3 de junho de 2017

Capítulo 37 - Mensagem num espelho

O sol da manhã banhava Saphira, proporcionando-lhe um agradável calor.
Ela estava refestelada sobre uma prancha de pedra lisa alguns metros acima da tenda vazia de Eragon. As atividades da noite, voar no perímetro para avaliar as posições do Império – como fazia sempre desde que Nasuada enviara Eragon para a grande-montanha-oca-farthen-dûr – a deixaram sonolenta. Os voos eram necessários para esconder a ausência de Eragon, mas a rotina era dura, pois mesmo que a escuridão não a aterrorizasse, ela não era noturna por natureza e não gostava de ter de fazer algo com essa regularidade. Além disso, como os Varden eram demorados em sua locomoção, ela passava a maior parte do tempo sobrevoando a mesma paisagem todas as noites. A única diversão recente foi quando avistou Thorn-escamas-vermelhas-e-cérebro-minúsculo voando baixo a nordeste no horizonte, na manhã do dia anterior. Ele não se virou para enfrentá-la, preferindo seguir seu caminho em direção ao Império. Quando Saphira relatou o que vira, Nasuada, Arya e os elfos que a vigiavam reagiram como um bando de tolos assustados, gritando e berrando uns com os outros enquanto corriam de um lado para o outro. Inclusive, haviam insistido que Blödhgarm-do-pelo-de-lobo-azul-escuro voasse com ela disfarçado de Eragon, o que, é claro, ela recusara. Permitir que o elfo colocasse um espectro-d’água-fantasma de Eragon em suas costas todas as vezes que ela decolava ou aterrissava entre os Varden era uma possibilidade, mas deixar que qualquer pessoa além do Cavaleiro a montasse, não. Só se a batalha fosse iminente, talvez nem assim.
Saphira bocejou e esticou sua perna dianteira, abrindo as garras de sua pata. Relaxando novamente, enrolou o rabo em torno do corpo e ajustou a posição de sua cabeça sobre as patas. Visões de cervos e outras presas pululavam em sua mente.
Não muito tempo depois, ela ouviu um barulho de pés. Como se alguém estivesse correndo pelo acampamento em direção à tenda crisálida-de-borboleta-vermelha-de-asas-dobradas de Nasuada. Saphira prestou pouca atenção ao som; mensageiros estavam sempre correndo para cima e para baixo.
Quando estava quase pegando no sono, Saphira ouviu outro corredor passando rápido. Então, depois de um breve intervalo, mais dois. Sem abrir os olhos, estendeu a ponta da língua e provou o ar. Não detectou nenhum odor diferente. Decidindo que o distúrbio não merecia ser investigado, ela vagou por sonhos onde mergulhava atrás de peixes em um frio lago verde.
Gritos nervosos acordaram Saphira. Ela não se agitou enquanto ouvia um grande número de bípedes-de-orelhas-redondas discutindo uns com os outros. Estavam muito distantes para que distinguisse as palavras, mas, pelo tom das vozes, ela podia dizer que estavam suficientemente enraivecidos para matar. Disputas às vezes eclodiam entre os Varden, como acontece em qualquer grande rebanho, mas nunca antes ela ouvira tantos bípedes discutindo por tanto tempo e com tanta paixão. A nuca de Saphira começou a latejar de modo desagradável quando os bípedes intensificaram a gritaria. Apertou as garras contra a pedra e, com estalos agudos, finas lâminas da rocha de quartzo se soltaram em volta das extremidades de suas garras.
Vou contar até trinta e três, pensou ela, e se até lá ainda não tiverem parado, vai ser melhor que, seja lá o que os irritara, justifique perturbar o descanso de uma filha-do-vento!
Quando Saphira atingiu o número vinte e sete na contagem, os bípedes ficaram em silêncio. Finalmente! Mudando para uma posição mais confortável, preparou-se para retomar o seu sono altamente-necessário. Metais tilintaram, couros-plantas-panos se agitaram, capas-de-peles-e-garras bateram com força no chão e o aroma inconfundível de Nasuada-guerreira-de-pele-escura foi sentido por Saphira.
