3 de junho de 2017

Capítulo 39 - Reencontro

Eragon estava a quase um quilômetro de onde partira para o portão sul de Tronjheim. Cobriu a distância em apenas alguns minutos, suas pisadas fazendo barulho contra o piso de pedra.
À medida que corria, olhava de relance as ricas tapeçarias penduradas acima das arcadas voltadas para os corredores de cada lado e as grotescas estátuas de animais e monstros à espreita entre os pilares de jaspe vermelho-sangue ao longo da avenida abobadada. A passagem de quatro pavimentos era tão larga que Eragon não tinha a menor dificuldade para desviar dos anões que enchiam o local, mas, num determinado ponto, uma fileira de Knurlcarathn apareceu à sua frente e ele não teve alternativa a não ser pular os anões, que se abaixaram rapidamente, proferindo exclamações de espanto. Eragon saboreou os olhares de perplexidade enquanto voava por cima deles. Com um salto rápido, correu por baixo do maciço portão de madeira que protegia a entrada sul da cidade-montanha, ouvindo os guardas gritando “Ei, Argetlam!” ao vê-lo passar. Como o portão estava fechado na base de Tronjheim, passou correndo entre um par de gigantescos grifos de ouro que miravam o horizonte com olhos cegos e finalmente alcançou o espaço aberto, vinte metros além.
O ar estava frio e úmido e cheirava a chuva recente. Embora fosse manhã, o crepúsculo acinzentado envolvia a faixa achatada de terra que cercava Tronjheim, sobre a qual nenhuma relva crescia, apenas musgo e líquens e as ocasionais ocorrências de pungentes cogumelos venenosos. Acima, Farthen Dûr assomava dezesseis quilômetros na direção de uma abertura estreita através da qual uma luz tênue e indireta penetrava a imensa cratera. Eragon teve dificuldade para mensurar a montanha quando olhou para cima. Enquanto corria, ouvia o monótono acorde de sua respiração e de seus passos leves e rápidos. Estava sozinho, exceto por um estranho morcego que rodopiava acima dele, emitindo guinchos estridentes. A atmosfera tranquila que permeava a montanha oca o confortava, o libertava de suas preocupações usuais.
Seguiu a trilha de paralelepípedos que ia do portão sul de Tronjheim até as duas portas pretas de nove metros de altura na base sul de Farthen Dûr. Assim que parou, um par de anões emergiu de guaritas escondidas e correu para abrir as portas, revelando o túnel aparentemente interminável à frente.
Eragon continuou. Pilares de mármore cravejados de rubis e ametistas estavam alinhados nos primeiros quinze metros do túnel. Depois disso, o lugar ficou nu e desolado, a monotonia das paredes lisas quebrada apenas por uma única lanterna a cada vinte metros e por um portão ou porta que apareciam em intervalos desiguais. Imagino aonde eles levam, pensou. Então, fantasiou os quilômetros de pedra pressionando sua cabeça e, por um momento, o túnel pareceu insuportavelmente opressivo. Rapidamente se livrou da imagem. Na metade do túnel, Eragon sentiu-a.
— Saphira! — gritou, com a mente e com a voz, seu nome ecoando nas paredes de pedra com a força de doze berros.
Eragon! Um instante depois, o tênue trovão de um rugido distante rolou em sua direção da outra extremidade do túnel. Redobrando a velocidade, Eragon abriu sua mente para Saphira, removendo cada barreira em torno de quem era, de modo que pudessem se reunir sem reservas. Como uma inundação de água quente, as consciências dos dois dispararam em direção a um e outro, num ato simultâneo. Eragon arquejou, tropeçou e quase caiu. Envolveram-se ambos nas camadas de seus pensamentos, abraçando um ao outro com uma intimidade que nenhum abraço físico poderia conseguir, permitindo que suas identidades se fundissem mais uma vez.
Seu maior conforto era bastante simples: não estavam sozinhos; os dois sabiam que estavam na companhia de alguém que os ama, os compreende absolutamente e que não os abandonaria mesmo nas circunstâncias mais desesperadas. Esse é o relacionamento mais precioso que se pode ter, e tanto Cavaleiro quanto dragão valorizavam isso.
Não demorou muito até que Eragon avistasse Saphira correndo na sua direção o mais rápido que podia sem bater com a cabeça no teto ou arranhar as asas nas paredes. Suas garras raspavam nas pedras do piso enquanto ela deslizava e parava na frente de Eragon, firme, resplandecente, gloriosa. Gritando de alegria, Eragon saltou e, ignorando as escamas afiadas, envolveu os braços em seu pescoço e a abraçou com o máximo de força que conseguia, seus pés pendurados vários centímetros no ar.
