3 de junho de 2017

Capítulo 4 - Divergência

O açougueiro estava caído na parede da esquerda, com os dois braços acorrentados a uma argola de ferro acima da cabeça. As roupas esfarrapadas mal lhe cobriam o corpo pálido e emaciado. Os ângulos dos seus ossos se projetavam agudos por baixo da pele translúcida. As veias azuis também estavam salientes. Feridas estavam abertas nos seus pulsos onde as algemas roçavam. Das úlceras brotava uma mistura de um líquido claro e sangue. O que restava do seu cabelo estava grisalho ou branco, em mechas engorduradas que escorriam sobre seu rosto marcado pela varíola. Despertado pelo barulho metálico do martelo de Roran, Sloan levantou o queixo na direção da claridade para perguntar, em voz tremula:
— Quem é? Quem está aí?
Seu cabelo se repartiu e deslizou para trás, expondo as cavidades oculares, que estavam muito afundadas no crânio. Onde deveriam estar as pálpebras, havia agora não mais que fragmentos de pele esfarrapada cobrindo as órbitas nuas por baixo. A área em volta apresentava contusões e cascas de feridas.
Foi um choque para Eragon perceber que os Ra’zac haviam arrancado com os bicos os olhos de Sloan. O que deveria fazer então, Eragon não conseguia decidir. O açougueiro contara aos Ra’zac que Eragon havia encontrado o ovo de Saphira. Além disso, Sloan assassinara o vigia, Byrd, e havia traído Carvahall entregando o vilarejo ao Império. Se fosse levado à presença de seus concidadãos, sem a menor dúvida eles o considerariam culpado e o condenariam à morte por enforcamento.
Para Eragon, simplesmente parecia correto que o açougueiro morresse por seus crimes. Não era essa a fonte de sua insegurança. Ela derivava, sim, do fato de Roran amar Katrina; e, não importava o que Sloan tivesse feito, Katrina ainda devia nutrir algum afeto por seu pai. Assistir a um juiz denunciar em público os delitos de Sloan e depois enforcá-lo não seria fácil para ela ou, por tabela, para Roran. Uma provação dessas poderia até mesmo gerar rancor suficiente entre eles para terminar com o noivado. Fosse como fosse, Eragon estava convencido de que levar Sloan de volta com eles somente semearia a discórdia entre ele, Roran, Katrina e os outros aldeões, podendo gerar raiva suficiente pata desviá-los da luta contra o Império.
A solução mais fácil, pensou, seria matá-lo e dizer que o encontrei morto na cela...
Seus lábios tremeram com uma das palavras da morte pesando na sua língua.
— O que você quer? — perguntou Sloan. Ele voltava a cabeça de um lado para outro no esforço de ouvir melhor. — Já lhe disse tudo o que sei!
Eragon praguejou contra si mesmo pela hesitação. A culpa de Sloan não estava em questão: ele era um assassino e um traidor. Qualquer defensor da lei o sentenciaria à execução. Não obstante o mérito desses argumentos, era Sloan que estava encolhido à sua frente, um homem que Eragon havia conhecido a vida inteira. O açougueiro podia ser uma pessoa desprezível, mas a quantidade de lembranças e experiências que Eragon compartilhava com ele gerava uma noção de intimidade que perturbava a consciência do jovem Cavaleiro. Acabar com a vida de Sloan seria o mesmo que levantar a mão contra Horst, Loring ou qualquer outro dos anciãos de Carvahall.
Mais uma vez, Eragon se preparou para pronunciar a palavra fatal. Uma imagem surgiu em sua mente: Torkenbrand, o traficante de escravos que ele e Murtagh tinham encontrado durante sua fuga até os Varden, ajoelhado no chão empoeirado, e Murtagh aproximando-se dele a passos largos para decapitá-lo. Eragon se lembrou de como condenara o ato de Murtagh e como havia sido perturbado pela lembrança por dias a fio. Será que mudei tanto assim, perguntou-se ele, a ponto de conseguir fazer a mesma coisa agora? Como Roran disse, já matei, mas só no calor da batalha... nunca desse jeito.
Ele olhou de relance para trás quando Roran quebrou a última dobradiça da porta da cela de Katrina. Deixando cair o martelo, Roran se preparou para investir contra a porta e derrubá-la para dentro, mas de repente pareceu pensar melhor e tentou levantá-la do umbral. A porta subiu talvez um centímetro, parou e oscilou nas suas mãos.
