3 de junho de 2017

Capítulo 40 - Ascensão

Os Tambores de Derva soaram, convocando os anões de Tronjheim para a coroação do seu novo rei.
— Normalmente — dissera Orik a Eragon na noite anterior —, quando o conselho de clãs elege um rei ou rainha, o knurla começa seu governo imediatamente, mas nós só realizamos a coroação no mínimo uns três meses depois, para que todos os que desejarem comparecer à cerimônia tenham tempo de pôr em ordem seus negócios para viajar para Farthen Dûr, mesmo que venham das regiões mais remotas do nosso reino. Não é frequente coroarmos um monarca. Por isso, quando o fazemos, é nosso costume dar extrema importância ao evento, com semanas de banquetes e música, com jogos de inteligência e de força, bem como com concursos de habilidade na forja, na escultura e em outras manifestações artísticas... Entretanto, estes nossos tempos praticamente não são normais.
Eragon estava junto de Saphira bem do lado de fora da câmara central de Tronjheim, ouvindo as batidas profundas dos tambores gigantes. De cada lado do salão de mais de um quilômetro e meio de comprimento, centenas de anões apinhavam as arcadas de cada nível, espiando Eragon e Saphira com os olhos escuros reluzentes. A língua farpada do dragão passava áspera nas suas escamas enquanto lambia os beiços, o que vinha fazendo desde que terminara de devorar cinco carneiros adultos mais cedo naquela manhã. Então, levantou a perna esquerda e esfregou o focinho nela. O cheiro de lã queimada a impregnava.
Não dá para você parar um pouco?, pediu Eragon. Estão olhando para nós.
Um rosnado baixo veio de Saphira. Não consigo parar. Estou com lã grudada entre os dentes. Agora me lembro por que detesto comer carneiro. Umas criaturas horríveis, fofas, que me dão bolas de pelo e indigestão.
Quando terminarmos aqui, ajudo a limpar seus dentes. Mas até lá trate de ficar quieta.
Humpf!
Será que Blödhgarm pôs um pouco de erva-de-jogo nos alforjes? Ela acalmaria seu estômago.
Não sei.
Humm. Eragon pensou um pouco. Se não pôs, vou perguntar a Orik se eles têm algum estoque em Tronjheim. Deveríamos... Ele parou de falar quando a última nota dos tambores sumiu no silêncio.
A multidão se mexeu, e Eragon ouviu o farfalhar delicado das roupas e a eventual frase murmurada na língua dos anões. Uma fanfarra de dezenas de trombetas ressoou, enchendo a cidade-montanha com seu chamado empolgante, e em algum lugar um coro de anões começou a cantar. A música fez o couro cabeludo de Eragon formigar e pinicar, e seu sangue correr mais veloz, como se estivesse prestes a iniciar uma caçada. Saphira agitava a cauda de um lado para outro, e ele soube que ela estava com a mesma sensação.
Vamos lá, pensou ele. Como se fossem um, ele e Saphira entraram na câmara central da cidade-montanha e ocuparam seu lugar entre os chefes de clã, líderes de guilda e outros notáveis que formavam um círculo em torno do salão vasto e altíssimo. No centro da câmara, estava a estrela de safira reconstruída, protegida por andaimes de madeira. Uma hora antes da coroação, Skeg mandara uma mensagem para Eragon e Saphira, dizendo-lhes que ele e sua equipe de artesãos haviam acabado de encaixar os últimos fragmentos da pedra preciosa e que Isidar Mithrim estava pronta para Saphira restaurá-la ao que era antes.
O trono negro de granito dos anões fora trazido do seu local costumeiro nos subterrâneos de Tronjheim e colocado num palanque elevado ao lado da estrela de safira, de frente para a ramificação Leste dos quatro corredores principais que dividiam Tronjheim; Leste porque essa era a direção do sol nascente, que simbolizava o alvorecer de uma nova era.
