3 de junho de 2017

Capítulo 43 - Entre as nuvens

De Tronjheim, Saphira voou os oito quilômetros até o portão interno de Farthen Dûr. Em seguida, ela e Eragon entraram no túnel que conduzia ao leste por vários quilômetros subterrâneos. Eragon poderia ter corrido a extensão do túnel em mais ou menos dez minutos, mas como a altura do teto impedia Saphira de voar ou de saltar, ela não teria sido capaz de acompanhá-lo, de modo que ele foi obrigado a limitar sua velocidade a uma caminhada mais intensa.
Urna hora mais tarde, emergiram no vale Odred, que ia de norte a sul. Aninhado entre os pés da montanha no topo do estreito vale repleto de samambaias ficava Fernoth-mérna, um lago de razoáveis proporções que parecia uma gota de tinta preta entre as gigantescas montanhas da cadeia Beor. Da extremidade norte do lago fluía o Ragni Darmn, que serpenteava vale acima até se juntar com o Az Ragni nos flancos de Moldûn a Orgulhosa, a montanha mais ao norte das Beor. Deixaram Tronjheim bem antes da alvorada, e embora o túnel houvesse diminuído a velocidade da dupla, ainda era cedo. A tosca faixa de céu acima estava bloqueada por leves raios amarelados por onde a luz do sol penetrava entre os picos das imensas montanhas. No vale abaixo, cristas de pesadas nuvens grudavam-se aos flancos das formações rochosas como enormes cobras cinzentas. Pequenas nuvens de névoa branca vagavam da superfície cristalina do lago. Eragon e Saphira pararam na beira de Fernoth-mérna para beber água e reabastecer os sacos de pele para o trecho seguinte da viagem. A água vinha da neve congelada do alto das montanhas. Era tão gelada que fazia os dentes de Eragon doerem. Ele fechou os olhos e bateu com os pés no chão, gemendo quando uma pontada de dor ocasionada pelo gelo atravessou sua cabeça.
À medida que o latejar foi diminuindo, ele olhou para o lago. Entre as cortinas de névoa em movimento, avistou as ruínas de um amplo castelo construído sobre uma pedra cortada na montanha. Espessas ramificações de hera estrangulavam as paredes decrépitas, mas, fora isso, a estrutura parecia sem vida. Eragon estremeceu. O edifício abandonado tinha uma aparência agourenta, calamitosa, como se fosse a carcaça decadente de alguma fera maligna.
Pronto?, Saphira perguntou. Pronto, ele respondeu e montou na sela.
De Fernoth-mérna, Saphira voou para o norte, seguindo o vale Odred para fora das montanhas Beor. O vale não dava diretamente em Ellesméra, que ficava mais ao norte, mas não tinham outra escolha a não ser permanecer ali, já que as passagens entre as montanhas tinham mais de oito quilômetros de altura. Saphira voava na altitude máxima suportada por Eragon porque era mais fácil para ela ultrapassar longas distâncias na atmosfera rarefeita das grandes altitudes do que em meio ao ar denso próximo do solo. Eragon protegia-se contra as temperaturas geladas vestindo diversas camadas de roupa e escudando-se do vento com um encanto que dividia a corrente de ar gelado de modo que fluísse ao seu lado, sem lhe causar nenhum desconforto.
Montar Saphira era tudo menos relaxante, mas quando ela mantinha um ritmo lento e estável, Eragon não precisava se concentrar em manter seu equilíbrio como era obrigado a fazer quando ela dava uma guinada, mergulhava ou empreendia alguma manobra mais elaborada. A maior parte do tempo ele dividia conversando com Saphira, pensando nos eventos das últimas semanas e estudando a eternamente mutante paisagem abaixo.
Você usou magia sem a língua antiga quando os anões o atacaram, disse Saphira. É muito perigoso fazer isso.
Eu sei, mas eu não tinha tempo para pensar nas palavras. Além do mais, você nunca usa a língua antiga para lançar encantos.
