23 de junho de 2017

Capítulo 4 - Rei gato

Eragon estava no estrado do salão principal, logo à direita do trono de lorde Bradburn, com a mão esquerda no punho de Brisingr, que estava embainhada. Jörmundur – o comandante sênior dos Varden – encontrava-se do outro lado do trono com o elmo debaixo do braço. Tinha algum cabelo grisalho nas têmporas; o resto era castanho e estava preso atrás, numa longa trança. O seu rosto esguio ostentava uma expressão diligentemente neutra, a expressão de alguém com uma longa experiência a serviço de outros. Eragon reparou que Jörmundur tinha um fio de sangue a escorrer-lhe da parte debaixo do braçal direito, mas não revelava qualquer sinal de dor.
A sua líder, Nasuada, sentava-se entre ambos, resplandecente, com um vestido verde e amarelo que envergara apenas momentos antes, trocando a indumentária de guerra por roupas mais adequadas à prática de assuntos de estado. Ela também fora ferida durante o combate, como era evidente pela atadura de linho que envolvia sua mão esquerda.
Falando num tom de voz baixo para que apenas Eragon e Jörmundur pudessem ouvir, Nasuada disse:
— Se conseguíssemos o apoio deles...
— Mas o que quererão eles em troca? — perguntou Jörmundur. — Os nossos cofres estão quase vazios e nosso futuro é incerto.
Movendo os lábios quase imperceptivelmente, ela respondeu:
— Talvez tudo o que desejem de nós seja uma oportunidade de retaliar contra Galbatorix. — Fez uma pausa. — Se assim não for, teremos de encontrar outros meios que não o ouro para persuadi-los a reunirem-se às nossas fileiras.
— Poderia oferecer-lhes barris de nata — sugeriu Eragon, o que provocou um ataque de riso em Jörmundur e arrancou uma gargalhada suave de Nasuada.
A sua conversa em voz baixa terminou ao ouvirem três trombetas no exterior do salão principal. Depois, um pajem louro com uma túnica bordada com o estandarte dos Varden – um dragão branco segurando numa rosa por cima de uma espada apontada para baixo sobre um fundo púrpura – entrou pela porta aberta do outro lado do salão, bateu no chão com o bastão cerimonial e anunciou numa voz fina e melodiosa:
— Sua Alteza Real, Grimrr Meia-pata, Rei dos Meninos-gatos, Lorde dos Lugares Solitários, Governante dos Domínios da Noite, Aquele Que Caminha Sozinho.
Título estranho, Aquele Que Caminha Sozinho, comentou Eragon com Saphira.
Mas bem merecido, presumo, respondeu ela, e ele sentiu quão divertida estava, muito embora não pudesse ver de onde permanecia aninhada, na fortaleza do castelo.
O pajem afastou-se e Grimrr Meia-pata entrou pela porta, na forma humana, seguido de outros quatro meninos-gatos que o seguiam de perto, caminhando sobre grandes patas peludas. Eram os quatro parecidos com Solembum, o único menino-gato que Eragon vira na forma animal: ombros poderosos e membros longos, com uma gola curta de pelo sobre o pescoço e a cernelha, orelhas felpudas e uma cauda de ponta preta que sacudiam graciosamente de um lado para o outro.
Grimrr Meia-pata, contudo, não se parecia com qualquer pessoa ou criatura que Eragon tivesse visto até então. Tinha cerca de um metro e vinte de altura, a mesma altura que um anão, porém ninguém o confundiria com um, nem mesmo com um humano. Tinha um queixo pequeno e pontiagudo, maçãs do rosto largas e uns olhos verdes de pupilas fendidas, com pestanas semelhantes a asas por baixo de umas sobrancelhas arqueadas. O cabelo negro pendia baixo sobre a testa, chegando aos ombros nas costas e nas laterais, e era liso e lustroso, muito à semelhança das jubas dos seus companheiros. Eragon não conseguiria adivinhar a sua idade.
As únicas roupas que Grimrr usava eram um colete grosseiro de couro e uma tanga de pele de coelho. Trazia crânios de uma dúzia de animais – pássaros, ratos e outras pequenas presas – amarrados à parte da frente do colete e estes chocalhavam uns contra os outros quando andava. Tinha uma adaga embainhada, saída do cinto da tanga, na diagonal. Numerosas cicatrizes, finas e esbranquiçadas, marcavam-lhe a pele cor de avelã, como riscos numa mesa muito usada. Além disso, como o nome indicava, faltavam-lhe dois dedos na mão esquerda, que pareciam ter sido arrancados à dentada.
Apesar da delicadeza das feições, os músculos rijos e fortes dos braços e do peito de Grimrr, as ancas estreitas e o poder contido da sua passada ao caminhar calmamente ao longo da sala na direção de Nasuada não deixavam qualquer dúvida de que era um macho.