Milhares de guerreiros anões trajados em cotas de malha polidas estavam em posição de sentido em dois grandes contingentes diante do trono, assim como em fileiras duplas ao longo dos dois lados do corredor leste por toda a distância que os separava do portão daquela ala de Tronjheim, a mais de um quilômetro e meio dali. Muitos guerreiros carregavam lanças providas de flâmulas com desenhos curiosos. Hvedra, a esposa de Orik, estava bem na frente da congregação. Depois que o conselho de clãs baniu grimstborith Vermûnd, Orik mandara chamá-la na expectativa de se tornar rei. Hvedra só havia chegado à cidade naquela manhã.
Por uma meia hora, as trombetas soaram e o coro invisível cantou, enquanto Orik, passo a passo, caminhava confiante do portão leste para o centro de Tronjheim. Sua barba estava escovada e cacheada; e ele usava borzeguins do mais fino couro lustroso com esporas de prata nos calcanhares, calças de lã cinza, uma camisa de seda roxa que tremeluzia à luz das lanternas e, por cima da camisa, uma cota de malha, na qual cada anel era feito de puro ouro branco. Um longo manto debruado de arminho, bordado com a insígnia do Dûrgrimst Ingeitum, caía ondulante dos ombros de Orik até o chão atrás dele. Volund, o martelo de guerra forjado por Korgan, primeiro rei dos anões, estava preso à cintura de Orik, por um cinto largo cravejado de rubis. Por causa dos trajes luxuosos e da armadura magnífica, Orik parecia reluzir. Observá-lo ofuscava os olhos de Eragon.
Doze crianças anãs acompanhavam Orik, seis meninos e seis meninas, ou foi isso o que Eragon supôs com base nos seus cortes de cabelos. As crianças trajavam túnicas vermelhas, marrons e douradas. Cada uma levava nas mãos em concha um globo polido com uns quinze centímetros de diâmetro, cada globo era de um tipo diferente de pedra. Quando Orik chegou ao centro da cidade-montanha, a câmera se escureceu, e surgiu um desenho de sombras mosqueadas sobre tudo o que se encontrava ali dentro. Confuso, Eragon olhou de relance para o alto e ficou abismado ao ver pétalas de rosas cor-de-rosa descendo lentamente do topo de Tronjheim. Como flocos de neve espessos e macios, as pétalas aveludadas iam parar na cabeça e nos ombros dos ali presentes, e também no piso, impregnando o ar com sua doce fragrância.
As trombetas e o coro se calaram quando Orik se ajoelhou sobre um joelho apenas diante do trono negro e abaixou a cabeça. Atrás dele, as doze crianças pararam e permaneceram imóveis. Eragon pôs a mão no flanco morno de Saphira, compartilhando com ela seu interesse e sua emoção. Ele não fazia ideia do que aconteceria em seguida, pois Orik tinha se recusado a descrever a cerimônia além daquele ponto. Então, Gannel, chefe de clã do Dûrgrimst Quan, deu um passo adiante, rompendo o círculo de pessoas ao redor da câmara, e andou até o lado direito do trono, onde parou. O anão de ombros fortes usava suntuosos trajes vermelhos, cujas bordas refulgiam com runas bordadas em fio metálico. Numa das mãos, Gannel trazia um cajado alto, com um cristal transparente e pontudo, engastado no topo. Erguendo com as duas mãos o cajado acima da cabeça, Gannel o fez atingir o piso de pedra com um grande estrondo.