— Dá para você me ajudar aqui? — gritou Roran. — Não quero que a porta caia em cima dela.
Eragon olhou de volta para o açougueiro desgraçado. Já não tinha tempo para devaneios irracionais. Precisava fazer sua escolha. De um modo ou de outro, precisava escolher...
— Eragon!
Não sei o que está certo, concluiu Eragon. Sua própria incerteza lhe dizia que seria errado matar Sloan ou entregá-lo aos Varden. Não tinha a menor ideia do que deveria fazer então, a não ser a de que deveria encontrar uma terceira via, uma que fosse menos óbvia e menos violenta.
Erguendo a mão, como se estivesse concedendo uma bênção, Eragon sussurrou “Slytha”. As algemas de Sloan chocalharam quando ele perdeu a rigidez, caindo num sono profundo. Assim que teve certeza de que o encanto tinha dado certo, Eragon fechou e trancou a porta da cela novamente e repôs suas proteções em torno dela.
O que você está aprontando, Eragon?, perguntou Saphira.
Espere até nos reunirmos de novo. Então eu lhe explico.
Explica o quê? Você não tem plano algum.
Basta me dar um minuto, e eu terei.
— O que havia ali dentro? — perguntou Roran quando Eragon assumiu a posição diante dele.
— Sloan. — Eragon acertou o jeito para segurar a porta com o primo. — Está morto.
— Morreu? — Os olhos de Roran se arregalaram. — Como?
— Parece que quebraram o pescoço dele.
Por um instante, Eragon receou que Roran não acreditasse nele. Mas então o primo deu um resmungo.
— Melhor assim, imagino. Pronto? Um, dois, três...
Juntos eles ergueram a porta pesadíssima do umbral e a jogaram do outro lado do corredor de pedra, que devolveu repetidas vezes o estrondo resultante. Sem parar, Roran entrou correndo na cela, que estava iluminada por uma única vela fina de cera.
Eragon entrou um passo atrás dele. Katrina estava toda encolhida na ponta mais distante de um catre de ferro.
— Me deixem em paz, seus bastardos sem dentes! Eu... — Ela parou, pasma, quando Roran avançou.
Seu rosto estava muito branco pela falta de sol e raiado de sujeira. Mesmo assim, naquele instante, um ar de tamanho assombro e puro amor inundou suas feições e Eragon achou que raramente tinha visto alguma moça tão bela. Sem tirar os olhos de Roran, Katrina se levantou e, com a mão trêmula, tocou no seu rosto.
— Você veio.
— Eu vim.
Roran deixou escapar um soluço de riso e a abraçou, puxando-a para junto do peito. Os dois ficaram perdidos nesse abraço por um bom tempo. Afastando-se, Roran a beijou três vezes nos lábios.
Katrina franziu o nariz e exclamou:
— Você deixou a barba crescer!
De todas as coisas que ela poderia ter dito, essa frase foi tão inesperada, e Katrina pareceu tão chocada e surpresa, que provocou um risinho em Eragon.
Pela primeira vez, Katrina pareceu perceber sua presença. Ela o observou por inteiro e então se deteve no rosto, que examinou com óbvia perplexidade.
— Eragon? É você?
— Eu mesmo.
— Ele agora é um Cavaleiro de Dragão — disse Roran.
— Um Cavaleiro? Você está querendo dizer... — Ela não prosseguiu. A revelação pareceu desnorteá-la. Olhando para Roran, como que em busca de proteção, ela o abraçou ainda mais forte e começou a andar para o lado, afastando-se de Eragon. Dirigiu-se então a Roran: — Como... como vocês nos encontraram? Quem mais está com vocês?
— Tudo isso fica para mais tarde. Precisamos escapar de Helgrind antes que o resto do Império venha correndo atrás de nós.
— Esperem! E meu pai? Vocês o encontraram?
Roran olhou para Eragon e então se voltou para Katrina.
— Chegamos tarde demais — disse, delicadamente.
Um calafrio percorreu Katrina. Ela fechou os olhos, e uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto.
— Que se há de fazer?
Enquanto falavam, Eragon tentava loucamente descobrir uma forma para se livrar de Sloan, embora ocultasse de Saphira suas deliberações, pois sabia que ela não aprovaria o rumo de seus pensamentos. Um plano começou a se formar na sua mente. Era uma ideia estapafúrdia, cheia de perigo e incerteza, mas era o único caminho viável, dadas as circunstâncias. Abandonando mais reflexões, Eragon entrou imediatamente em ação. Tinha muito a fazer em pouco tempo.