O que será agora?, imaginou ela, e por um breve instante considerou a possibilidade de rosnar para todos até que fugissem aterrorizados e a deixassem em paz. Saphira abriu um único olho e avistou Nasuada e seus seis guardas disparando em direção aonde ela estava deitada. Abaixo da placa de pedra, Nasuada ordenou que seus guardas permanecessem atrás com Blödhgarm e os outros elfos – que disputavam espaço em uma pequena faixa de grama – e então ela própria escalou a pedra.
— Saudações, Saphira — cumprimentou-a Nasuada. Ela estava usando um vestido vermelho, e a cor parecia estranhamente forte em contraste com as folhas verdes da macieira atrás dela. Tênues raios de luz emanados das escamas de Saphira faziam pequenos pontos de sombra sobre seu rosto.
Saphira piscou uma vez, sem a menor disposição para responder com palavras.
Após olhar ao redor, Nasuada deu um passo à frente, se aproximou da cabeça de Saphira e sussurrou:
— Saphira, preciso falar com você a sós. Você consegue alcançar minha mente, mas eu não consigo alcançar a sua. Você consegue permanecer dentro de mim de modo que eu possa pensar no que eu tenho de falar e você possa me ouvir?
Projetando-se em direção à consciência-tensa-dura-e-cansada da líder dos Varden, Saphira permitiu que sua irritação por ter tido o sono interrompido inundasse Nasuada, e então respondeu: Eu consigo se eu assim escolher, mas jamais faria isso sem a sua permissão.
É claro, concordou Nasuada. Eu compreendo.
A princípio, Saphira não recebeu nada além de imagens desconjuntadas e emoções: um cadafalso com a forca vazia, sangue no chão, rostos irados, terror, fadiga e uma tendência subjacente de hedionda determinação.
Perdoe-me, disse Nasuada. Tive uma manhã horrorosa. Se meus pensamentos estiverem vagos demais, por favor, me tolere.
Saphira piscou mais uma vez.
O que está agitando tanto os Varden? Um grupo de homens me arrancou do sono com discussões mal-humoradas, e, antes disso, ouvi uma quantidade incomum de mensageiros correndo pelo acampamento.
Pressionando os lábios, Nasuada afastou-se de Saphira e cruzou os braços, acomodando nas mãos seus antebraços ainda sensíveis. A coloração de sua mente ficou preta como uma nuvem da meia-noite, cheia de internações de morte e violência. Depois de uma pausa excessivamente longa, ela organizou os pensamentos:
Um dos Varden, um homem chamado Othmund, invadiu o acampamento dos Urgals na noite passada e matou três deles enquanto dormiam perto da fogueira. Os Urgals não conseguiram capturar Othmund na hora, mas, hoje de manhã, ele afirmou ter cometido o crime e estava se gabando do feito para a tropa.
Por que ele fez isso?, perguntou Saphira. Os Urgals mataram sua família?
Nasuada balançou a cabeça.
Por pouco eu não prefiro que eles o tivessem feito, porque, se fosse assim, os Urgals não estariam tão irritados; vingança, pelo menos, eles entendem. Não, essa é aparte mais estranha da história; Othmund odeia os Urgals simplesmente por serem Urgals. Jamais lhe fizeram algum mal, nem a algum parente seu, e ainda assim ele detesta os Urgals com todas as fibras de seu corpo. Pelo menos foi o que entendi depois de ler falado com ele.
Como você vai lidar com isso?
Nasuada olhou novamente para Saphira, uma tristeza profunda nos olhos.
Ele será enforcado por seus crimes. Quando aceitei que os Urgals se aliassem aos Varden, decretei que qualquer um que atacasse um Urgal seria punido como se tivesse atacado um companheiro humano. Não posso abandonar minha palavra agora.
Você se arrepende de sua promessa?