— Hwatum il skilfz gerdûmn! — exclamou ele, continuando a falar na língua dos anões por alguns minutos, e Eragon escutou sem compreender porque seu tradutor não estava ali. Então, a entonação da voz de Gannel mudou, e Eragon reconheceu que suas palavras pertenciam à língua antiga e percebeu que Gannel estava criando um encantamento, se bem que fosse um encantamento diferente de qualquer outro com o qual estivesse familiarizado. Em vez de direcionar a fórmula mágica para um objeto ou algum elemento do mundo ao seu redor, o sacerdote recitava, na língua do mistério e do poder: — Gûntera, criador dos céus, da terra e do mar sem fim, ouça agora o brado de seu servo fiel! Nós lhe somos gratos por sua magnanimidade. Nossa raça prospera. Neste ano e em todos os outros, nós lhe oferecemos os melhores carneiros dos nossos rebanhos, além de jarros de hidromel condimentado e de uma parcela da nossa colheita de frutos, legumes e cereais. Seus templos são os mais ricos da terra, e não existe quem possa competir com a glória que lhe pertence. Ó Gûntera poderoso, rei dos deuses, escute agora minha súplica e me conceda este pedido: chegou a hora de indicar um governante mortal para nossas questões terrenas. Peço-lhe que se digne a conceder sua bênção a Orik, filho de Thrifk, e coroá-lo na tradição de seus predecessores.
A princípio, Eragon achou que o pedido de Gannel ficaria sem resposta, pois não sentiu nenhuma magia irromper do anão quando terminou de falar. Entretanto, Saphira lhe deu uma cutucada nesse momento: Olhe.
Ele acompanhou seu olhar e, uns dez metros acima dali, viu uma perturbação entre as pétalas que caíam: uma lacuna, um vazio pelo qual as pétalas não caíam, como se um objeto invisível ocupasse o espaço. A perturbação se espalhou, estendendo-se até o piso; e o vazio delineado pelas pétalas assumiu a forma de uma criatura com braços e pernas, como um anão, um homem, um elfo ou um Urgal, mas de proporções diferentes das de qualquer raça d, qual Eragon tivesse conhecimento. A cabeça era quase da largura dos ombros; os braços enormes chegavam abaixo dos joelhos; e, embora o torso fosse volumoso, as pernas eram curtas e tortas. Raios finos como a luz emitida na água irradiavam daquela forma; e assim surgiu a imagem nebulosa de uma figura masculina delineada pelas pétalas, gigantesca e desgrenhada. O deus, se é que era deus, não usava nada além de uma tanga amarrada. Seu rosto era escuro e pesado, parecendo conter quantidades iguais de crueldade e bondade, como se pudesse passar de um extremo a outro sem aviso.
Enquanto observava esses detalhes, Eragon também se deu conta da presença de uma consciência estranha e de longo alcance ali no recinto, uma consciência de pensamentos incompreensíveis e de profundidades insondáveis, uma consciência que faiscava, rugia e se enfunava em direções inesperadas, como uma tempestade de verão. Rapidamente, ele isolou sua mente do toque da outra. Sua pele se arrepiou, e um forte calafrio o percorreu. Não sabia o que tinha sentido, mas o medo o dominou, e se virou para Saphira em busca de apoio. Ela olhava fixamente para a figura, com os olhos azuis de gato cintilando com uma intensidade extraordinária.
Num movimento único, os anões caíram de joelhos. E então o deus falou, e sua voz parecia o rangido de rochas, o zunido do vento soprando por picos áridos de montanhas e a batida de ondas em penhascos. Falou na língua dos anões, e, apesar de não entender o que era dito, Eragon se encolheu diante do poder daquele discurso divino. Três vezes o deus interrogou Orik, e três vezes Orik respondeu, com a própria voz fraca se comparada a que o interrogava. Parecendo satisfeita com as respostas do novo rei, a aparição estendeu os braços reluzentes e pôs os indicadores de cada lado da cabeça nua de Orik. O ar entre os dedos do deus se ondulou, e o elmo de ouro incrustado com pedras preciosas que Hrothgar usara se materializou sobre a fronte de Orik. O deus deu um tapa na barriga, soltou um risinho retumbante e desapareceu no nada. As pétalas de rosas voltaram a cair sem interrupção.
— Ûn qroth Gûntera! — proclamou Gannel.