— Jierda! — gritou ele, apontando.
Com uma explosão de fagulhas azuis e estilhaços voadores, os ferros rebitados em volta dos tornozelos de Katrina se partiram.
Surpresa, Katrina deu um pulo.
— Magia... — murmurou ela.
— Um encanto simples. — Ela se encolheu para não ser tocada quando ele estendeu a mão na sua direção. — Katrina, preciso me certificar de que Galbatorix ou um dos seus mágicos não colocou em você encantos com armadilhas nem a forçou a fazer juramentos na língua antiga.
— A língua...
— Eragon! — disse Roran, interrompendo-a. — Faça isso quando acamparmos. Não podemos ficar aqui.
— Não. — O braço de Eragon cortou o ar. — Vamos fazer isso agora.
De cara fechada, Roran saiu de lado e deixou que Eragon pusesse as mãos nos ombros de Katrina.
— Basta olhar nos meus olhos — disse ele.
Ela fez que sim e obedeceu. Essa era a primeira vez que Eragon tinha um motivo para usar os encantos que Oromis lhe ensinara para detectar o trabalho de outro feiticeiro, e ele teve dificuldade para recordar cada palavra dos pergaminhos de Ellesméra. As lacunas na sua memória eram tão graves que em três ocorrências diferentes, ele precisou recorrer a um sinônimo para completar um encantamento. Por muito tempo, Eragon olhou nos olhos cintilantes de Katrina e pronunciou frases na língua antiga, eventualmente – e com a permissão dela – examinando uma das suas lembranças em busca de indícios de que alguém havia interferido ali. Usou da máxima delicadeza possível, diferentemente dos Gêmeos, que devastaram sua própria mente num procedimento semelhante, no dia em que Eragon chegou a Farthen Dûr.
Roran ficou de guarda, andando de um lado para o outro diante da porta aberta. Cada segundo que passava aumentava sua agitação. Ele girava o martelo e batia com a cabeça da ferramenta na parte superior da coxa, como se estivesse acompanhando o ritmo de uma música.
— Terminei — disse Eragon, por fim, soltando Katrina.
— O que você encontrou? — murmurou ela, enrolando os braços em torno de si mesma, com a testa vincada de rugas de preocupação enquanto esperava por seu veredicto.
O silêncio dominou a cela quando Roran parou de andar.
— Nada a não ser seus próprios pensamentos. Você está livre de quaisquer encantos.
— É claro que está — rosnou Roran, e voltou a envolvê-la nos braços.
Juntos, os três saíram da cela.
— Brisingr, iet tauthr — disse Eragon, com um gesto para a luz-viva, que ainda flutuava perto do teto do corredor.
A um comando seu, o globo luminoso partiu para um ponto diretamente acima de sua cabeça e ali permaneceu, dançando como um pedaço de madeira boiando nas ondas. Eragon foi na frente enquanto eles seguiam apressados pela confusão de túneis na direção da caverna onde tinham pousado.
Durante a corrida pela rocha escorregadia, ele vigiava, atento para o Ra’zac que restava, e ao mesmo tempo erguia proteções para salvaguardar Katrina. Atrás dele, Eragon ouvia Roran e ela trocar uma série de frases curtas e palavras isoladas: “Eu te amo... Horst e os outros em segurança... Sempre... Por você... Sim... Sim... Sim... Sim...” A confiança e o afeto entre os dois eram tão óbvios que despertaram em Eragon uma dor difusa cheia de anseio. Quando estavam a cerca de dez metros da caverna principal, e começavam a enxergar com a claridade fraca à sua frente, Eragon apagou a luz-viva.
Poucos palmos adiante, Katrina reduziu o ritmo e depois se grudou na parede do túnel, cobrindo o rosto.
— Não posso. Está claro demais. Meus olhos estão doendo.
Roran rapidamente se postou na frente dela, protegendo-a com sua sombra.
— Quando foi a última vez que você esteve ao ar livre?
— Não sei... — Uma sugestão de pânico começou a transparecer na sua voz. — Não sei! Acho que desde que me trouxeram para cá. Roran, estou ficando cega? — Ela fungou e começou a chorar. Seu choro deixou Eragon surpreso.