Isso é diferente. Eu sou um dragão. Nós não precisamos da língua antiga para demonstrar nossas intenções; sabemos o que queremos, e não mudamos de opinião tão facilmente quanto elfos ou humanos.
O sol alaranjado estava um palmo acima do horizonte quando Saphira atravessou a boca do vale por sobre as planícies relvadas e vazias que acompanhavam as montanhas Beor. Esticando-se na sela, Eragon olhou naquela direção e balançou a cabeça, maravilhado pela grande quantidade de quilômetros que haviam viajado.
Se ao menos tivéssemos podido voar para Ellesméra naquela primeira vez, ele disse, teríamos tido muito mais tempo para passar com Oromis e Glaedr. Saphira indicou sua concordância com um leve balançar da cabeça.
Ela voou até o sol se pôr, as estrelas cobrirem o céu e as montanhas virarem uma mancha escura atrás deles. Teria continuado até de manhã, mas Eragon insistiu para que parassem e descansassem. Você ainda está cansada da viagem a Farthen Dûr. Nós podemos viajar à noite amanhã e também no dia seguinte, mas agora devemos dormir.
Embora Saphira não gostasse da proposta, concordou e aterrissou perto de alguns salgueiros ao longo de um córrego. Assim que desmontou, Eragon descobriu que suas pernas estavam tão rígidas que teve dificuldades para permanecer de pé. Retirou a sela de Saphira e então esticou seu saco de dormir próximo a ela e se enroscou com as costas grudadas no corpo quente do dragão. Ele não necessitava de uma tenda, pois ela o abrigava com uma das asas, como um falcão protegendo sua cria. Os dois logo mergulharam em seus respectivos sonhos, que se misturavam de uma maneira estranha e maravilhosa, já que suas mentes permaneciam ligadas mesmo durante o sono.


Assim que o primeiro sinal de luz surgiu a leste, Eragon e Saphira seguiram seu caminho, planando bem acima das planícies verdejantes.
Um forte vento de proa começou a soprar no meio da manhã, o que diminuiu a velocidade de Saphira pela metade. Por mais que se esforçasse, ela não conseguia se alçar acima do vento. Durante todo o dia, lutou contra a forte corrente de ar. Era um trabalho árduo e, embora Eragon lhe desse o máximo de força que ousava dar, à tarde sua exaustão já era profunda. Ela rodopiou para baixo e aterrissou sobre uma pequena elevação na planície relvada e ficou sentada com as asas dobradas no chão, arquejando e tremendo.
Nós deveríamos ficar aqui nessa noite, Eragon disse.
Não.
Saphira, você não está em condições de continuar a viagem. Vamos acampar aqui até você. melhorar. Quem sabe o vento não diminui durante a noite.
Ele ouviu a aspereza úmida da língua quando ela lambeu os beiços, e depois o sobe e desce dos pulmões quando ela recomeçou a arquejar. Não. Nessas planícies o vento pode soprar por semanas ou até meses a fio. Não podemos esperar a calmaria.
Mas...
Eu não vou desistir apenas porque estou sentindo dor, Eragon. Muitas coisas estão em jogo...
Então deixe-me lhe dar energia de Aren. Tem mais do que suficiente no anel para sustentar você daqui a Du Weldenvarden.
Não, ela repetiu. Poupe Aren para quando nós não tivermos mais nenhum recurso. Eu posso descansar e me recuperar na floresta. Aren, todavia, talvez nos seja útil a qualquer momento; você não deveria desperdiçá-lo simplesmente para melhorar meu desconforto.
Mas eu odeio ver você sofrendo tanto.
Um leve rosnado escapou dela. Meus ancestrais, os dragões selvagens, não recuariam por causa de uma brisa infantil como essa, nem eu recuarei. E com isso ela saltou de volta para o ar, carregando Eragon consigo enquanto se preparava para encarar novamente o vento.