Nenhum dos meninos-gatos pareceu reparar nas pessoas que os observavam, alinhadas de ambos os lados do caminho, até Grimmr chegar junto de Angela, a herbolária, que estava ao lado de Roran a tricotar o cano de uma meia listrada utilizando com seis agulhas.
Grimrr franziu os olhos ao olhar para a herbolária e o seu cabelo ondulou, eriçando-se tal como o pelo dos quatro guardas. Os seus lábios recuaram, revelando um par de caninos recurvos e ele bufou breve e ruidosamente, para espanto de Eragon.
Angela levantou os olhos da meia, com uma expressão lânguida e insolente.
— Piu, piu.
Por instantes, Eragon julgou que o menino-gato fosse atacá-la.
Um rubor escuro manchou o pescoço e o rosto de Grimrr, as suas narinas dilataram-se e ele rosnou-lhe baixinho. Os outros meninos-gato agacharam-se, prontos a saltar, com as orelhas coladas à cabeça.
Eragon ouviu o ruído de espadas deslizando parcialmente das bainhas por toda a sala.
Grimrr voltou a bufar, virando costas à herbolária e continuando a caminhar. Quando o último menino-gato passou por Angela, ergueu uma pata e deu uma patada sub-reptícia no fio de lã pendurado nas agulhas, como um gato doméstico brincalhão faria.
Saphira estava tão confusa como Eragon. Piu, piu?, perguntou ela.
Ele encolheu os ombros, esquecendo-se que ela não o poderia ver. Nunca se sabe por que motivo Angela faz ou diz seja o que for.
Grimrr parou finalmente diante de Nasuada, inclinou muito ligeiramente a cabeça, revelando nesse comportamento a suprema confiança, ou mesmo a arrogância, que definia o universo único dos gatos, dragões e certas mulheres bem-nascidas.
— Lady Nasuada — disse. A sua voz era surpreendentemente grave, mais semelhante ao rugido de um gato bravo do que aos tons agudos do rapaz que aparentava ser.
Nasuada inclinou, por sua vez, a cabeça.
— Rei Meia-pata. Seja muito bem-vindo aos Varden, o senhor e toda a sua raça. Devo apresentar as minhas desculpas pela ausência do nosso aliado, o rei Orrin de Surda; ele não pôde estar presente para saudá-lo como pretendia, pois está neste momento com os seus cavaleiros a defender o nosso flanco oeste de um contingente de tropas de Galbatorix.
— Claro, Lady Nasuada — disse Grimrr, mostrando os dentes ao falar. — Nunca devemos virar as costas aos nossos inimigos.
— Ainda assim... a que devemos o prazer inesperado desta visita, Alteza? Os meninos-gatos sempre foram famosos pelo seu secretismo, pela sua solidão e por não se envolverem nos conflitos da era, especialmente depois da Queda dos Cavaleiros. Até se poderia dizer que sua raça se tornou um mito ao longo do último século. Por que motivo decidiram mostrar-se agora?
Grimrr ergueu o braço esquerdo e apontou para Eragon com um dedo arqueado rematado por uma unha semelhante a uma garra.
— Por causa dele — ronronou o menino-gato. — Não se ataca outro caçador antes que este nos revele as suas fraquezas e Galbatorix revelou as suas: ele não matará Eragon, Matador de Espectros, nem Saphira Bjartskular. Há muito que esperávamos esta oportunidade e vamos aproveitá-la. Galbatorix aprenderá a nos temer e a nos odiar. Finalmente entenderá a dimensão do seu erro e perceberá que nós fomos os responsáveis pela sua desgraça. E quão doce será essa vingança. Tão doce como a medula de um jovem e tenro javali. Chegou o momento, chegou o momento de todas as raças, mesmo os meninos-gatos, se unirem e provarem a Galbatorix que não ele quebrou a nossa vontade de lutar. Nós nos juntaremos ao seu exército como aliados voluntários e a ajudaremos a conseguir isso, Lady Nasuada.
Eragon não fazia ideia do que Nasuada pensava, mas ele e Saphira estavam impressionados com o discurso do menino-gato.
Depois de uma breve pausa, Nasuada disse:
— Suas palavras são bastante agradáveis aos meus ouvidos, Alteza, mas antes de aceitar sua oferta, preciso que me dê algumas respostas, se estiver disposto a isso.
Com uma indiferença inabalável, Grimrr acenou com a mão.
— Estou.
— Sua raça tem sido tão sigilosa e evasiva que devo confessar que só hoje soube da existência de Vossa Alteza. De fato, não sabia sequer que a sua raça tinha um governante.
— Eu não sou um rei como os reis de vocês — esclareceu Grimrr. — Os meninos-gatos preferem andar sozinhos, mas mesmo nós temos de escolher um líder quando vamos para a guerra.