Forte e estridente, veio o clangor das trombetas. Erguendo-se, Orik subiu no palanque, voltou-se para encarar a multidão e então se deixou afundar no trono negro e duro.
— Nal, grimstnzborith Orik! — gritaram os anões, golpeando os escudos com machados e lanças, e batendo com os pés no chão. — Nal, grimstnzborith Orik! Nal, grimstnzborith Orik!
— Salve, rei Orik! — bradou Eragon.
Arqueando o pescoço, Saphira rugiu sua homenagem, expelindo acima da cabeça dos anões uma labareda, que incinerou uma faixa de pétalas de rosas. Os olhos de Eragon lacrimejaram quando a corrente de calor passou por ele.
Depois, Gannel se ajoelhou diante de Orik e disse mais algumas palavras na língua dos anões. Quando terminou, Orik o tocou no cocuruto, e Gannel voltou ao seu lugar na borda da câmara. Nado se aproximou do trono e disse praticamente as mesmas coisas, e depois dele o mesmo fizeram Manndrâth, Hadfala e todos os outros chefes de clã, com a única exceção do grimstborith Vermûnd, que havia sido banido da coroação.
Devem estar prestando seu voto de lealdade a Orik, disse Eragon a Saphira.
Eles já não haviam lhe dado sua palavra?
Sim, mas não em público. Eragon observou Thordris caminhar até o trono. Saphira, o que você acha que nós acabamos de ver? Será que poderia de fato ser Gûntera ou foi uma ilusão? Sua mente me parece bastante real, e eu não sei como alguém conseguiria simular isso, mas...
Pode ter sido uma ilusão, ponderou ela. Os deuses dos anões nunca os ajudaram no campo de batalha, nem em qualquer outra empreitada de que eu tenha conhecimento. Também não acredito que um deus verdadeiro viria correndo atender o chamado de Gannel, como um cão bem treinado. Eu não viria, e um deus não deveria ser mais imponente que um dragão?... Mas a verdade é que existem muitas coisas inexplicáveis na Alagaësia. É possível que tenhamos visto um espectro de alguma era há muito esquecida, um pálido resquício do que um dia foi e que continua a assombrar a terra, ansioso por voltar ao poder. Quem poderá ter certeza?
Assim que o último chefe de clã se apresentou a Orik, os líderes de guilda fizeram o mesmo, e depois ele fez um gesto para Eragon. Com um passo lento e medido, o Cavaleiro avançou entre as fileiras de guerreiros anões até chegar à base do trono, onde se ajoelhou e, como membro do Dûrgrimst Ingeitum, reconheceu Orik como seu rei e jurou servi-lo e protegê-lo. Depois, na qualidade de emissário de Nasuada, Eragon deu a Orik os parabéns em seu nome e dos Varden, prometendo-lhe sua amizade. Outros foram falar com Orik quando Eragon se afastou, havia uma fila aparentemente interminável de anões ansiosos para demonstrar sua lealdade ao novo rei. A procissão continuou por horas, e então teve início a entrega de presentes.
Cada um dos anões trouxe para Orik uma oferenda do seu clã ou da sua guilda: uma taça de ouro cheia de rubis e diamantes, um corselete de malha encantada que nenhuma lâmina jamais perfuraria, uma tapeçaria de seis metros de comprimento, tecida com a lã macia que os anões recolhiam ao pentear a barba dos bodes Feldûnost, uma placa de ágata na qual estavam inscritos os nomes de todos os antepassados de Orik, uma adaga curva esmerilhada a partir do dente de um dragão e muitos outros tesouros. Em troca, Orik presenteou os anões com anéis como símbolo da sua gratidão.
Eragon e Saphira foram os últimos a se colocar diante do novo rei. Ajoelhando-se mais uma vez na base do palanque, Eragon tirou da túnica o bracelete de ouro que havia pedido aos anões na noite anterior.
