24 de junho de 2017

Capítulo 38 - Um labirinto sem fim

Eragon e os outros passaram o resto do conclave a discutir
questões práticas: linhas de comunicação — quem reportaria a
quem — distribuição de tarefas; redistribuição das proteções e
das sentinelas do acampamento para impedir que Thorn ou
Shruikan voltassem a surpreendê-los; e disponibilizar novo
equipamento aos homens cujos pertences tinham ardido ou ficado
esmagados durante o ataque. Decidiram, por consenso, esperar até
ao dia seguinte para anunciar o que acontecera a Nasuada, pois era
mais importante que os guerreiros dormissem, antes da alvorada
iluminar o horizonte.
Algo que não discutiram foi se deveriam tentar salvar Nasuada.
Era óbvio que a única forma de a libertar seria tomando Urû’baen
e, nessa altura, era provável que ela já estivesse morta, ferida, ou
jurado lealdade a Galbatorix, na língua antiga. Por isso, evitaram
falar no assunto, como que dando a entender que era tabu.
Porém, era uma presença constante nos pensamentos de
Eragon. Sempre que fechava os olhos, via Murtagh a bater-lhe, os
dedos escamosos da pata de Thorn a fecharem-se em torno dela e
o dragão vermelho a levantar voo na noite. Essas memórias apenas
contribuíam para que ele se sentisse mais infeliz, mas não conseguia
parar de as reviver.
Quando o conclave se dispersou, Eragon fez sinal a Roran,
Jörmundur e Arya. Eles seguiram-no de regresso à sua tenda sem o
questionar. Aí Eragon perdeu algum tempo a aconselhar-se com
eles e a planear o dia seguinte.
— Tenho a certeza de que o Concelho dos Anciãos te vai dar
alguns problemas — disse Jörmundur. — Eles não te consideram tão
experiente em política como Nasuada, pelo que tentarão tirar
proveito disso. — O guerreiro de longos cabelos parecia
extraordinariamente calmo desde o ataque, tão calmo que Eragon
desconfiou que ele estivesse prestes a rebentar em lágrimas, ou à
beira de um ataque de raiva, talvez ambas as coisas.
— E não sou — disse Eragon.
Jörmundur inclinou a cabeça.
— Apesar disso, terás de te aguentar firme. Eu posso ajudar-te
um pouco, mas tudo dependerá em grande parte da forma como te
comportares. Se lhes permitires que influenciem excessivamente as
tuas decisões, pensarão que foram eles que herdaram a liderança
dos Varden e não tu.
Eragon olhou de relance para Arya e Saphira, com um ar
preocupado.
Não tenham medo, disse Saphira a todos eles. Ninguém lhe
conseguirá fazer frente enquanto eu estiver de vigia.
Quando a pequena reunião secundária chegou ao fim, Eragon
esperou que Arya e Jörmundur saíssem da tenda, agarrando depois
Roran pelo ombro.
— Estavas a falar a sério quando disseste que isto era uma
batalha de deuses?
Roran ficou a olhá-lo.
— Sim... Tu, Murtagh e Galbatorix são demasiado poderosos
para serem derrotados por uma pessoa normal. Não está certo,
nem é justo, mas é assim. Somos como formigas debaixo das
vossas botas. Fazes ideia de quantos homens mataste sozinho?
— Demasiados.
— Exatamente. Fico feliz por estares aqui para lutar por nós e por
poder contar contigo como meu irmão, em tudo menos no nome,
mas desejava não ter de recorrer a um Cavaleiro, a Elfos ou a
qualquer outro tipo de feiticeiros para ganhar esta guerra. Ninguém
deveria estar à mercê de outras pessoas. Pelo menos, não desta
forma. Desequilibra o mundo.
Dito isto, Roran abandonou a tenda.
Eragon afundou-se no seu catre, como se tivesse sido atingido
no peito. Ficou ali sentado durante algum tempo, a suar e a pensar,
até que a tensão na sua mente o fez levantar-se bruscamente e sair
apressado.
Ao sair da tenda, os seis Falcões Noturnos, levantaram-se de
imediato, preparando as armas para o acompanharem para onde
quer que ele fosse.
Eragon fez-lhes sinal para ficarem onde estavam. Embora ele
tivesse protestado, Jörmundur fizera questão de destacar os
guardas de Nasuada para o proteger, para além de Blödhgarm e
dos outros elfos.