Pequenino, chamou Saphira, com o tom suave. Ela o trouxe para o chão, resfolegou e disse: Pequenino, a menos que queira me sufocar, seria melhor você afrouxar esse abraço.
Desculpe. Esboçando um sorriso, ele deu um passo para trás e então riu e pressionou a testa contra o focinho do dragão e começou a coçar atrás dos cantos da mandíbula.
O zunido baixinho de Saphira preencheu o túnel. Você está cansada, disse ele.
Nunca voei tão rápido para tão longe. Parei apenas uma vez depois de deixar os Varden, e jamais teria parado, mas fiquei com muita sede para continuar.
Você quer dizer que não dorme nem come há três dias? Ela piscou para ele, escondendo seus brilhantes olhos de safira por um instante. Você deve estar faminta!, Eragon exclamou, preocupado.
Ele procurou finais de ferimento nela. Para seu alívio, não encontrou nenhum.
Estou cansada, admitiu ela, mas não faminta. Ainda não. Depois que eu descansar, aí sim vou precisar comer. Nesse exato instante, não acho que conseguiria engolir mais do que um coelho... A terra está instável embaixo de mim; sinto como se ainda estivesse voando.
Se não tivessem ficado separados por tanto tempo, Eragon talvez a tivesse criticado por ser tão imprudente, mas, naquele momento, estava emocionado e grato por ela ter sido tão veloz.
Obrigado, disse ele. Eu odiaria esperar outro dia para nos reencontrarmos.
E eu também. Ela fechou os olhos e pressionou sua cabeça contra as mãos dele enquanto ele continuava a coçar atrás da sua mandíbula. Além disso, eu nunca poderia me atrasar para a coroação, poderia? Quem foi que o conselho...
Antes que pudesse terminar a pergunta, Eragon enviou para ela uma imagem de Orik.
Ah, ela suspirou, sua satisfação fluindo através dele. Ele será um ótimo rei.
Assim espero.
A estrela de safira está pronta para eu fazer o conserto?
Se os anões ainda não tiverem terminado de juntar os cacos, estou certo de que amanhã terão concluído o trabalho.
Isso é bom. Abrindo um pouco a pálpebra, ela fixou o olhar nele. Nasuada me contou o que o Az Sweldn rak Anhûin tentou fazer. Você sempre se mete em encrencas quando não estou ao seu lado.
Ele abriu um enorme sorrisoE quando você está?
Eu como o problema antes que ele o coma.
Isso é o que você diz. E quando os Urgals nos emboscaram em Gil’ead e nos levaram prisioneiros?
Uma nuvem de fumaça escapou das presas de Saphira. Isso não conta. Eu era menor naquela época, e ainda não tinha tanta experiência. Isso não aconteceria hoje. E você não é mais tão desamparado como era antes.
Nunca fui desamparado, ele protestou. Só tenho inimigos poderosos.
Por algum motivo, Saphira considerou a última colocação de Eragon enormemente engraçada; começou a rir do fundo do peito, e logo ele estava rindo também. Nenhum dos dois conseguiu parar até que Eragon ficou deitado de costas, sem ar, e Saphira se esforçou para conter os jatos de chama que não paravam de sair de suas narinas. Então, ela produziu um som que Eragon jamais ouvira antes, um grunhido estranho e prolongado, e ele reparou numa sensação das mais esquisitas na conexão dos dois. Saphira produziu novamente o som, e balançou a cabeça, como se estivesse tentando se livrar de um enxame de moscas.
Nossa, disse ela. Parece que eu estou com soluço.
Eragon escancarou a boca. Manteve essa postura por um instante, e então se inclinou e gargalhou com tanta força que lágrimas escorreram de seu rosto. Sempre que estava a ponto de parar, Saphira soluçava, lançando a cabeça para a frente como se fosse uma cegonha, e ele voltava a ter as convulsões de riso. Finalmente, ele tapou os ouvidos com as mãos, mirou o teto e recitou os verdadeiros nomes de cada metal e pedra que conseguia se lembrar. Quando terminou, respirou bem fundo e se levantou.
Está melhor?, Saphira perguntou. Seus ombros sacudiram assim que ela teve outro acesso de soluço.
Eragon mordeu a língua. Estou melhor... Vamos indo, vamos para Tronjheim. Você precisa beber um pouco d’água. Isso talvez ajude. E depois precisa dormir.
Você não pode curar soluços com algum encanto?
Talvez. Provavelmente. Mas nem Brom nem Oromis me ensinaram como.
Saphira rosnou sua compreensão, seguida por um soluço um instante depois. Mordendo sua língua com mais força ainda, Eragon mirou as pontas das botas. Vamos?
Saphira estendeu sua perna dianteira direita como um convite. Eragon montou ansiosamente em suas costas e se acomodou na sela na base do pescoço do dragão. Juntos, continuaram pelo túnel na direção de Tronjheim, ambos felizes, e ambos compartilhando a felicidade um do outro.

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