Ele se lembrava dela como alguém de enorme força física e moral. Mas a verdade era que Katrina havia passado muitas semanas trancafiada no escuro, temendo pela própria vida. Eu também talvez deixasse de ser eu mesmo se estivesse no seu lugar.
— Não, você está bem. Só precisa voltar a se acostumar ao sol. — Roran afagou seu cabelo. — Ora, não deixe que isso a perturbe. Tudo vai dar certo... Agora você está a salvo. A salvo, Katrina. Está me ouvindo?
— Estou.
Apesar de detestar a ideia de estragar uma das túnicas que os elfos tinham lhe dado, Eragon rasgou uma tira de tecido da barra do seu traje e a entregou a Katrina.
— Amarre essa tira por cima dos seus olhos. Você deve conseguir ver através do pano o suficiente para não cair nem colidir com alguma coisa.
Ela agradeceu e se vendou. Voltando a avançar, o trio saiu para a caverna principal, ensolarada e salpicada de sangue – que fedia mais ainda do que antes, em razão das emanações fétidas do corpo do Lethrblaka – no exato instante em que Saphira surgia vinda das profundezas da abertura em arco ogival diante deles.
Ao vê-la, Katrina abafou um grito e se agarrou a Roran, fincando os dedos nos seus braços.
— Katrina — disse Eragon —, permita-me apresentá-la a Saphira. Sou seu Cavaleiro. Ela entende se você falar.
— É uma honra, ó, Dragão! — Katrina conseguiu dizer. Também abaixou os joelhos numa fraca imitação de uma mesura.
Saphira respondeu inclinando a cabeça. Depois, voltou-se para Eragon. Examinei o ninho dos Lethrblaka, mas só encontrei ossos, ossos e mais ossos, até mesmo uns ainda com cheiro de carne fresca. Os Ra’zac devem ter comido os escravos durante a noite.
Eu queria ter conseguido salvá-los.
Eu sei, mas não podemos proteger todo o mundo nesta guerra.
— Andem — disse Eragon, indicando Saphira. — Podem montar nela. Já vou me unir a vocês.
Katrina hesitou e então olhou para Roran, que fez que sim.
— Nenhum problema — sussurrou ele. — Foi Saphira que nos trouxe aqui.
Juntos, os dois se desviaram do corpo do Lethrblaka quando se aproximaram de Saphira, que se agachou com o ventre no chão para que eles pudessem montar. Juntando as mãos para lhe dar apoio, Roran ergueu Katrina a uma altura suficiente para que ela se elevasse por cima da parte superior da perna dianteira esquerda de Saphira. Dali, Katrina conseguiu subir se agarrando às correias da sela, como se fossem uma escada de mão, até se sentar empoleirada no topo das espáduas de Saphira. Como um cabrito montês que salta de um ponto de apoio para outro, Roran imitou sua subida.
Atravessando a caverna atrás deles, Eragon examinou Saphira, para avaliar a gravidade de seus diversos arranhões, cortes, rasgos, contusões e ferimentos. Para isso, ele confiou no que ela mesma estava sentindo, além do que ele conseguia ver.
Por caridade, disse Saphira, poupe suas atenções até nós estarmos bem longe, fora de perigo. Não vou sangrar até morrer.
Isso não é bem verdade, e você sabe disso. Você está com uma hemorragia interna. A menos que eu a estanque agora, você poderá sofrer complicações que eu não terei como curar; e nesse caso nós jamais conseguiremos chegar aos Varden novamente. Não discuta. Você não conseguirá me fazer mudar de ideia. E não vou levar um minuto.
Aconteceu que alguns minutos foram necessários para Eragon restaurar Saphira a seu estado de saúde anterior. Seus ferimentos eram tão graves que, para completar as fórmulas mágicas, Eragon precisou esgotar a energia do cinto de Beloth, o Sábio, e depois disso recorrer às vastas reservas de força da própria Saphira. Sempre que ele passava de um ferimento maior para um menor, ela protestava, dizendo que ele estava sendo tolo e, por favor, será que ele poderia largar do seu pé, mas Eragon não fazia caso dessas queixas, para grande desagrado de Saphira.
Depois, Eragon se deixou cair, exausto da magia e da luta. Apontando o dedo para os lugares onde os Lethrblaka a tinham perfurado com o bico, ele disse:
Você deveria pedir que Arya ou outro elfo inspecione meu trabalho nesses ferimentos. Fiz o que pude, mas posso ter deixado de ver alguma coisa.