— Todo o cuidado é pouco — dissera Jörmundur. Eragon não
gostava de ter mais gente a segui-lo para todo o lado, mas fora
forçado a aceitar.
Passou pelos guardas, encaminhando-se apressadamente para o
local onde Saphira estava enroscada no chão.
Ao aproximar-se, ela abriu um olho e levantou a asa para ele
gatinhar para debaixo dela e aninhar-se contra a sua barriga quente.
Pequenino, disse ela, e começou a ronronar suavemente.
Eragon encostou-se a Saphira, ouvindo-a ronronar e sentindo o
restolhar suave do ar a entrar e a sair dos seus poderosos pulmões.
Por trás de si, a barriga dela dilatava-se e contraía-se a um ritmo
suave e relaxante.
Em qualquer outra altura a sua presença teria sido o suficiente
para o acalmar, mas não neste momento. A mente recusava-se a
abrandar, a pulsação continuava a martelar-lhe o peito e tinha os
pés e as mãos desconfortavelmente quentes.
Guardou as sensações para si, evitando perturbar Saphira.
Fatigada dos dois combates com Thorn, ela depressa mergulhou
num sono profundo, e o ronronar deu lugar ao ruído constante da
sua respiração.
Mas os pensamentos de Eragon continuavam sem lhe dar
tréguas. Voltava constantemente à mesma evidência inverosímil e
irrefutável: ele era o líder dos Varden. Ele, que anteriormente não
passava do elemento mais novo de uma família pobre de
lavradores, era agora o líder do segundo maior exército de
Alagaësia. O simples fato de isso ter acontecido parecia-lhe
ultrajante, como se o destino estivesse a brincar com ele, atraindoo
para uma armadilha que o iria destruir. Nunca o desejara, nem o
procurara, no entanto os acontecimentos tinham-lhe imposto esse
fardo.
“O que teria Nasuada na cabeça quando me escolheu para seu
sucessor?”, perguntou-se. Recordou as razões que ela lhe dera mas
estas não contribuíram em nada para atenuar as suas dúvidas. “Será
que ela acreditava mesmo que eu conseguiria substituí-la? Porque
não Jörmundur? Há décadas que está com os Varden, e sabe muito
mais do que eu acerca de comando e estratégia.”
Eragon recordou o momento em que Nasuada decidira aceitar a
aliança dos Urgals, apesar de todo o ódio e dor que existia entre as
duas raças e de o seu pai ter sido morto pelos Urgals. “Teria eu
conseguido fazer isso?” Não lhe parecia — pelo menos, nessa altura.
“Conseguirei eu tomar esse tipo de decisões agora, se for
necessário para derrotar Galbatorix?”
Eragon não tinha a certeza.
Fez um esforço para sossegar a mente. Fechou os olhos e
concentrou-se na respiração, contando as inspirações em séries de
dez, mas era-lhe difícil concentrar-se nessa tarefa; ao fim de alguns
segundos, outro pensamento ou sensação ameaçavam distraí-lo e
era frequente perder o fio à meada.
A seu tempo, contudo, o corpo começou a descontrair-se e,
quase sem se aperceber, ele foi envolvido pelas sucessivas visões
coloridas das suas divagações.
Teve muitas visões, algumas sombrias e inquietantes, pois as
divagações refletiam os acontecimentos do dia anterior. Outras
eram agridoces: memórias do passado ou do que ele desejava que
o passado tivesse sido.
Depois, como uma súbita mudança de vento, as visões
ondularam e tornaram-se mais duras e substanciais, como se
fossem realidades tangíveis e ele lhes pudesse tocar se esticasse um
braço. Tudo em redor desapareceu e Eragon contemplou um outro
tempo e um outro lugar — um lugar simultaneamente estranho e
familiar, como se o tivesse visto uma vez, há muito tempo atrás, e
depois se tivesse esquecido dele.
Eragon abriu os olhos mas as imagens permaneceram, ocultando
tudo à sua volta, e ele percebeu que aquilo não era uma visão
normal:
Diante de si estendia-se uma planície escura e plana, cortada por
um único curso de água que fluía lentamente para Este, como uma
tira de prata batida, sob uma lua cheia e brilhante... Uma
embarcação alta e imponente, com velas brancas, imaculadas,
içadas e prontas a flutuar no rio sem nome... Fileiras de guerreiros,
empunhando lanças, e duas figuras encapuçadas a caminhar entre
eles, como numa grandiosa procissão. O cheiro de salgueiros e
choupos e uma sensação de mágoa passageira... E, depois, o grito
angustiado de um homem, um vislumbre de escamas e uma
confusão de movimento que revelava menos do que escondia.