— Eis meu presente, Orik. — Ele estendeu-lhe o bracelete. — Não fui eu quem o fez, mas lancei sobre ele encantamentos para sua proteção. Enquanto você o usar, não precisará temer veneno algum. Se um assassino tentar atingi-lo, perfurá-lo ou jogar qualquer objeto sobre você, a arma não acertará o alvo. Esse bracelete poderá mesmo servir de escudo contra grande parte da magia hostil. E tem também outras propriedades, que lhe poderão ser úteis caso sua vida esteja em perigo.
— Agradeço muitíssimo seu presente, Eragon Matador de Espectros. — Orik aceitou o bracelete, inclinando a cabeça. A vista de todos, pôs o bracelete no braço esquerdo.
Saphira falou em seguida, projetando seus pensamentos para toda a assistência: Este é meu presente, Orik.
Ela passou pelo trono, com as garras estalando no piso, se empinou e pôs as patas dianteiras na beira dos andaimes em torno da estrela de safira. As vigas reforçadas de madeira rangeram sob seu peso, mas resistiram. Minutos se passaram sem que nada acontecesse, mas Saphira permaneceu onde estava, contemplando a enorme pedra preciosa. Os anões a observavam, sem piscar, quase sem respirar.
Você tem certeza de que pode jazer isso?, perguntou Eragon, relutando em prejudicar a concentração de Saphira.
Não sei. As poucas vezes em que usei magia antes, não parei para refletir se estava lançando um encantamento ou não. Simplesmente determinei que o mundo mudasse, e mudou. Não foi um processo deliberado... Acho que vou precisar esperar que o momento me pareça exato para consertar Isidar Mithrim.
Deixe-me ajudar. Posso lançar um encantamento através de você.
Não, pequenino. Esta tarefa é minha, não sua.
Uma única voz, baixa e límpida, veio percorrendo a câmara, cantando uma melodia lenta, suplicante. Um a um, os outros membros do coro oculto de anões se juntaram ao canto, enchendo Tronjheim com a beleza tristonha da sua música. Eragon ia lhes pedir que fizessem silêncio, mas Saphira interrompeu-o: Está tudo bem. Deixe-os em paz.
Apesar de não compreender o que o coro cantava, Eragon podia dizer, pelo tom da música, que era um lamento por coisas que haviam existido e não existiam mais, como a estrela de safira. À medida que a canção crescia para chegar ao fim, descobriu-se pensando na sua vida perdida no vale Palancar, e as lágrimas lhe encheram os olhos. Para sua surpresa, percebeu em Saphira uma tendência semelhante de tristeza pensativa. Nem a tristeza nem o remorso eram uma parte normal da sua personalidade. Eragon considerou isso estranho e teria lhe perguntado se não fosse o fato de também sentir a agitação de alguma coisa no fundo dela, como o despertar de alguma parte antiga do seu ser. A canção terminou numa nota longa e trêmula; e, enquanto desaparecia no silêncio, uma onda de energia irrompeu por Saphira – tanta energia que Eragon perdeu o fôlego – e ela se curvou e tocou a estrela de safira com a ponta do focinho.
As rachaduras que se ramificavam na gigantesca pedra preciosa se acenderam com o brilho de relâmpagos. Então, os andaimes se partiram e caíram ao chão, revelando Isidar Mithrim novamente inteira e sólida.
Mas não era exatamente a mesma. A cor da pedra era de um matiz de vermelho mais forte, mais profundo, do que antes, e as pétalas internas da rosa estavam raiadas de um dourado escuro. Os anões olharam assombrados para Isidar Mithrim. Depois, levantaram-se de um salto, dando vivas e aplaudindo Saphira com tanto entusiasmo que parecia o ronco ensurdecedor de uma queda d’água.
Ela abaixou a cabeça para a multidão e voltou para onde Eragon estava, esmagando pétalas de rosas sob seus pés. Obrigada, disse-lhe ela.
Por quê?
