24 de junho de 2017

Capítulo 41 - Partida

Primeiro Eragon ordenou a Garven que mandasse, em segredo,
um dos Falcões Noturnos recolher provisões para a viagem a
Vroengard. Saphira alimentara-se depois da conquista de Dras-
Leona, mas não se empanturrara, pois ficaria demasiado lenta e
pesada para lutar se fosse necessário, como de fato foi. De
momento, estava suficientemente bem alimentada para voar até
Vroengard sem parar, mas logo que chegassem, Eragon sabia que
ela teria de encontrar comida, na ilha ou perto, o que o
preocupava.
Posso sempre regressar de estômago vazio, assegurou-lhe
Saphira, mas ele não tinha assim tantas certezas.
A seguir, Eragon mandou um mensageiro trazer Jörmundur e
Blödhgarm à sua tenda. Logo que chegaram, Eragon, Arya e
Saphira passaram mais de uma hora a explicar-lhes a situação e a
convencê-los de que a viagem era necessária — a parte mais difícil.
Blödhgarm foi o mais fácil de convencer, mas Jörmundur opôs-se
ferozmente. Não porque duvidasse da veracidade da informação
de Solembum, nem da sua importância — nesses dois aspectos,
aceitou as explicações de Eragon sem as questionar — mas sim,
como enfatizou com crescente veemência, porque os Varden
ficariam devastados se acordassem e descobrissem que Nasuada
fora raptada e Eragon e Saphira tinham desaparecido para parte
incerta.
— Além disso, não podemos permitir que Galbatorix pense que
tu nos abandonaste — disse Jörmundur —, muito menos estando nós
tão perto de Urû’baen. Ele pode mandar Murtagh e Thorn
intercetarem-te, ou aproveitar a oportunidade para esmagar os
Varden de uma vez por todas. Não podemos correr esse risco.
Eragon não pôde deixar de reconhecer que aquelas
preocupações eram pertinentes.
Depois de muita discussão, encontraram finalmente uma solução:
Blödhgarm e os outros elfos criariam aparições de Eragon e de
Saphira, tal como tinham criado uma imagem de Eragon quando ele
viajara até às Montanhas Beor para participar na eleição e na
coroação do sucessor de Hrothgar.
As imagens seriam réplicas perfeitas de Eragon e Saphira, vivos
e em pleno exercício das suas funções, mas as suas mentes estariam
vazias e se alguém os sondasse, a artimanha seria descoberta. Por
isso, a imagem de Saphira não poderia falar e, embora os Elfos
pudessem simular a fala em Eragon, seria preferível que não o
fizessem, não fosse alguma deficiência de dicção alertar os que o
ouvissem para o fato de que nem tudo era o que parecia. Tais
limitações significavam que as ilusões funcionariam melhor à
distância e que as pessoas que tinham motivos para interagir com
Eragon e Saphira numa base mais pessoal — como os reis Orrin e
Orik — depressa iriam perceber que se passava algo de errado.
Daí que Eragon tenha ordenado a Garven que acordasse todos
os Falcões Noturnos e os trouxesse à sua presença, o mais
discretamente possível. Depois de toda a companhia estar reunida
diante da sua tenda, Eragon explicou ao grupo heterogéneo de
homens, Anões e Urgals, por que motivo ele e Saphira iriam
ausentar-se, embora fosse deliberadamente vago nos detalhes e
guardasse segredo acerca do seu destino. A seguir, explicou-lhes
de que forma os Elfos iriam esconder a sua ausência, obrigando-os
a fazer um voto de silêncio na língua antiga. Eragon confiava neles,
mas todo o cuidado era pouco em relação a Galbatorix e aos seus
espiões.
Depois, Eragon e Arya visitaram Orrin, Orik, Roran e a feiticeira
Trianna e explicaram-lhes a situação, exigindo um voto de silêncio
de cada um deles, tal como tinham feito com os Falcões Noturnos.
Como seria de esperar, o rei Orrin revelou-se o mais
intransigente, expressando a sua indignação perante a possibilidade
de Eragon ou Saphira viajarem para Vroengard, e opondo-se
totalmente à ideia. Questionou a valentia de Eragon e o valor da
informação de Solembum, ameaçando retirar as suas tropas dos
Varden se Eragon continuasse a seguir um caminho tão imprudente
e insensato. Só ao fim de mais de uma hora de ameaças, lisonjas e
persuasão foi possível convencê-lo e, mesmo então, Eragon receou
que Orrin voltasse atrás com a palavra.
