24 de junho de 2017

Capítulo 42 - O tormento da incerteza

N

asuada abriu os olhos.
O teto escuro, abobadado, estava coberto de azulejos
pintados com desenhos angulares vermelhos, azuis e dourados:
uma complexa matriz de linhas prendeu-lhe o olhar durante alguns
momentos de alheamento.
Entretanto, fez um esforço para desviar o olhar.
Um brilho constante, alaranjado, irradiava de uma fonte de luz,
algures atrás de si. O brilho permitia distinguir a forma octogonal da
sala, mas não era suficientemente forte para desalojar as sombras
agarradas aos cantos, como gaze, tanto em cima como em baixo.
Engoliu e sentiu a garganta seca.
A superfície onde estava deitada era fria, plana e
desconfortavelmente dura; parecia-lhe pedra debaixo dos
calcanhares e das almofadas dos dedos. Sentiu um arrepio
percorrer-lhe os ossos e foi então que percebeu que usava apenas
uma fina camisa branca com que dormira.
“Onde estou?”
As memórias voltaram todas ao mesmo tempo, sem sentido nem
ordem: uma sucessão indesejável de imagens que lhe estrondearam
na mente, com uma violência quase física.
Arquejou e tentou sentar-se — numa tentativa de se levantar, fugir
ou lutar se fosse necessário —, mas descobriu que não conseguia
mover-se mais do que escassos centímetros em qualquer direção.
Tinha grilhetas acolchoadas em torno dos pulsos e dos tornozelos,
e um grosso cinto de couro prendia-lhe firmemente a cabeça contra
a laje, impedindo-a de a erguer ou virar.
Ela fez força contra as grilhetas, mas eram fortes demais para as
rebentar.
Respirou fundo, relaxou o corpo e olhou de novo para o teto. A
pulsação martelava-lhe os ouvidos, como a batida desenfreada de
um tambor. O calor inundou-lhe o corpo. Sentia as faces a arder, e
as mãos e os pés pareciam cobertos de sebo derretido.
“Então é assim que vou morrer.”
Por instantes, deixou-se possuir pelo desespero e pela autopiedade.
Mal iniciara a sua vida e, no entanto, esta parecia prestes
a terminar da forma mais vil e miserável possível. E o pior é que
não tinha concretizado nada do que esperara realizar: fosse na
guerra, no amor, na natividade ou na vida. Como legado tinha
apenas batalhas, cadáveres e caravanas de provisões sobre rodas;
incontáveis estratagemas; juramentos de amizade e de lealdade que
agora valiam menos que a promessa de um saltimbanco; e um
exército hesitante, indisciplinado e demasiado vulnerável,
comandado por um Cavaleiro mais jovem do que ela. Parecia-lhe
um fraco legado para a memória do seu nome — e nada mais que
uma memória restaria, pois ela era a última da sua linhagem.
Quando morresse, não restaria ninguém para dar continuidade à
sua família.
A ideia era dolorosa e Nasuada censurou-se a si mesma por não
ter tido filhos enquanto tivesse sido possível.
— Lamento — sussurrou, vendo o rosto do pai diante de si.
Mas depois disciplinou-se e afastou o desespero. A única coisa
que podia controlar era o seu auto-domínio e não estava na
disposição de abrir mão dele pelo prazer duvidoso de se
abandonar às dúvidas, medos e mágoas. Enquanto dominasse os
seus pensamentos e sensações não estaria totalmente indefesa. A
liberdade da mente era a mais pequena das liberdades, mas
Nasuada sentia-se grata por ela, e a evidência de poder em breve
ser despojada dela, deixou-a ainda mais determinada a exercitá-la.
Fosse como fosse, tinha ainda um derradeiro dever a cumprir:
resistir ao interrogatório. Para isso teria de estar totalmente segura
de si, caso contrário cederia rapidamente.