— Compreendo. Fala em nome de toda a vossa raça, ou apenas em nome daqueles que viajam com o senhor?
Grimrr encheu o peito de ar e assumiu uma expressão ainda mais satisfeita, se é que tal era possível:
— Falo em nome de toda a minha raça, Lady Nasuada — ronronou ele. — Todos os meninos-gatos fisicamente capazes da Alagaësia, salvo aqueles que amamentam, estão aqui para lutar. Somos poucos, mas a nossa ferocidade em combate não tem igual e também posso comandar os de uma-forma, embora não possa falar em nome deles, pois são tão tontos como os outros animais. Ainda assim, farão o que exigirmos deles.
— Os de uma-forma? — inquiriu Nasuada.
— Aqueles que a senhora conhece como gatos. Aqueles que não podem mudar a pele como nós.
— E o senhor tem a lealdade deles?
— Sim. Eles nos admiram... o que é absolutamente natural.
Se o que ele diz é verdade, comentou Eragon a Saphira, os meninos-gatos poderão revelar-se incrivelmente valiosos.
Depois Nasuada disse:
— E o que o senhor deseja em troca da sua ajuda, Rei Meia-pata? — Olhou de relance para Eragon e sorriu, acrescentando: — Poderemos oferecer-lhes a nata que quiserem, mas para além disso os nossos recursos são limitados. Se os seus guerreiros esperam ser pagos pelos seus esforços, receio bem que sofram uma amarga decepção.
— As natas são para gatos pequenos e ouro não nos interessa — disse Grimrr, erguendo a mão direita ao falar, e examinando as unhas sob pálpebras semicerradas. — Os nossos termos são os seguintes: será fornecida uma adaga a cada um de nós, para combater, caso ainda não tenhamos uma. Cada um de nós terá duas armaduras feitas sob medida; uma para quando caminharmos sobre duas pernas e outra para quando caminharmos sobre quatro. Não precisamos de outro equipamento a não ser esse – dispensamos tendas, cobertores, pratos ou colheres. A cada um de nós será assegurado um pato, um ganso, uma galinha ou um pássaro semelhante por dia, e uma taça de fígado acabado de picar, de dois em dois dias. A comida deverá ser reservada para nós, mesmo que optemos por não a comer. Além disso, se a senhora ganhar esta guerra, seu próximo rei ou rainha – e todos os que reclamarem esse título daí em diante – deverão manter uma almofada estofada junto do trono, num lugar de honra, para um de nós nos sentarmos, se assim o desejarmos.
— O senhor negocia como um legislador anão — Nasuada comentou secamente. Inclinou-se para Jörmundur e Eragon ouviu-a sussurrar: — Temos fígado suficiente para alimentar a todos?
— Creio que sim — respondeu Jörmundur, também em voz baixa — mas depende do tamanho da taça.
Nasuada endireitou-se no seu lugar.
— Duas armaduras é demais, Rei Meia-pata. Os seus guerreiros terão de decidir se querem lutar como gatos ou como humanos e, depois, manter a sua decisão. Não tenho disponibilidade para equipá-los com ambas.
Se Grimrr tivesse cauda, com toda a certeza que a teria sacudido de um lado para o outro, pensou Eragon, mas o menino-gato apenas mudou de posição.
— Muito bem, Lady Nasuada.
— Há mais uma questão. Galbatorix tem espiões e assassinos escondidos por toda a parte. Portanto, como condição para que se reúnam aos Varden, terá de permitir que um dos nossos feiticeiros examine as suas memórias para nos certificarmos de que Galbatorix não tem domínio sobre vocês.
Grimrr fungou.
— Seria imprudente se não o fizesse. Se alguém tiver a coragem de ler os nossos pensamentos, que os leia. Mas ela não. — E virou-se para apontar para Angela. — Ela nunca.
Nasuada hesitou e Eragon percebeu que ela queria perguntar porquê, mas conteve-se.
— Que assim seja, então. Mandarei buscar os feiticeiros de imediato, para que possam resolver este assunto sem demora. Depois do exame, onde estou certa de que não encontrarão nada de nefasto, será uma honra estabelecer uma aliança entre vocês e os Varden, Rei Meia-pata.
Ao ouvir as suas palavras, todos os humanos presentes na sala começaram a aclamar e a aplaudir, incluindo Angela. Mesmo os elfos pareciam satisfeitos.
Os meninos-gatos, contudo, não reagiram, limitando-se virar as orelhas para trás, incomodados com o barulho.

2 comentários:

  1. Grimrr Meia-pata melhor nome Kkkkk
    Só eu fiquei imaginando todos os gatos que não se transformam, fazendo um exercito e atacando o exército de galbatorix? 😂

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  2. Tbm imaginei David 😂👏🏻👏🏻👏🏻

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Boa leitura :)