As visitas a Orik, Roran e Trianna foram mais rápidas mas, ainda
assim, Eragon e Arya demoraram bastante tempo a falar com eles —
demasiado tempo, no ponto de vista de Eragon. A impaciência
estava a deixá-lo agitado, pois queria partir, e a sensação de
urgência aumentava a cada minuto.
Enquanto visitava as pessoas com Arya, o laço que mantinha
com Saphira permitiu-lhe também aperceber-se dos cânticos
indistintos e melodiosos dos Elfos, que pareciam acompanhar tudo
o que ouvia como uma tira de tecido habilmente urdida, escondida
abaixo da superfície do mundo.
Saphira ficara junto da tenda e os elfos estavam dispostos em
círculo à volta dela, de braços esticados, unidos pela ponta dos
dedos, enquanto cantavam. O objetivo do seu longo e intrincado
feitiço era recolherem toda a informação visual necessária para
criarem uma representação exata de Saphira. Recriar a forma de
um elfo ou de um humano era complicado, mas a forma de um
dragão era especialmente difícil de recriar devido às características
refletoras das escamas. Ainda assim, a parte mais complicada da
ilusão, segundo Blödhgarm, era reproduzir o efeito do peso de
Saphira, sempre que a aparição levantava voo ou aterrava.
Quando Eragon e Arya terminaram as rondas, já a noite dera
lugar ao dia, e o sol da manhã pairava a um palmo do horizonte. À
luz do sol, a destruição que o acampamento sofrera durante o
ataque parecia ainda maior.
Eragon teria gostado de partir com Saphira e Glaedr nessa
altura, mas Jörmundur insistiu para que ele se dirigisse
convenientemente aos Varden, pelo menos uma vez, como seu
novo líder.
Pouco depois todo o exército se reuniu e Eragon deu consigo de
pé, na parte traseira de uma carroça vazia, a olhar para um mar de
rostos virados para cima — alguns humanos, outros não —,
desejando estar em todo o lado menos ali.
Eragon aconselhara-se previamente com Roran e este disseralhe:
— Lembra-te de que eles não são teus inimigos. Nada tens a
temer deles. Eles querem gostar de ti. Fala clara e honestamente.
Faças o que fizeres, guarda as dúvidas para ti mesmo. Essa é a
forma de os conquistar. Quando lhes falares de Nasuada, vão ficar
assustados e consternados. Dá-lhes a coragem de que precisam e
eles seguir-te-ão pelos portões de Urû’baen.
Apesar do encorajamento de Roran, Eragon continuava
apreensivo antes do discurso. Raramente falara para grandes
grupos e nunca para mais de algumas fileiras de homens. Ao olhar
para os soldados tisnados e desgastados pela guerra, que tinha
diante de si, concluiu que preferiria combater uma centena de
inimigos sozinho, do que estar em público e correr o risco de ser
rejeitado.
Até ao momento de discursar, Eragon não sabia ao certo o que
iria dizer, mas logo que começou a falar, foi como se as palavras
fluíssem por si. Estava de tal forma tenso que esqueceu grande
parte do que dissera. O discurso passou num ápice, como uma
mancha indistinta, de qualquer forma Eragon conservava algumas
impressões dele: o calor e o suor, os urros dos guerreiros ao
saberem o que acontecera a Nasuada, os aplausos rasgados
quando os exortou à vitória, e o rugido generalizado da multidão ao
terminar.
Aliviado, saltou da traseira da carroça para o sítio onde Arya e
Orik o esperavam, junto de Saphira.
Ao fazê-lo, os guardas formaram um círculo em torno dos
quatro, protegendo-os da multidão e contendo todos os que
queriam falar com ele.
— Belo discurso, Eragon — disse Orik, batendo-lhe no braço.
— Foi? — perguntou Eragon, atordoado.
— Foste muito eloquente — disse Arya.