Não. Os homens precisavam saber que eu não perdoaria tais atos. Se não fosse assim, talvez tivessem se voltado contra os Urgals no dia em que Nar Garzhvog e eu fizemos o pactoAgora, todavia, eu devo mostrar a eles que estava falando sério. Se eu não fizer isso, haverá outros assassinatos e então os Urgals vão resolver o assunto do seu jeito e, mais uma vez, nossas duas raças ficarão cortando as gargantas uma da outra. É justo que Othmund morra por ter matado Urgals e por ter desafiado minha ordem, mas, ah, Saphira, os Varden não vão gostar disso. Sacrifiquei minha própria carne para ganhar sua lealdade, mas agora vão me odiar por enforcar Othmund... Vão me odiar por igualar as vidas de Urgals e humanos. Baixando os braços, Nasuada puxou os punhos de sua veste com força. E não posso dizer que estou gostando disso mais do que eles estão. Apesar de todas as minhas tentativas de tratar os Urgals justa e abertamente e como iguais, como meu pai teria feito, não posso evitar a lembrança de como eles o mataram. Não posso evitar a lembrança da visão de todos aqueles Urgals chacinando os Varden durante a batalha de Farthen Dûr. Não posso evitar a lembrança das muitas histórias que ouvi quando era criança, histórias de Urgals surgindo das montanhas e assassinando pessoas inocentes em suas camas. Sempre os Urgals eram os monstros a serem temidos, e aqui juntei meu destino ao deles. Não posso evitar a lembrança de tudo isso, Saphira. E fico imaginando se tomei a decisão correta.
Você não pode evitar ser humana, disse Saphira, tentando confortar Nasuada. Mas ainda assim você não tem de ficar presa à crença dos que estão ao seu redor. Você pode ultrapassar os limites de sua raça se tem vontade. Se existe uma coisa que os eventos do passado nos ensinam é que os reis, as rainhas e outros líderes que aproximaram as raças são os que tiveram o maior êxito na Alagaësia. É do conflito e do ódio que devemos nos afastar, não das relações íntimas com aqueles que uma vez foram nossos inimigos. Lembre-se de sua desconfiança para com os Urgals, pois eles a merecem, mas também lembre que houve uma época em que os anões e os dragões não se amavam muito mais do que humanos e Urgals. E uma vez os dragões combateram os elfos e teríamos levado sua raça à extinção, se pudéssemos. Houve uma época em que esses eventos eram verdadeiros, mas essa época acabou porque pessoas como você tiveram a coragem de deixar de lado os ódios do passado para forjarem laços de amizade onde antes não existia nenhum.
Nasuada pressionou a testa contra o lado da mandíbula de Saphira e disse: Você é uma sábia, Saphira.
Animada, Saphira ergueu a cabeça de Nasuada e tocou sua testa com a ponta do focinho. Falo a verdade como a vejo, nada mais. Se isso é sabedoria, então seja bem-vinda a ela. Entretanto, acredito que você já possua toda a sabedoria de que necessita. Executar Othmund pode não agradar aos Varden, mas será necessário mais do que isso para quebrar a devoção que eles têm por você. Além do mais, estou certa de que você encontrará uma maneira de conciliá-los.
Sim, disse Nasuada, esfregando os cantos dos olhos com os dedos. Eu terei de encontrar, eu acho. Então, sorriu e seu rosto se transformou. Mas Othmund não foi o motivo de eu ter vindo até aqui. Eragon acaba de me contatar e pediu para você se encontrar com ele em Farthen Dûr. Os anões...
Arqueando o pescoço, Saphira rosnou na direção do céu, soltando fogo de sua barriga em rolos de chamas tremeluzentes que explodiam de sua boca.
Nasuada se afastou ao passo que todas as outras pessoas por perto ficaram petrificadas mirando o dragão. Levantando-se, Saphira sacudiu-se da cabeça ao rabo, esqueceu seu cansaço e abriu as asas em preparação para voar. Os guardas de Nasuada começaram a correr em sua direção, mas ela acenou para que eles parassem. Um bolo de fumaça passou perto dela, e ela pressionou a manga da veste contra o nariz, tossindo.
Seu entusiasmo é digno de louvor, Saphira, mas...
Eragon está ferido ou machucado?, perguntou. Ela ficou alguns instantes em pânico pela hesitação de Nasuada.
Ele está mais saudável do que nunca, respondeu Nasuada. Entretanto, houve um... incidente... ontem.
Que tipo de incidente?
Ele e seus guardas foram atacados.
Saphira ficou imóvel enquanto Nasuada contava tudo que Eragon havia dito durante a conversa que tiveram. Em seguida, mostrou os dentes. O Dûrgrimst Az Sweldn rak Anhûin deveria estar grato por eu não estar ao lado de Eragon; eu não os teria deixado escapar tão facilmente dessa tentativa de assassiná-lo.