E, a seguir, apenas o silêncio e a escuridão.
A visão de Eragon clareou e ele deu de novo consigo debaixo
da asa de Saphira. Respirou fundo, apercebendo-se de que estava
a conter a respiração, e limpou as lágrimas com a mão trémula.
Não conseguia perceber por que razão aquela visão o afetara
tanto.
“Seria aquilo uma premonição?”, pensou. “Ou algo que esteja de
fato a acontecer neste preciso momento? E que importância tem
para mim?”
Depois disso, não conseguiu continuar a descansar e as
preocupações regressaram em força, assaltando-o incessantemente
e mordendo-lhe a mente como um bando de ratos, cujas dentadas
pareciam envenená-lo aos poucos.
Por fim, saiu debaixo da asa de Saphira — com cuidado para não
a acordar — e regressou à tenda.
Tal como já tinha acontecido, os Falcões Noturnos levantaramse
mal o viram. O comandante, um homem atarracado, com o nariz
torto, veio ao encontro de Eragon.
— Precisas de alguma coisa, Matador de Espectros? —
perguntou.
Eragon lembrava-se vagamente que o homem se chamava
Garven e de Nasuada lhe contar que ele perdera o juízo depois de
examinar a mente dos Elfos. Agora parecia estar bem, embora
tivesse um olhar um pouco aluado. Apesar disso, Eragon deduziu
que Garven estivesse em condições de cumprir o seu dever, caso
contrário Jörmundur jamais o teria autorizado a regressar ao posto.
— Neste momento, não, Capitão — respondeu Eragon, em voz
baixa. Deu mais um passo e parou. — Quantos membros dos
Falcões Noturnos foram mortos hoje?
— Seis, senhor. Um turno de vigia inteiro. Ficaremos com poucos
homens durante alguns dias, até encontrarmos substitutos
adequados, pelo que precisaremos de mais recrutas. Queremos
duplicar o corpo de guardas em teu redor. — Uma expressão de
angústia perturbou o seu olhar. — Nós fracassámos com ela,
Matador de Espectros. Se lá tivéssemos mais homens, talvez...
— Todos nós fracassámos — disse Eragon. — E se lá tivessem
mais homens, mais teriam morrido.
O homem hesitou e depois acenou com a cabeça, com uma
expressão de dor.
Eu fracassei com ela, pensou Eragon, ao baixar-se para entrar
na tenda. Nasuada era sua suserana; protegê-la era mais um dever
seu do que dos Falcões Noturnos, no entanto, a única vez que ela
tinha precisado da sua ajuda ele fora incapaz de a salvar.
Eragon praguejou furiosamente para si mesmo.
Como seu vassalo, devia tentar descobrir uma forma de a
resgatar, pondo tudo o resto de parte, mas também sabia que
Nasuada não iria querer que ele abandonasse os Varden por sua
causa. Preferiria certamente sofrer e morrer do que permitir que a
sua ausência prejudicasse a causa à qual devotara toda a sua vida.
Eragon voltou a praguejar e começou a andar de um lado para o
outro, dentro da tenda.
Eu sou o líder dos Varden.
Agora que ela tinha desaparecido é que dava conta que
Nasuada se tornara muito mais do que a sua suserana e
comandante; tornara-se sua amiga e ele sentia o mesmo desejo de
a proteger tal como sentia em relação a Arya. Contudo, isso
poderia acabar por levar à derrota dos Varden.
Eu sou o líder dos Varden.
Pensou em todas as pessoas que tinha agora sob a sua
responsabilidade; Roran e Katrina, o resto dos aldeões de
Carvahall, as centenas de guerreiros ao lado dos quais lutara; os
Anões, os meninos-gatos, e até mesmo os Urgals. Todos estavam
agora sob o seu comando, dependentes da sua capacidade de
tomar as decisões certas para derrotarem Galbatorix e o Império.
Eragon sentiu a pulsação acelerar e a sua visão tremeu. Parou e
agarrou-se ao poste no meio da tenda, limpando o suor da testa e
do lábio superior.