Abrandou a respiração e concentrou-se no fluxo regular do ar na
garganta e nas narinas, deixando que essa sensação abafasse todas
as outras. Quando se sentiu razoavelmente calma, tentou decidir em
que é que seria mais seguro pensar. Havia tantos temas perigosos —
para ela, para os Varden, para os seus aliados, para Eragon e
Saphira. Não reviu aqueles que deveria evitar, pois poderiam
facultar aos seus carcereiros a informação que pretendiam, ali,
naquele instante. Em vez disso, escolheu uma série de memórias e
pensamentos aparentemente benignos e fez um esforço para ignorar
o resto e convencer-se de que tudo o que era e sempre fora se
baseava unicamente nesses elementos.
Basicamente tentou recrear uma nova identidade, mais simples,
para que quando a interrogassem sobre isto ou aquilo, conseguisse
alegar ignorância com uma absoluta honestidade. Era uma técnica
perigosa. E para que funcionasse, teria de acreditar na sua própria
fraude e, se alguma vez fosse libertada, tornar-se-ia difícil recuperar
a sua verdadeira personalidade.
Mas também não tinha esperança que a resgatassem nem que a
libertassem. A única coisa que esperava era frustrar os desígnios
dos seus captores.
“Golkukara, dá-me força para resistir às tribulações que me
esperam. Cuida da tua pequena coruja e, se eu morrer, leva-me em
segurança deste lugar... leva-me em segurança para as terras do
meu pai.”
O seu olhar vagueou pela sala coberta de azulejos, enquanto a
estudava mais detalhadamente. Deduziu que estava em Urû’baen.
Tinha toda a lógica que Murtagh e Thorn a tivessem levado para lá,
explicando a aparência élfica da sala. Grande parte de Urû’baen, a
cidade a que chamavam Ilirea, quer antes da sua guerra com os
dragões — há muito tempo atrás — como depois da cidade se tornar
a capital do Reino de Broddring e os Cavaleiros formalizarem a sua
presença dentro da cidade, fora construída pelos Elfos. Ou, pelo
menos, assim lhe dissera o pai, na medida em que não tinha
qualquer recordação da cidade.
Mas também poderia estar noutro sítio qualquer: numa das
propriedades particulares de Galbatorix e aquela sala poderia nem
ser como de fato ela a via. Um feiticeiro experiente conseguiria
manipular tudo o que ela via, sentia, ouvia e cheirava, podendo
distorcer o mundo em seu redor com formas que ela jamais
conseguiria detetar.
Independentemente do que lhe acontecesse — ou que parecesse
estar a acontecer — Nasuada não permitiria que a enganassem.
Mesmo que Eragon arrombasse a porta e a libertasse, ela
continuaria a acreditar que tudo não passava de um estratagema
dos seus captores, não se atrevendo a confiar no que os seus
sentidos lhe revelavam.
O mundo convertera-se numa mentira no momento em que
Murtagh a levara do acampamento, e era impossível saber quando
isso iria terminar, se é que alguma vez terminaria. A única coisa de
que tinha a certeza era que existia, tudo o resto era suspeito,
mesmo os seus pensamentos.
Depois do choque inicial abrandar, o tédio da espera começou a
desgastá-la. Não fazia ideia que horas seriam, a não ser pela fome
e pela sede que sentia. E a fome parecia aumentar e diminuir em
intervalos aparentemente irregulares. Tentou marcar as horas,
contando, mas a prática aborreceu-a, além de que parecia sempre
perder-lhes a conta quando chegava às dezenas de milhar.
Apesar dos horrores que certamente a esperavam, Nasuada
desejou que os seus captores se despachassem e se revelassem.
Gritou durante minutos a fio, mas tudo o que ouviu em resposta
foram ecos lamentosos.
A luz mortiça por trás de si nunca tremeluzia nem enfraquecia,
pelo que deduziu que provinha de uma lanterna sem chama,
semelhante às que os Anões faziam. Era-lhe difícil dormir com a luz,
mas a exaustão acabou por vencer e ela dormitou um pouco.