Com um pequeno sorriso, Nasuada observou: Por esse motivo, provavelmente foi melhor você ter ficado aqui.
Talvez, Saphira admitiu, e então lançou uma nuvenzinha de fumaça quente e chicoteou o chão com o rabo. Mas isso não me surpreende. Isso sempre acontece; sempre que Eragon e eu nos separamos, alguém o ataca. Já aconteceu tantas vezes que minhas escamas coçam só de ele ficar longe da minha vista por mais de algumas horas.
Ele é mais do que capaz de se defender sozinho.
Verdade, mas nossos inimigos tampouco são desprovidos de recursos. Impaciente, Saphira mudou de posição, erguendo ainda mais as asas. Nasuada, estou ansiosa para partir. Há mais alguma coisa que eu deveria saber?
Não. Voe tranquila e em paz, Saphira, mas não se demore em Farthen Dûr. Assim que sair do acampamento, nós só teremos alguns dias antes de o Império perceber que não enviei você e Eragon para uma breve viagem de reconhecimento. Galbatorix pode ou não decidir atacar enquanto você está longe, mas cada hora que ficar ausente aumentará a possibilidade. Igualmente, eu acharia muito melhor contar com vocês dois quando atacarmos Feinster. Nós poderíamos tomar a cidade sem vocês, mas perderíamos muito mais vidas. Em suma, o destino de todos os Varden depende de sua velocidade.
Nós seremos tão rápidos quanto o vento-da-tempestade, Saphira assegurou.
Então, Nasuada se despediu e se retirou da pedra sobre a qual Blödhgarm e os outros elfos saltaram para o lado de Saphira e amarraram sobre ela a desconfortável-sela-de-couro-remendada-de-Eragon e encheram o alforje com comida e equipamentos que normalmente carregaria se estivesse se preparando para viajar com Eragon. Ela não necessitaria dos suprimentos – nem tinha como pegá-los sozinha – mas para manter as aparências, devia carregá-los.
Assim que ficou pronta, Blödhgarm contorceu sua mão na frente do peito no típico gesto elfo de respeito e disse na língua antiga:
— Adeus, Saphira Escamas Brilhantes. Que você e Eragon retornem a nós sem ferimentos.
Adeus, Blödhgarm. Saphira esperou enquanto o elfo-do-pelo-de-lobo-azul-escuro criava um espectro-d’água-fantasma de Eragon e a aparição saía caminhando de dentro da tenda do Cavaleiro e montava sobre o dragão. Ela não sentiu nada quando a aparição incorpórea pulou de sua perna dianteira esquerda para seu ombro. Quando Blödhgarm acenou com a cabeça, indicando que o não-Eragon estava no lugar, ela ergueu as asas até o topo da cabeça, então saltou para a frente, além da extremidade da prancha de pedra.
À medida que Saphira descaía sobre as tendas cinzentas abaixo, ela dirigia suas asas para baixo, impulsionando a si própria para longe do chão-duro-de-quebrar-ossos. Tomou a direção de Farthen Dûr e começou a escalar as camadas de ar-leve-e-gelado acima, onde esperava encontrar um vento estável que a ajudasse na jornada. Circundou a margem arborizada do rio onde os Varden haviam escolhido parar naquela noite e manobrou com orgulhosa alegria. Não precisaria esperar enquanto Eragon saía para se aventurar sem ela! Não passaria a noite inteira voando sobre as mesmas faixas de terra seguidas e seguidas vezes! E não permitiria que aqueles que desejavam ferir seu parceiro-do-coração-e-da-mente escapassem de sua ira!
Escancarando a mandíbula, Saphira rosnou sua alegria e confiança para o mundo, desafiando todos os deuses que pudessem existir a enfrentá-la, ela que era a filha de Iormûngr e Vervada, dois dos maiores dragões de sua época.
Quando estava a quase dois quilômetros acima dos Varden e um forte vento sudoeste começou a pressioná-la, Saphira alinhou-se com a torrente de ar e deixou que a impulsionasse para a frente, planando sobre a terra crestada de sol. Projetando seus pensamentos, ela avisou: Estou a caminho, pequenino!

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