Quem lhe dera ter alguém com quem falar. Pensou em acordar
Saphira, mas pôs essa ideia de parte. O seu repouso era mais
importante do que ouvir as suas queixas, e também não queria
sobrecarregar Arya nem Glaedr com problemas que eles não
podiam resolver. De qualquer forma, ele duvidava poder encontrar
em Glaedr um ouvinte compreensivo, quando a sua última troca de
palavras fora tão corrosiva.
Eragon retomou o monótono circuito: três passos para a frente,
virar, três passos para trás, virar, repetir.
Ele tinha perdido o cinto de Beloth, o Sábio, tinha permitido que
Murtagh e Thorn capturassem Nasuada e, agora, tinha os Varden
sob o seu comando.
Os mesmos pensamentos repetiam-se incessantemente e, de
cada vez que se repetiam, a ansiedade aumentava. Era como se
estivesse num labirinto sem fim e em cada esquina oculta houvesse
um monstro, à espera, para o atacar. Apesar do que dissera
durante a reunião com Orik, Orrin e os outros, Eragon não via
como poderia derrotar Galbatorix, juntamente com os Varden e os
seus aliados.
Não teria sido sequer capaz de resgatar Nasuada, se tivesse
podido ir atrás dela para tentar salvá-la. Um sentimento de
amargura cresceu dentro de si. A missão que tinham diante deles
parecia um caso perdido. “Porque haveria de nos acontecer isto?”,
praguejou e mordeu a boca por dentro até não aguentar a dor.
Parou de andar e aninhou-se no chão com as mãos em torno da
nuca.
— Não vamos conseguir, não vamos conseguir — sussurrou ele,
baloiçando o corpo sobre os joelhos. — Não vamos.
Em desespero, Eragon pensou em rezar ao deus anão Gûntera e
pedir-lhe ajuda, tal como já fizera. Seria um alívio colocar os seus
problemas a alguém superior a si e confiar o seu destino a esse
poder. Fazê-lo, iria ajudá-lo a aceitar o seu destino — bem como o
destino daqueles que amava — com uma maior serenidade, na
medida em que já não seria diretamente responsável pelo que
acontecesse.
Mas Eragon não conseguiu decidir-se a proferir a oração. Ele
era o responsável pelos seus destinos, quer isso lhe agradasse ou
não, e achou que seria errado transferir a responsabilidade para
outra pessoa, mesmo que fosse um deus — ou o conceito de um
deus.
O problema é que ele não se achava capaz de fazer o que tinha
de ser feito. Podia comandar os Varden, disso tinha quase a
certeza. Quanto a conquistar Urû’baen e matar Galbatorix, não
sabia o que fazer. Não tinha força para defrontar Murtagh, muito
menos o rei, e parecia-lhe altamente improvável conseguir
encontrar uma forma de contornar as proteções de ambos.
Dominar as suas mentes, ou pelo menos a de Galbatorix, parecialhe
igualmente inverosímil.
Eragon enterrou os dedos na nuca, esticando e arranhando a
pele, enquanto ponderava freneticamente em todas as
possibilidades, por muito improváveis que lhe parecessem.
Depois pensou no conselho que Solembum lhe dera em Teirm,
há bastante tempo atrás. O menino-gato dissera:
Se me escutares com atenção, eu digo-te duas coisas. Quando
chegar a altura e precisares de uma arma, procura sob as raízes da
árvore de Menoa. Depois, quando tudo te parecer perdido e o teu
poder for insuficiente, vai ao Rochedo de Kuthian e diz o teu nome
para abrires o Cofre das Almas.
Eragon veio a comprovar que o que ele dissera em relação à
árvore de Menoa era verdade. Debaixo dela encontrou o aço
brilhante de que precisava para a lâmina da sua espada. E uma
esperança desesperada estava agora a acender-se dentro de si, ao
ponderar na segunda afirmação do menino-gato.
“Se alguma vez senti que o meu poder era insuficiente e que tudo
estava perdido foi agora”, pensou Eragon. Contudo, não fazia ideia
onde ficava o Rochedo de Kuthian ou o Cofre das Almas, nem o
que eram. Perguntara várias vezes a Oromis e a Arya, mas eles
nunca lhe tinham respondido.
Eragon projetou a mente e procurou pelo acampamento até
encontrar o toque característico da consciência do menino-gato.
Solembum, disse ele, preciso da tua ajuda! Por favor vem à
minha tenda.
Momentos depois, sentiu a confirmação contrariada do homemgato
e cortou o contato.

Depois ficou sentado sozinho no escuro... à espera.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)