A possibilidade de sonhar apavorava-a, pois ficaria bastante
vulnerável enquanto dormisse e receava que o seu inconsciente
invocasse justamente toda a informação que pretendia ocultar.
Contudo, não tinha grandes alternativas. Mais cedo ou mais tarde,
ela teria de dormir e tentar manter-se acordada, iria apenas fazer
com que se sentisse pior.
Por isso dormiu um sono irregular e pouco satisfatório e, quando
acordou, continuava a sentir-se cansada.
Um estrondo sobressaltou-a.
Algures em cima, atrás do local onde estava, ela ouviu uma
tranca erguer-se e o rangido de uma porta a abrir-se.
Sentiu a pulsação acelerar. Pelos seus cálculos, teria passado
mais de um dia, desde que recuperara a consciência. Sentia uma
sede horrível. Tinha a língua inchada e pegajosa, e doía-lhe o corpo
todo por estar limitada a uma posição durante tanto tempo.
Ouviu passos a descerem uma escada. Umas botas de sola mole
arrastavam na pedra... Uma pausa. O tilintar de metal. Chaves?
Facas? Algo pior do que isso?... Depois os passos recomeçaram.
Agora aproximavam-se dela. Estavam mais perto... cada vez mais
perto.
Um homem corpulento com uma túnica de lã cinzenta surgiu no
seu campo de visão, com uma bandeja de prata com um sortido
variado de comida: queijo, pão, carne, vinho e água. Baixou-se e
poisou a bandeja junto de uma parede. Depois virou-se e
aproximou-se dela, com uma passada curta, rápida e precisa,
quase delicada.
Encostou-se junto da laje de pedra, ligeiramente ofegante, e
olhou para Nasuada. Tinha a cabeça semelhante a uma cabaça,
bojuda em cima e em baixo, e estreita no meio. Estava barbeado e
era praticamente careca, à exceção uma franja escura e curta, à
volta da cabeça. Tinha a parte superior da testa luzidia, as faces
rechonchudas e coradas, e os lábios eram tão cinzentos como a
túnica. Os olhos eram vulgares: castanhos e demasiado juntos.
O homem estalou a língua e ela viu que os seus dentes se
tocavam nas pontas como as extremidades de um grampo e que
estavam mais salientes do que o normal, formando uma espécie de
focinho pequeno mas percetível.
Um cheiro a fígado e cebolas pairava no seu hálito morno e
húmido. No estado de fraqueza em que estava, Nasuada achou o
odor nauseante.
A sua consciência despertou de imediato para o fato de estar
praticamente nua, ao ver os olhos dos homem deambularem pelo
seu corpo. Isso fê-la sentir-se vulnerável, como se não passasse de
um brinquedo ou um animal de estimação ali exposto para seu
deleite. Corou de raiva e de humilhação.
Decidida a não esperar que ele revelasse as suas intenções,
tentou falar para lhe pedir água, mas tinha a garganta demasiado
seca, pelo que conseguiu apenas coaxar.
O homem de cinzento fez um ruído de desaprovação e, para seu
espanto, começou a abrir-lhe as grilhetas.
Assim que a libertou, sentou-se na laje e ela esticou a mão
direita em forma de lâmina, brandindo-a na direção do pescoço do
homem.
Ele agarrou-lhe o pulso no ar, aparentemente sem esforço, e
Nasuada rosnou, tentando enfiar-lhe os dedos nos olhos com a
outra mão.
Ele voltou a agarrar-lhe o pulso. Ela puxou-o para trás e para
diante, mas o homem tinha muita força. Era como se tivesse os
pulsos presos em pedra.
Frustrada, atirou-se para a frente, enterrando os dentes no
antebraço direito do homem. Sangue quente e salgado, com um
travo a cobre, jorrou-lhe para a boca. Nasuada engasgou-se mas
continuou a mordê-lo, com o sangue a escorrer-lhe pelos lábios.