À medida que o dia se encaminhava para o fim e o vento ainda soprava em torno deles, afrontando Saphira como se o destino estivesse determinado a impedir que eles chegassem a Du Weldenvarden, Eragon pensou na anã Glûmra e na fé que ela nutria pelos deuses anões. E pela primeira vez em sua vida, sentiu desejo de rezar. Retirando-se de seu contato mental com Saphira – que estava tão cansada e preocupada que nem reparou – Eragon sussurrou: “Gûntera, rei dos deuses, se existirdes, e se puderdes me ouvir, e se tiverdes o poder então, por favor, acalmai o vento. Sei que não sou anão, mas o rei Hrothgar me adotou em seu clã, e imagino que isso me dá o direito de vos dirigir uma oração. Gûntera, por favor, nós temos de chegar a Du Weldenvarden o mais rápido possível, não apenas pelo bem dos Varden mas também pelo bem de seu povo, os knurlan. Por favor, eu vos rogo, acalmai o vento. Saphira não aguentará muito mais.” Então, sentindo-se levemente tolo, Eragon estendeu-se na direção da consciência de Saphira, encolhendo-se em solidariedade ao sentir seus músculos queimando.
Mais tarde naquela noite, quando tudo estava frio e negro, o vento ficou moderado e, em seguida, se transformou em uma confortável lutada. Quando a manhã chegou, Eragon olhou para baixo e avistou a dura e seca paisagem do deserto Hadarac.
Maldição, lamentou ele, porque não haviam ido tão longe quanto esperara. Não chegaremos a Ellesméra hoje, não é?
Não, a não ser que o vento decida soprar na direção oposta e nos carregue até lá em suas costas. Saphira laborou em silêncio por mais alguns minutos e depois acrescentou: Entretanto, tirando qualquer outra surpresa desagradável, nós deveremos chegar a Du Weldenvarden ao anoitecer.
Eragon gemeu. Eles aterrissaram apenas duas vezes naquele dia. Uma vez, enquanto estavam no solo, Saphira devorou uma parelha de patos que capturara e matara com uma rajada de fogo. Além disso, ela não comeu nada. Para poupar tempo, Eragon comia suas refeições na sela mesmo.


Como Saphira havia previsto, Du Weldenvarden ficou à vista assim que o sol começou a se pôr. A floresta apareceu diante deles como uma interminável extensão de verde. Árvores milenares – carvalhos, faias e bordos – dominavam as partes externas, mais para dentro, no entanto, Eragon sabia, davam lugar aos proibitivos pinheiros que formavam o grosso da floresta. A madrugada já se instalara no campo quando chegaram à fronteira de Du Weldenvarden, e Saphira deslizou para uma suave aterrissagem abaixo dos galhos espalhados de um gigantesco carvalho. Dobrou as asas e se sentou por um instante, cansada demais para prosseguir. Sua língua carmesim pendia da boca.
Enquanto ela descansava, Eragon ouvia o farfalhar das folhas, o piar das corujas e o chilrear dos insetos noturnos. Quando já estava suficientemente recuperada, Saphira seguiu em frente, passou entre dois gigantescos carvalhos cobertos de musgo e assim cruzou Du Weldenvarden andando.
Os elfos haviam tornado possível para qualquer um ou qualquer coisa entrar andando na floresta por meio de magia, e como os dragões não contavam apenas com seus corpos para voar, Saphira não poderia entrar enquanto estivesse no ar, ou suas asas falhariam e ela cairia do céu.
Aqui já deve ser suficiente, supôs Saphira, parando em uma pequena campina a vários metros do perímetro da floresta. Eragon desafivelou as correias das suas pernas e deslizou pelo flanco do dragão. Deu uma busca pela campina até encontrar uma faixa de terra nua. Com suas mãos, cavou um buraco raso de mais ou menos cinquenta centímetros de diâmetro. Convocou um pouco de água para encher o buraco e então proferiu o encanto da cristalomancia. A água tremeluziu e adquiriu um suave brilho amarelado quando Eragon identificou o interior da cabana de Oromis. O elfo de cabelos cor de prata estava sentado à mesa na cozinha, lendo um pergaminho esfacelado. Oromis levantou o olhar para Eragon e balançou a cabeça em um reconhecimento desprovido de surpresa.