Eragon encolheu os ombros embaraçado. Intimidava-o o fato
de Arya ter conhecido a maior parte dos líderes dos Varden e não
podia deixar de pensar que Ajihad ou Deynor, o seu predecessor,
teriam feito um discurso melhor.
Orik puxou-lhe pela manga, Eragon curvou-se para o anão e
este disse-lhe numa voz que mal se ouvia sobre a algazarra da
multidão:
— Seja o que for que encontres, espero que justifique a viagem,
meu amigo. Vê se não te deixas matar, hã?
— Vou tentar.
Para surpresa de Eragon, Orik agarrou-lhe no antebraço e
puxou-o, abraçando-o rudemente.
— Que Gûntera te proteja! — Quando se separaram, Orik bateu
com a palma da mão no flanco de Saphira. — E você também, Saphira.
Desejo boa viagem a ambos.
Saphira respondeu com um ronco grave.
Eragon olhou para Arya e subitamente sentiu-se constrangido,
sem saber o que lhe dizer, pois só lhe ocorria o mais óbvio. A
beleza dos seus olhos continuava a cativá-lo. O efeito que ela tinha
sobre ele parecia jamais esmorecer.
Depois, Arya aninhou a cabeça nas suas mãos e beijou-o
formalmente na testa.
Eragon ficou a olhá-la, surpreendido.
— Gukiä waíse medh ono, Argetlam. — Que a sorte esteja
contigo, Mão de Prata.
Ao largá-lo, Eragon agarrou-lhe nas mãos.
— Nada de mal nos vai acontecer. Não o permitirei. Nem que
Galbatorix esteja à nossa espera. Arrasarei montanhas com as
minhas próprias mãos, se necessário, mas prometo que voltaremos
sãos e salvos.
Antes que Arya pudesse responder, ele largou-lhe as mãos e
subiu para o dorso de Saphira. Ao vê-lo sentar-se na sela, a
multidão começou a aplaudir de novo. Eragon acenou-lhes e eles
redobraram o manifesto, pateando e batendo nos escudos com os
pomos das espadas.
Eragon viu Blödhgarm e os outros elfos reunidos num grupo
coeso, parcialmente escondidos atrás de um pavilhão, ali perto.
Acenou-lhes com a cabeça e eles acenaram também. O plano era
simples: ele e Saphira levantariam voo como se fossem patrulhar os
céus e reconhecer o terreno mais à frente — como normalmente
faziam quando o exército estava em trânsito. Mas, depois de
circundarem o acampamento várias vezes, Saphira voaria para
dentro de uma nuvem, e Eragon lançaria um feitiço que a tornaria
invisível para os que os estivessem a observar em baixo. Depois os
elfos criariam os espetros vazios que tomariam o lugar de Eragon e
Saphira, enquanto estes prosseguiam viagem, e seriam os espetros
que todos veriam emergir da nuvem. Esperavam que ninguém desse
pela diferença.
Com a facilidade adquirida pela prática, Eragon apertou os
arreios em torno das pernas e verificou se os alforges estavam
convenientemente presos, prestando especial atenção ao da
esquerda, pois dentro dele — bem enrolado em panos e cobertores
— tinha o cofre forrado de veludo com o precioso coração dos
corações de Glaedr, o seu Eldunarí.
Vamos embora, disse o velho dragão.
Para Vroengard! exclamou Saphira. O mundo inclinou-se e
mergulhou em torno de Eragon, quando ela saltou do chão e bateu
as gigantescas asas de morcego, açoitando-o com uma rajada de
vento e elevando-se gradualmente em direção aos céus.
Eragon agarrou-se mais firmemente ao espinho do pescoço, à
sua frente, baixando a cabeça para se proteger da deslocação de ar
resultante da velocidade, e olhou para o couro polido da sela.
Depois respirou fundo e tentou não se preocupar com o que
deixavam para trás nem com o que tinham pela frente. Tudo o que
podia fazer era esperar — esperar e acreditar que Saphira
conseguiria voar até Vroengard e regressar antes que o Império
voltasse a atacar os Varden; acreditar que Roran e Arya ficariam a
salvo; acreditar que poderia ainda salvar Nasuada e que a ida a
Vroengard era uma decisão acertada, pois o momento em que teria
de enfrentar Galbatorix aproximava-se rapidamente.

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