Conseguia sentir os músculos do antebraço do homem, presos
entre os dentes, a mexerem-se contra a língua como cobras
aprisionadas que tentavam escapar.
Para além disso, o homem não teve qualquer reação.
Por fim largou-lhe o braço, puxou a cabeça para trás e cuspiulhe
o sangue para a cara.
Mesmo assim, o homem continuou a olhá-la com a mesma
expressão insípida, sem pestanejar nem revelar quaisquer sinais de
dor ou raiva.
Ela puxou de novo as mãos, baloiçando as ancas e as pernas
sobre a laje para o pontapear no estômago. Mas, antes que
conseguisse desferir-lhe o pontapé, ele soltou-lhe o pulso esquerdo,
esbofeteando-a com força.
Um clarão branco surgiu diante de si e uma explosão silenciosa
pareceu deflagrar em seu redor. A sua cabeça foi violentamente
projetada para o lado, os dentes bateram uns nos outros, e ela
sentiu uma dor percorrer-lhe a coluna, desde a base do crânio.
Quando a sua visão clareou, ficou sentada a olhar para o
homem, furiosa, mas não fez qualquer gesto para o atacar de novo,
apercebendo-se de que estava à sua mercê... e que teria de
arranjar algo com que lhe cortar a garganta ou furar-lhe um olho, se
o quisesse vencer.
Ele libertou-lhe o outro pulso e levou a mão à túnica, tirando um
lenço branco, encardido, que passou na cara para limpar os
vestígios de sangue e saliva. Depois, atou o lenço ao antebraço
ferido, usando os dentes semelhantes a grampos para agarrar numa
das pontas do tecido.
Em seguida, agarrou-lhe na parte de cima do braço, rodeando-o
com uns dedos grandes e grossos, e puxou-a de cima da laje cor
de cinza. As suas pernas cederam ao tocar no chão e ela ficou
pendurada na mão do homem, como uma boneca, com o braço
torcido por cima da cabeça, num ângulo doloroso.
Ele puxou-a, obrigando-a a pôr-se de pé, e desta vez ela
aguentou-se. Apoiando-a parcialmente, o homem guiou-a até uma
pequena porta lateral, que ela não conseguia ver do local onde
estivera deitada de barriga para cima. Junto desta havia um curto
lance de escadas que conduzia a uma segunda porta, maior — a
mesma por onde o carcereiro entrara. A porta estava fechada, mas
tinha uma pequena grade de metal ao centro, através da qual ela
conseguiu ver uma tapeçaria bem iluminada, pendurada numa
parede lisa de pedra.
O homem abriu a porta lateral e conduziu-a até uma estreita
latrina. Para seu alívio, deixou-a sozinha. Nasuada examinou a sala
vazia em busca de algo que lhe pudesse servir de arma, ou de um
sítio por onde pudesse escapar, mas para seu desapontamento tudo
o que viu foi pó, aparas de madeira e algo mais sinistro: manchas de
sangue seco.
Por isso, fez o que seria de esperar e, quando saiu da latrina, o
homem de cinzento voltou a agarrar-lhe no braço, encaminhando-a
de novo para a laje.
Quando se aproximaram, ela começou a espernear e a debaterse,
pois preferia que lhe batesse a permitir que ele a prendesse de
novo. Apesar dos seus esforços, não conseguiu deter nem abrandar
o homem. Os membros dele pareciam de ferro, ao atingi-los com
os punhos, e mesmo a barriga aparentemente flácida, parecia rija.
Ele dominou-a tão facilmente como a uma criança, erguendo-a
para cima da laje, prendeu-lhe os ombros contra a pedra e fechoulhe
as grilhetas em torno dos pulsos e dos tornozelos. Por fim,
colocou-lhe o cinto de couro sobre a testa e prendeu-o firmemente
para lhe imobilizar a cabeça, mas não a ponto de lhe causar dor.