— Mestre — chamou Eragon, e contorceu a mão na frente do peito.
— Saudações, Eragon. Tenho estado à sua espera. Onde você está?
— Saphira e eu acabamos de alcançar Du Weldenvarden... Mestre, eu sei que prometemos retornar a Ellesméra, mas os Varden estão a apenas alguns dias da cidade de Feinster, e são vulneráveis sem a nossa presença. Não temos tempo para voar até aí. O senhor poderia responder a nossas perguntas aqui, através da cristalomancia?
Oromis recostou-se em sua cadeira, seu rosto anguloso grave e pensativo.
— Não instruirei vocês à distância, Eragon. Posso adivinhar algumas das coisas que desejam perguntar a mim, e esses são assuntos que devemos discutir frente a frente.
— Por favor, mestre. Se Murtagh e Thorn...
— Não, Eragon. Entendo o motivo de sua urgência, mas seus estudos são tão importantes quanto proteger os Varden, talvez até mais importantes. Nós devemos proceder adequadamente, ou nada será feito.
Eragon suspirou e se inclinou à frente.
— Sim, mestre.
Oromis assentiu com a cabeça.
— Glaedr e eu estamos esperando por vocês. Voem em segurança e com rapidez. Temos muito o que conversar.
— Sim, mestre.
Sentindo-se entorpecido e exausto, Eragon encerrou o encanto. A água foi tragada pelo solo. Ele segurou a cabeça nas mãos, mirando a faixa de terra molhada entre seus pés. A respiração pesada de Saphira estava audível ao seu lado.
Acho que temos de seguir viagem, ele concluiu. Sinto muito.
A respiração fez uma pausa por um momento enquanto o dragão lambia os beiços. Está tudo bem. Não vou ter um colapso.
Ele levantou o olhar para ela. Tem certeza?
Tenho.
Apesar de relutante, Eragon levantou-se e montou em suas costas.  que estamos indo para Ellesméra, ele disse, apertando as correias em volta das pernas, nós deveríamos visitar a árvore Menoa novamente. Quem sabe não descobrimos finalmente o que Solembum quis dizer. Uma nova espada seria certamente bem-vinda.
Quando Eragon encontrara Solembum pela primeira vez em Teirm, o menino-gato dissera a ele: Quando chegar a hora e você precisar de uma arma, olhe embaixo das raízes da árvore Menoa. Depois, quando tudo parecer perdido e o seu poder não for suficiente, vá até a pedra de Kuthian e diga o seu nome para abrir o cofre das Almas.
Eragon ainda não sabia onde ficava a pedra de Kuthian, mas durante sua primeira estada em Ellesméra, ele e Saphira tiveram inúmeras chances de examinar a árvore Menoa. Não haviam descoberto nenhuma pista que indicasse o paradeiro exato da suposta arma. Musgo, terra, cascas de árvores e ocasionais formigas eram as únicas coisas que haviam encontrado entre as raízes da árvore Menoa, e nada disso indicava onde deveriam escavar.
Solembum pode não ter tido a intenção de dizer espada, Saphira apontou. Meninos-gatos adoram charadas quase tanto quanto os dragões. Se ela existe, essa arma deve ser um pedaço de pergaminho com um encanto escrito, ou um livro, ou uma pintura, ou um pedaço afiado de pedra, ou qualquer outra coisa perigosa.
Seja lá o que for, espero que encontremos. Quem sabe quando teremos outra chance de voltar a Ellesméra?
Saphira jogou para o lado uma árvore caída que aparecera diante de si, se agachou e abriu as asas aveludadas; os maciços músculos dos ombros intumescendo com o movimento. Eragon deu um berro e agarrou a parte da frente de sua sela quando ela se movimentou para a frente e para cima com inesperada força, erguendo-se acima do topo das árvores com um único e vertiginoso impulso.
Rodando por cima do mar de galhos de diversos tamanhos e formatos, Saphira orientou-se para a direção noroeste e seguiu para a capital dos elfos, as batidas de suas asas lentas e pesadas.

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