Aprecio sua preocupação com meu bem-estar, respondeu ela, mas este aqui não é exatamente o lugar certo para demonstrações de carinho. De uma vez por todas, vamos embora!
Sim. Hora de ir embora. Recuando, Eragon foi se desviando de Saphira, indo na direção do túnel atrás dele.
— Vamos! — gritou Roran. — Depressa!
Eragon!, Saphira exclamou.
— Não. Vou ficar aqui — disse Eragon, abanando a cabeça.
— Você... — começou Roran a dizer, mas um rosnado feroz de Saphira o interrompeu. Ela agitou a cauda contra a parede da caverna e riscou o chão com suas garras, de modo que osso e pedra guincharam no que parecia uma agonia mortal.
— Prestem atenção! — gritou Eragon. — Um dos Ra’zac ainda está à solta. E pensem em tudo o mais que poderia estar em Helgrind: pergaminhos, poções, informações sobre as atividades do Império, coisas que podem nos ajudar! Os Ra’zac podem até mesmo ter ovos armazenados aqui. Se tiverem, preciso destruí-los antes que Galbatorix os reivindique.
Para Saphira, Eragon também disse: Não consigo matar SloanNão posso deixar que Roran nem Katrina o vejam. E não posso deixar que morra de inanição na cela, nem que os homens de Galbatorix o recapturem. Sinto muito, mas preciso lidar com Sloan sozinho.
— Como você vai sair do Império? — perguntou Roran.
— Correndo. Agora sou tão veloz quanto um elfo, sabia?
A ponta da cauda de Saphira se contraiu. Esse foi o único aviso que Eragon teve antes que ela saltasse na sua direção, estendendo uma das patas cintilantes. Ele fugiu, disparando pelo túnel adentro uma fração de segundo antes que o pé de Saphira passasse pelo espaço onde ele estava antes. Saphira derrapou e parou diante do túnel, rugindo de frustração por não conseguir ir atrás dele pela abertura estreita. Seu volume obstruía quase toda a claridade. A rocha tremia em volta de Eragon enquanto ela atacava a entrada com as garras e os dentes, soltando grossos pedaços da rocha. Seus rosnados ferozes e a visão do focinho agressivo, cheio de dentes do comprimento do seu antebraço, causaram em Eragon um sobressalto de medo. Ele agora entendia como um coelho devia se sentir quando se encolhe na toca enquanto um lobo vem cavando na sua direção.
— Gánga! — gritou ele.
Não! Saphira pousou a cabeça no chão e soltou um lamento entristecido, com os olhos grandes, de dar pena.
— Gánga! Amo você, Saphira, mas você precisa ir.
Ela recuou alguns metros da boca do túnel e fungou para ele, miando como um gato. Pequenino...
Eragon detestava fazê-la infeliz e detestava mandá-la embora. Tinha a sensação de que estava se rasgando. A tristeza de Saphira fluía pelo vínculo mental entre os dois e, aliada à própria angústia de Eragon, quase o paralisava. De algum modo, ele reuniu coragem para continuar.
— Gánga! E não volte para me buscar, nem mande nenhuma outra pessoa atrás de mim. Vai dar tudo certo. Gánga! Gánga!
Saphira deu um uivo de frustração e então, relutante, andou até a entrada da caverna.
— Eragon, vamos! Tenha juízo! Você é importante demais para se arriscar...
Uma combinação de ruído e movimento prejudicou o resto da frase quando Saphira se lançou para fora da caverna. No céu claro lá fora, suas escamas cintilavam como uma infinidade de diamantes azuis. Ela era magnífica, pensou Eragon: altiva, nobre e mais bela que qualquer outra criatura viva. Nenhum cavalo nem leão teria como compelir com a majestade de um dragão em voo. Ela disse:
Uma semanaé esse o prazo que vou esperarDepois voltarei para buscá-lo, Eragon, mesmo que eu tenha de abrir caminho lutando com Thorn, Shruikan e mil mágicos.
Eragon ficou ali parado até ela diminuir ao longe e ele não mais conseguir tocar sua mente. E então, com o coração pesado como chumbo, ele endireitou os ombros e deu as costas ao sol e a todas as coisas brilhantes e vivas para mais uma vez descer para o interior dos túneis de sombra.

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