais
do que uma vez. Contudo, estarei aqui para te apoiar nessa
transição. Não terás de fazer a viagem sozinha e poderás consolarte
com a evidência de que eu nunca te mentirei. Nenhum de nós o
fará. Nesta sala, nunca. Duvida de mim se quiseres, mas a seu
tempo acabarás por acreditar naquilo que digo. Considero este
local sagrado. Preferiria cortar a minha mão a profanar a ideia que
ele representa. Pergunta o que quiseres, Nasuada, filha de Ajihad,
que eu prometo-te que todos te responderemos com verdade.
Juro-o pela minha honra, como rei destas terras.
Ela mexeu o maxilar para trás e para diante, tentando decidir
como responder, dizendo depois de dentes cerrados:
— Eu nunca te revelarei o que pretendes saber!
Um riso baixo e grave, ecoou na sala.
— Você está a perceber mal as coisas. Eu não te trouxe aqui para
obter informações. Não há nada que me digas que eu já não saiba.
O número e a disposição das vossas tropas; a situação das vossas
provisões; a localização das vossas caravanas de provisões; a
forma como estão a planear montar o cerco nesta cidade; os
deveres, hábitos e aptidões de Eragon e de Saphira; a Dauthdaert
que conseguiram adquirir em Belatona; até mesmo os poderes de
Elva, a criança-feiticeira, que recentemente têm convosco — sei
tudo isso e muito mais. Queres que te cite os números?... Não?
Bom, está bem. Os meus espiões são mais numerosos e estão em
situações mais privilegiadas do que imaginas, mas tenho outros
meios para reunir informação. você não tens segredos para mim,
Nasuada — nem um como amostra —, portanto é inútil recusares-te
a falar.
Aquelas palavras atingiram-na como golpes de martelo, mas ela
fez o possível para não desmotivar.
— Então porque foi?
— Porque te trouxe até aqui? Porque tens o dom do comando,
minha querida, e isso é muito mais mortífero que qualquer feitiço.
Nem Eragon nem os Elfos representam qualquer ameaça para mim,
agora tu... você és perigosa de uma forma que eles não o são. Sem ti
os Varden serão como um touro cego. Roncarão, gritarão de raiva
e atacarão a direito, sem querer saber o que lhe poderá aparecer
pelo caminho. Depois, eu irei apanhá-los e usarei a sua própria
loucura para os destruir.
«Mas a destruição dos Varden não foi o motivo por que te
raptei. Não, você você está aqui porque te revelaste merecedora da minha
atenção. És feroz, tenaz, ambiciosa e inteligente — qualidades que
mais prezo nos meus servos. Quero-te a meu lado, Nasuada, como
conselheira-mor e general do meu exército, enquanto implemento
os estágios finais do grandioso plano que há quase um século ando
a preparar. Uma nova ordem está prestes a estabelecer-se em
Alagaësia e eu quero que você participes nela. Desde que o último dos
Treze morreu, procuro gente capaz para os substituir, mas só muito
recente os meus esforços deram alguns frutos. Durza era uma
ferramenta preciosa, mas tinha algumas limitações pelo fato de ser
um Espetro: indiferença pela própria sobrevivência, para nomear
apenas uma. De todos os candidatos que examinei, Murtagh foi o
primeiro que considerei elegível e o primeiro a sobreviver aos testes
a que o sujeitei. Estou certo de que você serás a próxima, e Eragon o
terceiro.
Nasuada foi percorrida por uma sensação de terror, ao ouvi-lo.
“O que ele estava a sugerir era bem pior do que imaginara.”
O homem de vermelho, que estava junto da braseira,
sobressaltou-a, enterrando um dos ferros com tanta força nos
carvões, que a ponta deste bateu ruidosamente na taça de cobre.
Galbatorix continuou a falar:
— Se sobreviveres, terás hipótese de concretizar mais do que
jamais te seria possível realizar junto dos Varden. Pensa no
assunto! Ao meu serviço, poderias levar a paz a toda a Alagaësia e
serias o meu braço direito na concretização dessas mudanças.
— Mais depressa me deixaria morder por mil víboras do que
aceitaria servir-te — disse-lhe ela, cuspindo para o ar.
O riso de Galbatorix voltou a ecoar pela sala: era o riso de
alguém que nada receava, nem mesmo a morte.
— Veremos.
Ela retraiu-se ao sentir um dedo tocar-lhe no interior do
cotovelo. O dedo traçou lentamente um círculo, deslizando depois
até à primeira cicatriz do antebraço e detendo-se sobre a saliência
de carne. Sentia-o quente contra a sua pele. O dedo bateu-lhe ao
de leve, três vezes, no braço. Depois, prosseguiu até às outras
cicatrizes e voltou para trás, passando sobre elas como se fossem
uma tábua de lavar roupa.
— Derrotaste um adversário no Teste das Facas Longas — disse
Galbatorix —, e com mais golpes do que há memória alguém ter
conseguido suportar. Isso significa que és excepcionalmente
determinada e que consegues conter a tua imaginação — é a
imaginação hiperativa e não o medo em excesso que faz dos
homens cobardes, ao contrário do que muitos pensam. Contudo,
nenhuma dessas facetas te poderá ajudar agora. Muito pelo
contrário; serão um obstáculo. Todos têm um limite, seja físico ou
mental. A questão é saber quanto tempo levarás a chegar a esse
ponto — e vais chegar, garanto-te. A tua força poderá adiar esse
momento, mas não evitá-lo. Nem as tuas proteções te valerão,
enquanto estiveres sob a minha alçada. Para quê sofreres
desnecessariamente? Ninguém questiona a tua coragem, pois já a
demonstraste ao mundo inteiro. Desiste agora. Aceitar o inevitável
não seria uma vergonha. Prosseguires seria sujeitares-te a uma série
de tormentos, apenas para aplacares a tua noção de dever.