Nasuada esperava que ele fosse almoçar — ou jantar, ou fosse lá
que refeição fosse — mas, em vez disso, pegou na bandeja e levoua
para junto dela, oferecendo-lhe um pouco de vinho diluído em
água.
Era-lhe difícil engolir deitada de costas, por isso bebeu
rapidamente o líquido do cálice de prata que ele lhe levara à boca.
O vinho diluído proporcionou-lhe uma sensação fresca e
apaziguadora, ao escorrer-lhe pela garganta seca.
Quando o cálice ficou vazio o homem pô-lo de parte, cortou
fatias de pão e de queijo e ergueu-as na direção dela.
— Como... — disse ela, conseguindo finalmente recuperar o
domínio da voz. — Como te chamas?
O homem olhou-a impassível. A testa bojuda brilhava como
marfim polido, à luz da lanterna sem chama.
Ele aproximou o pão e o queijo dela.
— Quem és tu?... Isto é Urû’baen? És um prisioneiro como eu?
Tu e eu poderíamos ajudar-nos. Galbatorix não é omnisciente.
Juntos, poderíamos descobrir uma forma de fugir. Pode parecer
impossível mas não é, juro. — E continuou a falar num tom baixo e
calmo, esperando dizer algo que despertasse empatia no homem,
ou apelasse aos seus interesses pessoais.
Ela sabia que conseguia ser persuasiva — as longas horas de
negociações em nome dos Varden tinham-lhe provado isso, para
sua satisfação — mas aquelas suas palavras pareciam não produzir
qualquer efeito no homem. Se não fosse respirar, dir-se-ia morto,
ali parado diante dela, com o pão e o queijo na mão. Ocorreu-lhe
que fosse surdo, mas depois lembrou-se de que ele a ouvira
quando tentara pedir-lhe água, por isso descartou essa hipótese.
Nasuada falou até esgotar todos os argumentos e apelos que lhe
passaram pela cabeça e, quando se calou — para pensar numa
abordagem diferente —, o homem encostou-lhe o queijo e o pão
aos lábios, segurando-os. Furiosa, ela quis que ele os afastasse mas
a mão não se mexeu, e ele continuou a olhá-la com a mesma
expressão vazia e desinteressada.
Sentiu um formigueiro na nuca ao perceber que o seu
comportamento não era fingido. Não significava realmente nada
para ele. Teria entendido se ele a odiasse, se demonstrasse um
prazer perverso em atormentá-la, ou se fosse um escravo a cumprir
relutantemente as ordens de Galbatorix. Mas nada disso parecia ser
verdade. Ele parecia indiferente, despojado da mais ínfima empatia.
Sem dúvida que a mataria tão facilmente como se dispunha a cuidar
dela e isso incomodá-lo-ia tanto como esmagar uma formiga.
Amaldiçoando a necessidade que tinha de comer, Nasuada abriu
a boca, deixando que ele lhe depositasse os pedaços de pão e de
queijo sobre a língua, apesar da vontade que tinha de lhe morder os
dedos.
Ele alimentou-a como a uma criança — à mão —, levando-lhe
cada pedacinho de comida à boca, tão cuidadosamente como se
ela fosse uma esfera oca, de vidro, que se pudesse estilhaçar ao
mínimo movimento brusco.
Uma profunda sensação de repugnância cresceu dentro de si.
Passar de líder da maior aliança da história de Alagaësia a... “Não,
não, nada disso existia.” Ela era filha do seu pai. Vivera em Surda,
no meio do pó e do calor, por entre os ecos dos pregões dos
mercadores, nas ruas movimentadas do mercado, e nada mais.
Não tinha razões para ser arrogante, nem para ressentir a sua
queda.
Ainda assim, detestava ter o homem ali, em cima de si e que ele
teimasse em alimentá-la podendo ela fazê-lo sozinha. Detestava que
Galbatorix, ou quem quer que fosse o responsável pela sua captura,
estivesse a tentar despojá-la do seu orgulho e da sua dignidade e
detestava pensar que estavam a consegui-lo, até certo ponto.