Por me ajudar. Foram suas emoções que me mostraram o caminho. Sem elas, eu poderia ter ficado semanas aqui até me sentir inspirada a consertar Isidar Mithrim.
Orik levantou os braços e acalmou o povo.
— Em nome de toda a minha raça eu lhe agradeço seu presente, Saphira. Hoje você restaurou o orgulho do nosso reino, e nós não nos esqueceremos do seu feito. Que não se possa dizer que os knurlan são uns ingratos. De agora em diante, até o final dos tempos, seu nome será recitado nos festivais de inverno, junto com as listas dos Mestres Criadores. E, quando Isidar Mithrim for recolocada no alto de Tronjheim, seu nome será gravado no aro em torno da Estrela Rosa, ao lado do nome de Dûrok Ornthrond, que originalmente deu forma à pedra preciosa.
“Mais uma vez vocês demonstraram sua amizade pelo meu povo”, disse Orik a Eragon e Saphira. “Fico feliz de vocês, pelos seus atos, terem justificado a decisão de meu pai de criação de adotá-los no Dûrgrimst Ingeitum.”
Depois de concluída a infinidade de rituais que se seguiu à coroação, e após Eragon ajudar a tirar a lã dos dentes de Saphira – uma tarefa escorregadia, pegajosa e fedorenta que o deixou necessitado de um banho – os dois compareceram ao banquete realizado em honra a Orik.
A festança foi barulhenta, agitada e se estendeu noite adentro. Malabaristas e acrobatas divertiram os convidados, assim como uma trupe de atores que apresentou uma peça intitulada Az Sartosvrenht rak Balmung, Grimsin: borith rak Kvisagûr, que Hûndfast explicou a Eragon que significava A saga do rei Bahnung de Kvisagûr. Quando a comemoração abrandara um pouco e a maioria dos anões já havia bebido mais do que devia, Eragon se inclinou na direção de Orik, que estava à cabeceira da mesa de pedra.
— Vossa Majestade.
Orik abanou a mão.
— Não vou querer que você me chame de Vossa Majestade o tempo todo, Eragon. Não vai dar certo. A menos que a ocasião exija, use meu nome como sempre usou. Isso é uma ordem. — Ele estendeu a mão para pegar a taça, mas não acertou e quase a derrubou. Deu, então, uma risada.
— Orik — disse Eragon, sorrindo —, preciso lhe perguntar. Foi Gûntera de verdade quem o coroou?
Orik afundou o queixo no peito e passou o dedo pelo pé da taça, com a expressão mais séria.
— Foi o mais próximo de Gûntera que nós um dia teremos probabilidade de ver neste mundo. Isso responde à sua pergunta, Eragon?
— Eu... creio que sim. Ele sempre responde quando é invocado? Alguma vez se recusou a coroar um dos seus governantes?
A distância entre as sobrancelhas de Orik se apertou.
— Você já ouviu falar nos Reis e nas Rainhas Hereges?
Eragon negou.
— São knurlan que não conseguiram obter a bênção de Gûntera para serem governantes e que, mesmo assim, insistiram em assumir o trono. — A boca de Orik se contorceu. — Sem exceção, seus reinados foram curtos e infelizes.
Eragon teve a impressão de que uma faixa lhe comprimia o peito.
— Quer dizer que, muito embora o conselho de clãs o tivesse elegido seu líder, se Gûntera tivesse se recusado a coroá-lo, você agora não seria o rei.
— Isso mesmo ou seria rei de uma nação em guerra consigo mesma. — Orik deu de ombros. — Eu não estava muito preocupado com essa possibilidade. Com os Varden no meio de uma invasão ao Império, somente um louco se arriscaria a destroçar nosso país com o único intuito de me negar o trono. E, embora Gûntera seja muitas coisas, louco ele não é.
— Mas você não tinha certeza — disse Eragon.
Orik abanou a cabeça.
— Não enquanto ele não pôs o elmo na minha cabeça.

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Boa leitura :)