Apazigua-a e brinda-me com o teu voto de lealdade na língua
antiga e, em menos de uma hora, terás uma dúzia de criados às tuas
ordens, vestidos de seda e damasco para usares, uma série de salas
para viveres, e um lugar à minha mesa quando jantarmos.
Fez uma pausa à espera que ela lhe respondesse, mas Nasuada
olhou para as linhas pintadas no teto, recusando-se a falar.
O dedo continuou a sua exploração, deslizando das cicatrizes
até à concavidade do pulso, e deteve-se pesadamente sobre uma
veia.
— Está bem, como queiras. — A pressão sobre o pulso
desapareceu. — Vamos, Murtagh, revela-te! Você está a ser indelicado
para com a nossa hóspede.
“Oh não, ele também?”, pensou Nasuada, sentindo subitamente
uma tristeza enorme.
O homem de vermelho que estava junto da braseira virou-se
lentamente e, embora usasse uma máscara de prata a cobrir-lhe a
metade superior do rosto, ela conseguiu perceber que era de fato
Murtagh. Os seus olhos mal se viam nas sombras e a expressão da
boca e dos maxilares era sombria.
— Murtagh estava um pouco relutante quando entrou ao meu
serviço, mas desde então revelou-se um estudante bastante apto.
Tem o talento do pai, não é verdade?
— Sim, senhor — anuiu Murtagh num tom rouco.
— Surpreendeu-me ao matar o velho rei Hrothgar, nas Planícies
Flamejantes. Nunca imaginei que ele se virasse contra os seus
amigos tão facilmente, mas o nosso Murtagh tem muita raiva e sede
de sangue dentro de si, lá isso é verdade. Destroçaria a garganta de
um Kull com as próprias mãos, se eu lhe desse hipótese, e eu dei
mesmo. Nada te dá mais prazer do que matar, não é?
Os músculos no pescoço de Murtagh contraíram-se.
— Não, senhor.
Galbatorix riu baixinho.
— Murtagh, Assassino de Reis... Um belo epíteto, um epíteto
digno de uma lenda, mas que não deves voltar a conquistar, a não
ser sob as minhas ordens. — Dirigindo-se a Nasuada, disse: — Até
agora negligenciei a sua educação na arte subtil da persuasão,
motivo pelo qual o trouxe aqui comigo, hoje. Ele tem alguma
experiência como objeto dessa arte, mas não como praticante, e já
é mais que tempo de aprender a dominá-la. E haverá melhor forma
de a aprender senão contigo, aqui? Afinal de contas foi Murtagh
que me convenceu que você merecias reunir-te à minha nova geração
de discípulos.
Uma estranha sensação de traição percorreu-a. Apesar do que
acontecera tinha uma outra ideia de Murtagh. Sondou o seu rosto
em busca de uma explicação, mas ele estava hirto como um guarda
de sentinela, desviando o olhar para que ela não pudesse deduzir
nada da sua expressão.
Depois o rei apontou para a braseira, dizendo num tom formal:
— Tira um ferro!
Murtagh cerrou os punhos, mas não se mexeu.
Uma palavra ressoou nos ouvidos de Nasuada como um enorme
sino e a própria matéria de que o mundo era feito pareceu vibrar
com o som, como se um gigante tangesse os fios da realidade. Por
instantes, ela sentiu-se cair e o ar em redor tremeluziu como água.
Apesar do seu poder, não conseguia lembrar-se das letras que
compunham a palavra nem a que língua pertencia, pois esta passoulhe
pela mente deixando apenas a memória do seu efeito.
Murtagh estremeceu e depois torceu o corpo, agarrando num
dos ferros e retirando-o hesitantemente da braseira. O ferro
projetou uma chuva de fagulhas, ao sair dos carvões, e várias
brasas cintilantes flutuaram para o chão, em espiral, como sementes
de pinheiro caídas das pinhas.
A ponta do ferro brilhava num amarelo pálido, escurecendo
gradualmente para um tom avermelhado de laranja, enquanto
Nasuada a observava. A luz do metal incandescente refletia-se na
máscara polida de Murtagh, conferindo-lhe uma aparência grotesca
e desumana. Nasuada viu o seu reflexo na máscara: um torso
disforme e pernas longas e finas que diminuíam de tamanho,
convertendo-se em linhas negras ao longo da curva da face de
Murtagh.
Por muito inútil que fosse, ela debateu-se nas grilhetas, enquanto
Murtagh avançava na sua direção.
— Não entendo — disse a Galbatorix, fingindo-se calma. — Não
vais usar a tua mente contra mim? — Não que pretendesse que ele o
fizesse, mas preferia defender-se de um ataque à sua consciência
do que suportar a dor do ferro.
— Haverá tempo para isso, mais tarde, se for necessário — disse
Galbatorix. — Por agora estou curioso em saber até que ponto és
corajosa, Nasuada, filha de Ajihad. Além disso, preferia não ter de
dominar a tua mente e forçar-te a jurar-me lealdade. Quero que
tomes essa decisão de livre vontade e enquanto estiveres em posse
das tuas faculdades.
— Porquê? — disse ela, num tom de voz rouco.
— Porque me agrada. Pela última vez, submetes-te?
— Nunca.
— Assim seja, então. Murtagh?
O ferro desceu na sua direção. A ponta parecia um enorme rubi
cintilante.
Não lhe deram nada para morder, por isso não teve outro
remédio senão gritar. E a câmara octogonal ecoou com os seus
gritos de agonia, até a voz ceder e uma escuridão absorvente a

envolver no seu manto.

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