Decidiu que iria matar o homem. Nem que fosse a última coisa
que pudesse concretizar na vida, ela queria matar o carcereiro.
Tirando a fuga, nada lhe daria maior satisfação. “Dê por onde der.
Hei de descobrir uma forma.”
A ideia agradou-lhe e ela comeu o resto da refeição com prazer,
enquanto planeava como iria matar o homem.
Quando terminou, o homem levou a bandeja e saiu.
Ouviu os passos a afastarem-se, a porta a abrir e a fechar-se, o
estalido do trinco e, finalmente, o ruído pesado e sinistro de uma
tranca a cair, do lado de fora da porta.
Depois, voltou a ficar sozinha, sem nada para fazer a não ser
esperar e matutar em formas de assassínio.
Entreteve-se durante algum tempo a seguir uma das linhas
pintadas no teto, tentando definir se tinha princípio ou fim. A linha
que escolheu era azul. A cor agradava-lhe, ao associá-la à pessoa
em quem menos se atrevia a pensar.
Mas, ao fim de algum tempo, aborreceu-se das linhas e das
fantasias de vingança, fechou os olhos e mergulhou num sono
inquieto e superficial, em que as horas pareciam passar mais
depressa e mais devagar do que o normal, segundo a lógica
paradoxal do pesadelo.
Quando o homem da túnica cinzenta voltou, Nasuada quase
ficou satisfeita, reação que entendeu como uma fraqueza, fazendo-a
sentir desprezo por si própria.
Não sabia ao certo quanto tempo tinha esperado — era
impossível saber, a menos que alguém lhe dissesse —, mas tinha a
noção que não esperara tanto como anteriormente. Ainda assim, a
espera parecera-lhe interminável, pelo que ela receou que a
voltassem a abandonar, acorrentada durante o mesmo período
arrastado de tempo, ainda que soubesse que não a estavam a
ignorar — isso certamente que não. Para seu desgosto, deu consigo
agradecida ao concluir que o homem iria visitá-la mais
frequentemente do que imaginara, de início. Passar tanto tempo
imóvel, deitada numa laje de pedra lisa, já era doloroso, mas
negarem-lhe o contato com qualquer outro ser humano — mesmo
alguém tão desajeitado e repugnante como o seu carcereiro — era
uma tortura e, de longe, a prova mais difícil de suportar.
Quando o homem lhe tirou as grilhetas, Nasuada reparou que o
ferimento no seu antebraço fora curado, pois tinha a pele macia e
rosada como a de um leitão.
Decidiu não lutar, mas no percurso para a câmara secreta fingiu
tropeçar e cair, esperando ficar suficientemente perto da bandeja
para roubar a pequena faca de descascar fruta que o homem
utilizara para cortar a comida. Contudo, esta estava longe de mais e
o homem era demasiado pesado para que ela o arrastasse até junto
da bandeja, sem denunciar as suas intenções. Uma vez que o
estratagema falhara, fez um esforço para se sujeitar calmamente à
assistência do carcereiro. Teria de o convencer que desistira para
que ele se tornasse complacente e — com um pouco de sorte —
descuidado.
Enquanto ele a alimentava, Nasuada estudou-lhe as unhas.
Anteriormente estava demasiado furiosa para prestar atenção, mas
agora que se sentia mais calma, estava fascinada com as suas
peculiaridades.
As unhas eram grossas, extremamente arqueadas, e as meiasluas
junto das cutículas eram grandes e largas. No geral, não eram
diferentes das unhas de muitos dos homens e Anões com quem
lidara.
“Quando lidara com eles pela última vez?...” Não se lembrava.
O que distinguia as suas unhas das outras era os cuidados que
revelavam. Cuidado era a palavra exata — como se as unhas fossem
flores raras, cultivadas por um jardineiro que lhes dedicasse longas
horas de trabalho. As cutículas estavam perfeitamente aparadas,
sem rasgos, e as unhas tinham sido cortadas a direito — sem
exageros —, e exibiam as pontas suavemente chanfradas. A parte
superior das unhas fora polida até brilhar, como uma peça de
cerâmica vidrada, e a pele em torno delas parecia ter sido
massajada com óleo ou manteiga.
Tirando os Elfos, nunca vira um homem com umas unhas tão
perfeitas.
“Elfos?” Afastou a ideia da cabeça, irritada. Não conhecia Elfos
nenhuns.
As unhas eram um enigma, algo de estranho num cenário de
outra forma compreensível, um mistério que queria desvendar,
ainda que fosse inútil tentar.
“Quem seria o responsável por aquelas unhas exemplares? Seria
o próprio homem?” Ele parecia excessivamente meticuloso e
Nasuada não o conseguia imaginar com uma mulher, uma filha, um
criado ou qualquer outra pessoa próxima capaz de dedicar tanta
atenção às capas dos seus dedos. É claro que concluiu que poderia
estar enganada. Muitos veteranos sombrios e calados, cobertos de
cicatrizes — cujos únicos gostos pareciam ser vinho, mulheres e
guerra — tinham-na surpreendido com uma faceta qualquer do seu
caráter que destoava da aparência exterior: jeito para esculpir
madeira, tendência para decorar poemas românticos, amor por
cães, ou uma terrível dedicação a uma família que mantinham
escondida do resto do mundo. Só ao fim de muitos anos, ela
descobrira que Jör...
E interrompeu o pensamento antes que este avançasse demais.
Em todo o caso, a pergunta que repetia constantemente era
simples: “Porquê?” A motivação era reveladora, mesmo no que
dizia respeito a algo tão insignificante como unhas.
Se as unhas fossem obra de uma outra pessoa, ou eram fruto de
extrema dedicação ou de muito medo, porém, ela não acreditava
que fossem. Não parecia bater certo.
Se fossem obra do homem, qualquer explicação seria possível.
Talvez as unhas fossem a forma de ele exercer algum controlo
sobre uma vida da qual deixara de ser dono, ou talvez pensasse
que era a única coisa atraente em si. Talvez cuidar delas fosse um
tique nervoso, um hábito que lhe servisse apenas para matar o
tempo.
Fosse qual fosse a verdade, o fato é que alguém lhe limpara,
aparara, polira e oleara as unhas e o esforço não tinha sido casual
nem descuidado.
Nasuada continuou a ponderar no assunto enquanto comia, mal
saboreando os alimentos. De vez em quando, olhava para cima e
sondava o rosto pesado do homem em busca desta ou daquela
pista, mas sem sucesso.
Ao dar-lhe o último pedaço de pão, o homem levantou-se da
beira da laje, pegou na bandeja e afastou-se.
Ela mastigou e engoliu o pão o mais depressa possível sem se
engasgar, e disse com uma voz áspera, de cana rachada, por não
falar há já algum tempo.
— Tens umas belas unhas. São muito... brilhantes.
O homem parou a meio de um passo e virou a cabeça grande e
pesada para ela. Por instantes pensou que ele poderia agredi-la de
novo, mas depois os seus lábios cinzentos abriram-se lentamente e
ele sorriu, mostrando-lhe os dentes de cima e de baixo.
Conteve um tremor, pois o carcereiro parecia prestes a arrancar
a cabeça de uma galinha.
O homem desapareceu do seu campo de visão, com a mesma
expressão inquietante e, segundos depois, ela ouviu a porta da cela
a abrir e a fechar.
Um sorriso desenhou-se nos seus lábios. O orgulho e a vaidade
eram fraquezas que ela poderia explorar. Se havia algo em que
Nasuada era experiente era em sujeitar os outros à sua vontade. O
homem dera-lhe um apoio insignificante — pouco mais que um
dedo, ou uma unha, melhor dizendo —, mas era tudo o que ela
precisava. Agora poderia começar a trepar.

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